Álvaro Cunhal – “Violência Revolucionária e a Violência Verbal”

Texto retirado do livro “Radicalismo Pequeno-burguês de Fachada Socialista” de Álvaro Cunhal, com alterações feitas para o português brasileiro, publicado originalmente em 1974.

Agradecimentos ao Partido Comunista Português.


Se somássemos tudo quanto nos últimos 10 anos têm escrito em defesa da «violência revolucionária» teorizadores pequeno-burgueses, grupos, «frentes», «movimentos», que se intitulam de «ação» e «revolucionários», colecionaríamos milhares de páginas de literatura incendiária.

É longa a série dos que apresentam, sobretudo na emigração, programas de «ação violenta imediata», de «luta armada imediata». Mas, salvo raros casos, aliás sem melhor sucesso, todos esses «revolucionários» que anunciam ir «fazer a revolução», atribuem a si próprios o papel de pregar, de apelar, de ensinar e, no fim de contas, de não fazerem precisamente aquilo que poderia justificar o nome de «revolucionários» com que se rotulam. Tomando como bandeira a afirmação de que «os revolucionários são os que fazem a revolução» entendem que «fazer a revolução» é dar às massas instruções e ordens pela rádio ou por papéis já que não têm organização revolucionária, nem empreendem qualquer trabalho revolucionário. O seu mito é o «herói libertador» e cuidam alçar-se a «heróis» pelo discurso.

Aqui intervêm dois fatores. Um é a covardia que se encobre na bravata verbal. Outro é a própria concepção do poder do verbo.

Comecemos pela primeira.

Quando alguns faladores anticomunistas dizem que Guevara lhes «pertence», porque afirmava a necessidade de «pegar em armas», porque afirmava que «não há lugar na guerrilha para fazer distinções entre teóricos e executantes», porque fazia o voto ardente de que outros pegassem na arma que ele pela morte viesse a deixar cair, os que isto escrevem, sendo sua única arma a língua acerada contra os que de facto arriscam a vida e mostram nos atos inteira dedicação aos seus ideais, são os últimos a poder chamar a si o nome de Guevara e o seu elevado exemplo de coerência e heroísmo. Como estes muitos outros, para desfiar a história dos quais (das suas afirmações pseudo-revolucionárias, dos seus ataques aos comunistas, da sua cobardia e da sua traição) seriam necessárias muitas páginas falando de misérias. Deixemos, pois, os homens e voltemos às ideias.

O verbalismo da «violência revolucionária», da «ação direta», do primado da «ação armada», é um índice do «culto da espontaneidade», da ilusão de que as massas se levantarão por si para a luta armada, bastando para isso que «as minorias mais conscientes», os intelectuais pequeno-burgueses, definam a «estratégia», indiquem o caminho e façam agitação.

Intitulando-se «vanguarda», como compreendem o papel de vanguarda da luta violenta, da luta armada?

Alguns são francos. São professores da revolução que declaram não pretender fazê-la, mas apenas ensinar como se faz. Assim se, no quadro de um tal professorado, um exaltado anticomunista «de esquerda» se sai com um apelo à violência, logo esclarece (não vão percebê-lo mal): «Não falo aqui de prática política violenta. Falo de linguagem» (Cadernos de Circunstância, n.o 2, p. 23).

Outros, porém, embora a violência verbal seja também a sua especialidade, querem parecer «homens de ação».

Há quem diga que ser «teórico» não implica se seja ao mesmo tempo «prático» da revolução. Isto não é, porém, verdade, e de falsos «teóricos» já basta e já sobra. Porque o ser «teórico» da ação violenta tornou-se a cobertura mais cómoda daqueles que pretendem apresentar-se como os «mais revolucionários dos revolucionários», mas que resumem o seu «revolucionarismo» à crítica caluniosa daqueles que o são de verdade.

Alguém levanta-se contra o facto de que «nada se faz para desencadear a violência revolucionária». E diz:

«Se, afastando do nosso trabalho o uso da violência, reconhecemos a sua necessidade, é cem vezes pior do que contestar essa necessidade. Porquê? Porque ou as nossas palavras são falsas e hipócritas, ou, se são sinceras, o não ousarmos levar à prática o que pensamos equivale a abdicarmos da nossa responsabilidade de vanguardistas» (M. Sertório, A Ilusão Legalista).

Palavras autocríticas? Não. Simples dissertação pedagógica. Estas palavras não visam o professor da revolução que fala, mas os pobres alunos da revolução a quem se dirige. Neste caso, os comunistas. Mas porque não começa o professor a «ousar» no seu próprio trabalho, a mostrar nos atos que as suas palavras não são «falsas» nem «hipócritas», e que não «abdica das suas responsabilidades de vanguardista»?

