Temos que sonhar: a antecipação e a esperença como categorias do materialismo histórico

Este texto foi a contribuição de Ernest Mandel para um colóquio realizado em 1978 em homenagem ao filósofo marxista Ernst Bloch (1885-1977) e foi publicado pela primeira vez em 1980. Neste artigo Mandel utiliza categorias desenvolvidas por Bloch, tais como ainda não e realmente possível, para examinar a necessidade de incorporar noções de futuro no pensamento socialista.

Originalmente publicado no site Marxists.

Tradução por José Roberto Silva.

Arte da capa por Tatiana Yablonskaya.


Do ponto de vista marxista, o trabalho e a capacidade de comunicação avançada são os dois aspectos mais importantes do ser humano como um ser social. O trabalho social é impossível sem uma comunicação humana avançada e interpessoal, incluindo a capacidade de utilizar ferramentas linguísticas estruturadas, de formar conceitos e de desenvolver a consciência. Como materialistas, sabemos que a capacidade de comunicação de forma mais que rudimentar – que os animais também têm – se baseia na necessidade de produção social para ganhar a vida. A conexão inextricável entre trabalho e comunicação leva, entre outras coisas, ao fato de que

simplesmente não podemos evitar o fato de que tudo o que faz as pessoas agirem deve encontrar seu caminho através de seu cérebro, inclusive comer e beber, que começa como consequência da sensação de fome ou sede transmitida pelo cérebro, e termina como resultado da sensação de saciedade também transmitida pelo cérebro“.(2)

A este respeito, Marx se expressa muito claramente no capítulo 7 do primeiro volume do Capital: o trabalho é uma atividade específica da humanidade, é uma atividade consciente num duplo sentido. Marx não só pressupõe relações conscientemente articuladas entre as pessoas: a produção social e a troca de valores de uso, de bens materiais necessários para a manutenção e reprodução da vida material, vão de mãos dadas com a produção e troca de sons, palavras e conceitos socialmente compreendidos. Além disso, o trabalho humano tem a característica de exigir projetos mentais antecipados na consciência dos produtores como condição para sua realização:

Concebemos o trabalho de uma forma que o qualifica como exclusivamente humano. Uma aranha realiza operações que se assemelham às de um tecelão, e uma abelha envergonha muitos arquitetos com a construção de seus favos. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor das abelhas é isto, que o arquiteto ergue sua estrutura na imaginação antes de erguê-la na realidade. No final de cada processo de trabalho, obtemos um resultado que já existia no início na imaginação do trabalhador”(3).

A capacidade de imaginar

O produto do trabalho como um projeto de trabalho, como realidade material que ainda não foi realizada, é, portanto, um pré-requisito para sua própria realização. A capacidade da humanidade de antecipar, de imaginar, está inextricavelmente ligada à sua capacidade de fazer trabalho social. Homo faber só pode ser homo faber porque o ser humano é, ao mesmo tempo, homo imaginosus.

A capacidade humana de formar conceitos, de abstrair, de imaginar e de elaborar projetos, ou seja, a capacidade de antecipar, por sua vez, está intimamente ligada às condições materiais e sociais da vida. Mesmo os conceitos e ideias humanas mais elementares, e certamente as mais complexas, não são produtos puros da imaginação e do trabalho mental, totalmente independentes e alheios à produção material. Surgem em última instância como processamento mental – pelo cérebro humano – de elementos das experiências da vida material. Portanto, são inseparáveis da participação do indivíduo na natureza e na sociedade.

O metabolismo entre natureza e sociedade, que é o fundamento desta participação, a necessidade material de produzir e reproduzir a vida da qual esse metabolismo surge, serve a um propósito humano no trabalho, como diz Marx. Ou na explicação mais ampla da Engels:

As influências do mundo exterior sobre o ser humano se expressam em seu cérebro, se refletem nele na forma de sentimentos, impulsos, volições, em suma, como “tendências ideais(4).

