Publicado em 26 de junho de 1981.
Originalmente disponível no site Marxists.
Transcrição por Andrey Santiago.
Publicado em 26 de junho de 1981.
Originalmente disponível no site Marxists.
Transcrição por Andrey Santiago.
Na 4ª Sessão Alargada do Conselho de Ministros, realizada na semana passada, o Presidente Samora Machel dirigiu-se aos presentes chamando a atenção para dois importantes aspectos. O primeiro focado dizia respeito ao Centralismo Democrático. A este propósito foi recordada a regra mais elementar daquele princípio: a hierarquia, a responsabilidade. Mais tarde, na sua intervenção, o Presidente analisou vários aspectos da vida nacional, tendo situado a sua atenção sobre a definição correta do inimigo interno. Nessa altura o Marechal Samora Machel disse: sentimos, nalguns casos, ter-se perdido a noção do inimigo. Pela sua importância, transcrevemos mais adiante o improviso pronunciado pelo Presidente da República no encerramento da referida 4ª Sessão. Para esse importante discurso chamamos a atenção dos nossos leitores.
Na 4ª Sessão Alargada do Conselho de Ministros, realizada na semana passada, o Presidente Samora Machel dirigiu-se aos presentes chamando a atenção para dois importantes aspectos. O primeiro focado dizia respeito ao Centralismo Democrático. A este propósito foi recordada a regra mais elementar daquele princípio: a hierarquia, a responsabilidade. Mais tarde, na sua intervenção, o Presidente analisou vários aspectos da vida nacional, tendo situado a sua atenção sobre a definição correta do inimigo interno. Nessa altura o Marechal Samora Machel disse: sentimos, nalguns casos, ter-se perdido a noção do inimigo. Pela sua importância, transcrevemos mais adiante o improviso pronunciado pelo Presidente da República no encerramento da referida 4ª Sessão. Para esse importante discurso chamamos a atenção dos nossos leitores.
Senhores Membros do Conselho de Ministros
Senhores Convidados
Durante esta 4ª Sessão Alargada do Conselho de Ministros, houve debates extremamente vivos e ricos, que trouxeram importantes contribuições aos documentos apresentados nesta reunião.
Ontem, assistimos a uma discussão particularmente interessante sobre questões referentes à política do Trabalho. Mas essa discussão provocou igualmente algumas inquietações.
Certos problemas que foram postos nesta sala levam-nos a interrogarmo-nos se todos quantos participaram na elaboração do trabalho tinha o conhecimento real da situação econômica do nosso País, se todos tinham a noção da responsabilidade que representa participar nesta reunião.
São estas as interrogações que devem ser respondidas em primeiro lugar.
Quando falamos em Centralismo Democrático, temos de assumir que somos nós, nesta sala, quem representa o Povo inteiro. Somos nós quem tem a responsabilidade de defender os interesses da maioria.
Mas foi precisamente nesta sessão do Conselho de Ministros, o órgão mais elevado do Governo, onde se encontram os dirigentes do Partido e do Estado aos vários escalões, que sentimos, nalguns casos, ter-se perdido a noção do inimigo.
Sentimos que, por vezes, estávamos envolvidos na preocupação de encontrar soluções que satisfaçam situações particulares.
Sentimos refletir-se aqui a preocupação de alguns setores da população de tirar tantos benefícios quanto possíveis sem consentir quaisquer sacrifícios, de obter privilégios sem esforço e sacrifício.
Isto é uma manifestação de recusa de engajamento na nova batalha.
Isto significa falta de vigilância sobre a natureza de classe das fontes que utilizamos para nosso trabalho.
Isto significa que interesses individualistas, pessoais, ambiciosos se infiltram na preparação do nosso trabalho e aqui se manifestaram.
Falamos no custo de vida e definimos as várias classificações dos trabalhadores. Há quem pense que os jovens de 15 a 17 anos que acabaram de sair da escola com a 9ª ou 11ª classe são já formados e podem ser incluídos no quadro de técnicos.
Como é que esses jovens, sem prática, sem experiência, sem maturidade, podem ser técnicos?
É assim que perspectivamos o futuro?
Por um lado, temos vindo a colocar a necessidade e a importância do estudo, mas por outro lado, promovemos este tipo de aliciamento que está em contradição com o princípio “a cada um segundo o seu trabalho, de cada um segundo a suas capacidades”.
Tal princípio é posto em causa quando se pretende equiparar um jovem que acaba de concluir a 9ª classe com um dirigente experimentado.
Quando é que esse jovem teve tempo de forjar-se? Em que combate? Em que trabalho? Onde?
Se nós estamos engajados numa luta de classes, quando é que esse jovem teve a oportunidade de nela participar?
Portanto, isto indica-nos que podemos perder a noção do inimigo.
