Originalmente publicado no site Liberation School.
Tradução por Guilherme Henrique
Nota do editor: Ahn Hak-sop foi oficial do Exército Popular Coreano da República Popular Democrática da Coréia (RPDC, ou Coréia do Norte) durante a Guerra da Coréia. Em 1952, ele foi capturado pelos Estados Unidos e suas forças representativas quando estava a caminho de uma reunião no sul da Coréia. Ele foi prisioneiro político durante décadas antes de finalmente ser libertado em 1995. Hoje, ele continua ativo como um militante pela paz e reunificação na República da Coréia (ROK, ou Coréia do Sul). Derek Ford da Liberation School entrevistou o Sr. Ahn em novembro de 2019 em uma igreja da paz na Zona de Controle Civil ao sul do paralelo 38 que divide a península coreana.
Originalmente publicada em janeiro de 2020, estamos republicando este artigo no dia 27 de junho de 2022, no 69º aniversário do armistício que encerra a ação militar na guerra dos EUA contra a Coréia.

Liberation School: Muito obrigado por falar conosco hoje, Sr. Ahn. É maravilhoso vê-lo novamente. Para começar, você pode nos contar como se envolveu com a luta coreana pela paz, independência e reunificação?
Ahn Hak-sop: Minha cidade natal é a Ilha de Ganghwa. Nasci em um lar pobre, na época do domínio do imperialismo japonês. Minha família era confucionista. Fui à escola primária e me ensinaram uma educação imperialista. Eles não me ensinaram que a Coréia era uma colônia. Descobri isso na segunda série. Através de minhas experiências na educação imperialista, descobri que a Coréia não era independente, e desde aquela época o sentimento anti-imperialista cresceu em minha mente. Na época da libertação do imperialismo japonês, eu estava me escondendo por conta da militância anti-imperialista, e foi aí que encontrei as forças de resistência. Na tarde do dia 15 de agosto, eu sabia que estava livre do imperialismo japonês.
Liberation School: Qual era a sua compreensão do imperialismo norte-americano naquela época?
Sr. Ahn: No início, eu pensava que o Exército dos EUA era um exército de libertação. Mas logo o general MacArthur se referiu aos EUA como um exército de ocupação. Não havia nenhuma menção à libertação, apenas à ocupação; por isso eu desconfiava, mas só em parte. Embora eu fosse jovem, toda a nação estava repleta de divisões entre o governo dos EUA e o dos soviéticos. Em setembro de 1945, os coreanos saíram para saudar o exército norte-americano, mas o exército norte-americano disparou contra eles. Depois do Comitê de Moscou, o Exército dos EUA disse explicitamente que eles estavam lá para impedir a União Soviética. Mas em 1948, a União Soviética retirou todas as suas tropas. No entanto, o Exército dos EUA não se retirou.
Em quase todas as cidades, havia um Comitê Popular para a autodeterminação, mas o Exército dos EUA destruiu os Comitês Populares com tanques e soldados. Havia muita resistência e revolta naquela época.
Em 8 de agosto de 1947, quando eu voltava para casa com um colega de uma reunião para preparar uma celebração pela libertação, alguém atirou em nós, e meu colega foi ferido e preso. Eu sobrevivi e fugi e fui clandestinamente para Kaesong, que ficava na parte norte da península, embora não houvesse o 38º paralelo naquela época. Enquanto eu estava em Kaesong, fui para a faculdade de engenharia. A polícia sul-coreana foi à faculdade para me prender, mas a faculdade me protegeu.
Liberation School: O que aconteceu depois disso, durante a guerra?
Sr. Ahn: Durante a guerra, alistei-me no Exército Popular da Coréia, mas a faculdade atrasou minha admissão. Eu estava doente e, portanto, não pude lutar quando finalmente me alistei. Eu servi na coleta de informações. O Exército Popular me enviou para o Sul em 1952 como oficial de inteligência, onde fui preso. No início de abril de 1952, eu estava indo a uma reunião do Partido do Trabalho no distrito de Kangwondo. Fui observado no meu caminho para lá e preso.
Enquanto estava na prisão, eu tinha muitos obstáculos a superar. Houve espionagem e tortura durante 42 anos. Houve muita pressão para me converter da ideologia Juche para o capitalismo, a partir de 1956.
