Por que o Congresso Pan-Africano de 1945 foi sediado em Manchester?

Por Marika Sherwood.

Artigo original postado em Race Archive.

Tradução por Giovanni Libanori.


Temos o prazer de publicar este artigo pela renomada historiadora Marika Sherwood. Atualmente pesquisadora sênior no Institute of Commonwealth Studies, Marika é reconhecida não apenas pelo seu conhecimento detalhado sobre o Congresso Pan-africano, mas também pelo seu comprometimento em defender que o panafricanismo seja melhor pesquisado e documentado. 

O artigo de Marika explora porque Manchester foi escolhida como a localização para o Congresso de 1945, indicando uma expressiva e ativa comunidade negra – infelizmente pesquisada ou documentada de forma insuficiente -, e o apoio do então Prefeito.

Em seu livro Pan-africanismo, Hakim Adi argumenta que “o Congresso de Manchester foi capaz de dar voz, especialmente àqueles nas colônias africanas e caribenhas da Grã-Bretanha, e de articular suas reivindicações pelo fim do regime colonial e a inauguração de um novo mundo” (p.127). Kwame Nkrumah, que em seu retorno à Costa do Ouro[1] liderou a luta por independência, ajudou a organizar e contribuiu para o Congresso. Ele relata em sua Autobiografia (1957) que o “Congresso foi um tremendo sucesso… (ele) aconselhou os africanos e os de origem africana a se organizarem em partidos políticos, sindicatos, sociedades cooperativas e organizações campesinas em apoio à sua luta por liberdade política e pelo progresso econômico…” (pp.52-53). Jomo Kenyatta, que ao voltar para seu país, liderou a luta do Quênia pela independência, afirma que “o Congresso foi um marco na história da luta dos povos africanos pela unidade e liberdade”[2]

Cada relato que se lê sobre a luta por independência nas colônias observa a importância deste Congresso. Mas também deve ser mencionado nos relatos a luta por igualdade no Reino Unido. Afinal, “embora a ênfase do Congresso fosse nos assuntos africanos, os problemas enfrentados pelos povos de origem africana no Hemisfério Ocidental também foram considerados”.[3]

Por que o Congresso foi sediado em Manchester e não em Londres? Havia uma população negra na cidade? As lutas por igualdade estavam enraizadas ali?

População negra de Manchester – desde o século XVIII

Meu primeiro olhar sobre esta história é do abolicionista do tráfico de escravos Thomas Clarkson. Em 1787 ele estava em Liverpool recolhendo informações sobre os comerciantes de escravos. Ativistas abolicionistas lhe pediram para dar uma palestra na Igreja Colegiada, agora a Catedral. Ele aceitou e anotou em seu diário: Fiquei surpreso também por encontrar uma grande multidão de negros de pé em volta do púlpito. Deveria haver quarenta ou cinquenta deles.”[4]

Como escravos certamente não teriam sido autorizados a assistir uma palestra de Clarkson, devemos presumir que eles eram homens (e mulheres?) livres. Em 1790, quantos puderam comparecer à palestra de Olaudah Equiano sobre seu livro A Interessante Narrativa da vida de Olauadah Equiano ou Gustavus Vassa, o Africano?[5]. Eles estavam entre as 10.639 pessoas que assinaram a petição de Manchester ao Parlamento em 1788 pela abolição do comércio de escravos africanos? O ativismo antiescravidão era abundante na cidade, apesar de sua riqueza derivar principalmente do algodão cultivado por escravos – e alguns de plantações trabalhadas por escravos.[6]

Militantes afro-americanos contra a escravidão e contra o linchamento também visitaram a cidade. Entre esses visitantes estava Frederick Douglass, que foi convidado pela Liga Antiescravidão em 1846 para dar uma palestra no Free Trade Hall, permanecendo por vários meses na St Ann’s Square[7]. Henry Box Brown percorreu a Grã-Bretanha por quase vinte anos; curiosamente, uma segunda edição de sua autobiografia foi “impressa por Lee e Glynn” em Manchester, em 1851. Ida B. Wells deu 12 palestras em seus dez dias em Manchester, em 1894[8].

