Marli, um símbolo de resistência

Reportagem de Maria Tereza Moraes para o jornal Mulherio.

Ano 1, número 2, julho/agosto de 1981.

Você encontra o arquivo original clicando aqui.

Transcrição por Andrey Santiago.


Marli Pereira Soares, 27 anos, empregada doméstica, vivia anônima em seu barraco em Belfort Roxo, Baixada Fluminense com os dois filhos menores e o irmão Paulo, de 18 anos, até o dia 12 de outubro de 179, quando sua casa foi invadida por oito homens da PM. Depois de amarrarem e espancarem Paulo na frente de Marli e das crianças, arrastaram-no para fora da casa e o mataram a tiros. Marli decidiu não calar. Denunciou, apontou alguns assassinos em reconhecimento feitos cara a cara numa longa peregrinação por quartéis e delegacias, deu entrevistas, botou a boca no mundo, enfrentou a barra.

De repente, nome e foto nos jornais. Virou símbolo de coragem, de ratinho que enfrenta o leão, mulher que desafia o arbítrio e a violência. Ameaçada de morte por aqueles que mataram seu irmão, continuou, e conseguiu que suas denúncias dessem origem a um processo para apurar o assassinato. O processo está em andamento no Tribunal do Júri de Nova Iguaçu, mas por enquanto apenas dois dos culpados estão presos.

Em abril deste ano, o reconhecimento internacional: a revista francesa F-Magazine incluiu entre as cinco mulheres que mais se destacaram em 1980. As outras são a sindicalista polonesa Ana Walwntynowicz; Vigdis Finnbogadotit, presidenta eleita da Islândia; Tatiana Mamonova, co-autora de um almanaque editado clandestinamente na URSS, descrevendo a situação das mulheres, o que lhe valeu o exílio forçado: e a irmã Eliane, freira francesa que se dedica a tribos perseguidas de Uganda.

Riscos, badalação e fama não mudaram o jeito descontraído e seguro de Marli, nem as enormes dificuldades de seu cotidiano. Eu e Maria Alice Rocha decidimos fazer um livro com ela porque Marli tinha muito mais a transmitir de sua experiência como mulher do que o publicado nos jornais. No livro – “Tenho pavor de barata, de polícia não” – a ser lançado pela Editora Avenir, coleção Avenir-Mulher, Marli conta sua história, recordações da infância, cotidiano, valores e crenças, trabalho, relação com as patroas, filhos, amores, desenganos, racismo e violência policial.

Aqui, alguns trechos de seu relato:

“Sempre fui muito decidida. Desde tempo de colégio. desde minha vida com marido. Se cismar com uma coisa, vou até o fim.

No dia que aconteceu, se pensasse no que já passei e no que ainda vou passar, acho que teria deixado só por conta da justiça de Deus. Mas senti aquela revolta: ver tirarem meu irmão de dentro de casa dormindo, espancarem na minha frente, na frente dos meus filhos, pouco adiante matar igual a um cachorro! Podia ter ido na delegacia e dizer que não sabia quem matou, mas disse: foi a policia civil e militar. Agora não penso em desistir. Vou até o fim, só paro no dia que morrer. Vou. Acho que só não crio coragem é pra não ter medo de barata! Estou aqui com a perna doendo. Outro dia, estava na cozinha. botando a minha comida — mas gosto, antes de sentar pra comer, de limpar o fogão, a louça, não gosto de deixar bagunçado, sabe. É tudo pequenino mas gosto de deixar ajeitadinho. Quando estou muito bem limpando o fogão. escute aquilo nas minhas costas: duas baratonas! Fui correr, mas a porta é perto da escada e quase que voei lá embaixo. Bati com a perna no murinho. Minha mãe falou: “Toma vergonha nessa cara! Mulher que é símbolo da coragem no mundo inteiro correndo por causa de barata…” Tenho pavor de barata, de policia não.”

“Lá na minha casa da Vila Paulina, nunca sumiu um grampo… Deixava a janela aberta, rádio ligado tudo, nunca sumiu nada. A gente dormia com a janela aberta porque era muito quente, laje baixinha, uma meia-água: quarto, sala, cozinha e banheiro.”

“Depois que o Mário foi embora, fui ter minha liberdade. Quando saia pra longe, as crianças ficavam com uma vizinha. Mas quando saía pra festinha que tinha perto, deixava as crianças sozinhas, vinha toda hora. Se saísse de casa onze horas — dava a mamadeira as dez e botava eles para dormir — quando era assim meia-noite, subia, olhava, eles estavam dormindo… Dava umas quatro viagens durante a festa, dançava um bocadinho, daqui a pouco subia pra ver as crianças. E subia sozinha. Nunca fui assaltada. Mesmo quando saia pra mais longe ia tranquila, andava sozinha de madrugada. Quer dizer, se fosse perigoso não andaria, né? As vezes. alguém chamava. tentava conversar, mas também já sabiam como eu era meio invocada, já amarrava a cara. Problemas mais sérios nunca aconteceram comigo… Conheci a violência mesmo, com a polícia…”

“Só fui conhecer o Valter quando já estava com 13 pra 14 anos. Ele tinha 26 e morava em Niterói. Eu ia pra casa da minha avó — a mãe dele morava perto — e começamos a namorar. Ai me perdi. Tinha 15 anos. Minha sogra é que começou a notar, comecei a engordar, o seio crescendo… Ainda era meio tapada. Minha filha estava quase nascendo e perguntei pra minha mãe com quanto meses é que a criança podia tomar banho! Não sabia fazer mamadeira, não sabia nada.”

“Não vou apanhar de homem”

“Estava com 22 anos quando conheci o pai dos outros dois meninos. A gente brigava igual cachorro, mas não era briga só de boca não, era briga mesmo de sair no pau. A última briga da nossa separação, ele veio me dar um soco — e chegou a dar mesmo — porque homem tem mais força que mulher — mas eu cismei: você não é meu pai, nunca apanhei do meu pai e não vou apanhar de homem… E voei em cima dele com a tesoura, em risco até de ir presa, de arrumar processo, furei ele com a tesoura, que tem a cicatriz ate hoje. Depois dessa briga, nos separamos. Juntou as coisas dele e foi embora… É aquele ditado: mulher tem que se conformar, ela é a parte fraca, embora muitas não concordem com isso. Eu também não concordo, o homem gritar e a mulher baixar a cabeça! Os direitos hoje em dia são iguais. Já foi o tempo de Amélia que a mulher aturava tudo. Então, ele dava um berro e eu dava outro! Se eu ficasse quieta, apanhava e ficava apanhada.

“Desde o segundo filho venho tentando para ver se consigo ligar, ainda ia fazer 18 anos… Mas um médico não queria fazer, outro era muito dinheiro… Esse último bebê, ia ter normal no São Francisco de Assis, porque eles ligam as trompas, mas só se o médico achar que deve. Tem planejamento familiar. Cheguei a ir lá e tudo. Mas depois uma pessoa me ajudou: num instante consegui um médico para fazer cesariana e ligar as trompas. Paguei cinco mil cruzeiros! Esse negócio de ter filho… Esperar nove meses não é nada demais, acho lindo embora fique horrível, porque faço aquele barrigão! Mas o pior do filho é criar porque mesmo trabalhando, lutando, cinco crianças pra educar, sustentar, vestir, calçar! Se não conseguisse ligar as trompas, só se me aposentasse!”

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