Por que o Partido Nazista tinha a palavra “socialismo” no nome?

Há uma mania de certa parta da esquerda, ao se confrontar com tal pergunta, em responder da maneira mais reducionista possível. O que costuma acontecer é que a resposta geralmente é: “mas não é porque tá no nome que de fato seja, há tantas coisas com um nome totalmente diferente do que é”. E, ok, isso não é uma mentira, realmente o nome, a capa, ou qualquer coisa assim não é suficiente para definir um fenômeno.

Acontece que existiu uma razão para o nazismo se apropriar do termo socialismo, e essa razão extrapola a lógica de apenas se apropriar do termo para enganar as pessoas.

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Cartaz nazista mostra um braço retirando uma bandeira comunista.

Felizmente, na disputa pelo termo os marxistas ganharam sem sombra de dúvidas, pois, atualmente, toda vez que alguém escuta a palavra socialismo, logo se lembra de nós, os marxistas. No entanto, o termo não foi inventado por Marx e Engels e antes deles diferentes pessoas utilizavam o termo para se referir a diferentes pensamentos.

No caso específico de Hitler, o socialismo a qual ele se referia era um socialismo tipicamente CONSERVADOR e alemão. Sim, por incrível que pareça existe (ou existiu) um socialismo conservador totalmente diferente do socialismo marxista.

Como sabemos, a Alemanha teve uma história completamente diferente das anteriores potencias mundiais França e Inglaterra. A Alemanha conseguiu unificar-se somente em 1871 (nesse período França e Inglaterra já tinham se unificado há tempos, tinham passado por revoluções e etc) e essa unificação aconteceu sob um Império, o conhecido II Reich. O I Reich teria sido o Sacro Império Romano Germânico, que contemplava partes da Alemanha (e os aristocratas reivindicavam como sendo o passado alemão) e o III Reich, como todos sabem, o de Hitler.

Antes da unificação, a Alemanha vivia numa espécie de semifeudalismo, mas de qualquer forma, a Alemanha não teve sua própria revolução burguesa como a Inglaterra e a França, e isso fez com que a tradição cultural do país não fosse tipicamente iluminista como nas duas outras nações, mas sim completamente aristocrata. Isso tornava a Alemanha um país “atrasado” na visão das duas potencias e, sem dúvida, tornava o país bem mais conservador.

Partindo dessa noção, Marx e Engels no Manifesto Comunista escreveram sobre os diferentes tipos de socialismo e no tópico “socialismo reacionário” existe um tipo específico de socialismo do qual Marx e Engels intitularam de “socialismo alemão ou o ‘verdadeiro socialismo’”. Sim, quando as ideias do socialismo utópico, tipicamente francesas, chegaram até os intelectuais alemães, eles alegaram que aquilo não era o “socialismo de verdade” e projetaram um novo tipo de socialismo tipicamente alemão.

Nas palavras de Marx: “Emascularam completamente a literatura socialista e comunista francesa. E como nas mãos dos alemães essa literatura tinha deixado de ser a expressão da luta de uma classe contra outra, eles se felicitaram por terem-se elevado acima da ‘estreiteza francesa’, e terem defendido não verdadeiras necessidades, mas a ‘necessidade da verdade’; não os interesses do proletário mas os interesses do ser humano, do homem em geral, do homem que não pertence a nenhuma classe nem à realidade alguma e que só existe no céu brumoso da fantasia filosófica”

É verdade que Marx ao construir o materialismo histórico e dialético utilizou-se de três diferentes heranças intelectuais: da noção de socialismo desenvolvida na França, da economia política desenvolvida na Inglaterra e da filosofia alemã. A Alemanha era um grande berço filosófico, mas tratava-se de uma filosofia tipicamente idealista. Enquanto os franceses pensavam num socialismo concreto, baseado na mudança real e na extinção das desigualdades (um socialismo ainda não completo porque não era científico como o desenvolvido posteriormente por Marx e Engels); os alemães pensavam no socialismo de uma forma idealista, acreditavam que os bons homens, de essência pura, alcançariam cada vez mais essa pureza da alma e a partir dessa conquista (no plano, obviamente, das ideais), seria possível alcançar uma nova sociedade também igualmente pura. Se um materialista acreditava que a mudança vinha de fora pra dentro, ou seja, constrói-se uma sociedade mais justa para que os homens tornem-se melhores; para grande parte da filosofia alemã, os problemas sociais eram gerados por maus homens, que precisavam primeiro mudar porque isso consequentemente geraria uma sociedade mais pura e evoluída.