Então Manchester estava dividida entre militantes pró e contra a escravidão?

Existia algum/vários africanos escravizados na região de Manchester? Uma forma de mostrar sua riqueza era ter um criado “negro” – em algumas pinturas eles vestem “colares de escravo”. Quantos africanos livres viveram ou procuraram trabalho na cidade? Afinal, havia diversos marinheiros africanos dispensados de navios mercantes em Liverpool e alguns poderiam ter procurado trabalho na área de Manchester.

Existiam pelo menos dois profissionais negros em Manchester antes do Dr. Milliard. O afro-americano George Rice se formou como médico em Edimburgo e trabalhou como clínico no Manchester Royal Infirmary e depois no Chorlton Infirmary entre 1874 e 1878[9]. Edward Theophilus Nelson, nascido na Guiana Britânica, formou-se no St. John’s College, Oxford, em 1902 e habilitou-se como advogado em Londres, em 1904. Ele se mudou para Bowdon e depois para Hale; seu escritório jurídico ficava na Rua King 78, no centro de Manchester; ele foi inscrito para comparecer nos tribunais de Cheshire e Lancashire. Ele foi eleito para o Conselho do Distrito Urbano de Hale de 1913 a 1940, o ano de sua morte, e foi membro fundador da Liga das Pessoas de Cor em 1931[10].

Ativistas negros – Makonnen e Milliard, 1920 – 30

O Dr. Peter Milliard, nascido na Guiana Britânica[11], abriu uma “clínica”[GLV1]  em Salford em 1924, e depois uma em Manchester. Naqueles dias não existia o NHS[12] – você pagava para ir ao médico. Parece provável que a maioria dos brancos daquele período não gostaria de se consultar com médico negro e, portanto, deve ter existido uma população negra considerável. Em 1935, Milliard se juntou a campanha contra a invasão da Etiópia pela Itália e fundou a Irmandade da Etiópia em Manchester[13]. Aparentemente, ele deu palestras na St. Peter Square. Makonnen aponta que Milliard “manteve por vários anos a ideia de Pan-africanismo sem temer por sua posição como médico”[14]. George Padmore se refere a ele consistentemente em seu livro Pan-africanismo ou Comunismo[15].

Outro homem da Guiana Britânica se tornou ainda mais importante em Manchester. T. Ras Makonnes, nascido George Thomas Griffiths, chegou em Londres em 1937 e trabalhou com George Padmore; ele se mudou para Manchester em 1939, aceitando uma oferta de um quarto pelo Dr. Milliard, um colega da Federação Pan-Africana – assim como Jomo Kenyatta[16].

Os anos 1940

Provavelmente, com alguma ajuda financeira inicial do Dr. Milliard, Makonnen abriu um café/restaurante atrás de outro: A Casa de Chá Etíope (Ethiopian Teashop); o Cosmopolitan, o Oriente (Orient), o Bela Estrela (Belle Etoile) e depois um clube chamado O Fórum (Forum). Estes serviram estudantes das colônias, soldados afro-americanos sediados ali durante a Segunda Guerra Mundial e pessoas negras locais, alguns dos quais “Milliard ou Martinson transportaram para frente e para trás”[17]. Ele também possuía diversas casas, que alugava para estudantes.

Em 1943, ‘Mak’ (como era conhecido normalmente) estava entre aqueles que organizaram a filial em Manchester do Centro de Bem-Estar Negro[18], estabelecido em Liverpool em 1942. Seu objetivo era “ajudar e atender às necessidades da população de cor”. Na seção de Manchester do Relatório NWC de 1942-44, “o prefeito de Manchester… expressou a opinião de que tal Centro Social era de grande valor para fomentar a unidade entre as várias seções da raça negra. Quando o Centro foi inaugurado, havia cerca de 250 negros associados a ele… O centro organizava festas para crianças. Na festa de outubro de 1943, pelo menos 150 crianças estavam presentes…”[19].