Assim, os projetos de trabalho, que surgem na mente humana antes de serem materialmente realizados, são em última instância produtos da realidade material, mesmo quando ainda não foram materialmente realizados. Mesmo a produção de conceitos e do pensamento humano não pode ser completamente separada dos processos materiais que os precedem e acompanham na natureza e na sociedade, mesmo que não sejam imagens puramente mecânicas espelhadas desses processos. Ao contrário, são elementos que correspondem a processos materiais, mas que são combinados e reprocessados de forma criativa pela mente humana, mas que seguem determinados objetivamente por esses processos.

A base material da capacidade humana de antecipar, imaginar e elaborar projetos que ainda não foram realizados se baseia no instinto de conservação, ou seja, na correlação instintiva e inconsciente da compulsão de produzir e reproduzir a vida material à qual os seres humanos estão sujeitos. As principais manifestações desta antecipação são o medo e a esperança.

Entretanto, embora o medo possa ser puramente instintivo – nem sempre e não necessariamente é assim, mas pode ser, e portanto é um dos instintos mais importantes nos animais – a esperança puramente instintiva é impossível. É por isso que Ernst Bloch ressaltou com razão que mesmo em suas mais elementares expressões instintivas, a esperança já é mais que puro instinto, é a capacidade de imaginação, de antecipação ideal. A esperança é, portanto, o instinto humano por excelência. Juntamente com o trabalho social e a capacidade de formar conceitos e consciência, ela pertence ao núcleo duro e imutável de nossa especificidade antropológica. O homo faber como homo imaginosus é humano porque a espécie humana é homo sperans.

Esperança realmente possível

O projeto de trabalho como fruto das necessidades e desejos materiais está sujeito às condições materiais para a sua realização. Nem todos os produtos ideais de nosso cérebro levam à produção material real. Nem todos os projetos mentais são realmente realizados. Nem todas as esperanças previstas se tornam realidade. Somente aqueles projetos de trabalho que cumprem as condições objetivas e subjetivas para a sua realização são realizados. Nem toda esperança é realmente uma esperança possível. Bloch estabelece uma clara distinção entre a esperança realmente possível e o sonho ilusório. É precisamente a capacidade do trabalho mental de combinar conceitos, que em última análise só correspondem ou surgem das experiências de vida, nas direções mais divergentes. Estas combinações não refletem necessariamente uma realidade material já existente. Isto leva à distinção entre a antecipação do realmente possível e o sonho ilusório.

Mas o que é realmente possível, por sua vez, é apenas parcialmente predeterminado. Isto porque os seres humanos produzem suas próprias vidas da mesma forma que fazem sua própria história. A dimensão ativa de nossa especificidade antropológica define assim um campo intermediário, uma zona de transição entre o que é material, social e historicamente impossível e o que é material, social e historicamente possível. Este campo intermediário inclui todas as mudanças na natureza e na sociedade que já são materialmente possíveis, mas cuja realização depende de uma certa prática humana concreta. Esta prática não emerge nem automática nem simultaneamente da existência dessa possibilidade material.

Por outro lado, os limites do que é materialmente possível não são definidos com precisão de antemão em todas as direções. O marco geral é, de qualquer forma, uma condição determinada, mas dentro desse marco existem inúmeras variantes e possibilidades.

Uma vez que o método de produção capitalista se tornou dominante, tanto o surgimento da luta de classes proletária quanto, a longo prazo, o desenvolvimento do movimento operário moderno eram inevitáveis. Mas a forma concreta e específica em que esse modo de produção capitalista se desenvolveu, por exemplo, na Grã-Bretanha, França, Alemanha e Estados Unidos, seu histórico concreto, ou seja, seu passado político-social e a história desses quatro países, as peculiaridades nacionais no surgimento e desenvolvimento do próprio proletariado em cada um desses países, as peculiaridades do movimento ideológico e político que precederam, acompanharam e sucederam à conquista do poder político pela burguesia desses países: tudo isso teve uma profunda influência no desenvolvimento concreto da luta de classes proletária e do movimento socialista nos cinquenta anos seguintes. Como resultado, os movimentos dos trabalhadores nestes quatro países assumiram formas muito diferentes ao longo de um longo período da história. Entretanto, o realmente possível estava inscrito no marco geral da “ascensão, desenvolvimento, apogeu e declínio do modo de produção capitalista e o consequente aprofundamento de suas contradições internas“.

