Walter Rodney – Sobre democracia: Lênin, Kautsky e Luxemburgo

Texto originalmente publicado no livro “Walter Rodney’s Russian Revolution – A View from the Third World” publicado pela Verso Books.

Traduzido do inglês por Pedro Magalhães.


Karl Kautsky foi um marxista europeu da linha de frente. Foi um alemão que conheceu Marx e Engels desde sua infância e, depois de suas mortes, tornou-se seus principais testamenteiro literário (responsável de toda a correspondência e manuscritos). Kautsky foi um dos melhores teóricos marxistas da virada do século. Lênin sobre ele: “Kautsky conhece Marx quase que de cor.”[1] Obviamente, portanto, Kautsky foi levado a sério quando atacou os Bolcheviques num trabalho intitulado Ditadura do proletariado (1919). Esta foi uma análise contemporânea da situação, cuja importância historiográfica é que os criticismos do Estado soviético (como aqueles sobre Raphael Abramovitch) tem servido como um modelo para detratores burgueses. Da Alemanha, Kautsky estendeu seu apoio aos Mencheviques russos de tal forma que ele começa endossando a posição menchevique de que a Rússia não estava madura para uma revolução socialista[2]. Mais importante, entretanto, é a pressa de Kautsky para classificar os Bolcheviques como ditatoriais no pior sentido do termo. Ele explicou o uso de Marx do termo “ditadura do proletariado” como sendo um equivalente de “democracia proletária” – tal como Marx usou “ditadura da burguesia” e “democracia burguesa” de forma intercambiável[3]. Essa interpretação é consistente enquanto ponto de partida. Porém, como Kautsky a aplica na Rússia de 1917?

De acordo com Kautsky, quando Marx usou o termo “ditadura do proletariado”, ele não quis ser literal. Deveria, de fato, significar a democracia que existe num Estado onde a burguesia foi subordinada ao proletariado, quem, em teoria, seria maioria. Isso permitiria que o termo “democracia proletária” tivesse significado real porque representaria a vontade e os interesses da maioria. Porém, na Rússia, a classe trabalhadora era uma minoria e, portanto, não poderia prover as condições para a ditadura do proletariado usada neste sentido. O resultado é uma ditadura do proletariado em cima do campesinato – isto é, governo de minorias, o que não era um ideal marxista. Kautsky, portanto, junta-se à escola, compreendendo principalmente escritores burgueses, que afirmam que a revolução contradiz o marxismo de maneiras importantes, escrevendo: “Os bolcheviques são marxistas e tem inspirado setores do proletariado vindo sob a influência deles com grande entusiasmo para o marxismo. A sua ditadura, entretanto, está em contradição com o ensinamento marxista de que nenhum povo pode superar os obstáculos impostos pelas sucessivas fases de seu desenvolvimento pulando-os ou por medidas legais.”[4] Além disso, o partido bolchevique arrogantemente reivindicou o direito de representar a classe trabalhadora, mas, ao invés disso, seus membros se tornaram verdadeiros ditadores no país. A prova de suas intenções ditatoriais foi vista quando os bolcheviques dispensou a popularmente eleita Assembleia Constituinte e, na ausência da democracia, a Guerra Civil se instaurou[5].

A resposta de Lênin, publicada como um longo panfleto intitulado A revolução proletária e o renegado Kautsky, é absolutamente ácida. Em seu tom polêmico, oscilando entre o cruel e o irônico (“Como Kautsky transformou Marx em um liberal ordinário” é um belo título de capítulo). Lênin tenta tanto apresentar um contexto histórico consistente quanto avançar em um entendimento marxista da “ditadura”. Por ditadura, ele entendia o governo de uma classe sobre outra. Tal ditadura poderia tomar uma forma brutal, caso existisse um clique militar e uma burocracia. Lênin problematiza as comparações de Kautsky entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, insistindo que se tenha uma atenção às condições históricas específicas. Ele escreve:

A ditadura revolucionária do proletariado é violência contra a burguesia; e a necessidade de tal violência está particularmente em ordem, como Marx e Engels explicaram repetidas vezes em detalhes (especialmente em A guerra civil na França e no seu prefácio), por conta da existência de militarismo e de uma burocracia. Porém, são precisamente essas instituições que eram inexistentes na Grã-Bretanha e Estados Unidos nos anos setenta, quando Marx fez suas observações (elas, de fato, existem na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos agora)![6]

Na Rússia, dada a luta desesperada dos exploradores, foi necessário destituir os direitos das classes dirigentes.