O restaurante Cosmopolitan de Makonnen, na Rua Oxford 58 (cujas paredes eram cobertas de murais pelo “Jean… um judeu austríaco”) tornou-se o escritório local da Federação Pan-Africana[20]. Mak relata que Jomo Kenyatta foi “em algum momento o responsável por este restaurante[21]. O Departamento de Publicidade do Congresso estava instalado ali, assim como o revista Pan-Africa, que Mak começou a publicar em janeiro de 1947. Na edição de agosto, o Dr. Milliard está entre os “editores associados e contribuintes”, assim como Jomo Kenyatta e Kwame Nkrumah.

Assim, dada a discriminação racial em hotéis, bares e restaurantes, Makkonen poderia oferecer segurança. “Tínhamos todas as comodidades… na ocasião da conferência, tínhamos construído uma rede de comitês estratégicos para o bem-estar e defesa das pessoas de cor”[22]. Não apenas lugares para comer e dormir, mas também, como Makonnen e Milliard tinham tido algum contato anterior com ele, o prefeito concordou em dar espaço para conferência, e para participar e falar no Congresso. Dr. Milliard estava entre os organizadores do Congresso, assim como Makonnen e Jomo Kenyatta[23].

Milliard foi presidente da Associação de Bem-Estar Negro em Manchester e George Padmore relata que ele “interessou-se ativamente por todos os assuntos relativos às comunidades negras em todas as Ilhas Britânicas… Um generoso doador e amigo leal… Sua morte ocorreu logo após o 5º Congresso Pan-Africano… uma grande perda para raça Negra”[24].     

Quando comecei a considerar organizar uma conferência comemorativa em 1995, eu pesquisei informações sobre a população negra de Manchester[25]. Encontrei muito pouco – apenas um livro: Never Counted Out! The Story of Len Johnson, Manchester’s Black Boxing Hero and Communist, por Michael Herbert publicado pela Dropped Aitches Press em 1992. Também encontrei o Rude Awakening: African/Caribbean settlers in Manchester: An Account, compilado pelo Roots Oral History Project em 1992. Mas não há datas, portanto, não há muito uso. Assim, comecei a procurar pessoas que pudessem ter participado, que pudesse me contar sobre o Congresso e a vida em Manchester. Sem financiamento, eu não teria sido capaz de fazer isso sem a cama que sempre me foi dada pela Coca Clarke. Ela morreu há pouco tempo. (Obrigado de novo, querida Coca!). Eu publiquei todas as minhas descobertas como Manchester and the 1945 Pan-African Congress (Savannah Press, 1995).

Infelizmente, ninguém deu continuidade às minhas descobertas. Então, não sabemos quase nada sobre o que eu penso ter sido uma população negra considerável – e politicamente ativa – em Manchester desde o século XIX.

Marika também gravou esta conversa, que pode ser acessada aqui:

https://mmutube.mmu.ac.uk/media/1_fpebqm06


[1] Atual Gana. N.T.

[2] Kenyatta, na republicação de 1963 de George Padmore (editor), Colonial and Coloured Unity: A programme of Action. History of the Pan-African Congress (London Hammersmith Bookshop, 1967) p.iii.

[3] George Padmore Pan-Africanism or Communism? (London: Dennis Dobson, 1956, p.169).

[4] “What evidence is there of a black presence in Britain and north west England?”. Revealing Histories. Arquivado do original em 27 de novembro de 2016; Ellen Gibson Wilson, Thomas Clarkson (London: Macmillan, 1989) pp.378.

[5] The Interesting Narrative of the Life of Olauadah Equiano or Gustavus Vassa, The African, sem tradução para o português. N.T.

[6] James Walvin, England Slaves and Freedom, 1776-1838  (University Press of Mississippi, 1986) p.110. Em 1833 o Governo Britânico decidiu libertar todos os escravos mantidos em suas colônias. Os proprietários receberam uma compensação pela perda de seus trabalhadores não remunerados, que não receberam nada. Eu pesquisei os relatórios de Compensação para ‘Manchester’ e encontrei quatro recibos: Eleanora Etherton, 23 Quay St: 726 escravos, £13,638; John Diggles Bayler & Samuel Bayley, Manchester, Lancashire, 240 escravos, £4,860;Isabella Pallmer Massy-Dawnson, 461 escravos, £6,524; J.W. Warren, 51 Windmill St, Manchester: 10 escravos, £170. (Total de £19,192, hoje £2 milhões). Considerado um “reclamante sem sucesso”: Edward Moore, ‘de Manchester’: 245 escravos £3719. Claro, é bem possível que houvesse manchesterianos que possuíam plantações e escravos antes de 1833.

