Texto de Hazel Zorn.
Originalmente disponível no site Bloodknife.
Tradução por Guilherme V. G. Silva.
Quando o trabalho de Jason Allen gerado por inteligência artificial venceu o primeiro lugar na feira digital de artes do Estado do Colorado, ele disse ao Washington Post que o “Midjourney” funcionava como uma ferramenta, tal como um pincel. Allen havia previamente tido problemas com trabalhos relacionados ao artifício da IA até perceber que poderia utilizar esse meio para fazer dinheiro e fama (no qual depois justificou como por “razões espirituais”). Agora ele repreende os críticos ferrenhos deste tipo de prática por sua “negação e medo” dessa nova tecnologia.
Uma perspectiva mais ampla sobre a postura adotada por Allen foi descrita numa resenha crítica elaborada por Jason Sanford a respeito de arte e escrita gerada por IA. “Não são as máquinas baseadas em machine learning que ameaçam artistas e escritores”, escreve Sanford. “é sobre a forma como o grande sistema que nos cerca se apropria dessas ferramentas que é uma ameaça”. Constatações eficazes como essas sinalizam seu otimismo a respeito da tecnologia; ele vê as diversas forças em jogo e tem ciência de que o ofício da criação está em posição de vulnerabilidade. Este trecho ainda apresenta muitos outros pontos de vista sobre a AI antes de tomar partido a favor desta, o que demonstra sua postura mediadora a respeito do tema.
Os otimistas da tecnologia tais como Sanford estão determinados a ver gerações de arte feitas por IA numa perspectiva positiva, mas seus argumentos se apoiam em um fato mal interpretado: partem da ideia de que o gerador de IA não é o problema, mas sim as pessoas que detém esse poder. Eles tentam nos assegurar de que é apenas uma ferramenta neutra, sem pretensão. É uma visão de senso comum.
Contudo, esses desenvolvedores não são despretensiosos, “eles não têm boas intenções”, como pontua Sanford. Seu argumento é de que essas pessoas não construíram essa tecnologia tendo um objetivo humanizado, mas pelo contrário, essas ferramentas existem por uma razão e que não está a serviço dos artistas, mas sim para substituí-los.
Defensores mais sérios da arte desenvolvida por IA não as tentam comparar com pinceis e lápis. Ao invés disso, eles apontam para ferramentas digitais como o Photoshop ou processos de tratamento da fotografia. Esse continua a ser um erro categórico. É verdade que essas ferramentas podem afetar a forma como um artista trabalha, mas este ainda permanece como sendo um pivô indissociável do processo, porque essas ferramentas só são úteis nas mãos de alguém com experiência para usa–las propriamente. Os processos metodológicos à base de IA que podem evitar diretamente o uso de Photoshop para remover os artistas da equação já são evidentes, e serão preferidos.
Em um sistema capitalista, a função de um gerador de arte por IA é exclusivamente de usurpar trabalhadores artistas de sua força produtiva e lhes apagar a pequena forma de subsistência que eles conseguem retirar do mercado. Os receios dessas pessoas têm justificativa: Ambas as editoras Tor books e Bloomsbury Pusblishing por exemplo, já se utilizam de capas geradas por IA para ilustrar seus best sellers. A necessidade de reduzir os custos de serviço e aumentar o rendimento é um prenúncio base do capitalismo, e novas tecnologias serão exploradas para quaisquer meios que otimizem esse processo, como já vimos ser utilizado em quase todo tipo de indústria. É bastante inocente esperar que os artistas sejam tratados de forma diferente dos outros trabalhadores regidos pelas mesmas circunstâncias.
Tendo em vista que tantas outras atividades laborais já foram substituídas por máquinas, talvez fosse justo perguntar: Por que os artistas deveriam tem um tratamento tão especial? Muitos sonhos já são desfeitos por trabalhos desanimadores. Muitos talentos não se cultivam por falta de sorte ou privilégio. Ao invés de exibir simpatia quando a vida de trabalhadores artistas é ameaçada, existe uma reação instintiva que se depreende de alguns meios: Fodam – se os artistas, eles podem serem miseráveis como o resto de nós.
James Marriot dá voz a esse ressentimento em um artigo patético para o The Times, em que se intitula “O feitiço da IA traz infortúnio aos criativos – sobre o tempo também.” Aqui podemos ver um estudo de caso perfeito sobre como o capitalismo doméstica suas cobaias, tornando – as em bajuladores empolgados. Mariott justifica a miséria de um grupo pela virtude de outros, o que só pode servir para assegurar a perpetuação de uma miséria coletiva. Essa linha tóxica de pensamento compromete severamente (talvez deliberadamente) a natureza das relações de poder que determinam as condições do povo trabalhador.
Existe outro fator crucial que é constantemente ignorado pelos Sanfords e Marriotts do mundo afora. A arte de IA não somente retira dos artistas as oportunidades de trabalho futuro; ela ativamente tem roubado de seus trabalhos já feitos. Pesquisadores já são capazes de apontar que os geradores de arte AI se apropriam de imagens que estão publicamente visíveis, mas não autorizadas publicamente.
