Samora Machel – “A Liderança é Coletiva, a Responsabilidade é Coletiva”

Escrito em: 1972. Publicado pela primeira vez em: 1972

Fonte: Samora Machel, Moçambique Plantando as Sementes da Revolução, Moçambique, pág. 16-20

Tradução: Túlio Lisboa

Resumo das Recomendações do Presidente feita em reunião conjunta com instrutores e outros quadros no Centro para Treinamento Político e Militar da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique)

1. O trabalho do CPPM (Centro para Treinamento Político e Militar) não é produzir “assassinos”, mas sim treinar verdadeiros guerreiros revolucionários, autênticos soldados da FRELIMO.

O que caracteriza o soldado da FRELIMO é sua consciência política. Nós treinamos guerreiros cuja tarefa essencial é construir uma nova sociedade, e porque isto só pode ser construído em um território livre da ocupação inimiga, o guerreiro deve ser treinado para eliminar fisicamente o inimigo.

Um guerreiro é, portanto, um agente consciente e ativo na transformação da sociedade. O CPPM é o laboratório onde criamos este agente da mudança, o homem novo.

2. Nosso lema é: produção, estudo e combate. Este lema sintetiza a nossa linha política. O nosso guerreiro combina estes três fatores. A produção fornece as necessidades materiais de guerra, estudo político nos fornece a nossa identidade, enquanto o estudo científico nos possibilita desenvolver nossa produção e melhorar nossas técnicas de combate.

A batalha contra o inimigo físico nos fornece a terra, de onde a produção e a renovação da sociedade emergem e libera a população, da qual novos guerreiros virão. A batalha contra o inimigo em nossas mentes (a ideologia capitalista imposta pelo colonialismo e a ideologia feudal herdada pela tradição) consolida a nossa vitória física, assenta as fundações da nova sociedade e torna o nosso progresso irreversível.

O nosso lema deve ser aplicado pelo nosso método de treinar guerreiros.

3. A batalha contra o inimigo que vive em nossas mentes é a mais difícil. A nossa inteira educação, a nossa tradição, a nossa vida inteira até o momento em que nos unimos ao FRELIMO nos faz ver e cultivar como virtudes o que a nossa nova sociedade rejeita como defeitos. O CPPM, em sua maneira de ser, demanda uma mudança radical em valores, atitudes e comportamento. Camaradas recém-chegados são introduzidos a uma vida a qual eles nunca conceberam, a qual nunca pensaram ser possível. Então causa um choque e tanto.

4. Nós nunca devemos pensar no homem como um autômato, que deve receber e transportar ordens independentemente se as entendem ou as tem assimilado. Líderes devem lutar contra a dolorosa tendência de resolver problemas políticos por meio de decisões administrativas. Esta tendência leva a uma ditadura burocrática e cria agudas contradições com os operários.

A nossa vida e a nossa disciplina podem se basear apenas na consciência e no envolvimento voluntário. Portanto, quando recrutas chegam no CPPM, a liderança do campo deve debater com estes e explicar a vida no mesmo e seus valores basilares.

5. Os recrutas devem ser guiados a progressivamente adotar nossos valores.

A primeira batalha é para instigar a consciência nacional e a importância da unidade e de romper com o tribalismo. A consciência de classe deve ser acentuada e profundamente percebida, junto com a necessidade de estreita unidade entre camponeses e trabalhadores para ganhar o poder. Estreitamente relacionado com a batalha por unidade está a luta por romper com o espírito de individualismo e por promover o espírito coletivo.

Roubar é um ato egoísta, um ato de desprezo aos interesses de um camarada. O ladrão deliberadamente fere seus camaradas para satisfazer seus interesses mesquinhos. Roubar a camisa de seus camaradas não resolverá o problema da nudez. Guerreiros devem ser ensinados a devolver mesmo a agulha que encontrarem. Mesquinharia e desperdício refletem a indiferença frente a propriedade do partido e um entendimento muito errado do que isto significa. Em casa ninguém abandona uma enxada ou joga fora comida, porque quando a pessoa tem que trabalhar para adquirir tais coisas, reconhece seu valor. Todos precisam estar completamente cientes de que tudo que a FRELIMO possui foi pago com o sangue de nossos camaradas e o suor de nossos amigos, e que o sangue e suor são parte do objeto, ou comida, que adquirimos. Neste ponto devemos atrair a atenção dos camaradas para o fato de que não devem sair vestindo trapos. De fato, isto não apenas impede a esperteza militar, porém o principal é que um pequeno buraco ou rasgo que não é reparado a tempo, logo se tornará um grande buraco, um grande rasgo, e então as roupas deverão ser descartadas. Para ajudar nossos camaradas a entender a necessidade disto, nós devemos, tanto quanto possível, distribuir agulhas e linhas.

