Publicado em 16 de julho de 2012.
Originalmente disponível no site The Guardian.
Tradução por Andrey Santiago.
“Suicídios relacionados ao bem-estar não existem. Suicídio é uma questão de saúde mental.” Essa frase, do ex-dirigente do Partido Trabalhista Luke Bozier, resume bem a resposta padrão da direita ao site Calum’s List. Segundo seus fundadores, o objetivo do Calum’s List é “listar o número de mortes em que a reforma da seguridade social teria tido alguma responsabilidade, e fazer o melhor esforço possível para reduzir esse número”. Os comentários de Bozier no Twitter foram uma espécie de glossário para os textos de Isabel Hardman, da Spectator, e Brendan O’Neill, do Telegraph.
Há mais do que um leve cheiro da “lógica da chaleira” de Freud (eu não peguei sua chaleira emprestada; quando peguei ela já estava quebrada; quando devolvi não estava danificada) no conjunto de argumentos incompatíveis que os três apresentaram contra o Calum’s List. Suas principais afirmações foram as seguintes: os suicídios não foram causados pelas mudanças e, portanto, mencioná-los é um ato de exploração oportunista; se os suicídios foram causados pelas reformas, isso não é motivo para abandoná-las; o problema não está nas reformas em si, mas em sua gestão (ou seja, aqueles forçados de volta ao trabalho deveriam receber apoio adequado); o suicídio não é um ato racional, o que significa que não pode ter significado política.
Não quero discutir aqui se casos específicos de suicídio foram ou não causados pela nova legislação. Mas quero contestar a ideia bizarra de que, em princípio, os suicídios não poderiam ser usados como evidência contra as mudanças no sistema de seguridade social. Se pessoas morrendo em consequência da implementação de medidas não contam como evidência de que a legislação tem efeitos prejudiciais, o que contaria?
O’Neill demonstra uma atitude estranhamente moralista em relação ao suicídio, argumentando que o suicídio “não é uma resposta racional à dificuldade econômica; não é uma resposta racional a ter seus benefícios cortados”. Esse é um caso espetacular de não entender o ponto: para muitos que sofrem com transtornos mentais, a capacidade de agir racionalmente está comprometida, uma das razões pelas quais precisam de proteção. Quanto à ideia de que aqueles que voltam ao trabalho deveriam receber apoio adequado, a falta desse apoio é justamente a questão. A Atos, agência responsável por testar se os requerentes estão aptos ao trabalho, já viu um grande número de recursos contra seus julgamentos ser aceito. E quem pode ter fé de que o governo realmente apoiará aqueles que retornam ao trabalho quando confia a transição a uma agência desacreditada como a A4e?
Mas há aqui um problema mais geral. Alguns comentaristas de direita que condenam o Calum’s List deploram a “politização” dos transtornos mentais, mas o problema é exatamente o oposto. Transtornos mentais foram despolitizados, de modo que aceitamos passivamente uma situação em que a depressão é hoje a enfermidade mais tratada pelo nosso sistema público de saúde. As políticas neoliberais implementadas primeiro pelos governos Thatcher nos anos 1980 e continuadas pelo Novo Trabalhismo e pela atual coalizão resultaram em uma privatização do estresse. Sob a governança neoliberal, trabalhadores viram seus salários estagnar e suas condições de trabalho e segurança no emprego se tornarem mais precárias. Como reporta o Guardian hoje, os suicídios entre homens de meia-idade estão aumentando, e Jane Powell, diretora da Calm (Campaign Against Living Miserably), associa parte desse aumento ao desemprego e ao trabalho precário. Dadas as razões crescentes para a ansiedade, não é surpreendente que uma grande parcela da população se autodiagnostique como cronicamente infeliz. Mas a medicalização da depressão é parte do problema.
O NHS, assim como o sistema educacional e outros serviços públicos, foi forçado a tentar lidar com os danos sociais e psíquicos causados pela destruição deliberada da solidariedade e da segurança. Onde antes trabalhadores recorreriam aos sindicatos quando submetidos a estresse crescente, agora são incentivados a procurar seu médico de família ou, se tiverem sorte de conseguir um pelo NHS, um terapeuta.
Seria simplista argumentar que cada caso de depressão pode ser atribuído a causas econômicas ou políticas; mas é igualmente simplista sustentar – como fazem as abordagens dominantes da depressão – que as raízes de toda depressão sempre residem exclusivamente na química individual do cérebro ou nas experiências da primeira infância. A maioria dos psiquiatras presume que transtornos mentais como a depressão são causados por desequilíbrios químicos no cérebro, tratáveis com medicamentos. Mas a maior parte da psicoterapia também não aborda a origem social dos transtornos mentais.
O terapeuta radical David Smail argumenta que a visão de Margaret Thatcher – de que não existe sociedade, apenas indivíduos e suas famílias – encontra “um eco não reconhecido em quase todas as abordagens terapêuticas”. Terapias como a terapia cognitivo-comportamental combinam o foco na vida inicial com a doutrina da autoajuda, segundo a qual indivíduos podem se tornar mestres do próprio destino. A ideia é: “com a ajuda especializada do seu terapeuta ou conselheiro, você pode mudar o mundo pelo qual, em última análise, é responsável, de modo que ele não mais lhe cause sofrimento” – Smail chama essa visão de “voluntarismo mágico”.
A depressão é o lado sombrio da cultura empreendedora, o que acontece quando o voluntarismo mágico se depara com oportunidades limitadas. Como coloca o psicólogo Oliver James em seu livro The Selfish Capitalist, “na sociedade da fantasia empreendedora”, somos ensinados “que apenas os afluentes são vencedores e que o acesso ao topo está aberto a qualquer um disposto a trabalhar duro o bastante, independentemente de seu histórico familiar, étnico ou social – se você não tiver sucesso, há apenas uma pessoa a culpar”. Já passou da hora de colocar a culpa em outro lugar. Precisamos reverter a privatização do estresse e reconhecer que saúde mental é uma questão política.

Perfeito! A ótica neoliberal dominante reverbera diretamenta na maneira que pensamos e, claro, agimos diante a sociedade.