Enquanto a maioria das pessoas pensam uma peça de arte feita por IA como algo que foi criado a partir de uma aspiração inédita, o que realmente acontece é uma amolgação de pedaços e bits de arte viva, desmembrada e rearranjada em algo ostensivamente novo. Seja ou não o resultado desse jogo algorítmico digno de mérito artístico próprio, ele existe unicamente como um produto do trabalho de artistas humanos tradicionais que não receberam quaisquer compensações por isso.
Isso é arte? Algumas pessoas certamente ficariam impressionadas pela imagem. Como sabemos, gosto é subjetivo, mas qualquer preocupação de cunho estético que possamos ter está para além do ponto. Quando uma pessoa cria arte que é medíocre ou mal percebida, ainda sim algo valioso está sendo depurado de seu próprio tempo. É louvável para alguém praticar uma arte ruim até se tornar melhor.
Uma máquina não é capaz de encontrar enriquecimento profissional em criatividade. Tudo o que pode realizar é a ação criminosa de nos roubar a oportunidade de termos essa experiência para nós mesmos. Sanford e os demais podem nos aludir como cínicos luditas, mas isso é verdade somente se eles falharam em considerar que essa nossa forma de otimismo se volta para uma direção diferente, em que num futuro possível as pessoas sejam livres de trabalhos insustentáveis e livres para criarem abertamente.
Essa tecnologia existe somente por uma razão, e não é para servir aos artistas, mas para substituí–los.
A disputa mais tênue sobre a tecnologia que está a serviço do capitalismo é uma luta entre o capitalista e o trabalhador, abastecida por visões conflitantes sobre os rumos dos avanços tecnológicos. Enquanto os funcionários querem uma tecnologia que os liberte do trabalho propriamente dito para que eles possam aproveitar seu tempo. Capitalistas querem que a tecnologia os liberte de ter que pagar os trabalhadores.
Em teoria, assim que as pessoas se tornarem livres dessa carga laboral penosa, eles irão dedicar um tempo maior realizando trabalhos mais criativos e auto direcionados. Karl Marx escreveu que quando a máquina reduzir o “necessário trabalho da sociedade até um mínimo, assim então os tempos científicos, artísticos, etc. dos indivíduos corresponderão a um esforço livre e quando os meios estiverem disponíveis, para todos os estes”. Mas na realidade crua, a redução do trabalho pela automação só tem correspondido a uma perda maior de salários aos trabalhadores.
Agora, em uma reviravolta absurda, somos confrontados com a automação não só de trabalho necessário, mas do dedicado trabalho que nós mais lutamos e cuidamos para ter a liberdade de realizar. Não existe potencial libertador na ação de padronizar trabalhos criativos, nem em teoria. Diferentemente das máquinas que tomam a responsabilidade de missões perigosas em fábricas e portos, a arte gerada por AI não tem outra pretensão ao trabalhador senão oferecer mais sofrimento.
Essa tecnologia não foi criada para ser um brinquedo destinado ao entretenimento de pessoas comuns. Qualquer um que pense dessa forma tem experienciado um segundo efeito que é fatalmente irrelevante para o seu verdadeiro propósito. Naturalmente, aqueles que se prestam a beneficiar-se materialmente disto ficam contentes em promover uma narrativa em que prevaleça a ideia de uma ferramenta divertida e que permita a pessoas comuns criarem sua própria arte.
A arte foi agora “Democratizada”, como eles reasseguram, porque a partir disto qualquer um pode ser um artista graças à inteligência artificial. Esse enquadramento oferece uma desculpa perfeita a qualquer crítica material e como um bônus, encoraja as pessoas a brincarem com esses modelos de IA que se retroalimentam com informações importantes num processo que os treina a serem mais eficientes nesse processo de imitação.
Artistas não deveriam ter de estabelecer um consenso com algo que foi criado para nos substituir. Algumas personalidades do mercado criativo que estão em atividade iniciaram um processo de reivindicação que se baseia em alguns exemplos pelos quais a autora Susan Kaye Quinn, por exemplo, que esteve publicamente envolvida com uma cláusula de “Não à arte AI” que impede esse tipo de conteúdo ser contratado por revistar e editoras. Outras empresas seguiram o mesmo caminho, como a editora de horror indie Tenebrous Press. O que o mercado determina não precisa ser incorporado como se fosse uma força da natureza.
Imagine uma sociedade onde as necessidades humanas se encontram, onde o tempo é livre e o trabalho criativo floresce. Não deixe o capitalismo destruir a sua imaginação, e não lhe deixe te convencer a abandonar os artistas a essa nova ameaça.
Esse não é um futuro em que precisamos aceitar como se fossemos vítimas de uma desilusão incontrolável. Todos os criadores podem e precisam se colocar em posição de discernimento. A solidariedade demanda esse fato. Esse é o sentido da dignidade.