Há também outros trabalhos escritos por Lênin, ambos antes e depois do ataque de Kautsky, que são relevantes para o problema d’A ditadura do proletariado na Rússia[7]. Conjuntamente, as respostas de Lênin residem em três categorias:

  • Lênin faz distinção entre a democracia burguesa e a proletária.
  • Lênin considera o papel do campesinato.
  • Lênin lida com a problema da contrarrevolução.

A primeira questão já foi discutida no contexto da Revolução de Outubro porque o argumento favorito de muitos historiadores burgueses é estabelecer a natureza ditatorial da tomada do poder apontando a dispensa da Assembleia Constituinte em janeiro de 1918. Lênin traçou a distinção entre democracia burguesa tal como representada pelo Governo Provisório e a Assembleia Constituinte, e a democracia trabalhadora, tal como representada em vários sovietes.[8] Os bolcheviques deram apoio aos sovietes ao invés da Assembleia Constituinte, acreditando que os sovietes representavam melhor a consciência desenvolvida ao final de 1917. Como já indicado, a superioridade e a representatividade genuína dos sovietes e o fato de a Assembleia Constituinte não ter sido o real órgão da vontade popular foram demonstrados pela ausência absoluta de reação pública à sua dispensa – tal como admitido por historiadores burgueses[9].

Lênin elaborou a duras penas o ponto que a democracia trabalhadora precisava de estruturas diferentes para se estressar. Os trabalhadores não podiam simplesmente tomar o parlamento burguês e considerar que alcançaram a revolução; na verdade, todo o aparelho que serve ao Estado burguês tinha de ser destruído e substituído por instituições gestadas no seio das massas trabalhadoras. Esse foi um dos maiores pontos levantados por Lênin em O Estado e a revolução[10]. O segundo ponto em relação aos camponeses era de importância crucial porque constituía a maioria esmagadora da população russa – cerca de 90%. Marx não levou em consideração o campesinato como uma força revolucionária. Na verdade, ele tendia a deixá-los de fora das suas análises da Europa do século XIX porque considerava o camponês como sendo um ser social em processo de desaparecimento: camponeses estavam se tornando capitalistas por meio da sua lenta acumulação de capital, e a melhora das técnicas desde a Idade Média. Era nas famílias camponesas onde a manufatura moderna se desenvolveu. Enquanto um pequeno número de camponeses ascendeu para se tornarem burgueses, um número maior eventualmente se tornou membros do proletariado. A grande maioria dos camponeses na Europa Ocidental foram privados da oportunidade de ganhar a vida no campo e, portanto, tiveram que vender sua força de trabalho. A este ponto, eles se tornaram trabalhadores ou um proletariado, na acepção moderna[11].

Mudanças no modo de produção foram, assim, criando uma burguesia e um proletariado a partir dos camponeses. Marx viu tanto a burguesia quanto o proletariado enquanto as classes a quem pertencia o futuro. Primeiro, a burguesia tomaria o poder dos aristocratas feudais e, em seguida, o proletariado assumiria o poder da burguesia e instituiria a ditadura do proletariado. Neste esquema das coisas, o campesinato da Europa ocidental não tinha papel algum. A análise marxiana correspondia à realidade m uma sociedade tal qual a da Inglaterra, onde o camponês tinha sido virtualmente eliminado por cercamentos e outros meios. Entretanto, Kautsky aproximou-se da sociedade russa sem nenhuma noção que a sua análise deveria contemplar as contradições entre os camponeses e a burguesia que existiu depois de fevereiro de 1917. O editor da edição de 1965 do seu livro, K. H. Kautsky, quem é bastante simpático, considera que “nem uma vez Kautsky sugere que o padrão Ocidental pode não ser adequado para a Rússia; todas as suas comparações, até aquelas com relação ao campesinato, são com países ocidentais.”[12]

O jeito como Kautsky ignorou o campesinato era indiferença dogmática na sua pior forma. Não era como se Kautsky tivesse argumentado contra os camponeses. Só nunca entrou em sua cabeça que o camponês fosse capaz de participar ativamente no processo revolucionário e na ditadura do proletariado. Lenin cuidadosamente considerara o papel do campesinato em seus estudos no desenvolvimento do capitalismo na Rússia do século XXI. Uma série de outros escritos e discursos foram adereçados ao papel do camponês na revolução e na reconstrução socialista.[13]