Antecipação

Portanto, a realidade histórico-material é sempre uma totalidade aberta e, portanto, uma totalidade incompleta, que inclui ao menos inúmeros desenvolvimentos possíveis diferentes. Algumas dessas possibilidades se realizarão, outras não. Nada é mais estranho ao marxismo do que o fatalismo histórico ou o determinismo mecânico e economicista.

Em qualquer modo de produção, a luta de classes pode levar ou à vitória da classe revolucionária ou à ruína mútua das classes contendoras: Marx e Engels repetiam isso com frequência. O capitalismo não conduz à inevitável vitória do socialismo, mas ao dilema: ou a vitória do socialismo ou a regressão à barbárie. Como a matéria não é estática e imóvel, mas está em constante movimento; como a própria sociedade humana está em constante mudança; como o objeto do pensamento e da prática humana responde ao constante desenvolvimento e mudança dos processos da natureza e da sociedade; como a própria prática humana intervém ativamente nestes processos, só podemos nos aproximar de uma compreensão completa desta totalidade. Em nossa análise, devemos incluir o “ainda não feito”, mas que é realmente possível, assim como o que já existe e o que poderia potencialmente desaparecer.

Reconhecer a realidade como uma totalidade contraditória, como uma totalidade em desenvolvimento, impulsionada por todas as suas contradições internas, significa incorporar a este conhecimento todos os desenvolvimentos possíveis desta totalidade. A antecipação não é, portanto, apenas uma categoria antropológica, mas também epistemológica, científica; é uma categoria do materialismo histórico, escreve Ernst Bloch:

Precisamente os extremos que anteriormente foram mantidos o mais distantes possível: futuro e natureza, antecipação e matéria, estão unidos na fundação do materialismo histórico-dialético. Sem matéria não há base para a antecipação (real), sem antecipação (real) nenhum horizonte de matéria é determinável […] O que é realmente possível começa com a semente que traz dentro dela o que está por vir”.(5)

Podemos agora descrever com mais precisão a função produtiva do fator subjetivo junto com sua força motriz instintiva, a esperança.

Se quero realizar um projeto de trabalho, devo subordinar minha vontade a este objetivo, diz Marx no capítulo 7 do primeiro volume do Capital. Esta subordinação, é claro, é estimulada por uma atitude subjetiva em relação ao projeto, que não é neutra, mas consiste no desejo e na esperança de alcançá-lo. Os incentivos podem ser muito diversos. Eles podem variar do medo à punição ao desejo de recompensa, do desejo individual, da necessidade consciente, à adesão ao grupo social ou à comunidade que consome o produto do trabalho, ou mesmo ao puro altruísmo. Mas a produção é sempre estimulada pelo desejo e esperança de sua realização efetiva. Quando não há tal desejo e esperança, ou quando mesmo o contrário é verdadeiro, a realização do projeto se torna consideravelmente mais difícil, ou seja, o produtor se comportará indiferente ou mesmo hostil em relação à produção. Os produtores podem até mesmo sabotá-la continuamente (considere a atitude dos escravos ou dos trabalhadores forçados em certas circunstâncias). Os produtores que são totalmente desprovidos de toda esperança são maus, ou seja, produtores improdutivos. Esta lei tem sido confirmada ao longo da história da sociedade humana.

Guillerme o Taciturno

O que se aplica à práxis humana elementar aplica-se ainda mais à práxis social totalizadora que tem como objetivo a transformação da própria sociedade. Uma figura histórica e transitória como o líder semifeudal da grande revolução burguesa holandesa, Guilherme o Taciturno, foi capaz de cunhar o belo e estóico lema característico das pequenas minorias conscientemente revolucionárias: “Point n’est besoin d’espérer pour entreprendre, ni de réussir pour persévérer” [Não faz falta ter esperança para agir, nem de sucesso para perseverar]. Entretanto, com tal motivação não é possível conseguir que as grandes massas de pessoas entrem em ação, muito menos as classes sociais como um todo. Sua atividade é sempre imediata e diretamente orientada para o presente. Uma práxis de classe, que quer mudar a sociedade, é determinada em última instância pelos interesses da classe, mas cresce em escopo e eficácia quando é acompanhada por desejos e expectativas que transmitem esses interesses de uma forma imediatamente compreensível e acessível às massas.

