Originalmente disponível no site da Telesur English.
Tradução por Gustavo F. Costa e Silva.
Quando a Revolução Russa triunfou em outubro de 1917, a maior parte do restante do mundo era colonizada pelo Reino Unido, França, Bélgica, Holanda, Espanha e Estados Unidos. Mas sob a liderança de Vladimir Lênin, a Revolução se fez inspiração para inúmeros povos, não só por mostrar que um Estado operário era possível, mas também por fornecer ajuda prática, material e posteriormente militar. O primeiro exemplo foi a libertação das colônias mantidas pela Rússia czarista, conhecida como “prisão das nações”.
Em 1919, os povos do Egito e do Iraque se levantaram contra o domínio britânico, os coreanos lutaram contra a ocupação japonesa e uma revolução na Hungria resultou na efêmera República Soviética Húngara.
O Congresso dos Povos do Leste de 1920, ou Congresso de Baku, foi uma tentativa dos bolcheviques de Lênin de construir um movimento marxista revolucionário dos povos explorados e oprimidos do mundo colonial, ao mesmo tempo em que apelava aos países avançados, especialmente na Europa, para que apoiassem esses movimentos.
Cerca de 1.891 delegados dentre mais de 25 países participaram do congresso, incluindo Turquia, Pérsia, Egito, Índia, Afeganistão, China, Japão, Coréia, Síria e Palestina.
“Levantamos nossas adagas, revólveres e espadas e juramos diante do mundo que usaríamos essas armas não para lutar uns contra os outros, mas para lutar contra os capitalistas”.
O manifesto final dizia em parte: “Aqui em Baku, nas fronteiras da Europa e da Ásia, nós, representantes de dezenas de milhões de camponeses e trabalhadores da Ásia e África em revolta, mostramos ao mundo nossas feridas, mostramos ao mundo as marcas do chicote nas costas, os vestígios das correntes nos pés e nas mãos. E levantamos nossas adagas, revólveres e espadas e juramos diante do mundo que usaríamos essas armas não para lutar uns contra os outros, mas para lutar contra os capitalistas. Acreditamos profundamente que vocês, trabalhadores da Europa e da Ásia, se unirão a nós sob a bandeira da Internacional Comunista para uma luta comum, para uma vitória comum”.
A Internacional Comunista, ou Comintern, foi fundada em 1919 por Lênin como uma resposta à Segunda Internacional que levou os trabalhadores à Primeira Guerra Mundial, apoiando seus próprios países imperialistas contra a unidade da classe trabalhadora. Em seu segundo congresso em julho de 1920, o Comintern deu grande destaque à luta anticolonial e essa ênfase ajudaria a moldar o movimento comunista internacional nas décadas seguintes.
“Os bolcheviques de Lênin [organizados] para construir um movimento marxista revolucionário dos povos explorados e oprimidos no mundo colonial.”
O Comintern desempenharia papel importante na construção de partidos comunistas em todo o mundo, tanto em países avançados quanto em Estados colonizados. O apoio intransigente de Lênin ao direito das nações à autodeterminação, incluindo a secessão, teve um tremendo impacto nos países oprimidos. A ele é creditado um acréscimo ao slogan de Karl Marx e Friedrich Engels, “Trabalhadores e oprimidos do mundo, uni-vos!”.
Seu panfleto inovador, “Imperialismo: estágio superior do capitalismo”, publicado em 1918, mostrava o sistema capitalista se transformando em capital financeiro, com seus tentáculos se estendendo por todo o mundo. Ele explicou como isso se tornaria a base para a união da libertação nacional e da luta de classes.
“O capitalismo tornou-se um sistema mundial de opressão colonial e de estrangulamento financeiro da esmagadora maioria da população mundial por um punhado de países ‘avançados’. E esse ‘saque’ é compartilhado entre dois ou três poderosos saqueadores do mundo armados até os dentes”.
Sovietes foram formados em Cuba nesse período, e os partidos comunistas surgiram em muitos países sob opressão, incluindo África do Sul, Índia, Indochina, Indonésia, Sudão, Iraque, Vietnã e outros tantos lugares.
“A Revolução Chinesa abalou o mundo, trazendo 700 milhões de pessoas para o que estava rapidamente se tornando o bloco socialista”.
