Thomas Sankara – Salvar a árvore, o meio ambiente e a própria vida

Discurso de Thomas Sankara em Paris, na primeira Conferência pela Proteção da Árvore e da Floresta em 5 de fevereiro de 1986.

Originalmente publicado em francês no site Thomas Sankara.

Tradução por Guilherme Henrique.


Minha pátria, Burkina Faso, é inegavelmente um dos poucos países deste planeta que tem o direito de se autodenominar e se ver como uma concentração de todos os males naturais que a humanidade está ainda sofrendo no final do século XX.

E, no entanto, os oito milhões de burquinenses internalizaram essa realidade dolorosamente por 23 anos. Eles viram mães, pais, filhas e filhos morrerem, dizimados às centenas pela fome, inanição, doenças e ignorância. Com lágrimas nos olhos, eles viram as lagoas e os rios secarem. Desde 1973, viram deteriorar-se o meio ambiente, as árvores morrerem e o deserto invadi-los a passos de gigante. Estima-se que o deserto avança, anualmente, 7 km no Sahel. 

Só estas realidades permitem compreender e aceitar a legítima revolta que nasceu, que amadureceu durante muito tempo e que finalmente eclodiu, de forma organizada, na noite de 4 de agosto de 1983 em Burkina Faso, sob a forma de uma Revolução democrática e popular.

Sou apenas o humilde porta-voz de um povo que se recusa a ver-se morrer por assistir passivamente à morte de seu ambiente natural. Desde 4 de agosto de 1983, a água, as árvores e a vida, para não dizer a sobrevivência, são elementos fundamentais e sagrados em todas as ações do Conselho Nacional da Revolução que dirige Burkina Faso.

É também por isso que devo prestar homenagem ao povo francês, ao seu governo e em particular ao seu presidente, Sr. Fançois Mitterrand, por esta iniciativa, que reflete o gênio político e lucidez de um povo sempre aberto ao mundo e sempre sensível as suas misérias. Burkina Faso, localizada no coração do Sahel, saberá sempre apreciar, ao seu justo valor, as iniciativas que coincidem perfeitamente com as preocupações vitais de seu povo. Os burquinenses responderão sempre que necessário, a menos que seja aventureirismo.

Há quase três anos, meu povo, o povo de Burkina Faso, luta contra a desertificação. Era, portanto, seu dever estar presente nesta tribuna para falar sobre sua experiência e também se beneficiar da de outros povos ao redor do mundo. Há quase três anos, em Burkina Faso, todos os eventos felizes – casamentos, batismos, condecorações, visitas de personalidades, etc – são celebrados com uma cerimônia de plantio de árvores.

Para o novo ano de 1986, todos os alunos e alunos da nossa capital, Ouagadougou, fizeram com as próprias mãos mais de 3.500 fogões melhorados oferecidos às suas mães, além dos 80.000 fogões feitos pelas próprias mulheres em dois anos. Foi a sua contribuição para o esforço nacional para reduzir o consumo de lenha e salvar árvores e vidas.

O acesso à propriedade ou o simples arrendamento das centenas de habitações sociais construídas desde 4 de agosto de 1983 está estritamente condicionado ao compromisso do beneficiário de plantar um número mínimo de árvores e de as manter como a menina dos seus olhos. Beneficiários que desrespeitaram seu compromisso já foram expulsos graças à vigilância de nossos Comitês de Defesa da Revolução (CDR) que as línguas caluniosas gostam de menosprezar sistematicamente e sem nuances.

Depois de ter vacinado em todo o território nacional, em quinze dias, dois milhões e quinhentas mil crianças, de 9 meses a 14 anos, de Burkina Faso e países vizinhos, contra sarampo, meningite e febre amarela; depois de ter realizado mais de 150 perfurações no solo, garantindo o abastecimento de água potável a cerca de vinte setores da nossa capital, até agora desprovidos desta necessidade essencial; depois de aumentar a taxa de alfabetização de 12% para 22% em dois anos; o povo burquinense continua vitoriosamente sua luta por um Burkina verde.

Dez milhões de árvores foram plantadas como parte de um Programa Popular de Desenvolvimento (PPD) de 15 meses, que foi nossa primeira aposta enquanto aguardamos o Plano Quinquenal. Nas aldeias e nos vales em que correm nossos rios, cada família deve plantar cem árvores por ano.

O corte e comercialização de madeira foram totalmente reorganizados e vigorosamente disciplinados. Essas atividades vão desde a obrigatoriedade da carteira de comerciante de madeira, de respeitar as áreas destinadas à exploração madeireira, até a obrigação de garantir o reflorestamento das áreas desmatadas. Cada cidade e cada aldeia em Burkina Faso tem agora um bosque, reabilitando assim uma tradição ancestral.

Graças ao esforço de fazer com que as massas reconheçam suas responsabilidades, nossos centros urbanos estão livres de animais abandonados. No campo, nossos esforços se concentram na sedentarização do gado para favorecer o caráter intensivo da criação para combater o nomadismo selvagem. Todos os atos criminosos dos incendiários que queimam a floresta são julgados e punidos pelos Tribunais Populares de Conciliação nas aldeias. A obrigatoriedade do plantio de um certo número de árvores está entre as sanções desses tribunais.

De 10 de fevereiro a 20 de março, mais de 35 mil camponeses, responsáveis por grupos e cooperativas rurais, farão cursos intensivos de alfabetização em gestão econômica, organização e preservação do meio ambiente.

Desde 15 de janeiro, uma grande operação chamada “Colheita Popular de Sementes Florestais” está ocorrendo em Burkina com o objetivo de abastecer os 7.000 viveiros da aldeia. Resumimos todas essas ações no termo “Três Lutas”.

