O dia em que Ho Chi Minh andou pelo Rio de Janeiro

Neste texto está transcrito o vídeo do blog Nocaute intitulado “A passagem de Ho Chi Minh pelo Rio de Janeiro”. O correspondente do Nocaute em Hanói, Ariel Seleme, conta curiosidades da passagem de Ho Chi Minh pela cidade maravilhosa. O líder vietnamita foi obrigado a parar no Brasil por consequências de uma doença e acabou se encantando com a paisagem e a boemia carioca.

Vamos falar hoje um pouco sobre a passagem de Ho Chi Minh pelo Rio de Janeiro. Estive aqui pesquisando, estive na Universidade de Hanói, no Mausoléu, no Museu de Ho Chi Minh em Hanói, estive com diplomatas e historiadores e acho que consegui basicamente tudo que tem sobre Ho Chi Minh e sua passagem pelo Rio de Janeiro. Ho Chi Minh o grande líder vietnamita, o grande herói vietnamita da independência.

A trajetória de Ho Chi Minh começa em junho de 1911, quando ele sai do porto de Saigon, para Marseille, em um navio francês, ele tinha apenas 20 anos e porque ele saiu? Ele foi expulso de uma escola onde ele estudava, porque traduziu um documento que trabalhadores rurais vietnamitas escreveram para fazer reivindicações junto aos franceses, e ele traduziu esse documento do vietnamita para o francês, em função disso a escola o expulsou. Ele tentou alguns trabalhos, chegou a ser professor, mas já estava na lista negra da polícia francesa e por fim resolveu sair do Vietnã.

Embarcou com destino a Marseille na França, ficou lá até o inicio de 1912, em Marseille trabalhou como sapateiro e jardineiro, no navio francês ele era ajudante de cozinha, de Marseille, com a mesma companhia de navegação ele pega outro navio e segue para a África, onde ele conheceu as colônias francesas da África, trabalhando como ajudante de cozinha, foi ao Senegal, Camarões e Congo. Voltando ao Senegal, desse país ele troca de navio e segue para Buenos Aires e Montevidéu, isso em 1912.

Quando ele embarca em Montevidéu com destino ao Rio de Janeiro, ele já embarca doente e até o Rio ele piora, o comandante do navio com medo dele morrer a bordo obriga Ho Chi Minh a descer no Rio para se tratar. Ho Chi Minh era muito querido, era um trabalhador valorizado pelas companhias de navegação e ele ficou no Rio para se tratar e assim que estivesse curado pegaria um novo navio dessa mesma companhia de navegação para seguir viagem.

Chegou no Rio em meados de 1912, desceu na cidade e em questão de semanas ficou bom e se curou. Não se sabe que doença ele tinha, foi curado e ficou aguardando a passagem desse novo navio para seguir viagem. Em função de aguardar a passagem desse novo navio, ele ia constantemente ao porto do Rio de Janeiro, para saber notícias, de quando chegaria o novo navio dessa companhia de navegação.

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Cartão postal do Porto de Santos, datado de 1920.

No Rio, desse período que ele viveu de 3 meses, ele trabalhou como ajudante de cozinha num restaurante que ficava no andar térreo de um hotel da Lapa, sendo também garçom. Morava em Santa Tereza, numa pensão.

No Rio de Janeiro, ele fala de três coisas, primeiro, a beleza natural do Rio, que o encantou, segundo, ele ficou impressionado com o Jardim Botânico, ele tinha 21 anos e na época usava o nome de Nguyễn Tất Thành, aqui no Vietnã é comum, uma questão cultural talvez, as pessoas usam nomes diferentes, tenho amigos que tem um nome de origem, mas usam outros nomes, usando até nomes ocidentalizados.

O caso interessante, de Ho Chi Minh no Rio, ele trabalhando como cozinheiro e indo bastante ao Porto de Santos, isso em 1912, lá ele conhece, um cozinheiro negro pernambucano, cozinheiro como ele, cozinheiro de navio e líder do porto de Santos, o homem negro se chamava José Leandro da Silva e em 1921, ou seja, 9 anos após ele ter estado no Rio, Ho Chi Minh escreve um artigo chamado “Solidariedade Internacional”, onde ele conta a história desse José Leandro que ele conheceu no Rio de Janeiro.

José Leandro era um líder sindical, cozinheiro como Ho Chi Minh e em 4 de fevereiro de 1921, lidera uma greve no Porto do Rio de Janeiro. Uma greve que tinha 2 reivindicações principais, primeiro, uma jornada de trabalho de 8 horas e salários iguais entre negros e brancos, os negros recebiam salários muito menores, o Brasil era recém-saído da escravidão, então eram essas as duas reivindicações.

Aconteceu outro caso interessante, que Ho Chi Minh narra no seu artigo “Solidariedade Internacional” que ele escreve em 1921, fala que José Leandro como líder sindical, resolveu entrar em um navio espanhol que tinha acabado de atracar no Porto do Rio, para avisar que o Porto estava em greve, pedindo a adesão deles na greve, a participação deles na greve. Ao tentar embarcar nesse navio, um policial impediu. José Leandro falou: “Sou um líder sindical, tenho direito de entrar”. O policial não deixou, os dois ficaram discutindo, o policial tirou uma arma e atirou em José Leandro, ele conseguiu se safar e dar um golpe no policial, jogando ele no mar. José Leandro foi cercado por 10 policiais e levou 11 tiros, segundo o artigo de Ho Chi Minh, baleado, foi levado de ambulância para o hospital.

Conta Ho Chi Minh, que mesmo na ambulância, que mesmo baleado, com 11 tiros, cantou a Internacional comunista, quando atiraram no líder sindical, um dos tiros acertou um conferente de cargas do Porto e ele morreu. Chegando no hospital, José Leandro quase morreu, mas sobreviveu e foi condenado a 30 anos de cadeia pela morte do conferente de cargas do Porto. Como o conferente de cargo morreu baleado, houve um movimento de solidariedade a Jose Leandro, vários advogados, a sociedade carioca, trabalhadores, etc. Se manifestaram por José Leandro e em função dessa solidariedade e dessa ação dos advogados, José Leandro foi absolvido, como o conferente morreu baleado e José Leandro não tinha revolver, ele disputou com os policiais somente com as mãos, ele não poderia ser condenado pela morte do conferente de cargas. Por fim José Leandro é solto.

Esse é o artigo de Ho Chi Minh que sai do rio em setembro ou outubro de 1912, segue para Boston, Nova Iorque, depois vai a Paris, lá se une ao Partido Comunista Frances, depois da Primeira Guerra Mundial, ele segue para a então União Soviética e de lá começa sua trajetória de retorno ao Vietnam e de luta de independência do país.

Essa é a passagem de Ho Chi Minh pelo Rio de Janeiro, o que conseguimos levantar aqui em Hanoi.


Link do vídeo original, disponível aqui.

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