Georgi Chicherin: Bolchevique e LGBT

Neste texto será extensamente citado o artigo “Georgi Chicherin: homossexual, ex-aristocrata e bolchevique” escrito por Travesti Socialista para o site Esquerda Online, além da tradução de passagens de livros que versam sobre a vida e política de Chicherin. Todas as referências bibliográficas constam ao final do texto.

Escrito por Andrey Santiago.


Em 1872, nascia em uma família da nobreza russa, o distante parente do poeta Alexandre Pushkin e futuro revolucionário bolchevique Georgi Chicherin. Formado pela Universidade de São Petersburgo em História e Linguagens, foi Comissário do Povo para as Relações Exteriores do governo soviético entre 1918 e 1930. Constituiu-se enquanto um diplomata central para garantir a retirada plena da Rússia da Primeira Guerra Mundial e assinar importantes acordos com outros países, conduzindo a política externa da União Soviética durante sua primeira década de existência.

Ao mesmo tempo em que travava disputas internacionais de extrema grandeza, resistiu e lutou contra a discriminação em seu país por conta de sua sexualidade: Chicherin era um dirigente homossexual durante a primeira revolução conduzida pela classe trabalhadora.

A vida de Chicherin pode ser analisada a partir da relação que este teve com duas pessoas que dividiram espaços com ele em determinadas fases de sua vida. Seu amigo Mikhail Khuzmin, autor homossexual que apoiou os bolcheviques e escreveu o primeiro romance russo sobre a homossexualidade. E seu adversário político Maxim Litvinov, membro do Comissariado para as Relações Exteriores e explícito homofóbico que constantemente duvidava das capacidades políticas de Chicherin, sendo apontado para a posição de Chicherin depois de sua retirada do cargo de Comissário do Povo.

A construção da longa e complexa amizade entre Chicherin e Khuzmin começou na Universidade de São Petersburgo, com ambos colegas influenciando um ao outro em suas formações políticas e artísticas, além de compartilharem entre si, por meio de cartas, dúvidas em relação a como agir perante a homossexualidade que os “incomodava” (um sentimento de rejeição que percebiam e diretamente observavam por serem homossexuais naquele período).

Devido a visão extremamente moralista e religiosa da aristocracia russa, espaço onde Chicherin foi criado, este recomendaria a seu amigo Kuzmin que confiasse na “Providência Divina” e fomentasse a abstinência sexual, se envolvendo com visões conservadoras e hegemônicas em relação a homossexualidade. Porém, a partir de sua estadia em Berlim, um centro de organização do nascente movimento LGBT (onde foi sediado o Comitê Científico-Humanitário conduzido pelo sexólogo Magnus Hirschfield, que abertamente defendia a população homossexual), Chicherin começou a lentamente evoluir sua concepção sobre o que significava a homossexualidade no sistema capitalista.

“Foi em 1906, quando estava em Berlim, que Chicherin fez uma crítica à obra “Asas” [de Khuzmin], e retratava um jovem homossexual que “saiu do armário”, como se tivesse ganhado asas. A crítica era sobre o excesso de disquisição “sempre sobre o mesmo assunto” e foi aceita pelo autor, que, em consequência, fez várias mudanças na obra. No mesmo ano, este [Khuzmin] publicou também as “Canções Alexandrinas”, que foram baseadas na coleção de poesias lésbicas e eróticas “Les Chansons de Bilitis” e retratava romances entre homens. Chicherin exaltou-as por sua grandiosa maestria e por retratar “o mais puro Khuzmin.” [1]

Durante este período entre 1905 e 1917, Chicherin se organizaria no Partido Social-Democrata Russo entre a fração dos mencheviques e se mudaria para a Inglaterra, posteriormente sendo preso no país por organizar ações de apoio à presos políticos russos, agitação contra o regime czarista e produção de textos antiguerra.

O prestígio de Chicherin entre os comunistas russos era notável, tanto Trotski, quanto Lênin se mobilizaram com grande intensidade para garantir a libertação do revolucionário russo da prisão na Inglaterra, que foi conquistada no início de 1918. Relatos chegam a apontar que Chicherin foi a pessoa que mais conversou com Lênin no telefone em seus últimos anos de vida, se tornando um conselheiro político próximo do principal dirigente dos bolcheviques.