A esperança de abolir a exploração e a opressão, a desigualdade e a falta de liberdade, ou seja, a esperança de uma sociedade sem classes, tem acompanhado a luta de libertação do proletariado moderno em todas as etapas da tempestuosa ascensão do movimento operário. Ela lhe deu uma energia e uma força motriz que não podem surgir exclusivamente da defesa dos interesses materiais cotidianos. Em todas as épocas e países em que o movimento operário se limitou a esta defesa, esta força motriz era limitada ou mesmo inexistente, apesar do fato inegável de que na sociedade burguesa esta esperança permanece inseparável da defesa dos interesses materiais cotidianos da classe trabalhadora, sem a qual a luta pela emancipação se evapora em mera fantasia.

Mas intimamente relacionada à esperança, própria do proletariado moderno, no fim da exploração capitalista através da emancipação socialista da classe trabalhadora como veículo de emancipação da sociedade como um todo, existe uma antecipação histórica mais antiga.

Como seres socialmente produtores e comunicadores, os humanos são, por natureza, cooperativos. O salto de uma sociedade sem classes para uma sociedade dividida em classes sociais antagônicas, que começou há cerca de 10.000 anos, causou um tremendo trauma no sentimento e no pensamento humano, justamente porque correspondia muito pouco à nossa natureza cooperativa. É por isso que a história humana não é apenas uma história de lutas de classe, mas também uma história de inúmeras expectativas, projetos, antecipações, lamentos, poemas, histórias, discursos filosóficos, planos e batalhas políticas, girando em torno das seguintes questões: Como podemos voltar à idade de ouro da sociedade sem classes? Qual é a origem da desigualdade social? Como esta desigualdade social pode ser eliminada?

Profetas judeus

Os filósofos gregos e os políticos revolucionários romanos; os profetas judeus e os primeiros pais da igreja cristã; os impetuosos precursores e representantes da Reforma; os primeiros socialistas utópicos e os representantes dos movimentos mais radicais dentro das grandes revoluções burguesas colocaram este problema, cada um da forma particular que correspondia ao seu tempo, à sua sociedade e à sua classe. Entretanto, o tremendo potencial que deriva da continuidade deste problema e o imanente desenvolvimento autocrítico da resposta a ele não pode ser sobrestimado. O poeta austríaco Nikolaus Lenau resumiu esta continuidade de forma sintética e simbólica na última quadra de seu poema épico Die Albigenser: “Os albigenses são seguidos pelos hussitas, que pagam com sangue pelo que aqueles sofreram; depois de Hus e Ziska vêm Lutero, Hutten, os Trinta Anos, os guerreiros das Cevennes, os tormentos da Bastilha, e assim sucessivamente“.

Não há dúvida de que a maioria dos defensores de uma sociedade sem classes que acabamos de mencionar eram utópicos no sentido de que não tinham uma idéia precisa das condições materiais e sociais necessárias para a realização de seu projeto cheio de esperança. Sem dúvida, por outro lado, todas as tentativas práticas e políticas do passado para construir uma sociedade sem classes fracassaram, porque as condições materiais e sociais para isso ainda não haviam amadurecido. Mas isso de forma alguma significa que todos os esforços feitos por esses pensadores e lutadores foram fúteis ou mesmo prejudiciais. Pelo contrário.

Os socialistas utópicos prepararam, promoveram e aceleraram o pensamento, a teoria, a ciência e a prática do movimento operário moderno, ampliando grandemente os horizontes do que se pensava ser possível. Ao fazer isso, eles também ampliaram o conhecimento da própria realidade social, já que tal conhecimento requer uma atitude rigorosamente crítica em relação a tudo o que existe, todo o qual deve ser considerado transitório. E é justamente a integração na análise social do que ainda não existe, no ponto em que isto passa de um desejo a uma possibilidade real para o futuro, que dá à crítica social um escopo muito mais amplo.