Com base em sua avaliação acerca do campesinato russo, Lênin notou que a ditadura do proletariado na Rússia seria, de fato, representada por uma aliança de trabalhadores e camponeses. O que isto significou foi que haviam contradições entre trabalhadores e camponeses, mas não a nível antagônico, porque seus interesses fundamentais eram os mesmos e ambos eram considerados como povo trabalhador da Rússia. A primeira evidência concreta desta aliança foi que os camponeses deveriam alcançar suas ambições antigas na forma de terra. A segunda fase da aliança foi durante a Guerra Civil: os camponeses fizeram sacrifícios para alimentar o Exército Vermelho e os trabalhadores para assegurar a vitória da revolução sobre seus inimigos internos e externos. A terceira fase foi a Nova Política Econômica (NEP), que foi proclamada em 1922 e continuou até depois da morte de Lênin em 1927. A NEP era um afrouxamento da política do Comunismo de Guerra, adotado durante a Guerra Civil, porque tal política consistia em pedir ao campesinato que sustentassem todos os fardos da nação, e Lênin decidiu que tais fardos deveriam ser aliviados, mesmo se significasse permitir certas tendências capitalistas até que os trabalhadores nas cidades estivessem fortes o suficiente para sustentar as necessidades do campesinato de um modo socialista. Lênin não viveu para ver a quarta fase completamente realizada – foi a transformação dos camponeses em trabalhadores dentro de uma agricultura coletivizada e socializada. Entretanto, houve começos desde 1921, logo após a Guerra Civil, e o princípio que Lênin seguiu não envolvia a coerção do camponês[14]. Em consonância com a sua ideia de uma aliança de trabalhadores e camponeses, os trabalhadores e o partido tinham a função de persuadir o campesinato pacificamente em adotar formas socialistas de agricultura.

Do tempo que Lênin retornou à Rússia depois da Revolução de Fevereiro, ele cultivou tanto sovietes de trabalhadores quanto sovietes de camponeses e dedicou uma atenção particular em conquistar os membros progressistas do Partido Socialista Revolucionário porque eles representam camponeses pobres e médios, enquanto os membros de direita do mesmo partido falavam pelos camponeses ricos e outros latifundiários[15]. Na questão vital do campesinato, Lênin mostrou sua habilidade em traduzir a teoria marxista em política real relevante para as condições da Rússia. Isso Kautsky não tentou fazer e não é surpresa que este posicionamento de Kautsky tem sido entendido por críticos burgueses como a essência do Marxismo. Está sempre nos interesses dos acadêmicos burgueses tomar o marxismo como sendo uma expressão rígida e dogmática, porque tal dogma é, por consequência, prontamente falseado quanto confrontado com a experiência. 

Lênin também atacou Kautsky por não conseguir perceber que uma situação contrarrevolucionária veio a existir no momento em que uma revolução foi feita e que uma das tarefas da revolução era destruir a contrarrevolução a todo custo. Kautsky parece dizer que o comportamento não democrático dos bolcheviques trouxe o dissenso interno conhecido como Guerra Civil, que durou de 1918 a 1921[16]. Porém, a Guerra Civil não foi nada além da contrarrevolução. Os exércitos lutando contra os bolcheviques eram apoiadores czaristas, armados e patrocinados pela Grã-Bretanha, França, Estados Unidos e Japão. Tal reação da parte dos czaristas e capitalistas não tinha nada a ver com a Assembleia Constituinte; era uma consequência do fato que a revolução expropriara a propriedade deles e elaborou um sistema hostil ao capitalismo[17].

Tal como Lênin esperava, a dispensa da Assembleia Constituinte e o fato de a burguesia ter sido impedidos de votar na Rússia revolucionária consistiam em passos necessários para assegurar a ditadura do proletariado. Se os trabalhadores tivessem que organizar o seu próprio sistema de democracia, eles primeiro teriam de excluir a burguesia, até quando estes burgueses se transformassem em trabalhadores. Além disso, eles tinham de lidar duramente com todos aqueles elementos que planejavam trazer a contrarrevolução de uma forma ou de outra. Imediatamente após a revolução, a ditadura do proletariado tinha de ser uma ditadura real contra a burguesia. No contexto da discussão quanto ao que era “marxista” ou não, Lênin usou como sua autoridade declarações feitas por Marx em sua discussão d’A guerra civil na França (a revolta da Comuna de 1871) e observações feitas por Engels na temática de “autoridade”[18]. Lá, Engels pontuou que o primeiro ato da revolução precisa ser o de fortalecer o aparato do estado para lidar com o inimigo. Para quem argumentava o contrário, Engels disse:

Esses senhores já viram uma revolução? Uma revolução é, certamente, a coisa mais autoritária que existe: é o ato por meio do qual uma parte da população impõe sua vontade sobre outra parte por meio de rifles, baionetas e canhões – meios autoritários; e, se a parte vitoriosa não quiser lutar em vão, deve manter essa regra por meio do terror que as suas armas inspiram nos reacionários[19].

Engels está entendendo “revolução” por “revolução armada” e alguém pode debater sua relevância para uma “revolução não armada”, mas a acurácia da declaração pode ser dificilmente contestada no que diz respeito às revoluções tais como a francesa, a russa e a chinesa.

