por Ned Isakoff
Originalmente disponível no site Armed with a Pen.
Tradução por Bruno Bianchi.
Agora, mais do que nunca, é crucial para os comunistas serem versados não apenas na teoria, mas também na cultura. Atenção deve ser dada à propaganda, à agitação e ao trabalho ideológico por meio da arte. Talvez nenhum outro artista canalizou o sentimento do seu tempo em uma arte comunista tão renomada quanto Lu Xun, que criou obras estimulantes, divertidas e acessíveis que continuam a inspirar até hoje.
Primeiros anos
Nascido em uma família abastada apenas alguns anos antes de sua queda, a vida de Lu Xun, de muitas formas, espelhou a experiência de sua geração, assim como a própria história da China. Durante sua infância, o pai e avô de Lu Xun, ambos servidores públicos, foram presos e quase sentenciados à morte por suborno, iniciando uma espiral descendente que levaria seu pai a beber, fumar ópio e eventualmente morrer após gastar boa parte da fortuna da família. Uma vez abastados e respeitados, a família agora se encontrava subitamente condenados ao ostracismo pelos seus vizinhos e sem meios adequados de sobrevivência em um clima político e econômico em rápida deterioração.
Cansado do declínio da sociedade feudal da China e irritado com a incapacidade da medicina tradicional para curar o seu pai, Lu Xun se matriculou na Escola Médica de Sendai, no Japão, para estudar a medicina ocidental em 1904. Foi ali que descobriu a sua paixão pela literatura. Lendo e discutindo com seus amigos nas livrarias de Sendai, Lu Xun se viu incapaz de ignorar a turbulência no seu país natal, atraído por questões de libertação nacional e rejuvenescimento ideológico. Ele idolatrava autores de países oprimidos, com um carinho especial pelos poetas polaco e húngaro Adam Mickiewicz e Sandor Petőfi. Lu Xun rapidamente notou que nenhuma medicina poderia salvar a China se ela permanecesse politicamente e ideologicamente retrógrada. Após dois anos matriculado, Lu Xun abandou a escola de medicina e começou sua carreira literária. Isso foi motivado não por paixão artística, mas por um desejo ardente de despertar o povo chinês.
Apesar dos ideais elevados, Lu Xun precisava cronicamente de dinheiro, e por isso suas aspirações eram inicialmente pouco inspiradoras. Acompanhado por seu irmão, Zhou Zhouren, os dois trabalharam para traduzir e publicar uma série de antologias de ficção do leste europeu, mas sem muito sucesso. Apenas dois volumes foram concluídos e menos de cinquenta cópias foram vendidas no total. O fracasso de Xin Sheng, uma revista estudantil na qual ele se envolveu, marcou o início de um hiato de doze anos em que Lu Xun não escreveu uma palavra.
Nesse período, ele retornou à China e se casou. Embora ele não amasse, muito menos conhecesse sua noiva, Zhu An, uma mulher analfabeta com pés enfaixados, ele se sentia obrigado a agradar e servir sua mãe viúva. Como esposa, Zhu An amava profundamente o marido e cuidava zelosamente da sogra. Lu Xun respeitava e confiava nela, mas nunca retribuiu seus sentimentos, eventualmente retornando ao Japão e iniciando um relacionamento com seu verdadeiro amor, Xu Guangping (apesar disso, é interessante notar que ele continuou a enviar dinheiro para sua esposa até sua morte; assim como Guangping o fez depois disso). Em 1909, ele retornou à China novamente, para lecionar na Escola Normal de Zhejiang, eventualmente ganhando um cargo no Ministério da Educação. Ele também estudou diversos assuntos durante seu hiato, com um foco na literatura.
Escrita
Embora ele certamente tivesse conquistas profissionais, seu grande sonho de outrora havia sido esquecido. Apenas quando solicitado por um camarada que Lu Xun finalmente escreveu sua primeira história original, em 1918. O Diário de um Louco, escrito como o diário de um fazendeiro doente e paranoico que descobre que os membros de sua vila são canibais, lhe proveu o reconhecimento de escritores e ativistas radicais e, especialmente esquerdistas, tanto pela acessibilidade quanto pelos temas revolucionários. Contrariando o estilo acadêmico tradicional, o uso do chinês vernáculo por Lu Xun o tornou um clássico instantâneo. O realismo e a coragem de seu estilo, algo que falta no trabalho de seus contemporâneos, continuam a chocar e inspirar escritores e leitores até hoje.
A história explora a sociedade chinesa através do olhar de uma heterodoxia ideológica, despojada de sentimentalismo. Assim, a “loucura” do personagem principal só aparece como tal porque vai contra o resto da sua aldeia. Os canibais permanecem “sãos”, enquanto a única pessoa que tenta detê-los fica cada vez mais em pânico.
Ao descobrir a trama, ele explica ao irmão que “provavelmente todos os povos primitivos comeram um pouco de carne humana em algum momento. Mais tarde, porque a sua perspectiva mudou, alguns deles pararam. Mas outros continuam comendo”. Após ouvir isso, seu irmão simplesmente “sorriu cinicamente”. À medida que o protagonista continua e outros começam a escutar, a presunçosa superioridade do irmão se transforma em raiva.