Não apenas o socialismo científico, mas também a economia política clássica inglesa, a filosofia clássica alemã e a historiografia sociológica clássica francesa aprenderam muito mais com os socialistas utópicos do que se poderia supor a princípio. Mesmo sem o trabalho anterior dos socialistas utópicos, eles provavelmente teriam alcançado seus resultados, mas mais lentamente, com mais dificuldade e com mais contradições. Se do ponto de vista histórico o socialismo científico aparece como a superação do socialismo utópico, é uma superação no sentido hegeliano da palavra, ou seja, uma superação que preserva e reproduz seus elementos férteis. E isto pressupõe, em qualquer caso, a existência prévia de um socialismo utópico, daquela esperança almejada de uma sociedade sem classes, como uma fase necessária e frutífera na luta pela emancipação da humanidade trabalhadora.

Quando Ernst Bloch escreve:

A ciência dialética-histórica do marxismo é, portanto, a ciência mediatizada do futuro da realidade mais a possibilidade objetivamente real que ela contém; tudo isso com o objetivo de agir […] é o horizonte do futuro, como o marxismo o entende, com o passado como antecâmara, que dá à realidade sua dimensão real“, ele expressa uma dupla verdade.(6)

Esperança de realização

O conhecimento da realidade é sempre o conhecimento de suas leis do movimento, de suas leis do desenvolvimento. A grandeza do Capital de Marx reside precisamente na descoberta das leis do desenvolvimento a longo prazo do modo de produção capitalista, leis que só se desdobraram completamente após a morte de Karl Marx. O próprio capital, ao contrário de uma crítica comum (e vulgar) frequentemente repetida, é muito mais uma obra do século XX do que do século XIX.

Por outro lado, a modificação da realidade – a realização do programa da Décima Primeira Tese sobre Feuerbach, a verdadeira certidão de nascimento do marxismo – pressupõe não apenas uma orientação para o futuro, não apenas a compreensão do que ainda não é uma possibilidade real, mas também a esperança da realização do que é realmente possível. Requer o esforço de todas as forças mentais, da vontade e dos sentimentos na busca do objetivo de realizar o que é realmente possível, mas ainda não alcançado, e o maior esforço do indivíduo revolucionário entre a realidade existente e a possibilidade, imbuída de esperança, que tem que tornar realidade.

Alguém que não está mais com os dois pés no chão da realidade e perdeu a compreensão das condições material-sociais, objetivas e subjetivas para a realização do projeto revolucionário não é o único tipo de mau revolucionário. Os maus revolucionários são também aqueles que se tornaram prisioneiros da realidade existente, que estão tão absorvidos na rotina diária que perdem a compreensão, a premonição e a sensibilidade para fazer um giro repentino, inesperado e radical na relação de forças e na atividade da classe revolucionária. Tais pessoas sacrificaram o olhar atento para o futuro em prol da habitual moagem diária limitada, ou o que foi chamado na linguagem do movimento operário alemão: “die alte bewährte Taktik” [a velha tática experimentada e testada], e, portanto, serão irremediavelmente surpreendidos, superados e paralisados pelas súbitas erupções vulcânicas da luta revolucionária de massas. Também neste sentido, o pleno conhecimento da realidade não é possível sem ampliar o horizonte do futuro.

Depois de agosto de 1914, Vladimir Lenin, Rosa Luxemburgo e um punhado de seus amigos internacionalistas não apenas expressaram sua aversão moral à capitulação da social-democracia oficial à guerra imperialista. Eles também julgaram esta capitulação à luz da perspectiva, ainda não materializada, mas baseada na análise científica (e não em meros desejos) de uma inevitável intensificação da luta de classes revolucionária na esteira daquela guerra mundial. Esta luta seria provocada pela inevitável intensificação das contradições econômicas, sociais, políticas e ideológicas do modo de produção capitalista, contradições das quais a guerra foi tanto a expressão como a força motriz. Os eventos do período 1917-1919 provaram que estavam certos. Mas os acontecimentos que acompanharam o fim da guerra mundial acrescentaram uma dimensão adicional à luta de tendências de 1914-1915 dentro do movimento operário internacional. Sem a antecipação desses eventos, sem essa perspectiva, a capitulação de 1914 não pode ser totalmente compreendida, explicada e julgada.

