Trecho retirado da edição em língua portuguesa, pela Edições Nova Cultura, do livro “Estratégia para a libertação da Palestina”, publicado em 1969 pela Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP).
Transcrito por João Pedro Drey.
Que Israel constitui uma presença agressora contra o nosso povo desde o seu primeiro momento é um fato irrefutável. Para o nosso povo, o surgimento de Israel significou a expulsão de suas casas e terras, a usurpação de tudo que nosso povo construiu através de seu trabalho e esforço, a dispersão de nosso povo através do mundo árabe e resto do globo, e a concentração da maior parte dos campos de miséria e pobreza espalhados na Jordânia, Síria e Líbano sem esperança e sem futuro.
Que Israel constitui uma presença expansionista colonialista às custas de terra árabe e de seus donos não está em discussão. Para nós é diante da experiência concreta que todas as acusações e alegações espúrias desparecem. O “Lar Nacional” para os judeus na Palestina se tornou o “Estado de Israel” dentro das fronteiras das resoluções da Partilha adotadas pelas Nações Unidas em 1947. Depois expandiu para incluir Israel com seus limites de antes de junho que são muito maiores do que os estabelecidos pelas resoluções das Nações Unidas de 1947, e finalmente se expandiram novamente para incluir toda a Palestina assim como Sinai e as Colinas de Golã.
Que Israel é um satélite colonialista e imperialista em nossa terra e está sendo usado para conter a onda revolucionária, para garantir nossa subjugação continuada e manter o processo de pilhagem e exploração de nossa riqueza e trabalho, é um fato auto evidente que não necessita de discussão. Para nós, isso não é apenas uma conclusão teórica, mas representa nossa experiência concreta durante a Agressão Tripartite de 1956, durante a guerra de Junho de 1967 e através da existência de Israel em nosso solo.
Contudo, a verdade sobre a nossa guerra de libertação foi distorcida em decorrência de diversos fatores. Primeiramente, houve a ligação entre a formação do movimento Sionista e a perseguição dos judeus na Europa. Depois houve a associação feita entre a formação de Israel e o tratamento dos nazistas com relação aos judeus na Segunda Guerra Mundial. Junto a isto houve a influência sionista e imperialista dominante sobre amplos setores da opinião mundial, a existência em Israel de forças que afirmam ser progressistas e socialistas e o apoio da URSS e de alguns países socialistas à formação de Israel. Tudo isso junto de erros de certas lideranças palestinas e árabes na forma de sua apresentação da luta contra Israel distorceu a verdade quanto a nossa guerra de libertação e ainda ameaçou distorcer o prisma adequado da verdadeira natureza dessa guerra aos olhos de muitas pessoas.
O movimento de libertação palestina não é um movimento racial com intenções agressoras contra judeus. Não se dirige contra os judeus. Seu objetivo é destruir o Estado de Israel enquanto um enclave militar, político e econômico que se baseia na agressão, expansão e a ligação orgânica com os interesses do imperialismo em nossa pátria. É contra o Sionismo enquanto um movimento racial agressor ligado ao imperialismo que explorou o sofrimento dos judeus como o ponto de partida para promover seus interesses e os interesses do imperialismo nessa região do mundo que possui ricos recursos e fornece ligação aos países da África e da Ásia. O objetivo do movimento de libertação da Palestina é estabelecer um estado democrático nacional na Palestina onde tanto árabes quanto judeus possam viver enquanto cidadãos com direitos e deveres iguais e que irão constituir parte integral da presença democrática nacional árabe convivendo pacificamente com todas as forças do progresso no mundo.
Israel insistiu em retratar a nossa guerra contra a ocupação como uma guerra racial que visava eliminar todo cidadão judeu e jogá-lo no mar. O propósito por trás disso é mobilizar todos os judeus para uma luta de vida ou morte. Por conseguinte, a linha estratégica fundamental em nossa guerra contra Israel deve visar desvelar essa deturpação, se dirigindo às massas judaicas exploradas e enganadas e revelar a contradição entre os interesses dessas massas em viver pacificamente e os interesses do movimento Sionista e as forças que controlam o Estado de Israel. É tal linha que vai garantir para nós o isolamento da claque fascista em Israel de todas as forças progressistas no mundo. Também vai garantir para nós, com o crescimento da luta armada por libertação e elucidação de sua identidade, a ampliação da contradição que existe objetivamente entre Israel o movimento Sionista, de um lado, e os milhões de judeus explorados e enganados, por outro.
O movimento de libertação palestino é um movimento nacional progressista contra as forças de agressão e o imperialismo. O fato de que os interesses do imperialismo estão ligados à existência de Israel fará de nossa luta contra Israel uma luta contra o imperialismo e a ligação do movimento de libertação palestino com o movimento de libertação árabe fará de nossa luta contra Israel a luta de cem milhões de árabes em seus esforços nacionais unificados por libertação. A luta pela Palestina hoje, e todas as circunstâncias objetivas associadas, farão dessa luta um preparo para a realização de todos os objetivos da revolução Árabe que estão interligados. É um vasto e amplo movimento histórico lançado por cem milhões de árabes em uma grande região do mundo contra as forças perniciosas, da agressão e exploração representadas pelo neocolonialismo e imperialismo nesse atual período da história humana.
Por fim, a luta pela Palestina será, com relação às massas palestinas e árabes, a porta de entrada em direção à cultura de nossa época e a transição de um estado de subdesenvolvimento para as exigências da vida moderna. Por meio da luta, iremos obter a consciência política dos fatos da nossa época, jogar fora as ilusões e apreender o valor dos fatos. Os costumes do subdesenvolvimento representados pela submissão, dependência, individualismo, tribalismo, indolência, anarquia e imprudência vão mudar através da luta no reconhecimento dos valores da época, ordem, rigor, pensamento objetivo, ação coletiva, planejamento, mobilização pormenorizada, a busca pelo aprendizado e a obtenção de todas suas armas, o valor humano, a emancipação da mulher – que constitui metade de nossa sociedade – da servidão dos costumes e tradições ultrapassados, a importância fundamental do laço nacional contra o perigo, e a supremacia desse laço sobre laços tribais, regionais e de clãs.
Nossa luta de libertação nacional, prolongada, significará nossa fusão a uma nova forma de vida que será nossa porta de entrada para o progresso e civilização.

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