Patrícia Galvão (Pagu) e as Crônicas de Ariel

Trecho retirado do livro “Pagu – Vida-Obra” de Augusto de Campos, lançado em 2013.

Sob o pseudônimo de “Ariel”, Patrícia Galvão publicou cerca de uma centena de crônicas diárias, de 22 de agosto a 31 de dezembro de 1942, no jornal A Noite, de São Paulo, então dirigido por Menotti del Picchia.

Tais colunas faziam parte da seção Social. A crônica inaugural, Primeira página, sai, curiosamente, na edição extraordinária que anuncia o ingresso do Brasil na segunda conflagração mundial com esta manchete: o Brasil na guerra revidando ativamente as afrontas totalitárias. O presidente Vargas decreta o estado de beligerância entre o nosso país e a Alemanha e a Itália.

Das crônicas de “Ariel”, além da inicial, em que Patrícia procura dessemantizar a “crônica social” para se defender e se liberar dos limites do gênero, escolhemos para esta antologia duas de teor poético — o dominante nestes escritos —, “Mixigne” e “Algures”; e, ainda, “Cante, poeta”, interessante pela contradita a Mário de Andrade, uma divergência que, oriunda dos tempos da antropofagia, se mantém ao longo dos anos e que irá repontar mais adiante em “Depois de amanhã Mário de Andrade” (23 de fevereiro de 1947), da série Cor Local, e na “Contribuição ao Julgamento do Congresso de Poesia” (9 de maio de 1948).



PRIMEIRA PÁGINA

A tarefa circunscrita é esta. Uma crônica social. O tradicional cantinho do jornal infalivelmente presente nos mais humildes hebdomadários rurais, veio ocupar nesta nova folha o seu lugar obrigatório. Porque há tradições que ninguém se lembra de afastar, tradições inofensivas, contra as quais nem uma revolta estala, nem uma inovação se lembra de intervir. Mas, quem sabe, se a imposição superficial do título não oculta uma evolução subterrânea, adstrita às naturais contingências da transformação?

Cada momento pode ter a sua exigência específica. A expressão “crônica social” da rotineira terminologia jornalística, pode ter hoje uma significação mais transcendente. Há sempre a eventualidade de novos voos.

Nestas horas de contradição imperante, de milagres e fenômenos de toda a categoria, a semântica não poderia se evadir. As palavras têm que satisfazer às necessidades desdobradas.

A sociedade humana considerava o “social” revestido de veludo e de refinamento luminoso. Era um termo encantado, cheiroso, poético, monopólio acetinado da aristocracia educada em reunião. Encenava as curvaturas que se aprendem, o jogo fidalgo da superficialidade.

“Social” é hoje um termo rotineiro, distribuído aos trapinhos, a todas as camadas, a todas as condições, com interpretação facultativa.

E agora? Vamos falar de cores, do lustro dos tecidos em voga, do decote feminino, de uma palestra intencionalmente metafísica? Vamos falar de bailes, aniversários, reuniões? Vamos descer as escadas de alabastro e chegar à democracia dos termos, das ideias, do que existe por aí, na sociedade humana, quero dizer, na condição humana?

Se voltarmos à finalidade da crônica não há necessidade de perguntas. Voltemos pois à estratégia de nosso campo. Não escrevemos para nós. O jornalismo não é um ideal. É uma profissão. Todos os dias uma crônica social sem a liberdade da incineração voluntária para as produções que mais respeitamos. Vamos escrever para quem lê. Procuraremos escrever para quem lê. O nosso esforço deve ser esse.

– ARIEL


CANTE, POETA

Desejaria conversar…

Um pouco de literatura, preferivelmente da mais sutil e refinada literatura — a poesia de todos os séculos.

Talvez o sr. Mário de Andrade tenha razão quando declara que “não estamos sem dúvida vivendo uma época de literatura”. É um ponto de vista absolutamente respeitável. Mas o sr. Mário de Andrade, com a sua responsabilidade de mestre, pode desprezar esta parte da sua vida com a serenidade que um entusiasmo novo não possui.

Embora reconhecendo a gravidade do momento, discordo da presente opinião do autor de “Remate de Males”. A minha possível irresponsabilidade recusa fechar a única porta de evasão para um mundo erigido de acordo com o nosso desejo. Que seria da vida, sem poesia?

É uma necessidade conversar com os poetas. E se os poetas morrerem, procurarei os mortos, as flores do mal que estão na minha estante. E existe também a poesia no ar, a vaga música imune aos gases mortíferos, invulnerável aos bombardeios. Coloco-me irredutivelmente na estrada de Cecília Meireles.

No estrondo das guerras que valem meus pulsos?
No mundo em desordem, meu corpo que adianta?
A quem fazem falta, nos campos convulsos
Meus olhos que pensam, meu lábio que canta?

O poeta é um espécimen predestinado, habitante de um compartimento especial, que nada tem a ver com o nosso mundinho. Consente quando muito abrir as janelas, para que ouçamos de fora a deliciosa música subjetiva.

A guerra não pode produzir uma literatura de guerra. Pode no máximo ser um pretexto às vibrações dos privilegiados, dando oportunidade à criação de páginas notáveis, a novas canções como as que lembram um vento de mar, ou uma rosa morrendo.

