Em direção à um Marxismo Neurodivergente

por Robert Chapman

Publicado em 13 de setembro de 2022.

Originalmente disponível no site ACR.

Tradução por Luísa O. L.


Quando Judy Singer teorizou o conceito de neurodiversidade, em 1998 na sua tese de referência, baseou-se em duas tradições principais. Uma foi a marxista que enfatizava como o conceito de um “corpo” normal era determinado pelas condições materiais e pelo modelo de produção capitalista. Essa é a tradição do modelo social da deficiência, que enfatiza que aliviar a deficiência exigia mudar radicalmente a sociedade, e não apenas trazer soluções individuais, fossem psicológicas ou médicas.

A outra era a tradição política liberal, que enfatizava direitos civis, reconhecimento, e aceitação da diferença. Essa era menos sobre mudança radical do sistema ou anticapitalismo e mais sobre uma abordagem que que poderíamos chamar de política dominante de reconhecimento. De acordo com essa visão, nós devemos mudar nossa atitude em relação às pessoas neurodivergentes, superando narrativas baseadas no défice e consagrar novos direitos para que as pessoas neurodivergentes possam prosperar.

Desde o apelo às armas de Singer, a maior parte da defesa da neurodiversidade tem sido mais utilizada nesta última tradição liberal. Embora os modelos sociais sejam frequentemente utilizados, são normalmente utilizados para se concentrarem nas mudanças necessárias para acomodar as deficiências individuais, em vez de pressionarem por mudanças sistémicas. E a vasta maioria dos discursos sobre neurodiversidade ainda focam na aceitação, direitos e reconhecimento, pressionando a sociedade a mudar atitudes e aumentar a inclusão.

PRODUÇÃO

Eu acredito que, para a emancipação neurodiversa ser alcançada, nós precisamos nos voltar para as raízes marxistas da teoria da neurodiversidade. Para deixar claro, não é porque eu não acho que reconhecimento e direitos são importantes. Em vez disso, é porque isso nunca será alcançado sem mudanças significativas em nossas condições materiais. è também improvável que elas irão mudar tanto sob o capitalismo.

A partir de uma perspectiva marxista o problema são as condições materiais. Sob o capitalismo e suas raízes coloniais, corpos e mentes são valorizados majoritariamente em sua forma perceptível de contribuir para a produtividade. Cada um de nós é visto como um indivíduo que pode contribuir para, ou esgotar a economia. Além disso, dependendo dos meios de produção predominantes, as normas corporais e cognitivas mudarão, o que significa que aqueles que estão fora dessas normas serão discriminados. Por exemplo, dada a rápida mudança da economia industrial para a economia de serviços, o trabalhador ideal passou de fisicamente forte e bom em tarefas repetitivas para hipersocial e flexível.

Parte do problema aqui é que os capitalistas precisam constantemente revolucionar os meios de produção para estar à frente de seus concorrentes. As necessidades do capital logo irão mudar novamente, criando novas normas com novos limites. Mas em cada situação tem o grupo de dentro e o grupo de fora, sendo esse último discriminado. O grupo de fora será forçado a sair do trabalho ou a condições criminalizadas e encarcerado em grande número. Isso sempre vai acontecer sob o capitalismo e direitos legais provavelmente oferecerão apenas uma defesa parcial contra isso, especialmente para multiplamente pessoas marginalizadas

Isso significa que a ênfase em mudar atitudes ou fazer pessoas neurodivergentes com diagnósticos específicos trabalharem focando nas suas “forças”, não vai mudar a profunda estrutura que reproduz a opressão aos neurodivergentes. Isso significará apenas que um seleto grupo de neurodivergentes – geralmente aqueles que são ricos, brancos e assim por diante – serão valorizados, as custas da maioria das pessoas neurodivergentes. Isso vai especialmente excluir aqueles neurodivergentes que não podem trabalhar em nenhum sentido atualmente reconhecido, e que provavelmente sempre irão precisar de altos níveis de apoio estatal sob qualquer modo de produção.

ALIENAÇÃO

Outro problema chave é a alienação. Esse é o termo de Marx para como o capitalismo nos aliena tanto de partes de nós mesmos como uns dos outros, forçando-nos a vender constantemente partes de nós mesmos apenas para sobreviver. Compreendendo o sofrimento neurodivergente neste quadro podemos chegar à raiz da questão. O que é constantemente chamado de “mascaramento autista” (quando pessoas neurodivergentes aprendem, praticam, e mostram certos comportamentos e suprimem outros com o objetivo de se adaptar às expectativas neurotípicas) por exemplo, poderia ser visto não como um problema específico do autismo. Pelo contrário, poderia ser visto como uma forma de alienação que decorre da exigência de se vender nas modernas economias de serviços. Embora isto seja alienante para todos, parece ser particularmente difícil para aqueles que estão mais distantes do ideal neurotípico.

É importante ressaltar que os neurotípicos também são prejudicados pela alienação. Embora geralmente estejam mais próximos da “norma” ideal, isso significa apenas que podem trabalhar mais horas e ser sobrecarregados e alienados. Isso certamente contribui para os altos níveis de ansiedade e depressão que até os neurotípicos experienciam hoje em dia. O capitalismo constrói e valoriza assim os neurotípicos, ao mesmo tempo que os explora impiedosamente. Olhando dessa maneira, podemos afastar a nossa análise da política de questão única e passar a analisar como os sistemas dominantes são ruins para todos. Partindo de uma perspectiva marxista, a neuro normatividade do capitalismo é ruim para ambos neurodivergentes e neurotípicos.

Em que então os marxistas neurodivergentes devem trabalhar? Primeiro, nós devemos coletivamente desenvolver uma análise materialista da deficiência neurodivergente e alienação neurotípica. Isso iria enquadrar a discriminação neurodivergente como derivante da atua condição material da sociedade. Isso também politizaria as doenças mentais através de uma análise da alienação. Por sua vez, nossa práxis deve focar seus esforços em organização anticapitalista, ações diretas, e na construção do mundo. Será vital construir mais pontes com outros grupos oprimidos para trabalhar em prol da libertação colectiva de todos, independentemente da raça, etnia, género, sexualidade ou capacidade.

EMANCIPAÇÃO

Para deixar claro, avançar com uma análise marxista da neurodiversidade não significa necessariamente comprometer-se com qualquer forma específica de socialismo. Claramente algumas formas, como o stalinismo, foram tão ruins para pessoas neurodivergentes como o capitalismo tem sido. Nós devemos entender exatamente o que deu errado nestes casos também, para que não repitamos os mesmos erros. Ainda, o marxismo neurodivergente requer o desenvolvimento de alguma alternativa ou de outra. Descobrir o que isso pode ser – e organizar-se para isso – é o que a defesa neurodivergente precisa se quiser alcançar a emancipação neurodivergente.

Agora é o momento de pegar nessa enorme quantidade de energia e poder neurodivergente que tem vindo a acumular – e canalizá-la para uma mudança sistémica profunda.

2 comentários em “Em direção à um Marxismo Neurodivergente

  1. Bom trabalho!

  2. Simplesmente brilhante!

    Obrigado por disponibilizar este trabalho, que aborda tão bem esta questão real e importante, não só para o debate(entre intelectuais e acadêmicos), mas para reflexão social e também para que possam ser realizadas efetivas mudanças na sociedade.

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