Rosa Luxemburgo – Sobre Cisão, Unidade e Saída

Originalmente publicado em publicado em Rosa Luxemburgo, Textos escolhidos, vol. 2 (1914-1919), São Paulo, Editora UNESP, 2011, pp. 151-156.

Der Kampf (Duisburg), n o 31, 6 de janeiro de 1917.

Transcrição por Andrey Santiago.


Desde 4 de agosto de 1914, estabeleceu-se na social-democracia alemã um processo de decomposição e desagregação que não tem um dia, não tem uma hora de descanso e que se realiza com o rigor e a lógica de um processo natural. Cada novo passo no caminho da política imperialista, cada nova investida incontestável das potências dominantes visando a reforçar sua posição de poder, cada convocação, cada missão do Reichstag a serviço da política dominante, sim, simplesmente cada novo dia em que a guerra continua, constituem para a social-democracia mais um desabamento de suas vigas, mais um desmoronamento de seus muros apodrecidos. Cada nova ação do imperialismo triunfante exclui a social-democracia como elemento determinante da política ativa e vai destruindo e liquidando da vida pública na Alemanha como partido com uma política particular, como órgão dos interesses de classe do proletariado.

Quem abranger este imenso processo histórico em toda a sua amplitude e profundidade não pode encarar, senão com um dar de ombros e um sorriso de comiseração, tanto os cuidados diligentes dos socialistas governamentais Scheidemann & Cia. que, mediante toda espécie de truques e vigarices, pretendem com o tempo fundar seu domínio sobre o conjunto do partido, quanto a indignação bem-comportada da suave oposição em torno de Haase-Ledebour [1], quando esta se acredita suspeita de “tendências à cisão”. As divertidas disputas entre as duas tendências sobre qual delas quer verdadeiramente “cindir” o partido e os esforços zelosos de cada uma para atribuir à adversária a responsabilidade por esse crime monstruoso são, em si, uma graciosa contribuição ao fato de que, no fundo, toda a concepção da direita e do pântano sobre as condições fundamentais de existência do partido é feita da mesma madeira. Associações, instâncias, conferências, assembleias gerais, livros-caixa, carteirinhas de membros, eis “o partido” para os camaradas ao estilo de Scheidemann, assim como para os camaradas ao estilo de Haase. Tanto uns quanto outros não percebem que associações, instâncias, carteirinhas de membros e livros-caixa se transformam em farrapos sem valor no instante em que o partido deixa de exercer a política exigida por sua natureza. Tanto uns quanto outros não percebem que suas disputas sobre a questão da cisão ou da unidade da social-democracia alemã não passam de uma briga a respeito das barbas do imperador, visto que hoje a social-democracia alemã como um todo já não existe mais.

Imaginemos por um instante que na Basílica de São Pedro, em Roma, esse venerável templo da fé cristã, esse precioso monumento da cultura religiosa, em uma bela manhã – a pena quase se recusa a escrevê-lo –, em vez do culto católico, se desencadeasse aos olhos de todos uma orgia desavergonhada, como em um bordel. Imaginemos algo ainda mais espantoso, pensemos que os padres, nessa orgia, tivessem conservado as sotainas, os ornamentos e os incensários que usavam anteriormente na missa solene. Será que então a Basílica de São Pedro ainda seria uma igreja, ou seria algo totalmente diferente? As altas paredes ainda seriam certamente as mesmas, os altares e os paramentos sacerdotais seriam os antigos, mas depois de olharem para dentro, horrorizados, todos recuariam assustados e perguntariam, consternados: o que aconteceu com a Igreja no mundo inteiro?

Pois bem, a Igreja é uma casa onde se reza a Deus, e a social-democracia é um partido que conduz a luta de classes do proletariado. Abandonando oficialmente a luta de classes, a social-democracia alemã lançou-se, tal qual o poder irresistível de uma avalanche despencando, em um processo de decomposição e hoje abriga sob seu telhado torto tendências tão divergentes, elementos que por natureza são tão distantes e tão mortalmente inimigos como burguesia e proletariado, imperialismo e socialismo, Estado de classes e confraternização internacional dos povos.