Se o poeta ou o escritor baixar de suas quimeras ou de suas ficções para buscar expressamente, no momento objetivo, motivos para as suas produções, deixa de ser literato ou poeta. Transformar-se-ão em dignos militantes de uma causa que pode ser muito venerável ou em pintores descritivos dos acontecimentos.

O sr. Mário de Andrade não quer desconversar.

Converse, sr. Mário. Mas também cante. Inutilmente? Não, não será inutilmente.

Cante, e será útil, útil mesmo, às descontinuadas esperanças, aos corações amargurados, àqueles que se encontram sem um ponto de apoio nas bordas destes precipícios. Que pode fazer o poeta senão cantar?

Não fique silencioso. Cante nas horas vagas.

– ARIEL


MIXIGNE

Encontrei um de meus companheiros atrapalhadíssimo com um monte de antologias e glossários à sua frente. Já havia consultado todos os “pais dos burros”, e não havia encontrado a significação de uma palavra que ouvira de uma formosa boca, muito de seu interesse, numa palestra de salão. A graciosa menina, no dizer de meu amigo, narrando a história de um homem, terminara com esta expressão: “Ele é mixigne”.

Não querendo demonstrar ignorância na presença de instruída senhorinha calouse, mas, dali mesmo saiu para a via-sacra dos livros avantajados que ensinam coisas. Evidentemente já havia indagado a explicação do estranho termo a todas as pessoas conhecidas, a todas as enciclopédias.

Desalinhado, sonolento, desesperado, estava a ponto de resolver uma telefonada anônima diretamente à detentora do vocábulo, quando um pequeno da redação, um menino de recados se ofereceu timidamente para elucidar o problema.

“Trabalhei na casa de um mixigne”.

Nada mais acrescentou. Apenas sabia que o seu antigo patrão era mixigne.

De posse do endereço, corremos à casa do desconhecido. Era tal a nossa impaciência para desvendar o enigma que até esquecemos de nos apresentar:

— “O senhor é mixigne?”

E antes da resposta:

— “O que é isto de mixigne? Que profissão ou que doença é isso?”

O interlocutor, saboreando a nossa ignorância, meteu-nos a porta na cara. Estávamos na mesma. Desoladíssimos, deixamos o quarteirão. Íamos tomar o primeiro transporte que aparecesse.

No bonde vinha o autor da “Experiência no 2” e outros mecanismos. Ele anda agora de bonde porque ainda não tem gasogênio no seu carro, que sempre foi um transporte coletivo. O nosso amigo Flávio de Carvalho deu-nos a chave de tal gregueria:

O mixigne é um homem que se equilibra no ar, desobediente à gravitação, ao dicionário, que consegue esmagar a relatividade das coisas e dominar todas as perspectivas de uma só vez. É o que nos deixa com as palavras quando a nossa vaidade procura convencer, é o que sorri quando há tristeza, e troca os sapatos com o primeiro defunto. O mixigne conversa apenas com o candidato suicida, lê jornais velhos e livros que não existem. Apanha flores nos jardins suspensos das lendas e conta histórias às crianças. E no meio das luzes de uma cidade nascente, desconhecendo o trânsito, os apitos, as buzinas, posta-se no meio dos trilhos para falar às estrelas.

— ARIEL


ALGURES

Algures é um lugarzinho lúgubre onde ardem céus e terra, onde existem cheiros e destroços, onde moram, em casas soterradas e ruínas, a palidez, a fadiga, o entusiasmo, a vingança. O céu de Algures é um céu de fogo e a terra está doente. Às vezes, um rio vermelho é cruzado por embarcações fantasmas, por barcos de mortos e feridos, com mulheres queimadas e crianças transformadas em carvão. Às vezes Algures é branco, frio e silencioso.

Os estudantes de geografia nunca ouviram falar nesta pequenina terra que se chama Algures. Nem os geógrafos ou os cartógrafos mais consagrados souberam da existência desta terra de fumaça descoberta pela guerra de nossos dias.

Mas, hoje, mesmo as crianças já conhecem Algures.

Sabem que na devastação noturna vultos negros se movimentam na direção das tragédias. E sabem que, à luz do sol, única neutralidade que se sobrepõe a todas as circunstâncias, os corpos em catálise apresentam ostensivamente o seu fenômeno. Massas de carne viva, buquês de cabeças na primeira infância, olhos perfurados e monstros sem braços e sem pés. Corações pálidos, respiração venenosa, ruas e subúrbios soturnos. Às vezes a planície atacada de calor emite sons desconhecidos e os passarinhos se escondem dos homens.

Uma criança corajosa aparece, numa nesga de luz, batendo mãozinhas à feerie da morte. Possui olhos de poeta e gosta das ondas do mar. Não sabe que o mar é vermelho e está morto. Segura, como a um bichinho, aperta, nas mãos, os cerebelos dos que morrem. Depois dorme amamentada de sangue, a cabeça nos lírios ridentes, o corpo estendido na poeira que o envolverá dentro de alguns minutos.

Bate ainda o coração da cidade devastada. Batem as tábuas e as farpas queimadas. Os subterrâneos se enchem de farrapos, crianças, mulheres, comandantes.

Num barracão desmoronado, um padeiro coloca pães no forno, habituado à nova sinfonia.

De Algures, alguém telegrafa para o mundo pedindo atenção.

—ARIEL

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