José Carlos Mariátegui – Oriente e Ocidente

Texto traduzido de Política Revolucionaria contribución a la crítica socialista: la escena contemporânea y otros escritos Tomo 1. Caracas: Fundación Editorial El perro y la rana, 2010.

Tradução por Jhonatan Âlcantara.


A maré revolucionária não acontece somente no Ocidente. Também o Oriente está agitado, inquieto, tempestuoso. Um dos fatos mais atuais e transcendentes da história contemporânea é a transformação política e social do Oriente. Este período de agitação e de porvir orientais coincide com um período de insólito e recíproco afã do Oriente e do Ocidente por conhecerem-se, estudarem-se, por se compreender mutuamente.

Em sua vã juventude, a civilização ocidental tratou desdenhosa e arrogantemente os povos orientais. O homem branco considerou necessário, natural e lícito seu domínio sobre o homem de cor. Usou as palavras “oriental” e “bárbaro” como duas palavras equivalentes. Pensou que somente o que era ocidental era civilizado. A exploração e a colonização do Oriente não foi nunca ofício de intelectuais, apenas de comerciantes e guerreiros. Os ocidentais desembarcavam no Oriente suas mercadorias e suas metralhadoras, mas não seus órgãos nem suas aptidões de pesquisa, de interpretação e de captação espirituais. O Ocidente se preocupou em consumar a conquista material do mundo oriental; mas não de tentar sua conquista moral. E assim o mundo oriental conservou intactas sua mentalidade e sua psicologia. Até hoje seguem frescas e vitais as raízes milenares do islamismo e do budismo. O Hindu ainda veste seu velho khaddar[1]. O japonês, o mais saturado de ocidentalismo dos orientais, guarda algo da sua essência samurai[2].

Porém atualmente que o Ocidente, relativista e cético, descobre sua própria decadência e prevê seu crepúsculo, sente a necessidade de explorar e entender melhor o Oriente. Movidos por uma nova curiosidade febril, os ocidentais se dedicam apaixonadamente aos costumes, a história e as religiões asiáticas. Milhares de artistas e pensadores extraem do Oriente a trama e a cor do seu pensamento e da sua arte Europa copia avidamente pinturas japonesas e esculturas chinesas, cores persas e ritmos hindustanos. Se embriagam do orientalismo que destilam da arte, da fantasia e das vidas russas. Quase confessando um desejo mórbido de orientalizar-se.

O Oriente, por sua vez, está agora impregnado de pensamento ocidental. A ideologia europeia se infiltrou abundantemente na alma oriental. Uma velha semente oriental, o despotismo, agoniza socavada por estas infiltrações. A China republicanizada renuncia sua tradicional muralha. A ideia de democracia, envelhecida na Europa, brita na Ásia e África. A deusa Liberdade é a deusa mais prestigiosa do mundo colonial, nestes tempos em que Mussolini a declara renegada e abandonada pela Europa. (“A deusa Liberdade a mataram os demagogos”, disse o condottiere dos camisas negras). Os egípcios, os persas, os hindus, os filipinos, os marroquinos, todos querem ser livres.

Acontece, entre outras coisas, que a Europa colhe os frutos da sua pregação do período de guerra. Os aliados usaram durante a guerra, para agitar o mundo contra os austro-alemães, uma linguagem demagógica e revolucionária. Proclamaram enfática e estrondosamente o direito de todos os povos a independência. Apresentaram a guerra contra a Alemanha como uma cruzada pela democracia, propuseram um novo Direito Internacional. Esta propaganda impactou profundamente aos povos coloniais e, terminada a guerra, estes povos coloniais anunciaram, em nome da doutrina europeia, sua vontade de emancipar-se.

Penetra na Ásia, importada pelo capital europeu, a doutrina de Marx. O socialismo que, em princípio, não foi mais que um fenômeno da civilização ocidental, atualmente estende seu raio de alcance histórico e geográfico. As primeiras internacionais operárias foram unicamente instituições ocidentais. Na Primeira e na Segunda Internacional não estiveram representados além dos proletários da Europa e da América. Já Congresso de fundação da Terceira Internacional em 1920 assistimos, em contrapartida, a presença de delegados do Partido Operário Chinês e da União Operária Coreana, e em congressos seguintes tomaram parte delegações persas, turcas e armenas. Não esqueçamos ainda que em agosto de 1920 se realizou em Baku, apadrinhada e provocada pela Terceira Internacional, uma conferência revolucionária dos povos orientais que contou com a presença de vinte e quatro povos de distintos lugares. Alguns socialistas europeus, Hilferding entre eles, reprovaram os bolcheviques e sua inteligência com movimentos de estrutura nacionalista. Zinoviev polemizando com Hilferding respondeu: “Uma revolução mundial não é possível sem a Ásia. Vive ali uma quantidade de homens quatro vezes maior que na Europa. Europa é só uma pequena parte do mundo”. A revolução social precisa historicamente da insurreição dos povos colonizados. A sociedade capitalista tende a restaurar-se mediante uma exploração mais metódica e mais intensa das suas colônias políticas e econômicas; e a revolução social precisa agitar os povos coloniais contra a Europa e os Estados Unidos, para reduzir o número de vassalos e tributários da sociedade capitalista.

Contra a dominação europeia sobre a Ásia e África conspira também a nova consciência moral da própria Europa. Existem atualmente na Europa milhões de homens de filiação pacifista que se opõem a todo ato de guerra e cruel contra os povos colonizados. Conseguintemente a Europa se vê obrigada a pactuar, negociar, ceder ante esses povos. O caso turco é, a este respeito, muito ilustrativo.

No Oriente aparece, pois, uma vigorosa vontade de independência, ao mesmo tempo que na Europa se debilita a capacidade de coagi-la e a sufocar. Se constata, em suma, a existência das condições históricas necessárias para a libertação do oriente. Há mais de um século veio da Europa a estes povos da América uma ideologia revolucionária, e deflagrada por sua revolução burguesa, a Europa não pôde evitar a independência americana engendrada por essa ideologia. Igualmente agora a Europa, minada pela revolução social, não pode reprimir militarmente a insurreição das suas colônias.

E, essa hora grave e fecunda da história humana, parece que algo da alma oriental migra para o Ocidente e que algo da alma ocidental migra ao Oriente.


[1] Traje tradicional Hindu.

[2] Casta guerreira do Japão.

Um comentário em “José Carlos Mariátegui – Oriente e Ocidente

  1. gostaria de enviar uma colaboração, sobre um militante sergipano, Fragmon Carlos Borges.

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