A Primeira Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina ocorreu em Buenos Aires, Argentina, em 1929. Cerca de 38 delegados, da Argentina, Brasil, Bolívia, El Salvador, Guatemala, Cuba, Colômbia, Equador, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela participaram do encontro. A conferência concordou que a revolução na América Latina deveria ser de natureza anti-imperialista, aprovando um acordo de solidariedade com a União Soviética.
Após a Segunda Guerra Mundial, com a derrota da Alemanha nazista pela URSS, toda a Europa Oriental foi libertada do domínio imperialista.
No Vietnã, após a rendição do Japão, sovietes foram estabelecidos em todo o país e os camponeses tomaram as terras, iniciando o longo caminho para a independência que veio 30 anos depois.
Em 1949, a Revolução Chinesa abalou o mundo, trazendo 700 milhões de pessoas para o que estava rapidamente se tornando o bloco socialista. Em 1959, havia 14 países socialistas abrangendo um bilhão de pessoas.
Neste período, as lutas de libertação nacional varreram o mundo. Estimulados pelas lutas armadas em Ásia, Argélia, Zimbábue, Moçambique e outros países lideraram movimentos de resistência que foram ferozmente contestados por seus respectivos colonizadores.
Em um memorando sobre as relações com o bloco socialista após uma reunião com Nikita Khrushchev, em 1961, o Governo Provisório da República da Argélia disse: “A ajuda prometida se materializou: importantes remessas de armas para as frentes oriental e ocidental … e depois a aceitação de pilotos estudantes (a serem treinados na União Soviética)”. Em 1962, a Argélia conquistou sua Independência, mas não antes que a ofensiva francesa matasse mais de um milhão de africanos.
“Pela primeira vez, as nações emergentes puderam negociar em condições mais equitativas com a União Soviética, que não estava sujeita aos ciclos de expansão e recessão do sistema capitalista”.
Quando os primeiros países pós-coloniais começaram a surgir em África, Oriente Médio, Ásia e América Latina, a União Soviética forneceu tremendo apoio militar e material a tais Estados. O Egito de Gamal Abdel Nasser, Sukarno da Indonésia e Jawaharlal Nehru da Índia se beneficiaram dessa política.
Em 1965, a ajuda soviética aos países emergentes ultrapassou 9 bilhões de dólares em assistência econômica e militar, de acordo com registros do Estado.
Isso permitiu que esses países levassem a cabo políticas de desenvolvimento um tanto independentes que não teriam sido possíveis dentro do mercado capitalista mundial. Pela primeira vez, eles puderam negociar em condições mais equitativas com a União Soviética, que não estava sujeita aos ciclos de expansão e recessão do sistema capitalista.
Isso também era verdade dentro do bloco socialista, onde países como a República Popular Democrática da Coreia, Vietnã, Cuba e Europa Oriental eram os beneficiários da ajuda econômica e militar soviética. A invasão da Coreia pelos Estados Unidos foi repelida com a ajuda direta da União Soviética. A derrota dos EUA no Vietnã se deu em grande parte devido ao apoio militar da União Soviética.
E embora nunca tenha se tornado parte do bloco socialista, a primeira siderúrgica da Índia, que foi entregue ao governo indiano, foi construída pela União Soviética.
Quando Reino Unido, França e Israel invadiram o Egito em 1956, a União Soviética ajudou o país, que acabou conseguindo expulsar os colonizadores.
A Revolução Cubana de 1959 foi vista como uma tremenda ameaça pelos Estados Unidos antes mesmo de Fidel Castro declarar o socialismo como a ideologia dominante. Os EUA impuseram um bloqueio econômico e político abrangente à ilha e em 1961 orquestraram uma invasão na Baía dos Porcos, que foi totalmente derrotada pelas forças cubanas.
A União Soviética forneceu ajuda militar e econômica à nação insular, ajudando-a a consolidar sua Revolução com termos comerciais preferenciais e equipamento militar capaz de dissuadir mais invasões dos EUA.
“A derrota dos EUA no Vietnã se deu em grande parte devido ao apoio militar da União Soviética”.