“Eles querem me comer, e é claro que você não pode fazer nada sobre isso sozinho; mas por que você deve se juntar a eles? Como canibais, eles são capazes de tudo. Se eles me comerem, eles também podem comer você; membros do mesmo grupo também podem comer uns aos outros. Mas se vocês mudarem de rumo imediatamente, então todos nós teremos paz”.
Fora dos portões havia um grupo de pessoas – todos comedores de carne humana. Alguns deles pensavam que, como sempre foi assim, os seres humanos deveriam ser comidos. Alguns sabiam que não deveriam comer os seres humanos, mas ainda assim queriam; e havia aqueles amedrontados que seus segredos pudessem ser descobertos; então, quando eles me ouviram, ficaram nervosos, mas ainda sorriam o seu sorriso cínico.
Subitamente, meu irmão me olhou com fúria e gritou em voz alta: “Saiam daqui, todos vocês! Qual o sentido de ficar olhando para um louco?”
Então eu percebi parte de sua astúcia. Eles nunca estariam dispostos a mudar de posição, e seus planos estavam todos traçados; eles me estigmatizaram como um louco.
Lu Xun criou aqui uma alegoria extremamente efetiva para a luta de classes e colocou a questão da reforma ou da revolução.
“Eles querem me comer, e você não pode fazer nada sozinho”. Aqui, ele descrever a classe exploradora: os lordes feudais, os burgueses e os imperialistas. Com posse do controle estatal, essa classe exploradora, segundo o marxismo, exerce controle ditatorial sobre a classe trabalhadora, de quem rouba os frutos do trabalho. Nada pode ser feito contra esse sistema isoladamente. Apenas a luta de classes e a união dos trabalhadores, dos camponeses e do proletariado, e, no caso do imperialismo, das burgueses nacionais oprimidas, podem levar ao tipo de mudança sistemática necessária para libertar a sociedade.
“Como canibais, eles são capazes de tudo […]. Membros de um mesmo grupo também podem comer uns aos outros”. Assim como um canibal pode comer outro, a classe exploradora não é mais piedosa em relação a si mesma do que em relação à classe explorada. Os imperialistas britânicos tinham mais em comum com seus homólogos de classe na China do que com os trabalhadores chineses. Isso não os impediu de oprimir ambos.
Enquanto ele urge ao seu irmão, “se vocês mudarem seus rumos imediatamente, então todos teremos paz”, vemos a questão da reforma ou da revolução ser endereçada. Irão os exploradores mudar suas ações imediatamente? É claro que não. Naturalmente, quando solicitados que simplesmente parem de comer pessoas, o irmão “apenas sorriu cinicamente, e então um olhar assassino tomou conta dele”. Embora não louco, o protagonista certamente é um idealista, esperando convencer os canibais a desistirem de seu modo de vida, convencer os exploradores a cometer suicídio de classe. Esse idealismo é rapidamente jogado na cara do protagonista, que é considerado um louco por abordar a realidade. Embora persista, implorando aos canibais que “mudem, mudem no fundo do seu coração! Vocês devem saber que no futuro não há lugar para canibais”, seu apelo chega a ouvidos surdos. Enquanto ele gasta tempo tentando apelas aos canibais para mudar voluntariamente, ele se aliena cada vez mais daquelas pessoas desavisadas que poderiam realmente se salvar se entendessem o perigo que corriam. A tragédia acontece quando o irmão mata e come sua própria irmã algumas noites depois.
A história termina de forma sinistra, com a constatação de que o protagonista pode também ter comido sua irmã. “Só agora me dei conta de que tenho vivido todos esses anos em um lugar onde há milhares de anos se come carne humana. Meu irmão tinha acabado de assumir o comando da casa quando nossa irmã morreu, e ele pode muito bem ter usado a carne dela em nosso arroz e pratos, fazendo com que a comêssemos sem saber”. Lu Xun, assim, elucida a compreensão materialista dialética da consciência social. Como escreveu Karl Marx, “não é a consciência dos homens que determina sua existência, mas sua existência social que determina sua consciência”. Qualquer pessoa que viva em uma sociedade de classes será, sem dúvida, exposta e influenciada pela ideologia e pela consciência da classe exploradora.
Ainda há, no entanto, um fio de esperança: “Talvez há crianças que ainda não comeram pessoas? Salve as crianças…”. No fim, é a próxima geração que será capaz de atingir o sonho de um mundo verdadeiramente sem classe, livre da exploração e dos resquícios ideológicos. A revolução não será fácil, mas é a única esperança para o futuro, para a criação de uma sociedade de “seres humanos reais” e não “répteis”. Como Mao Zedong colocou, apenas quando “toda a humanidade voluntariamente e conscientemente mudar a si mesma e ao mundo”, pode-se chegar ao comunismo.
