Amílcar Cabral – Conhecer bem nossa própria força e a força do inimigo

Texto originalmente publicado no livro “Amílcar Cabral – Unity and Struggle”, lançado em 1979.

Traduzido do inglês por Pedro Magalhães.


Assegurar articulação e informação

Para continuar o desenvolvimento vitorioso da nossa luta, devemos:

A. Conhecer bem nossa própria força, em todo momento ter um perfeito entendimento das coisas que podemos e não podemos fazer ainda. Avaliar com cuidado nosso potencial em cada área, em cada unidade das forças armadas, sempre agir em acordo com esses potenciais e fazer tudo o que for possível para melhorar a nossa força e capacidade tanto humana quanto material. Nunca fazer menos do que podemos e devemos fazer, mas nunca tentar fazer algo que não estamos ainda em condições de fazer. Fazer e manter diariamente em cada área um inventário de nossa força em homens e material.

1. Saber a todo momento o número de homens armados, quer seja na guerrilha ou no exército ou na milícia ou por indivíduos. Saber o número de homens que podemos armar assim que adquirirmos o material necessário para. Conhecer cada trabalhador responsável e cada combatente o melhor possível (suas qualidades, suas dificuldades) para melhorar o que já for bom e lutar e aniquilar o que for ruim.

2. Saber precisamente a todo momento o número e os tipos de armas nas mãos dos combatentes e as que estão nos arsenais. Fazer uma lista em todas as bases da guerrilha e em cada unidade do exército com os nomes dos combatentes e, na frente, o tipo e o número de armas que forem distribuídas a eles. Sempre ter uma lista da quantidade de armas e munições mantidas nos arsenais. Geralmente, toda arma deve estar nas mãos de um combatente ou um grupo de combatentes; manter munições em arsenais bem protegidos, sob a responsabilidade de camaradas completamente confiáveis.

3. Tomar todas as medidas necessárias, em colaboração estreita com os órgãos superiores do Partido, para assegurar o suprimento de armas e munições para as nossas forças. E, nos casos em que o material venha de longe, assegurar a passagem segura deste material pela rota que tem que seguir e, para isso, é essencial controlar as zonas de trânsito para material e formar grupos especiais para a escolta e proteção do material. Alcançar cooperação voluntária do povo para o transporte do material, mantendo-os informado de nossas necessidades de armas e munições para defesa e deixando-os ciente do valor de sua ajuda. Separar grupos combatentes de áreas de baixa atividade para ocupação temporária no transporte de material. Mas agir firme e justamente contra todos e quaisquer elementos da população ou combatente que se recuse a cooperar na responsabilidade de transporte de material. Calcular para cada área e cada frente da luta as necessidades de material a longo prazo, sobretudo em munições, de forma que seja possível assegurar reservar de material, evitando situações difíceis.

4. Poupar munições e cuidar das armas e seus acessórios cuidadosamente; treinar pessoal para a tarefa de consertar armas. Tornar cada homem ou mulher responsável pela correta manutenção de armas solicitada e solicitar um cálculo das munições usadas nas bases, em unidades e por combatente. Fazer tudo o que for possível para capturar armas e munições do inimigo, quer seja durante as operações ou através de invasões planejadas para obter material.