O socialismo alemão dizia ser o “verdadeiro socialismo”, pois alegava que os franceses estavam presos em política e outras práticas que depravavam a alma. Isso mesmo, era comum do pensamento intelectual alemão acreditar que a política era algo “degenerado” e ruim e que os homens deviam se concentrar em elevar suas almas, e não mudar o mundo no plano concreto. Não à toa, por causa dessa cultura idealista, a Alemanha demorou muito pra se unificar, porque os intelectuais desincentivavam as ações políticas e, por vezes, acreditavam numa visão platônica -distorcida- sobre a sociedade em que possíveis líderes mais esclarecidos chegariam para iluminar o povo (basicamente o que o povo alemão deixou acontecer na unificação alemã de 1871 guiada por Otto Von Bismarck).

O socialismo alemão era tipicamente conservador, não concebia a noção da existência de classes sociais e era contrário à toda e qualquer ação política que rompesse abruptamente com as estruturas. E foi dessa fonte de “socialismo” que Hitler bebeu.

Aliás, o socialismo alemão acreditava que a sociedade podia viver harmoniosamente, mesmo com as diferenças entre ricos e pobres, as diferenças entre os que mandam e são mandados, porque existiria algo em comum que os uniria, e esse algo seria o ser universal, o homem em absoluto e em essência. Assim que toda a sociedade alcançasse este ser abstrato, ela seria um lugar melhor e todos viveriam em comunhão, em “socialismo”, que seria toda a nação (mesmo com as divergências) unida por uma mesma causa.

Hitler acreditava exatamente nisso e foi além. O socialismo de Hitler não visava a extinção das classes sociais, mas visava que as diferentes classes pudessem se unir em prol de um algo em comum, a Alemanha. Digo que Hitler foi além porque dentro dessa visão tipicamente idealista de que os problemas do mundo seriam resolvidos quando os “maus homens” evoluíssem, Hitler reformulou uma já velha ideia, a ideia de que algumas “raças” e indivíduos seriam moralmente superiores. Essa ideia já existia e já era muito forte na Alemanha, o que Hitler fez foi “concluir” que algumas “raças” não tinham sequer conserto e jamais evoluiriam espiritualmente e, portanto, para construir uma sociedade mais evoluída, era preciso eliminar esse mal. Assim nasce o pensamento eugenista de Hitler.

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Cartaz nazista exibindo o racismo da ideologia.

Mas por que isso era considerado “socialismo”? Ora, é preciso lembrar que Hitler de fato odiava o liberalismo – e é inclusive esse um dos argumentos rasos que os indivíduos de direita utilizam para dizer que nazismo era de esquerda – e odiava porque dentro do liberalismo o nacionalismo se enfraquecia cada vez mais e as pessoas já não buscavam mais o “algo em comum” e sim viviam suas vidas de maneira cada vez mais individual. Não pensavam num “bem para a nação”, mas sim num bem para si próprios e isso irritava Hitler. Na concepção hitleriana de socialismo, a palavra significava que os indivíduos prezariam pela sociedade como um todo e não só pelo individual e ao pensar nessa sociedade, todos coletivamente ajudariam a cooperar e a construir esse novo mundo ideal. Por isso, Hitler era extremamente racista e nacionalista, pois como não iria extinguir as diferenças primordiais existentes entre as classes, precisava que os alemães das diferentes camadas sociais, se sentissem pertencentes a um mesmo ideal e ligados por um mesmo sangue. Hitler fazia com que pobres e ricos se sentissem “irmãos” através da raça e da nacionalidade em comum, pois todo o resto continuava infinitamente desigual.

O pensamento coletivista não é exclusividade da esquerda e acreditar nisso fez com que muitos direitistas enxergassem em Hitler um resquício esquerdista. O liberalismo e a pregação exacerbada do individualismo não são a única forma possível de direita. Aliás, até mesmo dentro do liberalismo é possível existir um coletivismo quando necessário. Quando a extrema direita está no poder e deseja controlar as massas, ela precisa apelar para o coletivismo, para o sentimento de igualdade e de pertencimento. Inclusive, não é incomum ouvir nos dias de hoje indivíduos da classe trabalhadora perdendo todos os seus direitos dizendo algo como: “vou fazer esse sacrifício pelo bem do Brasil”, é a velha ideia de que é possível abrir mão de seus anseios e direitos pessoais por um “bem em comum”. Ideia essa que se não atrelada a uma prática política revolucionária, é facilmente apropriada pelo conservadorismo, pois o mesmo apelará para a “moralidade” do cidadão. Bons cidadãos fazem caridade, pensam no outro, buscam a igualdade, só que sem a prática política coerente são cooptados pela direita conservadora que dirá que todo esse anseio é fruto de uma “bondade cristã” e não de um anseio revolucionário de mudar o mundo.