No ano passado, desencadeamos a guerra contra o inimigo interno, que tem várias facetas e várias manifestações na sua atuação: subversão política, ideológica, aliciamento econômico e outros tipos de solicitações. Definimos a necessidade de manter permanentemente, em nós, a clareza de quem é o inimigo interno. Não podemos permitir o relaxamento do sentido agudo e necessário do que é a luta de classes.
Sentimos, também, que podemos perder a noção de Povo a quem servimos, quando deixamos que se exprimam preocupações individualistas, pessoais e queremos ter benefícios sem sacrifícios: colher sem semear. Estamos assim a recusar o espírito de sacrifício que é exigido ao nosso Povo e que é o espírito do Plano Prospectivo Indicativo. O Plano Prospectivo Indicativo é a estratégia de luta pela libertação econômica de nosso País. O fator fundamental deste plano é a exigência de sacrifício.
Quando desencadeamos um combate, temos de definir corretamente os nossos objetivos. O Plano indica-nos, pois, os objetivos que queremos atingir. Os objetivos do nosso Plano não são indivíduos, mas sim a sociedade, o Povo.
Devemos definir corretamente a estratégia e a tática que queremos seguir e que sirvam a nossa política. E toda essa discussão visa realmente a definição de métodos corretos de aplicação do Plano.
Mas é necessária clareza sobre o nosso inimigo. Devemos defini-lo corretamente. Nas várias frentes em que lutamos anteriormente, saímos vitoriosos porque tínhamos essa clareza ideológica, a clareza dos objetivos, a clareza de queremos construir o Homem Novo e de conquistar a independência total e completa.
O Homem Novo, fator essencial no processo de construção do Socialismo, não esteve sempre presente durante as nossas discussões.
Neste processo, tal como durante a nossa Luta Armada de Libertação Nacional, houve, há e haverá sempre aqueles que se deixam engolir pela vida fácil, pela comodidade e pelo conforto. Às vezes por incompetência, ignorância, ingenuidade ou aceitação dos valores capitalistas.
Quem são os que agitam a bandeira de aumentos salariais e que valores defendem? Por que não agitam a bandeira do aumento da produção e da produtividade? Para resolver os problemas do custo de vida é preciso promover a produção e a produtividade, porque, se tivermos produtos, a vida não será difícil. Esses, que agitam a bandeira dos capitalistas, deixaram de se inspirar no Povo e no sacrifício que está sempre disposto a consentir. Deixaram de se inspirar no espírito de trabalho árduo que a grande maioria do nosso Povo sempre demonstrou.
Deixaram, enfim, de se inspirar nas capacidades imensas do nosso Povo e no seu espírito criador.
Na luta contra o colonialismo português, isto é, contra o inimigo físico que nos oprimia e massacrava, tínhamos um objetivo comum, que unia a todos: conquistar a independência política.
Qual é agora o nosso objetivo? É conquistar a independência econômica.
Uma vez atingido o primeiro objetivo, decidimos lançarmo-nos neste combate grandiosos, nesta luta sem tréguas que é a independência econômica, a edificação do Socialismo.
Neste combate, a nossa fonte de inspiração é e continuará a ser a força imensa do Povo, o seu espírito de sacrifício e o seu espírito de trabalho árduo. O povo trabalhador tem consciência de que é preciso semear para colher e de que a semente não germina imediatamente, de um dia para o outro.
Este combate é ainda mais duro do que aquele que travamos contra o colonialismo português, porque se trata não já de uma confrontação física com o inimigo, mas sim de luta ideológica, em que o inimigo não é físico.
Neste combate, o inimigo é o nosso primo, ou o nosso irmão que é corrupto: o nosso pai que pertenceu a estruturas opressivas: o nosso cunhado e o nosso sobrinho que lutaram contra nós ao lado do exército de ocupação; a nossa prima e a nossa sobrinha que foram prostituas para alimentarem o exército colonial; o nosso irmão e o nossos sobrinho que pertenceram à ANP ou que foram GE, GEP, OPV, Flechas ou Comandos, símbolos da morte; o nosso irmão, o nosso primo e o nosso sobrinho que participaram nos massacres contra o nosso povo ou que denunciaram, prenderam e massacraram os mensageiros da FRELIMO.
São estes que agitam bandeiras contra nós. Se tivermos condescendência para com eles, vamos destruir as conquistas do Povo.
Por tudo isto dizemos que a nossa luta mudou de natureza e de caráter. E, então, há que colocar mais uma vez, estas questões fundamentais: Quem é o inimigo? A quem servimos?
Se soubermos responder corretamente a estas questões, estaremos em condições de defender as nossas conquistas. Estaremos em condições de consolidar o Poder Popular, de garantir que o Povo exerça o poder, de fazer triunfar o PPI: de fazer, enfim, da presente década a “Década da Vitória sobre o Subdesenvolvimento”.
A LUTA CONTINUA!