6. Liberar o senso de iniciativa criativa das massas é uma pré-condição essencial da nossa vitória e um dos principais propósitos da nossa batalha.

Se as massas estão dispostas a exercer o poder, o poder tão duramente conquistado, elas devem demonstrar iniciativa. A opressão colonial, tradição, ignorância e superstição criam um senso de passividade no homem, o que sufoca a iniciativa.

Criar o senso de iniciativa é também criar o senso de responsabilidade e fazer o militante se sentir diretamente preocupado com tudo relacionado à revolução, à nossa vida. Ele deve sentir que é a FRELIMO, que o destino da FRELIMO depende de seu comportamento.

7. Se os guerreiros estão prontos a cumprir sua tarefa, é essencial que entendam a correta definição de quem é o inimigo, e poder distinguir claramente amigo de inimigo, mesmo se o último estiver camuflado sob a mesma cor, língua, laços familiares ou marcos tribais que eles mesmos, mesmo que ele levante a bandeira conosco.

A batalha contra o tribalismo, racismo, falsas religiões, e lealdade familiar, e por aí vai, é essencial no cartucho de nossa arma sempre estar treinado no alvo correto.

8. A emancipação das mulheres é uma das tarefas centrais da FRELIMO, sendo assumida principalmente pelo Destacamento de Mulheres.

Nós devemos garantir que todos os militantes e quadros estão comprometidos a respeitar o Destacamento de Mulheres e enxergar seus membros como suas mães, irmãs e esposas. Nossas camaradas mulheres devem assumir seus deveres e corretamente entender sua missão como mães da revolução, como educadoras da futura geração que será a continuidade da revolução. Elas devem também aprender a respeitar seus próprios corpos. Também há uma necessidade de enfrentar preconceitos reacionários entre ambos, homens e mulheres, sobre as habilidades das mulheres e seus papeis na revolução, na sociedade e em casa.

9. A solidariedade internacional tem um importante papel na nossa revolução. Não teríamos chegado ao presente estágio de desenvolvimento em nossa batalha sem a ajuda que recebemos das forças progressistas do mundo.

A luta das pessoas e dos trabalhadores do mundo inteiro contra a exploração do homem e pela construção de uma nova sociedade é um fator decisivo na criação de condições favoráveis para a vitória da nossa luta na presente era.

O espírito internacionalista é uma característica essencial de forças revolucionárias; um trabalho duro é, portanto, necessário para fazer nossos militantes perceberem quais são nossos amigos e aliados a nível internacional, e para adquirir um espírito internacionalista.

10. O estudo combinado com a prática é uma ferramenta fundamental com a qual enriquecemos a nossa consciência política e ganhamos o conhecimento necessário para mobilizar a natureza e suas leis para o nosso lado. Além de nos fornecer munição para combater a superstição.

Um programa de constante educação política deve, portanto, operar em todos os níveis: quadros, instrutores, quadros dirigentes, a base do Partido e o Destacamento de Mulheres.

Devem haver regulares e frequentes encontros com as unidades, seja por companhia ou batalhão inteiro. É negativo apenas assegurar encontros quando os mesmos são convocados pelo presidente, o Comissário Político Nacional ou outras lideranças do alto escalão.

Educação científica e literária é um requisito da nossa luta armada, da nossa luta contra a ignorância e superstição e dos nossos esforços no desenvolvimento econômico e social.

É inadmissível que nós possamos ter quadros, especialmente instrutores, que são iletrados e não possam falar português.

Então, a prioridade deve ser lutar contra o analfabetismo e a falta de conhecimento da língua portuguesa entre instrutores e quadros, e em segunda fase a luta deve ser abrandada para incluir o Destacamento de Mulheres e a completude do campo.

Instrutores e quadros que possam ler, escrever e falar português devem elevar contínuos e constantes programas para melhorar o conhecimento científico e literário. Programações podem incluir a história e geografia de Moçambique, a língua portuguesa, aritmética e geometria, princípios da Física, Química, e as ciências naturais. Tal programa deve incluir leituras regulares e discussões sobre as novas técnicas e métodos de produção, particularmente nos campos da agricultura e pecuária.