A arte da predição

Sem perspectivas revolucionárias, nenhuma política verdadeiramente revolucionária é possível e, portanto, nenhuma prática verdadeiramente revolucionária é real, pelo menos dentro da estrutura do socialismo científico. Em todo caso, estas perspectivas devem basear-se em uma análise correta da realidade e não em fantasias, devem partir de uma análise das contradições sócio-econômicas reais e revelar sua dinâmica, devem examinar se e por que estas contradições diminuem ou, ao contrário, se intensificam, e não partir de um desenvolvimento abstrato e desejado.

Perspectivas significam uma relação com o futuro, ou seja, a antecipação, a esperança e o medo são aspectos decisivos de qualquer atividade política, seja ela proletária, pequeno-burguesa ou burguesa. Tendo perdido seu caráter revolucionário, a burguesia definiu a política como a arte do possível. O austromarxista Otto Bauer mudou este slogan ao definir a política como a arte da previsão. Isto certamente vai além do cidadão de mente estreita, que por causa do conservadorismo social teme qualquer mudança importante e deseja limitar a política a passos pequenos e sem importância.

Mas o slogan de Bauer também revela a dimensão passiva e fatalista do Austro-Marxismo: na arte da previsão, o elemento ativo e transformador da política está totalmente ausente. Para o marxismo, a política é a arte de ampliar ao máximo os limites do que é possível no interesse da classe trabalhadora (e do progresso de toda a humanidade), com base numa perspectiva científica do que é objetiva e subjetivamente possível, se a mobilização e a iniciativa das massas forem maximizadas e a prática do partido revolucionário permanecer plenamente integrada nessa perspectiva como um elemento constitutivo da realidade mutante.

A esperança e o medo da revolução desempenharam um papel decisivo nas divisões dentro do movimento operário internacional após agosto de 1914. Inicialmente, os social-democratas de direita justificaram sua capitulação à guerra imperialista argumentando que o contato com as massas não deveria ser perdido e que as massas estavam, afinal de contas, entusiasmadas com a guerra. Entretanto, alguns anos depois, quando em países como Rússia, Alemanha, Áustria, Hungria e Itália essas mesmas massas se voltaram tão entusiasticamente contra a guerra e a favor da revolução, o argumento mudou repentinamente.

Agora, subitamente, descobriu-se a necessidade de “defender incondicionalmente os princípios”, assim como “o senso de responsabilidade” e “a coragem de ser impopular”. A conclusão a ser tirada disto é que a adaptação automática ao “movimento de massas” não foi o verdadeiro motivo da capitulação de agosto de 1914. E certamente nos anos 1917-1920 o medo da revolução, o medo do risco de perder ganhos duramente conquistados, o medo de saltar para o desconhecido, o medo de romper com a rotina diária, desempenharam um papel psicologicamente decisivo. Como marxistas, devemos ligar este medo aos interesses sociais e materiais de um estrato conservador do movimento operário.

Em contrapartida, a esperança da revolução animou a ala radical da classe trabalhadora e o movimento operário tão rapidamente quanto as mudanças revolucionárias começaram a tomar forma e a se tornar realidade. A antecipação se tornou uma experiência, o projeto político se converteu no objetivo da ação política de massas.

Estamos vendo algo semelhante com o chamado eurocomunismo. Muitas tendências se cruzam neste fenômeno. Para explicar o eurocomunismo é preciso levar em conta numerosos processos históricos, sociais, econômicos, políticos, ideológicos (entre outras coisas, a lógica interna do revisionismo teórico) e até mesmo psicológicos pessoais, como o trauma da experiência pessoal de alguns dos excessos do estalinismo (ver neste contexto o livro de 1978 de um ex-líder do Partido Comunista da Espanha, Jorge Semprún, Autobiografia de Federico Sánchez). Mas parece-nos claro que a evolução de muitos partidos comunistas para posições eurocomunistas foi (e é) determinada em parte pela convicção de que nos países ocidentais a revolução não estará na agenda por muito tempo, o que significa que é impossível, e a maioria chega à conclusão adicional de que a revolução também é indesejável, porque de qualquer forma levaria a uma derrota catastrófica. Nesta perspectiva, as conclusões estratégicas seguem sua lógica; algo semelhante aconteceu com a social-democracia clássica antes e depois da Primeira Guerra Mundial.