É deste ponto de vista que se deve julgar o projeto político em formato reduzido com que a suave oposição do centro se apresentou nesta situação histórica, sem precedente na história universal. Todo o projeto se esgota e, ao mesmo tempo, se critica em uma palavra: “Volta!”. Eles querem voltar às circunstâncias que existiam antes da irrupção da guerra mundial, querem reaver a sua social-democracia alemã tal como era até 4 de agosto de 1914. Querem voltar à “antiga e comprovada tática” com suas “fulgurantes vitórias” de eleição em eleição para o Reichstag, voltar às batalhas vitoriosas contra o “revisionismo” de congresso em congresso do partido, à paciente cantilena agitadora em favor da solidariedade internacional do trabalho, voltar às 47 reuniões de massa quotidianas que, conduzidas pela batuta, “transcorreram magnificamente”, com suas retumbantes resoluções adotadas “unanimemente” e seu triplo “Viva!” à “social-democracia alemã, internacional, revolucionária e libertadora dos povos”, voltar às “semanas vermelhas” que copiavam em miniatura o grande milagre do Senhor e que faziam em sete dias, diante da admiração piedosa do mundo, 150 mil “social-democratas”. Volta, volta aos bons tempos do encantador e confortável autoengano.

Coloca sobre a mesa os resedás perfumados.

Traz as últimas sécias vermelhas,

E deixa-nos ainda falar de amor,

Como outrora em maio… [2]

Mas, infelizmente, o pequeno projeto tem um grande buraco: a antiga social-democracia alemã, como era “outrora em maio”, já não existe; só existe uma, a que nasceu em agosto. Aquela social-democracia alemã d’antanho, com sua “antiga e comprovada tática”, jaz esmagada sob as rodas do carro triunfante do imperialismo. O pântano tem saudade e quer voltar ao partido tal como era antes da guerra mundial, é uma das utopias mais infantis que esta terrível guerra produziu, só havendo uma coisa que se lhe compare em puerilidade: é a tocante candura política com que os dirigentes do pântano, os Haase, Ledebour, Dittmann pretendem agora ressuscitar de entre os mortos a antiga e gloriosa social-democracia que, antes, eles mesmos contribuíram a enterrar, e sobre cujo túmulo dançaram durante um ano e meio, comportando-se, em meio à guerra mundial de hoje, exatamente como antes da guerra, “fiéis à velha e comprovada tática”, entoando no Reichstag exatamente os mesmos discursos do tempo de Adão, como se nada tivesse acontecido.