Adquirir bons hábitos de higiene, tanto pessoais quanto coletivos, é decisivo para a prevenção de muitas doenças. O treinamento básico dos soldados, logo, podem incluir um programa nacional de aulas de higiene e um conhecimento básico de primeiros socorros. Do mesmo jeito, mas em um nível superior, podem haver cursos semanais de higiene e primeiros socorros para instrutores e quadros.

À importância da cultura deve ser dada uma séria ênfase, já que expressa as características específicas de nossa identidade nacional.

Poderiam haver programações regulares de músicas, performances, recitais, e assim em diante, com as companhias, instrutores e quadros.

11. A produção nos é essencial. Sem isto, não apenas pode a guerra não avançar, mas seria impossível garantir a sobrevivência do povo, muito menos atender às necessidades crescentes das massas.

Em última análise, a principal contradição fica em se é pra ser um punhado de exploradores, novos ou antigos, ou as massas, quem deve controlar os meios de produção, para um bem maior da sociedade e melhor progresso social e econômico. Logo, a produção em nosso exército é uma escola de independência.

Em nossos centros, o lado prático da produção é satisfatório; o que é preciso agora é relacioná-la mais estreitamente à teoria, para que a experiência possa ser trocada, entendida e internalizada. Felizmente estamos começando a ter um crescente número de jovens recentemente treinados em lugares diretamente relacionados à produção. Nós devemos tentar espalhar os seus conhecimentos científicos e teóricos entre nossos instrutores e quadros por meio de conversas e pequenos cursos. Isto nos possibilitará a melhora de nossas técnicas de produção e conquistar maior diversidade.

12. A característica do chefe  dos nossos CPPM’s (Centro para Treinamento Político e Militar) é ensinar técnicas militares, treinar homens para apagar o inimigo fisicamente, e isto é o que os distingue de quaisquer outros centros da FRELIMO, como escolas, hospitais, cooperativas, etc.

Cada grupo, dependendo do seu próprio conhecimento e experiência básicas, pode receber um treinamento específico. Ao treinar um grupo de guerreiros, devemos considerar as tarefas a que eles serão chamados a cumprir, para que o treinamento corresponda aos requisitos genuínos. Nós devemos acostumar os guerreiros às condições reais de batalha. Durante o treinamento, os guerreiros nunca devem abandonar suas armas, mochilas ou lençóis. Nós devemos aumentar o número de longas marchas com pequenas alimentações e curtos períodos de descanso. Nós devemos insistir em marchas noturnas. Os guerreiros devem se acostumar a construir abrigos, trincheiras, túneis e tocas, individuais e coletivas.

13. Bons e maus hábitos são adquiridos pelas unidades durante o treinamento. Se o nosso ensinar é pra valer a pena, o nosso comportamento deve confirmar o que nós dizemos, confirmar nossa linha política. Quadros dirigentes, instrutores e quadros devem guiar a luz para a nova forma de comportamento. Para as unidades, isto é o que personifica a linha política da FRELIMO. Qualquer que seja o nosso comportamento, nossa união ou desunião, nossa disciplina ou indisciplina, nosso trabalho duro ou preguiça, nosso espírito coletivo ou egoísmo, nossa dedicação revolucionária ou corrupção, isto é o que será repassado às unidades, porque isto será interpretado como a realidade da linha do FRELIMO.

Com a exceção de programas estritamente militares, os programas políticos, educacionais e culturais nos CPPM’s não têm sido bem-sucedidos como gostaríamos, devido principalmente à falta de continuidade. Nós iniciamos coisas e então as interrompemos, e por fim elas morrem. A desculpa comum é de que a pessoa no comando do programa estava ocupada, ausente, enviada em uma nova missão, etc.

Isto não faz sentido e deve acabar. Uma das razões porque vários quadros a nível nacional são nomeados à liderança do CPPM é para garantir uma continuidade regular e inquebrável de todos os programas. A grande responsabilidade apontada pelos quadros requer que eles tenham uma flexibilidade suficiente e habilidade para prosseguir com o programa de um colega que talvez por alguma razão não pode continuá-lo por si mesmo.

14. A liderança é coletiva, e apesar de cada membro da liderança ter uma tarefa em específico, não há duras e rápidas divisões das mesmas.

O dever de cada membro é estar preocupado com todo o trabalho, ver se ele é realizado e apresentar ideias e críticas. A liderança é coletiva e a responsabilidade é coletiva.

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