5. Faça tudo o que for possível, como sempre, para assegurar suprimentos alimentícios para os combatentes, na base da produção do nosso país e de nosso povo. O povo precisa ajudar a luta provendo comida para os combatentes, mas estes precisam ajudar o povo sempre quando possível no trabalho de agricultura ou em outras tarefas (reconstrução de casas, cuidando do rebanho, lutando contra as consequências de tempestades e alagamentos, etc.). Além disso, combatentes, tanto membros de guerrilhas quanto do exército, devem cultivar seus próprios campos nas áreas onde estão para assegurar ao menos parte das suas necessidades alimentares. Nas áreas livres, estabelecer parcelas coletivas para suprir as forças armadas, onde a população e tais forças trabalharão juntas para alcançar a necessidade básica da luta. Somente em casos bastante excepcionais o Partido poderá ajudar os combatentes a obter comida: em áreas onde não há nenhum potencial de cultivo ou nenhuma população local, como também em algumas zonas de fronteira onde a presença de nossas forças seria essencial e haveria dificuldade em obter comida a partir de nossa própria produção. Porém, mesmo nestes casos, passos precisam ser dados urgentemente para obter o alimento necessário da nossa terra, uma vez que o Partido não poderá prover ajudar por um longo período. Para suprimentos às zonas menos favorecidas em comida, provisões deverão ser enviadas de áreas mais favorecidas e isto está na direta competência do trabalhador responsável por suprir as forças armadas da inter-região. A todo custo, devemos assegurar suprimentos alimentícios aos combatentes a partir da nossa própria produção em nosso país.

B. Prestar a máxima atenção à questão da informação, articulação e coordenação da luta

1. Desenvolver em todos os lados redes de inteligência sobre o inimigo. Essa tarefa está principalmente dentro da competência dos responsáveis pela segurança, mas os órgãos de liderança coletiva do Partido devem prestar a máxima atenção. Precisamos constantemente coletar informações sobre as circunstâncias dos inimigos, número de homens, quantidade de armamentos, principais características do acampamento e quartéis, localização dos quartéis, das armas pesadas, da localização dos oficiais e da habitação dos suboficiais, do paiol, das sentinelas, o sistema de vigilância durante as refeições, inspeção, hábitos de soldados e oficiais, contatos com africanos que vivem fora do acampamento, etc., etc. Temos que poder infiltrar agentes no coração das forças do inimigo para nos dar informações, capturar elementos do inimigo para obter informação, estabelecer contatos com os que são contra a guerra colonial para obter informações deles. Fazer operações planejadas com o objetivo principal de descobrir as circunstâncias (força existente, poder de fogo, espírito combatente, localização de certas armas, posição de abrigos, etc., etc.).

2. Não deixar o inimigo começar um movimento sem o nosso conhecimento. Nunca deixar o inimigo nos pegar de surpresa. Fortalecer patrulhas, todas as patrulhas necessárias, para serem vigilantes e sempre terem em mente que a melhor vigilância é alcançada por ação diária e permanente contra o inimigo.

3. Assegurar, por todos os meios disponíveis (homens, mulheres, crianças, buzinas de sinalização a longa distância, tambor falante, rádio), articulação entre a liderança da luta e os diferentes setores da luta, e entre as diferentes unidades em ação em uma dada área. Fazer tudo o que for possível para coordenar a nossa ação, tanto na defesa quanto no ataque, independente do tipo de ação a ser executada.

4. Manter as várias frentes da luta informadas sobre o que está acontecendo em cada fronte, sobre as nossas ações e, principalmente, sobre as vitórias alcançadas contra o inimigo. Formar grupos especiais par articulação, comunicações e coordenação na luta. Colocar trabalhadores responsáveis capacitados na liderança desses grupos em todas as regiões e zonas e sob a direção do órgão de liderança na área. Frequentemente desenvolver operações combinadas (coordenadas) dentro de uma única zona, entre várias zonas da região e em várias regiões. Manter permanente articulação com a mais alta liderança do Partido e entre os vários órgãos de liderança do Partido e da luta.

5. Instalar urgentemente comunicações de rádio dentro do país, tanto na inter-região e entre norte e sul, e com a mais alta liderança do Partido. Para isso, é necessário instalar o aparato que possuímos e escolher os homens ou mulheres capazes de usar esse aparato adequadamente. Não esquecer do uso de códigos em comunicações pelo rádio e insistir que tais comunicações devam ser breves e feitas somente quanto absolutamente necessárias forem.

6. Cada trabalhador responsável deve constantemente ter em mente o fato de que ninguém consegue ir bem na luta quando se sente isolado. Além do mais, a liderança do Partido não pode realizar suas funções propriamente se não está atualizada com o progresso da luta em todas as áreas do país.

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