As histórias de Lu Xun são todas alegóricas e, apesar dos ocasionais erros artísticos, todas atingem um nível de clareza que poucos outros artistas conseguiram, equilibrando a mensagem com a sensibilidade de forma mais ou menos uniforme. O fato de sua primeira ficção publicada, escrita após um hiato tão longo, ter sido capaz de transmitir uma mensagem clara de forma tão eloquente e, ao mesmo tempo, ser acessível e genuinamente bem escrita, é uma prova da diligência de Lu Xun em seus estudos.
Outras obras notáveis incluem Kung-I-Chi, uma crítica da educação e ideologia confuciana tradicional, onde o acadêmico confuciano, tendo falhado no Exame Imperial, se encontra na pobreza e na embriaguez antes de finalmente desaparecer, e O Sacrifício do Ano Novo, uma história movente e emocionalmente inteligente que descreve a opressão patriarcal das mulheres sob o feudalismo. Sua obra mais conhecida, no entanto, é A Verdadeira História de Ah Q, uma sátira sagaz do chauvinismo nacional e do excesso de confiança durante uma era literalmente apelidada de “o século da humilhação”. A reivindicação da “vitória” de Ah Q diante da derrota e do constrangimento constantes, bem como sua recusa obstinada em pedir ou aceitar ajuda, criticou de forma inteligente o tradicionalismo cego dos ideólogos feudais.
Legado
Após a sua morte em 1936, o Partido Comunista da China demandou que o governo do Kuonmintang desse a Lu Xun um funeral de Estado, suspendesse a proibição de seu trabalho, e erguesse estátuas dele nas cidades em que trabalhou e viveu. Como ele era um crítico social e comunista prolífico, essas exigências foram ignoradas. No entanto, na cerimônia, seu corpo foi coberto com um pano de seda onde se lia “alma da nação” .
Até hoje, a obra de Lu Xun é como Shakespeare. Nomes e citações de sua obra são usados regularmente em conversas cotidianas e ele é amplamente considerado não apenas um dos maiores escritores chineses de todos os tempos, mas um dos maiores escritores do século XX em qualquer idioma. Desde sua casa de infância em Shaoxing até as lojas que frequentava no Japão, Lu Xun é celebrado em todo o leste da Ásia como um gigante intelectual.
No entanto, ainda há certa confusão quanto ao fato de Lu Xun ter sido genuinamente um comunista. Grande parte disso se deve à invocação contraditória de seu nome e legado durante a Grande Revolução Cultural Proletária. Por um lado, suas realizações estavam sendo orgulhosamente defendidas, enquanto, por outro, artistas com estilos semelhantes estavam sendo perseguidos. Além disso, os conflitos entre Lu Xun e o Partido sobre a política literária estavam sendo propositalmente ignorados por Mao e seus apoiadores.
Hoje, com a ordem há muito restaurada, o Partido Comunista da China afirma que ele era de fato um comunista leal. Embora às vezes tenha discutido com o Partido, lançando o slogan “Literatura Popular de Luta Nacional Revolucionária!”, em oposição ao apelo de uma frente unida com todas as forças antifeudais e anti-japonesas, ele permaneceu fiel à sua convicção de que os comunistas eram a maior chance da China recuperar a independência e se fortalecer. No fundo, ele ainda era um estudante do Movimento Quatro de Maio. Depois que o Exército Vermelhou concluiu a Longa Marcha, em outubro de 1935, Lu Xun enviou pessoalmente um telegrama ao Comitê Central do Partido, escrevendo: “Em vocês está a esperança da China e de toda a humanidade”. Essa admiração era mutua, especialmente para Mao, que coroou Lu Xun como “o principal comandante da revolução cultural da China”.
Artisticamente, Lu Xun exibiu todo traço que um comunista deve ter. Marx disse uma vez: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de variadas formas; a questão e muda-lo”. Poucos artistas colocaram essas palavras em ação tanto quanto ele. Lu Xun declarou corajosamente que sua missão era, acima de tudo, radicalizar e galvanizar seus leitores. Em seu prefacio de Chamado às armas, ele escreveu:
Eu não sinto mais nenhum impulso de me expressar […]. Às vezes, grito para encorajar os lutadores que estão galopando na solidão, para que não desanimem. Se meu grito é corajoso ou triste, repelente ou ridículo, não me importa. Entretanto, como se trata de um chamado às armas, devo naturalmente obedecer às ordens de meu general.
Como a Peking Review escreveria mais tarde, “Ele rompeu completamente com as tradições e forças antigas […], ele não tinha um único momento de arrependimento pela morte do velho mundo. Ele repudiava o velho mundo da forma mais impiedosa possível. A força de sua caneta era tal que os inimigos eram aniquilados onde quer que ela apontasse”. Em toda a sua obra, ele rejeitou o dogmatismo e o derrotismo, enquanto expunha o materialismo dialético e criticava a sociedade de forma a alcançar e educar até mesmo os menos instruídos. É essa determinação inabalável, a natureza realista e a disposição de falar a verdade que todos os escritores, não apenas os marxistas, deveriam aprender e adotar.
