Este texto de Anni Kanafani foi escrito como o prefácio da edição de 2022 do livro “Sobre a literatura sionista” [On Zionist Literature] escrito por Ghassan Kanafani e publicado originalmente em 1967. A edição de 2022 é parte da coleção “Liberated Texts”, uma colaboração entre as editoras Liberated Texts e Ebb Books.
Tradução por Maria Francisca.

A primeira vez que conheci um palestino foi durante uma conferência estudantil na Iugoslávia, em 1960. Naquela época, eu não sabia nada sobre o que tinha acontecido na Palestina e com o povo palestino. Quando os representantes palestinos me contaram, fiquei muito revoltada — por que eu e outros dinamarqueses não sabíamos disso? Cresci em uma família intelectual da classe trabalhadora em Copenhague, e meu pai esteve na resistência dinamarquesa contra a ocupação nazista da Dinamarca. Mas nem mesmo a imprensa de esquerda escrevia sobre o que aconteceu quando o Estado de Israel foi estabelecido em maio de 1948, e mais de 800.000 palestinos foram expulsos de sua terra natal por forças militares sionistas. A impressão era de que a influência sionista na mídia europeia era quase total.
Em setembro de 1961, fiz uma viagem de estudo à Síria e ao Líbano para visitar alguns dos estudantes daquela conferência na Iugoslávia e aprender mais sobre o destino do povo palestino, os refugiados e sua causa. Foi uma oportunidade muito importante para eu conhecer algumas verdades. Depois de duas semanas em Damasco, continuei minha viagem para Beirute, onde um bom amigo, Ahmed Khalifeh, me entregou um envelope endereçado ao seu amigo, o jornalista palestino Ghassan Kanafani, então um dos editores do jornal semanal árabe al-Hurriya (‘Liberdade’). O jornal representava o Movimento Nacionalista Árabe (ANM) e Ghassan editava a seção de assuntos palestinos.
Foi assim que me apresentaram a Ghassan Kanafani. Ele estava escrevendo um editorial para o jornal e me pediu, enquanto isso, que lesse um livro em inglês sobre a Palestina. Depois de um tempo, começamos a conversar sobre sua terra natal — a Palestina. Quando pedi para visitar alguns campos de refugiados, Ghassan ficou em silêncio. “Você acha que nosso povo palestino são animais de zoológico?”, disse ele, irritado, depois de um momento. Então ele começou a explicar, a me contar sobre seu povo e seu país — como, em 29 de novembro de 1947, as Nações Unidas (contrariando seu próprio artigo 4 da Carta) dividiram a Palestina contra a vontade da população árabe (que então representava dois terços da população total e possuía mais de 90% das terras). Ele explicou como na votação final apenas um país asiático (as Filipinas) e dois países africanos (Libéria e África do Sul) votaram a favor da partilha, sendo que os dois primeiros foram intensamente pressionados pelos Estados Unidos. Assim, o Estado colonialista sionista de Israel foi implantado à força no limite do emergente Terceiro Mundo sem obter o reconhecimento voluntário de nenhum estado árabe, africano ou asiático — exceto pela África do Sul do Apartheid.
Ghassan me contou sobre sua amada Palestina e como foi forçado a deixá-la em 1948 com seus pais, cinco irmãos e irmãs e outros membros da família. Ele nasceu em Acre, em 9 de abril de 1936, no início da revolta árabe palestina contra as forças sionistas e o Mandato Britânico. Durante a revolta, os árabes palestinos realizaram uma greve geral — talvez a mais longa da história — que durou meio ano. Em 1939, quando a revolta foi reprimida, 5.032 árabes foram mortos, 14.760 ficaram feridos e 110 foram enforcados pelas autoridades britânicas. Ghassan relatou sobre o terrorismo israelense — como forçaram seu povo a partir. Sua cidade natal, Acre, havia sido destinada aos árabes pelo plano de partilha da ONU, mas, como muitas outras cidades e vilarejos árabes, foi conquistada pelas forças sionistas, e seus habitantes foram expulsos à força ou por meio de terror psicológico.
Os palestinos estavam aterrorizados após o massacre do vilarejo pacífico e desarmado de Deir Yassin, em 9 de abril de 1948. Em um relato de testemunha ocular, o representante da Cruz Vermelha, Jacques de Reynier, descreveu como 254 mulheres, crianças e idosos foram deliberadamente assassinados a sangue frio, e muitos de seus corpos jogados em um poço pelos grupos terroristas sionistas Irgun e Stern Gang. A família de Ghassan deixou Acre pouco antes de 15 de maio de 1948; nessa data, 800.000 árabes haviam fugido do terror sionista.
Os árabes continuaram fugindo, primeiramente mulheres e crianças — os homens permaneciam para defender as cidades e vilarejos. Logo, Jaffa, Lydda, Haifa e outras foram “limpadas” de sua população árabe (a palavra é de Yigael Allon, o comandante do Palmach responsável por essas atrocidades).