O erro de Kautsky em perceber uma verdade tão óbvia – que a primeira tarefa da revolução é se resguardar contra a violência contrarrevolucionária – precisa ser explicado. Ele simplesmente não era um revolucionário, apesar de seu profundo envolvimento no pensamento marxista. Kautsky era um teórico, enquanto Lênin era um intelectual revolucionário. Marx uma vez escreveu que os filósofos burgueses pretendiam entender o mundo, mas a tarefa real era a de transformá-lo[20]. Indivíduos como Kautsky na Europa ocidental pararam de entreter o aspecto revolucionário do marxismo e, para todos os efeitos, se tornaram filósofos burgueses contemplando o mundo. Kautsky foi um representante de uma escola de pensamento conhecida hoje como social-democracia.

No século XIX, o termo social democracia incluía todos os marxistas. Até 1904, o Partido Marxista Russo era conhecido como Partido Operário Social-Democrata Russo e todos os partidos marxistas faziam parte da Segunda Internacional – uma frente coletiva de todos os partidos europeus revolucionários de trabalhadores[21]. Entretanto, a melhoria no padrão de vida de muitos trabalhadores da Europa ocidental, baseada na exploração colonial, levou a cessão do debate revolucionário por seus representantes e, ao invés disso, começaram a seguir o caminho da conciliação de classe com a burguesia até o fim do último século. A figura mais proeminente nessa tendência em à acomodação do marxismo dentro do mundo capitalista foi Eduard Bernstein, quem é frequentemente referido, em círculos marxistas revolucionários, como sendo um “revisionista” – alguém que revisou os escritos marxistas e removeu o conteúdo revolucionário no processo[22]. É interessante notar que Jean Jaurès, o famoso historiador da Revolução Francesa, também era um revisionista social democrata que aceitou um ministério no gabinete do governo francês burguês[23]. Não surpreendentemente, pessoas como Jaurès assumem uma linha oportunista durante a Primeira Guerra Mundial e pediu aos trabalhadores para lutar em prol do capitalismo e imperialismo. Kautsky não foi um dos fundadores do revisionismo, mas ele gradualmente escorregou para esta posição.; a aparente rigidez de seu marxismo ao interpretar a Revolução Russa é um reflexo do efeito debilitante do imperialismo na consciência dos trabalhadores europeus ocidentais.

Os antigos Sociais-Democratas e a Segunda Internacional sofreram um declínio estável no zelo revolucionário até que se tornaram nada além de partidos burgueses contestando eleições burguesas. O Partido Trabalhista Britânico e os Sociais-Democratas Alemães são exemplos de partidos cujas raízes ideológicas, em algum momento, residem na classe trabalhadora, mas que, agora, alternam com outros partidos burgueses no governo de seus países segundo princípios capitalistas, incluindo a busca por objetivos coloniais e imperialistas e o apoio a regimes fascistas como os em Portugal, Grécia e África do Sul.

Consequentemente, se alguém pergunta qual é, hoje, a visão histórica de que a social-democracia tem da Revolução Russa, a resposta seria que a visão deles é idêntica com a da burguesia. Eventos subsequentes deixaram claro que as discordâncias de Kautsky com os bolcheviques em 1917 não eram devidas a quaisquer erros pessoais da sua parte na interpretação do marxismo; sua inabilidade de aplicar o marxismo a uma situação revolucionária foi por conta da falta de comprometimento com a revolução, o qual ele compartilhava enquanto parte do novo estrato da sociedade europeia ocidental: a elite operária imperialista e seu porta-voz intelectual.

Rosa Luxemburgo

Nem todo marxista que discordava com os bolcheviques deixava, portanto, de ser marxista ou se tornava um representante de uma corrente revisionista no marxismo. Há o exemplo de Rosa Luxemburgo, uma revolucionária marxista com diferenças genuínas de posição, posta a dos bolcheviques. Nascida na Polônia russa, Luxemburgo se mudou para a Alemanha e se tornou uma internacionalista genuína e revolucionária. Uma assistente de Kautsky nos seus melhores dias, ela deu sua contribuição à teoria do valor-trabalho, acumulação de capital e imperialismo em seu livro A acumulação do capital.