“Lênin tinha muito respeito pelo novo Comissário para as Relações Exteriores. São inúmeras as cartas entre eles. Em 1919, ocorreu o Primeiro Congresso da Terceira Internacional Comunista, no qual Chicherin foi um dos cinco delegados russos. Ou seja, o fato de que Chicherin era homossexual não parece ter afetado essa relação de confiança.” [2]

Neste sentido, há de se citar o trecho de uma carta de Lênin que comenta sobre as características pessoais de Chicherin, onde o dirigente aponta:

“Chicherin é um trabalhador maravilhoso, o mais escrupuloso, sábio e competente. Pessoas assim devem ser admiradas. E em relação a sua fraqueza – sua falta de “comando” – e daí? Existem muitas pessoas com fraquezas reversas neste mundo.” [3]

Dentro daquele contexto histórico de constante criminalização e repúdio a homossexualidade, Lênin parecia ter uma visão mais tolerante do que muitos de sua época, concentrando-se na competência política dos militantes. Em relação a atuação de Chicherin enquanto membro da diplomacia soviética, destacam-se as seguintes negociações e políticas implementadas pelo Comissário:

“No tempo em que permaneceu como Comissário, Chicherin manteve uma política contra o imperialismo e da opressão nacional. Defendia a “autodeterminação dos trabalhadores de toda nacionalidade”, abolição da “diplomacia secreta, rompendo de uma vez com as tradições imperialistas através da publicação dos tratados secretos como também pela renúncia de todos os acordos ditados pela política imperialista do regime czarista”. Com essa concepção, conseguiu criar acordos com países muçulmanos, em especial com o Afeganistão. Com isso, ele colocou em prática a máxima de Marx: “Um povo que oprime outros povos não pode ser livre”. Outro aspecto inédito das relações exteriores da recém-formada Rússia Soviética era o apelo para que os trabalhadores dos outros países se mobilizassem contra a intervenção militar imperialista no novo país soviético.” [4]

Além dessas negociações, o diplomata russo chegou a dialogar com Eugenio Pacelli, que anos mais tarde se tornaria o Papa Pio XII sobre o futuro da Igreja Católica na União Soviética e a formular a política de aproximação com a China durante os anos 20 [5]. Chicherin conquistou o respeito dos principais dirigentes que estavam diretamente envolvidos na condução política da Revolução Russa, e por determinado período, garantiu a aprovação de Stálin em suas ações diplomáticas para a União Soviética. Aqui entra o segundo personagem principal que antagonizaria a vida de Chicherin durante a década em que ficou a frente da diplomacia soviética: Maxim Litvinov.

“Durante seu trabalho como diplomata, Chicherin deparou-se com um grande obstáculo: a homofobia de Maxim Litvinov, um dos membros do Comissariado para as Relações Exteriores. Boris Bazhanov, secretário de Stalin de 1923 a 1928, relata que Chicherin e seu principal deputado, Maxim Litvinov, constantemente enviavam memorandos secretos ao Comitê Central do Partido Bolchevique criticando e xingando um ao outro. Litvinov afirmava que seu adversário era “pederasta, idiota, maníaco e anormal”. Além de invejar seu adversário pelo seu posto e também das divergências políticas, Litvinov tinha especial aversão porque era homofóbico.” [6]

Com o passar dos anos, a saúde de Chicherin começou a ter sérias dificuldades, ao mesmo tempo, crescia entre a União Soviética disputas em relação a política de não-interferência nas questões sexuais dos cidadãos soviéticos. Todas essas situações escalam para que Chicherin se retire da diplomacia em 1930 e seja substituído por Litvinov. Seu final de vida é marcado por uma doença terminal que afetaria sua vida social e diminuiria seu círculo de amigos, até que um derrame cerebral acometesse o diplomata soviético em 1936.

Como é afirmado no texto do Esquerda Online: “Existem poucas fontes sobre a homossexualidade desse importante bolchevique”. De fato, são escassas as informações mais diretas sobre as lutas que Chicherin travou contra a discriminação que sofria por sua homossexualidade, mas sua história de vida consegue trazer à tona importantes referências para o movimento LGBT atual.

Dentre essas referências estão a própria participação e importância de uma pessoa LGBT na condução política da União Soviética; a possibilidade de evolução da opinião em relação à homossexualidade por meio do convívio e formação política sobre essa sexualidade e a constante luta para que políticas revolucionárias sejam implementadas, garantindo assim a emancipação de toda a classe trabalhadora, em suas mais variadas maneiras de se atrair e conviver.

Referências

[1] Georgi Chicherin: Homossexual, ex-aristocrata e bolchevique. Esquerda Online.

[2] Georgi Chicherin: Homossexual, ex-aristocrata e bolchevique. Esquerda Online.

[3] Celebrating the gay Russian celebrities history books tried to erase. Calvert Journal.

[4] Georgi Chicherin: Homossexual, ex-aristocrata e bolchevique. Esquerda Online.

[5] Anastasiya Kartunova, “Georgy Chicherin’s Role in the Chinese Policy of Soviet Russia”. Far Eastern Affairs (2014) Volume 42, Issue 4, pp. 92-119. [6] Georgi Chicherin: Homossexual, ex-aristocrata e bolchevique. Esquerda Online.

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