Sempre que os verbalistas pseudo-revolucionários tomam uma iniciativa divisionista e desagregadora tentando formar uma organização própria a partir do combate ao PCP, anunciam sistematicamente que vão iniciar a «violência revolucionária», a luta armada e «fazer a revolução». Todos dizem o mesmo. Mas, até hoje, nenhum passou de palavras e de apelos à espontaneidade das massas. O resultado foi sempre igual a zero.

Ao longo dos anos, são já numerosos os casos de tais «iniciativas». De todas têm partido apelos exaltados ao uso imediato da «violência revolucionária» e «à luta armada imediata», apelos por vezes acompanhados de instruções para o fabrico de explosivos e para ações de sabotagem e de terrorismo, impressas e distribuídas com certa profusão. Isso foi feito pelo DRIL. Pelo MAR. Pela FAP. Pelo CMLP [Comitê Marxista-Leninista Português]. E por outros. Todos indicam imperativamente aos «militantes» e às massas que utilizem e apliquem os processos indicados, que comecem imediatamente a «violência revolucionária». Nada pode revelar melhor os erros básicos do «culto da espontaneidade», da absolutização da luta violenta sem ter em conta a situação política e as disposições das massas, da ideia de que a «violência revolucionária» começa porque as «minorias mais conscientes» dizem e ensinam que se deve começar, do que o facto de que, apesar da distribuição de milhares dessas «instruções» e apelos ao longo dos anos e apesar da arrogância daqueles que o fazem, nem uma só ação (que seja do nosso conhecimento) resultou de tal agitação e propaganda.

Por vezes, parece piada.

Tomemos os maoístas do CMLP. Em Março de 1969, pondo (como dizem) «à disposição (das massas) armas de ataque contra a burguesia», publicaram a receita da «bola de ping-pong» (O Comunista, n.o 2). É fácil de fabricar, como dizem. Pode, como dizem também, ter numerosas aplicações: «sabotagem de automóveis» fazendo-os explodir, «agitação em cinemas e teatros», «incêndios nos depósitos da Shell e da Sacor», etc… A primeira coisa que se pode perguntar é porque, sendo coisa tão fácil e tão simples, estes «revolucionários» não fizeram, eles próprios, umas bolinhas dessas e não começaram por dar o exemplo para se ver o efeito. Aceitemos que não tinham tempo, que tinham de fazer um «inquérito» para saber o que pensam «milhões de trabalhadores», que tinham de tentar «penetrar» na classe operária, ou mesmo que tinham de ir tomar café. Aceitemos que o papel da «vanguarda» é ensinar assim e que o papel das massas é fazer tal qual. Comparem-se as palavras com a prática.

«Preparemos a luta violenta contra a dominação da burguesia!» «É a altura de opor a violência revolucionária à violência da burguesia!» «As nossas intenções têm de se provar na prática». «A linha de demarcação entre os revolucionários e os reformistas encontra-se na utilização de novas formas de luta, no emprego da violência revolucionária contra a violência burguesa»  (O Comunista, n.o 5, p. 1 e n.o 6, p. 3).

E andam nisto há anos, a dizerem que «é a altura», que «é já». E ainda não vimos «na prática» a «utilização», o «emprego», dessa tão apregoada «violência». Não dizemos de uma granada, de uma bomba, mas de uma «bola de pingue-pongue», uma só que fosse. E são isto os «grupos de vocação revolucionária» de que falam alguns…

O logro é tão graúdo e infantil que os próprios sentem necessidade de explicar-se:

«A luta armada (dizem eles) só será eficaz quando a classe operária estiver enquadrada por um partido (como estamos recordados eles dizem também que a classe operária portuguesa está tão atrasada que ainda não sentiu a necessidade de se organizar politicamente). Mas acontece (?) que as massas trabalhadoras poderão (?) lutar espontaneamente. Nesse caso (!) é nossa responsabilidade (?!!) pôr-lhes à disposição (?) armas de defesa (?) contra a repressão» (O Comunista, n.o 5, p. 7).

E «põem à disposição»… a receita da «bola de ping-pong»! E se não dão mais (dizem com toda a sisudez) é porque se «pusessem à disposição» das «massas trabalhadoras» «fórmulas mais violentas»… «a polícia poderia perfeitamente (!) montar uma ação provocatória, atribuindo-nos a sua origem» (!) e «os efeitos dessa operação policial seria desprestígio (?!) para a nossa organização» (Ibid.)…

Assim se esbatem as fronteiras entre política e humorismo.