Sua análise da Revolução Russa, em inglês, leva o título de The Russian Revolution and Leninism or Marxism? [A revolução russa e o leninismo ou marxismo?]. Ela começa com um ataque a Kautsky, quem tinha sugerido que a guerra ajudaria a trazer a queda do czarismo porque os soldados alemães libertariam o povo oprimido da Rússia: “A libertação da Rússia tem suas raízes no profundo do solo de sua própria terra e esteve completamente madura internamente[24].” A guerra interrompeu a revolução e, então, a acelerou. De um jeito ou de outro, agia sobre as forças que eram mais óbvias desde 1905. Em 1917,

A ampla marcha dos eventos saltou em dias e horas ao longo de distâncias que antes, na França, levavam décadas para percorrer. Nisto, ficou claro que a Rússia estava percebendo o resultado de um século de desenvolvimento europeu e, acima de tudo, que a revolução de 1917 era uma continuação direta da de 1905-7 e não um presente do “libertador” alemão. O movimento de março de 1917 se liga diretamente ao ponto onde, dez anos antes, seu trabalho havia interrompido. A república democrática era o completa e internamente maduro produto do início da revolução[25].

Sobre a questão da Assembleia Constituinte, Luxemburgo apoiou uma interpretação muito próxima da de Kautsky. Como os bolcheviques, tal qual a citação acima indica, ela viu que a Revolução de Fevereiro era o resultado das contradições dentro da sociedade russa que tinha ficado maduras à época. Ela também concordava que a Revolução de Outubro era uma necessidade lógica que foi precipitada porque a demanda por paz e terra desencadeou os elementos burgueses. Ela continuou a concordar com as posições sovietes e trotskistas até outubro. Como ela diz, “O partido de Lênin era o único na Rússia que se apropriou o interesse verdadeiro da revolução naquele primeiro período”[26].

Porém, ela fez um ataque assertivo e contínuo ao que ela pensava serem erros significativos da revolução. Ela atacou os bolcheviques por dispensar a Assembleia Constituinte, o que não apenas coincidia com os interesses burgueses, mas possibilitava que críticos da esquerda apresentassem sua posição como um debate ao “autoritário e não marxista” Lênin[27]. Sem tentar impugnar seu marxismo, cabe apontar que foi Rosa Luxemburgo que assumiu uma posição bastante autoritária nas maiores questões na Rússia, as quais Lênin e os bolcheviques lidaram de modo bastante democrático. Ela responsabilizou os bolcheviques pelo colapso e desagregação da Rússia ao encorajar nacionalidades, dispensando o “direito de autodeterminação de nações” de Lênin como “nada mas que uma fraseologia pequeno-burguesa oca e babaquice[28].” E, na questão da terra, por exemplo, Luxemburgo criticou a política bolchevique de redistribuição para o campesinato sob a justificativa de que simplesmente reforçaria propriedade privada, barrando o caminho para o desenvolvimento de formas socialistas[29]. Num terreno estritamente teórico, ela estava correta, mas era precisamente no interesse de promover uma aliança democrática de trabalhadores e camponeses que os bolcheviques concordaram em suspender a coletivização da terra. De forma similar, Mao Zedong teve de atender os desejos do campesinato na china por terras individuais e, posteriormente, lidou com o problema de reeducá-los a respeito da coletivização da agricultura.

Luxemburgo dedicou grande parte de seu criticismo à questão da democracia. Ela começou reconhecendo que a revolução foi a primeira experiência na ditadura proletária na história do mundo e, nesse sentido, uma experiência. Ocorreu sob as mais difíceis das condições e, por isso, erros eram esperados. (A visão soviética, em contraste, é trivial). De fato, seu medo era que, em dadas circunstâncias de isolamento e economia atrasada, tentativas de democracia e socialismo poderiam ser facilmente distorcidas. Luxemburgo estava, na verdade, afirmando que os bolcheviques começaram com o pé esquerdo. Ela insistiu na privação de direitos de todas as classes e viu a Assembleia Constituintes como essencial[30]. Entretanto, os criticismos sobre a falta de democracia no período de 1918-19 são grosseiramente exagerados. Qual era a situação? Partidos rivais foram banidos, o sufrágio havia sido proscrito e agências de propaganda como a imprensa eram controladas pelos bolcheviques. Não havia arregimentação afetando a maioria da população. A Rússia, naqueles anos, estava muito distante do Estado totalitário. Tais medidas, adotadas para enfrentar a contrarrevolução, estava completamente dentro dos ditames sugeridos por Engels. (Lênin estava ciente de que era uma experiência.)

Logo, Rosa Luxemburgo esteve contra a democracia para os camponeses e ela era contra independência e autonomia para as nacionalidades[31]. Ela era a favor da democracia para a burguesia, recusando-se a concordar com os bolcheviques que eles deveriam ser impedidos de votar.  Essa recusa em ver que, em uma revolução, é preciso perceber que a classe oponente era um inimigo mortal levou à própria morte de Luxemburgo. Seu partido na Alemanha estava envolvido em uma situação revolucionária em 1919 e ela demorou de agir. Ao invés disso, os reacionários a capturaram e assinaram-na a sangue frio[32]. Esse foi o preço que ela pagou por falhar em reconhecer que uma revolução não é um chá das cinco. A sua própria experiência subsequente trágica e cruelmente expõe as limitações de sua análise da situação russa em 1918.

