Sobre cristãos e a justiça social

[Trecho retirado do artigo “Fundamentalismo e extremismo não esgotam
experiência do sagrado nas religiões” do Pastor Henrique Vieira, escrito para o livro “Ódio como política” organizado por Esther Solano]

Na condição de cristão e pastor, faço questão de reivindicar a pluralidade existente na história do cristianismo e dentro do segmento evangélico. Também considero central resgatar a tradição bíblica ligada à luta dos oprimidos e à defesa da justiça social. Um dos problemas da perspectiva fundamentalista é a supressão da história do cristianismo ou dos cristianismos.

O contexto social dos textos bíblicos é a experiência dos oprimidos. O Antigo Testamento tem como evento central o Êxodo, isto é, o grito de um povo contra a condição de escravidão e o agir de Deus em favor de sua libertação. Todas as histórias e narrativas posteriores têm relação com este evento de libertação. Sempre que este povo distancia-se da ética da libertação, de acordo com o relato bíblico, afasta-se de sua origem e de sua vocação. A tradição profética surge justamente para apontar como os mecanismos de opressão sobre os pobres e os estrangeiros eram incompatíveis com a aliança feita com Deus. A origem, o parâmetro e o critério de tal compromisso era a vida em liberdade e justiça. Dentro dessa mesma perspectiva, a justiça estava ligada diretamente ao fim dos dispositivos de exploração e privilégio.

No Novo Testamento, o centro indubitavelmente é Jesus de Nazaré. Nas palavras de dom Pedro Casaldáliga, em Jesus Deus se fez carne e classe. Deus se fez carne porque nós cristãos afirmamos que Ele é o próprio Deus, assumindo plenamente a beleza e as contingências da condição humana. Porém, esta afirmação não basta, uma vez que, dentro do contexto de espaço, tempo e história, Deus assumiu como lugar de experiência, fala e revelação a terra onde pisam os pés dos oprimidos. A ambiência do evangelho era o povo pobre, vivendo sob o jugo da colonização romana sobre a Judeia e a Galileia. Jesus foi pobre, andou com os oprimidos, venceu preconceitos, denunciou o acúmulo de riquezas, desmascarou a hipocrisia de líderes religiosos e satirizou o domínio romano. O centro de sua mensagem era o “Reino de Deus”, que necessariamente era um contraponto ao reino romano. Por essa subversão foi entregue pelos líderes religiosos e executado pelo Império romano em um rito de tortura e de linchamento. O povo pobre que o seguia, contudo, afirmou sua ressurreição, isto é, negou a sentença do Estado e do Templo. Na expressão de Leonardo Boff, a ressurreição era uma insurreição, um ato de desobediência e contra o poder.

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