Os golpistas de Argel seguem as pegadas.

Em tempos, outros pseudo-revolucionários criticavam o PCP por afirmar que a via é a insurreição e por não acompanhar essa afirmação «por uma indicação precisa (?!) quanto à data (!), necessariamente próxima (?), em que esta insurreição poderia ser posta em marcha» (Cadernos de Circunstância, n.o 3, p. 31)! Os de Argel não querem incorrer em tal crítica. Agora «desbloqueados» anunciam irem «dar o exemplo» e «vencer em tempo com data» (sic). Enquanto aguardamos que «deem o exemplo» e marquem «a data», «necessariamente próxima», ouçamo-los um pouco:

«A nossa luta antifascista terá que ser uma luta violenta». «À violência reacionária há que opor a violência revolucionária.» «Queremos passar a um aberto e audaz combate libertador. Queremos passar das palavras aos atos.» «É preciso encarar a batalha contra o fascismo como uma batalha de vida ou de morte.» «Não se trata de radicalizar a linguagem: trata-se de radicalizar a ação.» «Teoria e prática são inseparáveis.» «Não há jogadores de futebol teóricos; como não há guerrilheiros teóricos.» «Somos revolucionários e o dever dos revolucionários é fazer a revolução.» «Aceitamos o desafio que a luta nos lança: provar em cada dia pela ação a veracidade das nossas ideias.» «Só na ação, as palavras, as intenções e as ideias se esclarecem. O povo julgar-nos-á por aquilo que fazemos, e não pelo que afirmamos.» (Piteira, Alegre & C.a na Voz da Liberdade.)

Assim é e será de fato. O julgamento do povo começou já pelo que fizeram e estão fazendo. E quanto à violência e à luta armada, as provas «em cada dia pela ação», até agora, foram concludentes. Quando as agências de informação noticiaram a operação do Cunene, logo publicaram um «Comunicado» como se fossem eles o Estado-Maior, o comando central, os homens da ARA, os organizadores ou (sabe-se lá) até os executantes, de tal ação.

E a seguir, outro (este sobre o acidental desastre no Vera Cruz), o «Comunicado n.o 2», para serem de facto ações «em cada dia». Começou assim «o audaz combate libertador», procurando apropriar-se (tal como fizeram com a sigla, a rádio, o dinheiro da FPLN) do trabalho e da luta dos outros. Começam assim a mostrar que «a teoria e a prática são inseparáveis» (ficando eles com a «teoria» e deixando que os outros tenham a «prática»). Começam a provar que «a batalha é de vida ou de morte» (poupando eles as preciosas vidas, enquanto os outros arriscam as suas). É tudo uma ques- tão de divisão de trabalho. Aqui temos estes «guerrilheiros» e «revolucionários» que, glosando as suas próprias palavras, são tão «guerrilheiros» e tão «revolucionários» como «futebolistas» são aqueles que jogam no totobola.

No campo do verbalismo e da imaginação, nada custa delinear planos, anunciar grandes batalhas e dar ordens às tropas.

«As forças revolucionárias e as forças contrarrevolucionárias (anunciam alguns) encontram-se alinhadas frente a frente e fazem os últimos preparativos para a grande batalha» (Cadernos de Circunstância, n.o 2, p. 15).

Parece que os vaticínios se confirmam. Porque raras vezes terão sido tão intensos o verbalismo «revolucionário» e o verbalismo «contrarrevolucionário» (que também o há). Vê-se que uns e outros fizeram os «últimos preparativos». Os verbalistas «revolucionários» dirigem-se aos estudantes, aos operários, aos soldados e gritam que chegou o momento de «pegar em armas». «Às armas!», grita um na Voz da Liberdade. «Às armas! às armas! às armas!», grita três vezes outro para não ficar atrás. Do lado dos verbalistas «contrarrevolucionários», gritam, pela sua parte, dirigindo-se igualmente a «estudantes, soldados e operários»: «É tempo de pegar em armas contra todos e contra tudo que seja antinacional. Às armas!» («Manifesto da Frente dos Estudantes Anticomunistas»). Ó céus! É agora! Eis a «grande batalha» anunciada pelos Cadernos! Mas vão esfarrapar-se uns aos outros! Podem mesmo magoar-se com palavras tão agressivas!