De um jeito curioso, os criticismos de Luxemburgo tiveram mais relevância para o futuro do que para o tempo em que escreveu. Foi as consequências a longo prazo das relações dialéticas entre Lênin e o Comitê Central, entre o Comitê Central e os membros, entre a burocracia e o povo. Tomemos a questão das instituições democráticas representativas e o povo. O momento vívido das massas é uma pressão a essas instituições e as dá vitalidade. Além do mais, por causa de a revolução e a ditadura ser uma experiência, as coisas precisam ser feitas por tentativa e erro, não por decreto. O povo não deve ser entravado em sua improvisação e criatividade. Quando as massas populares são alineadas, a burocracia cresce, a ditadura emerge e há uma “brutalização da vida pública”[33]. Esse tipo de predição será muito importante ao avaliar o período do governo de Stalin e para relacioná-la com as ideias políticas e instituições elaboradas por Lênin.


[1] V. I. Lenin, The Proletarian Revolution and the Renegade Kautsky (Peking: Foreign Languages Press, 1965), p. 7.

[2] O próprio Kautsky admite seu apoio aos Bolcheviques. Ver Karl Kautsky, “Die Aussichten der Funfjahresplanes,” Die Gesellschaft 8, n. 3 (Março, 1931), p. 255–64. Para uma tradução ao inglês, ver prefácio de Kautsky, Bolshevism at a Deadlock (Londres: George Allen e Unwin, 1931), p. 7–23.

[3] Karl Kautsky, The Dictatorship of the Proletariat, (Ann Arbor, MI: University of Michigan Press, 1964, orig. 1919), p. 42–6.

[4] Ibid., p. 140.

[5] Kautsky, The Dictatorship of the Proletariat, 42–58. Sua discussão sobre a dispensa da Assembleia Constituinte é tratada nas páginas 65-9. Kautsky nunca, de fato, tenta aplicar seus argumentos diretamente no processo histórico no qual os bolcheviques tomaram o poder. Ao invés disso, ele delimita o que vê como sendo a definição de Marx e Engels da ditadura do proletariado, usando exemplos da Comuna de Paris (1871) e da Revolução Francesa. Para uma elaboração de seu conceito, ver Kautsky, Von der Demokratie zur Staatssklaverei: Eine Ausieinandersetzung mit Trotzki (Berlin: Freiheit, 1921), p. 38–43, 83–84; The Labour Revolution (New York: Dial Press, 1925), p. 59–89; Democracy versus Communism (New York: Rand School Press, 1946), p. 29–47.

[6] Lenin, The Proletarian Revolution and the Renegade Kautsky (Moscow: Kommunist Publishers, October–November 1918), p. 16. Disponível em Lenin’s Collected Works, vol. 28 (Moscow: Progress Publishers, 1974) p. 227–325, trans., ed., Jim Riordan.

[7] Vladimir Lenin, “Two Tactics of Social Democracy,” in V. I. Lenin: Selected Works (New York: International Publishers, 1971), p. 99–107; p. 139–147; “State and Revolution,” in Selected Works, p. 279–288; “The Immediate Tasks of the Soviet Government,” in Selected Works, p. 401–31.

[8] Lênin discute a distinção entre democracia burguesa e operária em “A revolução proletária e o renegado Kautsky,” p. 19-29.

[9] Em adição à declaração de Seton-Watson citada acima, muitos outros historiadores burgueses admitiram a falta de reação pública face à dispensa da Assembleia Constituinte. Ver George Vernadsky, Lenin: Red Dictator (New Haven, CT: Yale University Press, 1931), p. 192–5; e Adam Ulam, The Bolsheviks: The Intellectual and Political History of The Triumph of Communism in Russia (New York: Collier Books, 1968). Ulam escreve: “A falta de reação pública violenta à dissolução da Assembleia mostra que as ‘massas’, em geral, não se importavam com o seu destino.” (p. 397)

[10] Lenin, “The State and Revolution,” em Selected Works, 293–5, onde ele discute o fracasso da Comuna de Paris e a necessidade de destruir o Estado existente.