E enquanto no primeiro plano do partido se representa essa inocente peça satírica, de uma oposição virada para trás e que, por isso, só oferece seu traseiro macio ao assalto do presente, consuma-se no interior do partido um processo trágico em termos de história mundial: o cerco mortal das tropas de elite do proletariado alemão pelos tentáculos do capital alemão. A dominação exercida pelas instâncias do partido e dos sindicatos – dos Scheidemann e consortes assim como dos Legien [3] e consortes – sobre o operariado organizado não passa, em essência, da mais brutal vitória da burguesia alemã sobre a classe trabalhadora jamais obtida ou mesmo sonhada. As massas atraídas pelas bandeiras da social-democracia e dos sindicatos para lutar contra o capital encontram-se hoje, justamente por meio dessas organizações e nessas organizações, sob o jugo da burguesia, como nunca haviam estado desde o início das condições capitalistas modernas. Resulta daí uma conclusão decisiva sobre a questão da “cisão e unidade” do partido também para aqueles que aspiram a sair do colapso do movimento operário avançando, e não retrocedendo. Por mais louvável e compreensível que sejam a impaciência e a cólera amarga provocadas nos dias de hoje pela fuga do partido de muitos de seus melhores elementos, fuga é fuga, e para nós é uma traição às massas que se debatem e sufocam no nó corredio dos Scheidemann e Legien, abandonadas à mercê da burguesia. Pode-se “sair” de peque- nas seitas e conventículos, quando eles não nos convêm mais, para fundar novas seitas e conventículos. Não passa de fantasia imatura querer libertar o conjunto da massa dos proletários do jugo pesado e perigoso da burguesia mediante a simples “saída” [do partido], precedendo-os nesse caminho com um exemplo corajoso. Jogar fora a carteirinha do partido e ter a ilusão de ter-se libertado representa, só que de ponta-cabeça, o mesmo que idolatrar a carteirinha do partido e ter a ilusão de poder; ambas são apenas os diferentes polos do cretinismo organizativo, essa doença constitutiva da velha social- democracia alemã. A desagregação da social-democracia alemã é um processo histórico de grandes dimensões, um conflito geral entre a classe trabalhadora e a burguesia, e não podemos nos esquivar, enojados, desse campo de batalha, ficando de lado no nosso cantinho, debaixo de um arbusto, para respirar um ar mais puro. Trata-se de levar essa luta gigantesca ao extremo. Trata-se de unir forças e puxar até que arrebente o nó mortal da social-democracia alemã oficial e dos sindicatos livres oficiais colocados pela classe dominante na garganta das massas perdidas e traídas; trata-se de apoiar as massas ludibriadas nesta dificílima luta pela sua libertação, de defendê-las fielmente e de peito aberto. A liquidação desse “monte de podridão organizada” que hoje se chama social-democracia alemã não é um assunto privado que possa ser resolvido por indivíduos ou grupos isolados. Ela acompanhará a guerra mundial como um complemento inevitável; e como uma importante questão de poder, que diz respeito ao espaço público, deve ser decidida empregando-se todas as forças. Nesse conflito geral com as instâncias da social-democracia e dos sindicatos, os dados da luta de classes na Alemanha serão lançados por décadas, e de maneira decisiva; nessas circunstâncias vale para cada um de nós, até o último: “Aqui estou, não posso agir de outro modo!”.

Notas de Rodapé

[1] Referência a um grupo muito heterogêneo no SPD que, durante a I Guerra Mundial, se afastou progressivamente da direção do partido, a qual desde 4 de agosto de 1914 conduzia uma política de defesa da pátria. Depois que Karl Liebknecht se recusou, em dezembro de 1914 – ele foi o primeiro deputado do Reichstag a tomar essa decisão –, a votar a favor dos créditos de guerra e que o número dos objetores subiu até dezembro de 1915 para 19 deputados, a direção do SPD em torno de Friedrich Ebert e de Philipp Scheidemann decidiu expulsar esse grupo da bancada e do partido, o qual formou então a bancada da “comunidade de trabalho social-democrata” no Reichstag. Entre 6 e 8 de abril de 1917, uma conferência do Reich da oposição social-democrata fundou em Gotha o Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USPD); Hugo Haase, copresidente do SPD de 1911 a 1916, assumiu com Wilhelm Dittman a sua direção. O USPD reunia desviacionistas de esquerda como Hugo Haase e Kurt Eisner, teóricos como Karl Kautsky e revisionistas como Eduard Bernstein. Também o Grupo Internacional (posteriormente denominado Grupo Spartakus) em torno de Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Leo Jogiches, Julian Marchlewski, Franz Mehring, Wilhelm Pieck, August Talheimer e Clara Zetkin, que desde o começo da guerra estava em oposição aberta, ficou no USPD, mantendo-se, porém, como grupo formando a ala de extrema-esquerda do partido.

[2] Lied de Richard Strauss a partir de um poema de Hermann von Gilm (1812-1864).

[3] Karl Legien (1861-1920), sindicalista e deputado social-democrata a favor da guerra.

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