Espelho

A transformação socialista da sociedade significa a primeira tentativa na história da humanidade de conduzi-la conscientemente por caminhos previamente escolhidos, começando com uma transformação consciente da economia e do Estado, com o objetivo de alcançar uma sociedade sem classes e a abolição do Estado. Ao mesmo tempo, o fato de que a realização deste projeto depende em grande parte da capacidade dos explorados e oprimidos de se organizarem e se libertarem, torna-o ainda mais audacioso e as dificuldades para realizá-lo ainda mais evidentes. Este projeto libertador e antecipatório é o ponto culminante dos resultados assimilados criticamente de todas as ciências sociais, assim como das conclusões teóricas e práticas dos pensadores utópicos-revolucionários e das revoltas de massa precedentes.

O caráter antecipatório deste projeto, por sua vez, é apoiado e estimulado afetivamente pela esperança de sua realização, uma esperança e um impulso que fertiliza a atividade revolucionária de indivíduos, grupos e classes sociais, na medida em que responde ao mesmo tempo a uma convicção racional sobre a necessidade e a possibilidade histórico-material de realização do projeto. A interação entre a tendência objetiva e sua correlata no campo da esperança humana é claramente expressa no comentário de Trotsky sobre o papel útil da literatura:

“Se não se pode passar sem um espelho nem mesmo para se barbear, como se pode reconverter a si mesmo ou sua vida sem se ver no “espelho” da literatura? É claro, ninguém fala de um espelho exato. Ninguém pensaria em pedir à nova literatura que tivesse a mesma impassibilidade de um espelho. Quanto mais profunda for a literatura, e quanto mais imbuída do desejo de dar forma à vida, mais significativa e dinâmica será a sua capacidade de “imaginar” a vida.”(7)

A teoria da sociedade socialista, de sua economia, de sua ordem política, do necessário desaparecimento da produção de mercadorias e do Estado, de sua permanente transformação cultural, de seu internacionalismo e de sua dinâmica emancipatória global tem sido amplamente desenvolvida, mas ainda não está completa. Além de um forte elemento de processamento crítico (e autocrítico) de todas as experiências históricas das revoluções proletárias do passado, há também um elemento crescente de antecipação ainda não confirmado empiricamente. Tal antecipação se tornou indispensável para a coerência interna da teoria e aos olhos das massas para a persuasão da política que ela informa. Após a catástrofe histórica do estalinismo, os marxistas não podem mais se dar ao luxo de se limitar a proclamações do tipo: “Vamos primeiro derrubar o capitalismo. Quanto ao tipo de sociedade que então será construída e como será o socialismo em termos concretos, vamos deixar isso para o futuro histórico (ou para as gerações futuras)“. Hoje, omitir a antecipação socialista do projeto revolucionário concreto significa torná-lo implausível aos olhos das grandes massas.

Uma visão concreta de futuro

Uma visão concreta do futuro socialista – preferimos esta formulação à utopia concreta, porque estamos convencidos de que a realização deste modelo de socialismo é realmente possível – tornou-se hoje um pré-requisito para a prática política revolucionária nos países desenvolvidos do Ocidente. Nesses países industrializados, o proletariado não derrubará o capitalismo a menos que esteja convencido de que existe uma alternativa concreta para ele. Ela precisa estar convencida de uma alternativa profundamente diferente e superior tanto ao capitalismo quanto ao chamado socialismo realmente existente nos países do bloco oriental, que não é nada socialismo!

Centenas de milhares de revolucionários em todo o mundo já estão esperando pela realização deste projeto. Eles são assim capazes de evitar a resignação diante das catástrofes para as quais o mundo burguês está se dirigindo, bem como o desespero autodestrutivo. Esta mesma esperança acabará por inspirar as massas em uma escala cada vez maior e contribuir decisivamente para o avanço em direção ao socialismo mundial.