[7] ‘Manchester, Abolitionism, and Frederick Douglass’:  https://citiesmcr.wordpress.com/2011/10/24/manchester-abolitionism-and-frederick-douglass Ele deu 300 palestras durante seus anos no Reino Unido entre 1845-47.

[8] Sobre Brown, ver Jeffrey Green, Black Americans in Victorian Britain, Pen & Sword Books, 2018, p.15. Wells relata sua visita em Crusade for Justice: The Autobiography of Ida B. Wells, Editada por Alfreda M. Duster, University of Chicago Press, 1970, pp.146-151.

[9] Green (n.6), p.97; ver https://whitehallmuseum.wordpress.com/2018/10/05/object-of-the-month-october/

[10] Jeffrey Green, Black Edwardians, London: Frank Cass, 1998, pp.199-202 e também ‘Edward T. Nelson, New Community, 12/1, 1984-5, pp.149-54.

[11] Hoje, República da Guiana. N.T.

[12] National Health Service (Serviço de Saúde Nacional), é um termo que engloba os sistemas públicos de saúde da Inglaterra. N.T.

[13] Milliard era vice-presidente do Amigos Internacionais da Absínia, fundado em Londres em 1935; Kenyatta era ‘Hon. Sec’ (Secretário Honorário).

[14] Ras Makonnen, Pan-Africanism from Within, (gravado e editado por Kenneth King, OUP 1973, p149, fn 18);  Dr. King omitiu muito das transcrições no livro publicado; isto é da transcrição completa da p.163. Os oficiais eram G. Fiagbenu e P. O. Jackson; Eu não fui capaz de encontrar nenhuma informação sobre estes homens. Ver também o registro de ‘Mak’ em Hakim Adi & Marika Sherwood, Pan-African History, Political figures from Africa and the Diaspora since 1787 (London: Routledge, 2003, pp.117-122).

[15] Pan-africanism or Communism, sem tradução para o português. N.T.

[16] Em Londres, George Padmore havia começado a organizar o que se tornou a Federação Pan-Africana no começo dos anos 1940. Os cabeçalhos de algumas cartas da FPA (PAF em inglês) dão os nomes dos principais oficiais: Kenyatta como vice-presidente e Griffiths como secretário, em uma carta de 1946; Milliard está em uma carta de 1945, como presidente.

[17] Makonnen (n.10, pp.135-138). Eu não fui capaz de descobrir quem era ‘Martinson’.

[18] Manchester Negro Welfare Centre.

[19] Report of the Negro Welfare Centres of Great Britain and Ireland, 1942-1944, p.9. A fotografia na p. 8 (copiada do Daily Dispatch) da inauguração do Centro inclui o Bispo de Manchester e o Prefeito. Carta do NWC para Church Missionary Society, 13/6/1945 (Ambas estão mantidas no Church Of England Records Centre.).

[20] A Rua Oxford 58 também se tornou a casa do ‘Serviço Panaf’, que importada e exporava livros; então também uma livraria. Pan-Africa logo foi banida na maioria das coloniais. (Adi & Sherwood (n.10), p.121).

[21] Makonnen (n.10), p.138, há mais sobre Kenyatta na p.162 e nas transcrições.

[22] Makonnen (n.10), p.163, 164.

[23] Padmore (n.2), pp.152-161.

[24] Padmore (n.2), seção de nome ‘Tribute to a Negro Leader, pp159-161. Hakim Adi e eu incluímos uma cópia completa do relatório original sobre o Congresso em nosso livro, The 1945 Manchester Pan-African Congress Revisited (London: New Beacon Books, 1995).

[25]Existem menções em Peter Fryer, Staying Power: The history of black people in Britain (London: Pluto Press, 1984). Acredito que este ainda é o melhor livro abrangente sobre esta história.


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