[11] A visão de Marx sobre o campesinato vem sendo um grande ponto controverso. O trabalho mais conhecido no tema é Marx Against the Peasant: A Study of Social Dogmatism [Marx contra o camponês: um estudo sobre dogmatismo social] (Londres: Wiedenfeld & Nicolson, 1951). Infelizmente, a controvérsia somente foca em se a visão de Marx estava correta ou não; há pouca discussão em qual era, de fato, a visão marxiana. Escritos posteriores de Marx, especialmente com relação à Rússica, indica que ele não era tão dogmático na “questão camponesa” como muitos comentadores o retrataram. Nas notas de Marx sobre o Estatismo e Anarquia de Bakunin, ele escreveu: “Onde a massa dos camponeses ainda for donos de propriedade privada, onde eles até constituem uma relativamente importante maioria da população, como são nos Estados do continente europeu ocidental, onde eles ainda não desapareceram e foram substituídos por trabalhadores agrícolas assalariados, como na Inglaterra; nesses casos, a seguinte situação surge: ou o campesinato impede toda revolução de trabalhadores e leva-a à falência,  como foi feito na França até então, ou o proletariado (…) deve, enquanto governo, inaugurar medidas que melhorem diretamente a situação do camponês e que, portanto, o conquistem para a revolução. Medidas que, em essência, facilitarão a transição da propriedade privada para a coletiva na terra para que o próprio camponês se converta por motivos econômicos. O proletariado não deve, entretanto, entrar em conflito aberto com o campesinato proclamando, por exemplo, a abolição da herança ou a abolição da propriedade – essa última somente é possível quando o latifundiário capitalista tiver expropriado o camponês e o trabalhador real da terra for um proletário trabalhador assalariado tanto como um trabalhador urbano e, portanto, tenha diretamente os mesmos interesses.” In David McLellan (ed.), Karl Marx: Selected Writings (Oxford e Nova Iorque: Oxford University Press, 1977), p. 561.

[12] Kautsky, Dictatorship, xxxi. Em um rascunho de uma carta à renomada revolucionária russa Vera Zasulich, Marx escreveu em referência às condições da Rússia: “Em toda instância, o precedente ocidental não provaria nada sobre a “inevitabilidade histórica” deste processo.” No mesmo rascunho, Marx declara explicitamente que, para um entendimento adequado das condições russas, “devemos descer da teoria pura para a realidade russa.” In  McLelland, (ed.), Karl Marx: Selected Writings, p. 577-8.

[13] Lênin, “The Development of Capitalism in Russia[O desenvolvimento do capitalism na Rússia”, in Collected Works, vol. 3. (Moscou: Progress Publishers, 1960), p. 172-87, p. 310-30; “Theory of the Agrarian Question” [Teoria da Questão Agrária], in Selected Works, vol. 8 (Nova Iorque: International, 1938). Há inúmeros exemplos de discussões de Lênin sobre o papel do campesinato na revolução. Ver parte 4 de “From Burgeois Revolution to Proletarian Revolution,” [Da revolução burguesa à revolução proletária] in Selected Works, vol. 6 (Nova Iorque: International, 1938), p. 339-96; e parte 2 de “The Period of War Communism (1918-1920)” [O período do comunismo de guerra (1918-1920)] in Selected Works, vol. 8 (Nova Iorque: International, 1938), p. 105-210.

[14] Lênin, “Speech Delivered at the First All-Russian Congress of Land Department, Committees of Poor Peasants and Communes, December 11, 1918,” [Discurso proferido no Primeiro Congresso de Toda a Rússia do Departamento da Terra, Comitês de Pobres Camponeses e Comunas, 11 de dezembro de 1918]. In Collected Works, vol. 28 (Moscou: Progress Publishers, 19172, 4. ed.), p. 338-448. Ele escreve: “Sabemos bem que em países onde a economia do pequeno camponês prevalece, a transição para o socialismo não pode ser efetuada, a não ser que ocorra uma série de estágios preliminares graduais. Percebemos completamente que tais vastas sublevações na vida de dezenas de milhões de pessoas como a transição da produção individual do camponês para o cultivo coletivo da terra – afetando, como fazem, as mais profundas raízes da vida e dos hábitos – pode ser alcançada somente quando a necessidade compelir o povo a transformar a própria vida por completo.” (p. 339-40).

[15] O Partido Socialista Revolucionário, formado entre 1898 e 1901, foi uma organização pseudo-anarquista formada pelo campesinato médio e alguns intelectuais revolucionários. Seu programa reivindicava a socialização da terra e maior descentralização do estado. G. T. Robinso, Rural Russia [Rússia Rural], p. 140.  

[16] Kautsky escreve: “ Uma ditadura da minoria sempre encontra o seu mais poderoso apoio em um exército obediente, mas, quanto mais o substitui pelo apoio da maioria, mais conduz a oposição a procurar um remédio pelo apelo à baioneta, em vez de um apelo ao voto que lhes é negado. A Guerra Civil se torna o método de ajuste de antagonismos sociais e políticos.” Kautsky, Dictatorship [Ditadura], p. 51-2.