Quando a família de Ghassan foi expulsa da Palestina, eles partiram de mãos vazias. Seu pai decidiu ficar em uma pequena vila libanesa, Ghazieh, perto da fronteira. Mais tarde, toda a família mudou-se para uma vila montanhosa na Síria. A vida lá era muito difícil. O pai de Ghassan era advogado e, mais tarde, conseguiu se mudar para Damasco com a família. Ghassan e seu irmão mais velho começaram a trabalhar para sustentar a família de oito pessoas e mais oito parentes que viviam com eles. Depois de algum tempo, os dois continuaram os estudos em uma escola noturna, trabalhando durante o dia. Na época, Ghassan tinha treze anos.
Depois de obter sua qualificação Brevet aos dezesseis anos, Ghassan começou a lecionar em uma escola da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo). Antes de trabalhar na escola, ele havia sido aprendiz em uma gráfica em Damasco e, em 1955, foi convidado pelo Movimento Nacionalista Árabe (ANM) a trabalhar parcialmente como editor do jornal al-Rai e também na impressão dele. Ele tornou-se membro do ANM nesse mesmo ano. No ano seguinte, juntou-se à sua irmã Fayzeh e ao irmão Ghazi no Kuwait. Os três mandavam a maior parte de seus salários para a família em Damasco. Seu pai passou a ter uma renda mensal para sustentar o restante da família; ele conseguiu permissão para advogar em Damasco, onde a maioria de seus clientes eram palestinos e muito pobres.
Nos seis anos seguintes, no Kuwait, Ghassan continuou seu trabalho político. Ele lecionava arte e esportes, e esses anos se mostraram uma parte muito importante de sua vida. Todo o seu tempo livre era dedicado à pintura, à escrita e à leitura — principalmente obras políticas: Marx, Engels, Lenin e outros. Em 1960, o Dr. George Habash o convenceu a deixar o Kuwait e ir para Beirute para trabalhar no al-Hurriya.
Desde o primeiro dia em que conheci Ghassan, senti que estava diante de um ser humano excepcional. Nossa relação se desenvolveu através da causa palestina em um relacionamento pessoal. Apesar de uma situação instável — como palestino, Ghassan não tinha passaporte nem permissão de trabalho, não tinha dinheiro e, pior de tudo, sofria de uma doença incurável, diabetes — logo percebemos que apenas a morte poderia nos separar.
Eu havia me formado como professora em Educação Infantil em uma faculdade de formação de professores em Copenhague, em 1956, e pude assumir um trabalho em um jardim de infância árabe/inglês em Beirute quando decidi adiar meu retorno à Dinamarca. Dois meses após minha chegada ao Líbano, nos casamos — nenhum de nós jamais se arrependeu disso. Como a maioria dos palestinos, enfrentamos dificuldades econômicas e de outros tipos. Em janeiro de 1962, quando a situação política estava particularmente instável, Ghassan teve que permanecer escondido em casa por mais de um mês devido à falta de documentos oficiais. Durante esse período, ele escreveu o romance Homens ao Sol, que mais tarde se tornou conhecido em todo o mundo árabe, e o dedicou a mim.
Ghassan traduziu todos os seus romances e contos para mim enquanto os escrevia, e eu também me familiarizei com seus textos políticos. Sua compulsão por escrever era ilimitada — parecia que ele possuía uma fonte inesgotável de palavras e ideias, das quais queria preencher página após página sobre a Palestina, seu país e seu povo. Ele estava sempre ocupado, trabalhando como se a morte estivesse ao virar da esquina. Ghassan também era pintor e designer. Uma de suas pinturas daquele período retrata um homem crucificado no tempo…
Fui profundamente influenciada pelas ideias de Ghassan, mas ele nunca tentou impô-las a mim. O mesmo se aplicava aos nossos amigos estrangeiros, entre eles vários jornalistas que nos visitavam em casa e descobriam a causa palestina por meio dele. Muitos desses amigos posteriormente abordaram o problema em seus próprios países. Minha relação com a família de Ghassan tornou-se muito próxima; desde o início, eles me acolheram com toda sua hospitalidade e calor, e passei a amá-los profundamente. Nossa vida de casados era baseada em confiança, respeito e amor, e por isso sempre foi significativa, bela e forte. Nosso primeiro filho, um menino, nasceu em 24 de agosto de 1962. Fayez — que significa “vitorioso” em árabe — foi nomeado em homenagem a seu avô.
Ghassan estava agora mais ocupado do que nunca e completamente envolvido em seu trabalho. Naquele momento, ele já era reconhecido como escritor e jornalista, e, em 1963, foi convidado a assumir o cargo de editor-chefe de um novo jornal diário, al-Muharrir, que representava as forças nasseristas e progressistas. O jornal logo se tornou o segundo maior diário no Líbano e também foi amplamente distribuído em outros países árabes. Ele trabalhou por cinco anos no al-Muharrir, publicando ao mesmo tempo no jornal semanal Falastin, que representava o ramo palestino do Movimento Nacionalista Árabe (ANM), onde tratava especificamente de assuntos palestinos.