Aliás, Hitler não se baseou somente no pensamento típico de seu país, ele também se inspirou nos clássicos gregos. Hitler era um exímio amante da filosofia grega em especial os escritos de Aristóteles e Platão. No que diz respeito a Platão em específico, por exemplo, se inspirou bastante na ideia do filósofo sobre uma “República”. A visão sobre uma sociedade específica de Platão encontrada em “A República” abarca a ideia de que o melhor tipo de governo é um governo aristocrático, não hereditário, mas sim um em que o aristocrata em si alcançaria o poder pelo mérito, um governo exercido pelas pessoas mais sábias do Estado. Se parece bastante com o regime que Hitler instalou na Alemanha, inclusive. Uma elite “sábia” governaria o povo por meio de duras repressões, se necessário. Não estou dizendo que Platão era um nazista, mas sim admitindo que suas ideias foram apropriadas, modificadas e até mesmo mal interpretadas por ditadores.

Hitler discordava completamente da visão de que a sociedade era dividida em classes sociais. Ele, diferente dos marxistas, acreditava que as mazelas sociais não eram causadas por uma desigualdade social, mas sim pelo espírito impuro de alguns. Por exemplo, para um materialista, a violência não é o problema em si, mas sim uma consequência de um problema maior que é a desigualdade causada pela propriedade privada. Porém, para os idealistas de direita, a violência é um problema não causado pela realidade concreta, mas pelos violentos em si que são pessoas más por essência e, portanto, para acabar com a violência é preciso eliminar quem a causa. É uma visão eugenista de melhora da sociedade, visão eugenista que já era defendida (de formas diferentes) por Platão.

Atualmente é impossível chamar Hitler de socialista, porque a disputa por esse termo já foi vencida por nós marxistas e, hoje em dia, ser socialista significa ser de extrema esquerda, significa buscar a extinção das classes sociais e da propriedade privada. Porém, precisamos analisar Hitler baseado em seu tempo, pois se olharmos para o partido nazista com a visão que temos hoje sobre o que é socialismo, realmente vai parecer surreal o encaixe do termo com a ideologia nazista. Mas, Hitler queria mesmo retirar a palavra socialismo dos marxistas e é, por isso, que o partido nazista tinha socialismo no nome, se Hitler tivesse ganho a Segunda Guerra, talvez tivesse conseguido se apropriar do termo, talvez tivesse ganho a disputa ideológica; como perdeu, porém, o socialismo que Hitler idealizava foi completamente esquecido, mas ele existiu e precisamos relembrar disso.

Não nos esqueçamos que termos e conceitos são também objetos de disputa entre as classes sociais e da mesma forma que o termo “democracia” foi alvo de incansáveis disputas, e foi no fim apropriado pelos burgueses, o termo socialismo, felizmente, ficou com a gente.

Aliás, ainda no Manifesto Comunista, Marx e Engels falam sobre o socialismo conservador ou burguês, um socialismo que criaria uma sociedade igual não pela eliminação da desigualdade, mas pela eliminação dos desiguais; também algo semelhante com o que Hitler idealizava sobre o termo.

Socialismo, em seu cerne, significava uma sociedade mais igualitária que vivesse em comunhão, agora a forma como as pessoas acreditavam que iam alcançar isso variava e MUITO. Se formos pensar no termo de forma seca, que programa político ou pessoa não anseia alcançar a igualdade e a harmonia, alias? Todos os espectros políticos podiam se considerar socialistas se socialismo significasse somente isso, como já significou, a questão é que alguns acreditam que chegarão a esse resultado mascarando as diferenças sociais e pedindo para que trabalhador de a mão para o patrão que lhe explora pelo bem “em comum”.

Por fim, deixo as palavras do próprio Hitler que evidenciam bem a disputa que ele queria travar pelo termo: “Socialismo é a ciência de lidar com o bem comum. Comunismo não é socialismo. Marxismo não é socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Eu irei tomar o socialismo dos socialistas” e também: “O marxismo não tem o direito de se disfarçar de socialismo. Socialismo, ao contrário de marxismo, não repudia a propriedade privada. Ao contrário do marxismo, não envolve a negação da personalidade e, ao contrário do marxismo, é patriótico.

Basicamente, Hitler queria que as pessoas esquecessem as diferenças produzidas pelo capitalismo e se unissem pela nação; nada de muito diferente do que grande parte dos governos burgueses fazem hoje em dia, a diferença é que ele chamava isso de socialismo.


Texto originalmente escrito por Veronica Domingues.

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