Jean Luc-Godard – Orfeu Negro e o Poeta sem Poesia

Originalmente publicado no Cahiers du Cinema.

Tradução por Andrey Santiago.


O que seria do concerto para clarinete sem Mozart? O que seria da garota de turbante sem Vermeer? E as reflexões de Rousseau sem Jean-Jacques, a música de Beethoven sem Beethoven, a prosa de Aragão sem Aragão? Resumindo, o que seria a canção de Orfeu (você já viu Orfeu?) sem Orfeu? ou ainda: o que seria da poesia sem um poeta?

Bem, seria Orfeu Negro, no qual os jurados de Cannes mais ou menos reconheceram sua Persuasão Amigável. A gentileza e sinceridade de Marcel Camus não estão em questão. Mas basta ser gentil e sincero para fazer um bom filme? Já se podia fazer a mesma pergunta depois de Mort en fraude, porque era muito bom, uma ideia muito original em si, recusar tudo o que lhe é oferecido para fazer um filme na Indochina. Mas então, você não elenca Daniel Gélin para personificar um francês quieto, um herói do nosso tempo como diria Lermontov. E também foi muito bom fazer um filme no Brasil ao invés de Saint-Germain-des-Prés, filmar os bondes do Rio ao invés das festas do Passy. Mas então, você não dirige seus atores negros com as mesmas palavras e gestos de Jean Boyer dirigindo Line Renaud e Darry Cowl em uma guigueta reconstruída nos sets de Billancourt.

Não importa que Orfeu Negro seja apenas ligeiramente relacionado ao bardo trácio, embora Cocteau (repito, você viu Orfeu?) foi cuidadoso o suficiente para não fazer aquele equívoco, a coisa mais importante é que, comparado a um filme como Moi, un noir, Orfeu Negro é – para adotar o vocabulário de Madame Express – completamente inautêntico. As pessoas me dirão: você é estúpido, o filme não é nada disso, é sobretudo uma série de imagens barrocas e suntuosas. Um documento sobre beleza, em suma! Juntando-me a Zazie, digo educadamente “meu olho” se alguém me diz que as imagens de Jean Bourgoin são lindas. Eles nem têm a desculpa de serem cartões postais voluntários como no Pacífico Sul. Como o habilidoso diretor de fotografia de Goha e Arkadin cometeu a loucura de acreditar que poderia competir com o sol carioca, apenas com a ajuda de gelatinas coloridas que dão ao cenário uma aparência dura e repulsiva, quando todas as manhãs a luz que os cariocas veem a caminho do trabalho é a mesma luz cinzenta suave da Bretanha, mil vezes melhor do que sua irmã mediterrânea.

Marcel Camus, sem dinheiro, esperando um cheque de Sacha Gordine para terminar seu filme, teve todo o tempo do mundo para passear pela prodigiosa cidade do Rio de Janeiro. Foi então, diz ele, e graças a essas caminhadas, que ele realmente se deu conta de como era o Rio e seu povo.

E é neste ponto que eu o censuro. Acontece que me encontrei exatamente na mesma situação. E estou surpreso e muito decepcionado por não ver nada do Rio em Orfeu Negro. Não vi o maravilhoso aeródromo Santos Dumont onde Eurídice teve que pousar entre o oceano e os arranha-céus. E por que você não fez Orfeu (você viu o filme de Cocteau de novo?) um motorista de lotação em vez de um motorista de bonde já visto em todas as fantasias encomendadas pela MGM a um homem chamado Pete Smith? Poéticos eram aqueles pequenos ônibus que iam do Maracanã às greves de Copacabana. E poética teria sido a maneira de Orfeu segurar suas notas para dar troco: dobradas longitudinalmente entre cada dedo de ambas as mãos.

Mas Marcel Camus, em seus quinze anos de assistência gentil aos outros, perdeu seu senso de poesia. Como Cukor, ele não sabe como vestir suas filhas como marquesas de Luís XV. Enquanto caminha pela Avenida Vargas, não ouve os sambas tocando nos rádios portáteis instalados em todas as lojas. Como Eurídice está chegando de trem, deveria ter sido necessário aproveitar a oportunidade para filmar um daqueles descarrilamentos prodigiosos em que as ferrovias brasileiras são especialistas.

Sejamos justos, há uma bela foto em Orfeu Negro: aquela em que a amiga de Eurídice, de pé sobre os pés do amante, se abaixa para apagar a lâmpada. Mas a cena teria sido ainda melhor se Orfeu e Eurídice estivessem nela, e não seus companheiros. Em suma, o que me choca no filme deste aventureiro é que não há aventura, ou no filme deste poeta, não há poesia.

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