Entre 1963 e 1964, o ANM estava caminhando para o socialismo científico e, em 1964, decidiu se preparar para a luta armada na Palestina. Em 1965, Ghassan foi oficialmente convidado para visitar a China e a Índia, onde conheceu líderes políticos como o ministro das Relações Exteriores chinês, Cheng Lee, e o primeiro-ministro indiano, Shastri. Ele discutiu o problema palestino com eles e, sem dúvida, foi profundamente influenciado por essa viagem. Após sua segunda visita à China — onde participou da Conferência de Escritores Afro-Asiáticos — nosso filho Fayez ganhou uma bela irmãzinha. Chamamos ela de Laila, em homenagem à heroína de uma das histórias mais famosas do folclore árabe; Laila também é um nome escandinavo, comum entre o povo Sami que vive nas terras ao norte do Círculo Polar Ártico.
Ghassan adorava seus filhos e frequentemente escrevia sobre eles. Embora seu tempo conosco fosse limitado, ele costumava brincar com eles e ensiná-los muitas coisas. Fayez e Laila adoravam trabalhar com ele em nosso pequeno jardim. Ele raramente perdia a paciência e nunca os batia. Seu prazer em estar com as crianças incluía os amigos delas — ele frequentemente os levava ao cinema ou participava das brincadeiras em casa.
Nós dois gostávamos de receber nossa família e amigos em casa ou visitá-los. Todos nós aproveitávamos uma boa comida e, alguns de nós, uma boa bebida, além de contar piadas sobre a vida e a situação geral, mesmo nos momentos mais difíceis. Em geral, os árabes adoram contar piadas, mesmo em tempos muito difíceis — o humor e as risadas tornam-se uma espécie de terapia natural ou remédio para seguir em frente. Ghassan tinha um senso de humor maravilhoso e um sarcasmo que frequentemente aparecia em suas discussões com jornalistas. Ghassan e eu também amávamos cantar e dançar, e às vezes saímos com um grupo de bons amigos para jantar e dançar.
No verão de 1964, viajei de volta a Copenhague pela primeira vez desde que deixei minha família em 1961. Ghassan e Fayez foram comigo e eu os apresentei à nossa família e amigos. Passamos momentos maravilhosos juntos. Meus pais e dois irmãos até organizaram uma segunda festa de casamento para nós, convidando nossa família extensa dinamarquesa e muitos amigos. Foi uma noite muito agradável, com discursos, músicas e danças. Ghassan até ensinou os convidados a dança tradicional palestina/libanesa, Dabke, e fez um belo discurso de agradecimento à minha família.
Nas semanas seguintes, Ghassan se encontrou com políticos, jornalistas, artistas, professores e representantes sindicais, principalmente de partidos de esquerda e aqueles que haviam participado da resistência dinamarquesa contra a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Ele discutiu com eles os problemas do povo palestino, desde o período do Mandato Britânico na Palestina até a expulsão da maioria dos palestinos de sua terra natal pelas forças militares sionistas antes e depois do estabelecimento do Estado sionista de Israel na Palestina, em maio de 1948. Ele também abordou o papel da mídia dinamarquesa em informar a população da Dinamarca sobre a história da Palestina e os direitos do povo palestino de retornar à sua terra natal, além de combater a quase total dominação da propaganda sionista na mídia. Essas reuniões foram muito importantes, e alguns dos participantes posteriormente visitaram o Líbano e a Palestina e mantiveram contato com Ghassan.
Ghassan vinha coletando livros para seu estudo, Sobre a literatura sionista, no ano anterior, mas era difícil acessar esse tipo de material no Líbano devido ao boicote geral ali e em outros países árabes a itens relacionados a Israel — incluindo livros, jornais e revistas. Ele, portanto, pediu a amigos estrangeiros que trouxessem esse material para ele quando visitassem o Líbano. Após nossa viagem à Dinamarca, ele conseguiu pedir ajuda a alguns amigos dinamarqueses para conseguir os materiais necessários para sua pesquisa.
Além de todo o seu trabalho e responsabilidades como editor-chefe do al-Muharrir e Falastin até o final de 1967, depois no al-Anwar Daily até 1969, quando fundou o jornal semanal político al-Hadaf, Ghassan escreveu e publicou diversos romances e coletâneas de contos, além de uma história de detetive. Ele também escreveu e publicou peças de teatro e artigos satíricos e desenhou vários posters e ilustrações para al-Hadaf. A maior parte de sua escrita literária era feita em casa, após o trabalho jornalístico, à noite ou nos fins de semana. Ele gostava de criar e se expressar desenhando, pintando e trabalhando com argila, atividades que frequentemente fazia em casa, quando encontrava tempo. Fayez e Laila eram ajudantes entusiasmados e ficavam felizes em assistir ao pai pintando e desenhando, enquanto realizavam seus próprios trabalhos criativos ao lado dele.
Após o assassinato de Ghassan, em 8 de julho de 1972, um jornalista amigo escreveu no jornal The Daily Star, de Beirute: “Ghassan foi o combatente que nunca disparou uma arma. Sua arma era uma caneta esferográfica e sua arena, as páginas de jornal; e ele feriu o inimigo mais do que uma coluna de combatentes poderia ter feito.”