Primeiro eles tentaram apresentar argumentos teóricos contra a RDPC. Mas eles não conseguiram defender suas convicções diante de mim. Depois disso, eles tentaram subornar-me com bens. Depois disso, houve a tortura. Há um pequeno lugar na cadeia, e eles jogavam água na sala no inverno. Eles levam todas as suas roupas e roupas de cama. Eu tentei sobreviver. Então eu corria e me exercitava para manter meu corpo quente. Mas eu não podia durar para sempre. Fiquei inconsciente, e eles arrastaram meu corpo para fora para me manter vivo. Havia outras formas de tortura. Eu podia superar tudo isso. O que foi mais doloroso foi quando a polícia trouxe minha família, minha mãe e meu irmão para a prisão.
Liberation School: Quando e como você foi finalmente libertado?
Sr. Ahn: Em 15 de agosto de 1995, fui libertado da prisão. Eles não queriam fazer isso, mas tiveram que me libertar por causa da Convenção de Genebra. Eles deveriam ter me libertado em 1953. Naquela época, eu deveria ter sido enviado para a RPDC, mas os EUA e a Coreia do Sul não fizeram isso. Disseram que eu era um espião e, portanto, não me enquadrei na Convenção, que eles disseram que se aplicava apenas aos soldados de campo, não aos agentes infiltrados.
Eu tentei contestar por muitos anos, e o exército e a prisão fizeram tudo o que podiam para impedir a aplicação da lei. Eu não podia enviar nenhuma carta ou me encontrar com ninguém. No entanto, finalmente recebi uma carta e os advogados de direitos humanos assumiram meu caso. O governo foi forçado a justificar minha detenção, e não houve justificativa. Eles tiveram que me libertar.
Dois outros presos saíram da prisão comigo. Dois deles foram para a RPDC em 2000, após a Declaração de 15 de junho. Esses camaradas foram para o Norte porque pensavam que em breve haveria liberdade de circulação entre os dois Estados. Eles foram para o Norte para estudar e pensaram que voltariam depois.
Liberation School: Por que você ficou no Sul?
Sr. Ahn: Eu permaneci no Sul por minha escolha. Há três razões. Primeiro, eu pensei que era uma situação temporária. Segundo, havia jovens progressistas aqui no Sul, e eles me pediram para ficar. Eles disseram: “Se os prisioneiros não convertidos forem para o Norte, perderemos o cerne da luta”. Tornou-se muito importante para mim ficar. A terceira razão é que a Coréia agora está dividida, e os EUA ocupam a parte sul. Temos que continuar lutando aqui pela retirada do exército dos EUA, pelo tratado de paz e pela reunificação pacífica. Eu decidi ficar aqui para lutar por estes objetivos. Em 1952, vim aqui para libertar a metade sul da península, e preciso ficar aqui e continuar essa luta.
Liberation School: Como tem sido sua vida desde a soltura?
Sr. Ahn: O governo exigiu que eu tivesse um responsável quando fui libertado, assim se houvesse algum problema comigo, eles poderiam responsabilizá-los. Eu rasguei o papel e disse: “Não lhe darei um refém”.
Ainda assim, há policiais de segurança que me seguem. Sempre que há um problema entre o Norte e o Sul, eles invadem minha casa e ficam de guarda fora de minha propriedade. Uma vez, em uma manifestação, forças conservadoras me atacaram. A polícia não fez nada para me proteger.
Eu gostaria de falar mais sobre a Lei de Segurança e Vigilância, que obriga a polícia a vigiar ex-prisioneiros políticos. Toda semana ou a cada duas semanas, a polícia vem à minha casa e pergunta sobre minhas atividades, quem visitou minha casa e assim por diante. Uma vez a cada dois meses, preciso informá-los sobre o que fiz, quem conheci e quem me visitou. A cada dois anos, preciso ir ao tribunal. No entanto, não me reporto a eles nem vou ao tribunal. Essa é a lei deles, e é injusta.
Não é fácil continuar lutando contra esta lei. Eu não posso deixar o país. Não posso visitar minha cidade natal. Mas vivi toda minha vida pela reunificação e pelo anti-imperialismo, e gostaria de viver o resto de minha vida em função disso.