Senhoras e senhores:

Minha intenção não é louvar sem moderação e sem medida a modesta experiência revolucionária de meu povo na defesa das árvores e das florestas. A minha intenção é lhes falar da forma mais explícita possível, das profundas mudanças em curso em Burkina Faso, na relação entre o homem e a árvore. Minha intenção é dar testemunho da forma mais fiel possível, do nascimento e desenvolvimento, em minha pátria, de um amor sincero e profundo entre o homem burquinense e a árvore.

Ao fazê-lo, acreditamos estar traduzindo para a realidade nossa concepção teórica em relação aos meios e modos próprios de nossas realidades sahelianas, na busca de soluções para os perigos presentes e futuros que atacam as árvores em escala planetária.

O esforço de toda a comunidade aqui reunida e o nosso, as experiências acumuladas por vocês e por nós, certamente poderão garantir vitórias constantes e sustentadas para salvar a árvore, o meio ambiente e a própria vida.

Excelências, damas e cavalheiros:

Venho diante de vocês porque esperamos que se engajem em um combate que nós não podemos nos ausentar, nós que somos atacados diariamente e esperamos que o milagre verde surja da coragem de dizer o que deve ser dito. Venho juntar-me a vocês para lamentar os rigores da natureza. Venho a vocês para denunciar o homem cujo egoísmo é a causa da desgraça de seu próximo. A pilhagem colonial dizimou nossas florestas sem a menor intenção de replantá-las para nosso futuro.

A perturbação impune da biosfera por bandos selvagens e assassinos, em terra e no ar, continua. Nunca poderemos dizer o suficiente sobre o quanto todos esses dispositivos emissores de gás espalham carnificina. Quem tem os meios tecnológicos para estabelecer a culpa não tem interesse nisso e quem tem interesse nisso não tem os meios tecnológicos. Eles têm apenas sua intuição e profunda convicção do seu lado.

Não somos contra o progresso, mas queremos que o progresso não seja anárquico e criminalmente alheio aos direitos dos outros. Queremos, portanto, afirmar que a luta contra a desertificação é uma luta pelo equilíbrio entre o homem, a natureza e a sociedade. Como tal, é sobretudo uma luta política e não uma fatalidade.

A criação de um Ministério da Água que complementa o Ministério do Meio Ambiente e Turismo do meu país marca nosso desejo de colocar claramente os problemas para poder resolvê-los. Devemos lutar para encontrar os meios financeiros para explorar os nossos recursos hídricos: perfurações hidráulicas, represas e barragens. Este é o lugar para denunciar os acordos leoninos e as condições draconianas impostas pelos bancos e entidades financeiras que condenam nossos projetos nesta área. São essas condições proibitivas que causam o endividamento traumático de nossos países, proibindo qualquer ação real.

Nem os argumentos falaciosos do malthusianismo – e afirmamos que a África continua sendo um continente subpovoado – nem os acampamentos de verão pomposamente e demagogicamente batizados de “Operações de Reflorestamento”, constituem respostas. Nós e nossa miséria somos reprimidos como pessoas esfoladas e sarnentas cujos lamentos e clamores perturbam a tranquilidade e o silêncio dos fabricantes e mercadores da miséria.

É por isso que Burkina propôs e ainda propõe que pelo menos um por cento das colossais somas sacrificadas na busca de coabitação com outras estrelas sejam usadas para financiar, de forma compensatória, projetos de luta para salvar a árvore e a vida. Não perdemos a esperança que um diálogo com os marcianos possa levar à reconquista do Éden. Mas, entretanto, nós terráqueos também temos o direito de recusar uma escolha que se limita à simples alternativa entre o inferno e o purgatório.

Assim formulada, nossa luta pelas árvores e florestas é antes de tudo uma luta popular e democrática. Porque a excitação estéril e cara de alguns engenheiros e especialistas em silvicultura nunca fará nada! Da mesma forma, nem as consciências comovidas, mesmo sinceras e louváveis, dos múltiplos fóruns e instituições não poderão tornar o Sahel verde novamente, quando falta dinheiro para perfurar poços de água potável a 100 metros e há fartura para perfurar poços de petróleo a 3.000 metros! Como disse Karl Marx, os que vivem em um palácio não pensam nas mesmas coisas, nem da mesma forma, dos que vivem em uma choupana. Esta luta pela árvore e pela floresta é sobretudo uma luta anti-imperialista. Porque o imperialismo é o incendiário das nossas florestas e savanas.

Senhores presidentes, senhores primeiro-ministros, damas e cavalheiros:

É para que o verde da abundância, da alegria e da felicidade conquiste seu direito, que nos apoiamos nesses princípios revolucionários de luta. Acreditamos na virtude da revolução para impedir a morte de nossa Burkina Faso e abrir-lhe um futuro próspero.

Sim, o problema da árvore e da floresta é exclusivamente o de equilíbrio e harmonia entre o indivíduo, a sociedade e a natureza. Essa luta é possível. Não nos afastemos da imensidão da tarefa, não nos afastemos do sofrimento alheio, porque a desertificação já não tem fronteiras.

Podemos vencer esta luta se escolhermos ser arquitetos e não simplesmente abelhas. Será a vitória da consciência sobre o instinto. A abelha e o arquiteto, sim! O autor me permitirá estender essa comparação dualista em um tríptico, ou seja: a abelha, o arquiteto e o arquiteto revolucionário. ¹

Pátria ou morte, venceremos!

Obrigado.

¹ Referência ao trecho do primeiro volume d’O Capital: “Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade.”

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