Há setenta e cinco anos, um então pouco conhecido jovem revolucionário escreveu um tratado prático sobre a necessidade de um jornal revolucionário como o organizador coletivo da vanguarda da classe trabalhadora. Ele estava escrevendo em benefício de um pequeno grupo de socialistas ilegais que, sob uma ditadura sangrenta, haviam dado os primeiros passos para o desenvolvimento de um movimento de trabalhadores moderno. Este tratado contém uma peculiar ode ao sonho (ou esperança), que muito raramente tem sido notada pelos inúmeros leitores daquele escrito. Esta é a passagem:

“Temos que sonhar!” Eu escrevi estas palavras e fiquei assustado. Imaginei-me sentado no “Congresso de Unificação” em frente aos editores e colaboradores de Rabócheie Dielo. E então o camarada Martynov levanta-se e, num tom ameaçador, dirigi-se a mim: “Permita-me perguntar-lhe: a redação autônoma ainda tem o direito de sonhar sem antes consultar os comitês do partido? ” Após ele se levanta o camarada Krichevski (aprofundando filosoficamente o camarada Martynov, que há muito tempo já havia aprofundado o camarada Pekhanov) e continua num tom ainda mais ameaçador: “Eu vou mais longe, não se esqueça que, de acordo com Marx, a humanidade sempre se coloca tarefas realizáveis, que a tática é um processo de crescimento das tarefas, as quais crescem com o partido.

Só de pensar nestas questões ameaçadoras, fico arrepiado e olho onde poderia me esconder. Vou tentar fazê-lo após Pisarev.

Há disparidades e disparidades, Pisarev escreveu sobre a disparidade entre os sonhos e a realidade. Meus sonhos podem ou antecipar o curso natural dos eventos, ou podem desviar-se de onde o curso natural dos eventos nunca pode chegar. No primeiro caso, os sonhos não produzem nenhum dano, eles podem até sustentar e fortalecer as energias do trabalhador… Em sonhos deste tipo não há nada que deforme ou paralise a força de trabalho. Muito pelo contrário. Se o ser humano estivesse completamente privado da capacidade de sonhar assim, se não fosse capaz de ir adiante às vezes e contemplar com sua imaginação o quadro totalmente acabado do trabalho que começa a tomar forma em sua mão, não poderia imaginar que motivos o obrigariam a empreender e realizar empreendimentos vastos e árduos no campo das artes, das ciências e da vida prática, A disparidade entre os sonhos e a realidade não produz nenhum dano, desde que o sonhador acredite seriamente em um sonho, olhe cuidadosamente para a vida, compare suas observações com seus castelos no ar e, em geral, trabalhe conscienciosamente para a realização de suas fantasias. Quando há algum contato entre sonho e vida, tudo vai bem“.

Este jovem revolucionário se chamava V.I. Lenin e a citação é de “Que fazer?”.(8) Lenin passa por ser a encarnação da realpolitik revolucionária. Como podemos ver, antecipação, esperança e sonhos não são apenas categorias do materialismo histórico, mas também categorias da realpolitik revolucionária.

Notas de rodapé:

(1) H. van den Enden (ed.), Marxisme van de hoop – hoop van het marxisme? Essays over de filosofie van Ernst Bloch (Bussum, 1980). Esta traducción es una versión revisada de la publicada en castellano en https://www.iire.org/index.php/es/node/941 El original en neerlandés se publicó en De Internationale, n.º 48, invierno de 1994, volumen 38: https://www.marxists.org/nederlands/mandel/1980/1980hoopbloch.htm

(2) Friedrich Engels, Ludwig Feuerbach y el fin de la filosofía clásica alemana (1886).

(3) Karl Marx, El Capital, vol. I (1867).

(4) Engels, op. cit.

(5) Bloch, El principio esperanza.

(6) Bloch, op. cit.

(7) León Trotsky, Literatura y revolución (1924).

(8) Lênin, Que Fazer? – cap. V. Plano de um Jornal Público para Toda a Rússia

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