O bloco socialista liderado pela União Soviética certamente tinha suas deficiências. O fracasso em dar assistência e ajudar a construir elementos revolucionários dentro dos movimentos burgueses de libertação nacional levou a diversas traições dos combatentes mais militantes após a morte de Lênin, em 1924, quando sob a liderança de Josef Stálin, incluindo a política fracassada da década de 1920 na China que levou ao massacre de milhares de comunistas por nacionalistas burgueses.
A ilusão da reaproximação com os imperialistas, que continuou depois de Stálin, levou a rupturas com aliados naturais, como a República Popular da China; assim como levou a dificuldades com outros países que acusaram a União Soviética de não levar em consideração suas condições particulares.
No entanto, a força da União Soviética e do bloco socialista como polo progressista por mais de 70 anos deteve o imperialismo e ajudou a garantir independência e desenvolvimento de muitos países.
Na África do Sul, a União Soviética construiu uma relação com o Partido Comunista e mais tarde com o Congresso Nacional Africano liderado por Oliver Tambo, que disse durante uma conferência em Havana: “União Soviética, Cuba e muitos países socialistas tornaram possível para muitos dos chefes de Estado que estão aqui hoje sobreviver, vencer, se tornarem líderes de países independentes. Isso foi um crime contra o imperialismo. Nós entendemos isso”.
Desde o início dos anos 1960, a União Soviética forneceu ajuda militar ao Umkhonto we Sizwe do ANC [Congresso Nacional Africano] e ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Também forneceu treinamento militar e técnico na União Soviética para movimentos de independência de toda a região.
Em 1961, Kwame Nkrumah, o primeiro primeiro-ministro de Gana, fez uma viagem pela Europa Oriental, declarando sua solidariedade à União Soviética e à China. Em 1962, a União Soviética concedeu-lhe o Prêmio Lênin da Paz em reconhecimento aos seus esforços pan-africanos para unir o continente contra a pilhagem contínua.
“A força da União Soviética e do bloco socialista como polo progressista por mais de 70 anos deteve o imperialismo e ajudou a garantir independência e desenvolvimento de muitos países”.
Como tantos outros líderes anticoloniais, Patrice Lumumba do Congo se viu em meio à Guerra Fria, ou luta de classes global. Muitos líderes não queriam enfrentar a hostilidade dos Estados Unidos pedindo auxílio à União Soviética. Nesse sentido, o Movimento dos Não Alinhados surgiu em meados da década de 1950.
Todavia, Lumumba pediu auxílio à União Soviética e foi pouco depois disso, em 1960, que foi levado a cabo o golpe que culminou no assassinato do líder pan-africano.
Em 1962, a Universidade Patrice Lumumba foi fundada em Moscou para estudantes de países em desenvolvimento. O objetivo declarado era dar aos jovens da Ásia, África e América Latina, especialmente de famílias pobres, a oportunidade de terem uma educação e se tornarem especialistas qualificados.
Milhões de estudantes receberam educação gratuita em engenharia, agricultura e outras disciplinas, ao longo da história soviética. Até a CIA reconheceu isso: “Os soviéticos também estão educando numerosos estudantes latino-americanos e caribenhos na URSS, cultivando o trabalho organizado e lucrando com o crescimento dos sentimentos pró-marxistas entre ativistas religiosos”.
A derrota da União Soviética em 1991 teve um impacto econômico devastador nos países que antes recebiam seu auxílio e assistência. Para Cuba, significou um “período especial” de austeridade. O Vietnã foi forçado a deixar capital ocidental entrar. Para a Índia, significou abrir-se aos duros ditames do FMI e à privatização de indústrias estatais. Na América Central, a Frente de Libertação Nacional Farabundo Marti foi forçada a recuar, assim como o ANC na África do Sul.
O fim da União Soviética e a Revolução Russa assistiram a um aumento no tocante à agressão imperialista em todo o mundo. Iraque, Somália, Iugoslávia, Afeganistão, Líbia e Síria foram todos invadidos pelos EUA após seu desaparecimento. O fato de o bloco socialista não mais existir como contrapeso é um sinal revelador de sua importância, não apenas contra as guerras imperialistas, mas como inspiração e base para o socialismo e a libertação.