[17] Ironicamente, até os mencheviques reconheceram a primazia da luta contra a contrarrevolução. Em um panfleto denunciando as Jornadas de Julho, a o comitê organizativo do Partido Operário Social-Democrata Russo (Mencheviques) proclamou que o que “põe em risco a nossa revolução e a nossa liberdade é a união de todas as forças do mal de todos os contrarrevolucionários francos e velados.” In Alfred Golder Franc (ed.), Documents of Russian History, 1914-1917 [Documentos da História Russa, 1914-1917] (Gloucester, MA: Peter Smith, 1964 orig., 1927), p. 459.

[18] Karl Marx, “Civil War in France” [“A Guerra Civil na França”]; Frederick Engels, “On Authority,” [Sobre a autoridade,] in Marx and Engels: Selected Works, vol. 1 (Moscou: Progress Publishers, 1951).

[19] Engels, “On Authority,” [Sobre a autoridade], p. 578; também citado em Lênin, The Proletarian Revolution and the Renegade Kautsky [A revolução proletária e o renegado Kautsky], p. 16.  

[20] Rodney aqui está se referindo à décima primeira tese de Marx sobre Feuerbach: “Os filósofos têm tão somente interpretado o mundo de diferentes formas; a problemática, entretanto, é transformá-lo.” Karl Marx e Frederick Engels, Collected Works, vol. 5 (Nova Iorque: International, 1976), p. 8.

[21] Para mais sobre a história da Segunda Internacional, ver G. D. H. Cole, The Second International, 1889-1914 [A Segunda Internacional, 1889-1914], vol. 3 de The History of Socialist Thought [A história do pensamento socialista] (Londres: Macmillan, 1956); James Joll, The Second International [A Segunda Internacional] (Londres: Weidenfeld & Nicolson, 1955); Gerhart Niemeyer, “The Second Interantional: 1889-1914,” in M. M. Drachkovitch (ed.), The Revolutionary Internationals [As Internacionais Revolucionárias] (Stanford, CA: Stanford University Press, 1964).

[22] Eduard Bernstein, filho de um engenheiro de ferrovias, entrou para o Partido Social-Democrata Alemão em 1872. Face às medidas antissocialistas implementadas pelo Estado, Bernstein foi forçado a se exilar na Inglaterra, onde ele, em seguida, desenvolveu a essência das suas ideias políticas. Eventualmente, ele revisou o marxismo, criando a noção de “socialismo evolucionário.” De acordo com Bernstein, o socialismo poderia evoluir dentro da estrutura política do parlamentarismo do Estado. Seu mais famoso trabalho é o Evolutionary Socialism: Criticism and Affirmation [Socialismo evolucionário: criticismo e afirmação] (Nova Iorque: Shocken, 1961, orig., 1899). Ver também Peter Gay, The Dilemma of Democratic Socialism: Edward Bernstein’s Challenge to Marx [O dilema do socialismo democrático: o desafio de Edward Bernstein para Marx] (Nova Iorque: Columbia University Press, 1952).

[23] Para mais sobre Jean Jaurès, ver a biografia definitiva de Harvey Goldberg: The life of Jean Jaurès [A vida de Jean Jaurès] (Madison, WI: University of Wisconsin, Press, 2003, orig. 1966).

[24] Rosa Luxemburgo, The Russian Revolution and Leninism or Marxism [A revolução russa e leninismo ou marxismo] (Ann Arbor, MI: University of Michigan Press, 1961), p. 25.

[25] Ibid., p. 31.

[26] Luxemburgo, The Russian Revolution [A revolução russa], p. 35. Sua crítica sobre Kautsky perpassa pelo primeiro capítulo, especialmente p. 26-39.

[27] Basta olhar a introdução de Bertram Wolfe à Revolução Russa de Luxemburgo.

[28] Luxemburgo, Russian Revolution, p. 49.

[29] Ibid., p. 42-4.

[30] Ibid., p. 57-62.

[31] Sobre a posição de Luxemburgo acerca da questão nacional, ver Luxemburgo, Russian Revolution, p. 47-56. Ver também Horace B. Davis (ed.), The National Question: Selected Writings by Rosa Luxemburg [A questão nacional: escritos selecionados, por Rosa Luxemburgo] (Nova Iorque: International Publishers, 1976) ep ara uma crítica, ver Mary-Alice Waters (ed.) Rosa Luxemburg Speaks [Rosa Luxemburgo fala] (Nova Iorque: Pathfinder Press, 1970), p. 12-17.

[32] No protesto pró-aborto das trabalhadoras de Berlin, Luxemburgo foi presa. Durante a sua remoção para a prisão, ela foi atacada e espancada fatalmente por soldados. Seu corpo foi recuperado dias depois em um canal.

[33] Luxemburgo, Russian Revolution, p. 72.

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