Teatro e palavras ao vento. Porque a hora da «grande batalha», da batalha decisiva entre as forças revolucionárias e as contrarrevolucionárias, da insurreição popular, não chegou ainda. E essa não será com palavras, mas com armas. E essa não se desencadeia com gritaria e com palavras de ordem fora do tempo, que só podem desorientar, desviar das tarefas fundamentais, desagregar, mas com amplo trabalho de organização e de massas, com um trabalho revolucionário sério e responsável.

Salvo imprevisíveis acontecimentos, virá o momento em que a luta armada será a forma predominante, atual e decisiva, da luta popular. Virá o momento em que haverá que apelar às armas, em que todas as energias se terão que concentrar na luta armada. Hoje a situação política não é essa. A luta armada não é a direção fundamental da luta popular. Nestas condições, as palavras de ordem para «pegar em armas», o apelo às iniciativas armadas das massas, como uma «nova estratégia», ficam completamente no ar e servirão, não para «desbloquear» as forças revolucionárias, mas para refrear, para «bloquear» de facto, o desenvolvimento do movimento popular, para desacreditar as formas de luta superiores, para atrasar no fim de contas o processo que conduzirá à insurreição.

Isso porém não é o importante para eles. O importante é erigir a violência verbal em «violência revolucionária», elevar os «heróis do verbo» à categoria de «heróis» e buscar desesperadamente, através da agitação que espicaça a espontaneidade ou do convencimento de alguns homens realmente corajosos, um acto sensacional, um que seja, não porque possa abrir um processo, mas para «marcar presença», para justificar a exaltação verbal, a «nova estratégia», a pretensão hegemónica.

Já Lênin referia as «correntes barulhentas» daqueles que se auto-satisfazem por «fazer-se ouvir», daqueles para os quais é indiferente que as palavras de ordem sejam corretas ou incorretas, que correspondam ou não à situação real, para os quais é indiferente que as iniciativas sejam eficientes ou condenadas de antemão ao fracasso, desde que consigam o que pretendem: «fazer falar de si, fazer barulho».

O radicalismo pequeno-burguês vive da frase revolucionária e ilude atrás desta a sua real incapacidade de organização e de ação.

«A frase revolucionária (escreveu Lênin) é a repetição das palavras de ordem revolucionárias sem ter em conta as condições objetivas, as mudanças provocadas pelos mais recentes acontecimentos, a situação do momento. Palavras de ordem excelentes, que estimulam e embriagam, mas desprovidas de base sólida, tal a essência da frase revolucionária» (Lénine, O. C., v. 27, p. 11).

«Fazer a revolução», ser revolucionário, não é repetir através dos anos «frases revolucionárias», como têm feito, fazem e de certeza continuarão fazendo os radicais pequeno-burgueses de fachada socialista.

Muitos ouvimos já anunciar que iam preparar e fazer no imediato a insurreição. Perdidos uns em pequenas aventuras, incapazes outros mesmo de tentá-las, todos se voltaram para a «teorização». A «tarefa imediata», que antes era empreender no imediato a luta violenta e «fazer a revolução», passou a ser a «elaboração da estratégia». A «ação revolucionária» passou a ser compreendida como o «debate incansável», a «discussão permanente», a «contestação» como meio e fim, não dirigidas contra o capitalismo, contra o fascismo, mas fundamentalmente contra o PCP. Os verbalistas pseudo-revolucionários acabam por definir como «primeira tarefa», não já a «luta violenta», a «luta armada», mas o combate ao PCP. Sempre parece mais fácil e de qualquer forma é fisicamente menos arriscado. O espalhafato verbal, a «frase revolucionária», as repetidas «iniciativas de ação revolucionária» com entradas de leão e saídas de sendeiro, o iniciar de novo a cada momento e em rompante uma «nova estratégia» que a nada conduz, são marca típica do radicalismo pequeno-burguês.

Como escreveu Lênin:

«Esta tendência para substituir a ação pela discussão e o trabalho pelo falatório, (…) para empreender tudo sem levar nada ao seu termo, é um dos traços próprios das pessoas «instruídas», que não resultam de forma alguma de uma má natureza, menos ainda de más intenções, mas de todos os seus hábitos de vida, das suas condições de trabalho, da sua fadiga intelectual, da separação anormal entre o trabalho intelectual e o trabalho manual e assim sucessivamente» (O. C, vol. 26, p. 431).

Na verdade, para desvendar a natureza e significado de tendências e correntes, não é tanto a caracterização moral dos homens que interessa (embora deva também estar presente), mas a sua caracterização política.

E como esta, no caso, é de transparência cristalina, facilita a direção da luta ideológica.

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