Originalmente publicado no site Intellectuals and the Media.
Tradução por Andrey Santiago.
A Négritude emergiu na França do período entre guerras como uma campanha cultural contra o colonialismo, na qual intelectuais negros utilizaram sua produção literária para rejeitar os ideais coloniais franceses de assimilação e celebrar a negritude como identidade. Em suas discussões sobre a Négritude e suas origens, muitos estudiosos posicionaram três homens, Aimé Césaire, Léon Damas e Léopold Sédar Senghor, na vanguarda – mas eles devem receber todo o crédito?
Césaire, Damas e Senghor começaram a publicar seu jornal L’Étudiant noir em 1935, e foi dentro dessas páginas que o termo Négritude apareceria pela primeira vez.[i] A única contribuinte feminina do jornal era Paulette Nardal, uma figura frequentemente esquecida no discurso em torno do movimento. ‘A arquiteta esquecida da négritude’,[ii] Nardal e seus pares já haviam discutido as ideias centrais do conceito de Négritude três anos antes na La Revue du monde noir.[iii] Além de seus escritos, Nardal e suas irmãs organizavam um salão literário semanal em seu apartamento em Clamart, nos arredores de Paris, onde muitas das conversas preliminares sobre os conceitos que seriam posteriormente sintetizados como Négritude aconteciam.
O fato de mulheres como Nardal e suas contribuições para a Négritude terem sido ofuscadas pelos homens do movimento levanta a questão da interseccionalidade, mais especificamente de como as mulheres negras experimentam/experimentaram uma opressão singular e em camadas na interseção de gênero e raça.
Em 12 de outubro de 2021, o Google destacou uma ilustração de Paulette Nardal como o ‘Doodle’ em sua página inicial em celebração ao que seria seu 125º aniversário. A ilustradora encarregada de criar esta peça, Jessica Coppet, é de herança martiniquense – uma escolha bem pensada por parte da diretora de arte do Google Doodle, Angela McKinley, uma vez que Nardal também era da Martinica. A ilustração é rica em detalhes intencionais que refletem aspectos importantes do tempo de Nardal em Paris, como uma das primeiras mulheres negras a frequentar a Sorbonne e uma membra ativa da literatura negra da cidade.
O SALÃO DA NÉGRITUDE
O fundo da composição de Coppet retrata o apartamento em Clamart que Nardal compartilhava com suas irmãs Jane, Alice e Andrée. Foi neste apartamento que Paulette organizou seu salão literário a partir de 1929, que ela criou com a intenção de proporcionar um espaço no qual as mulheres negras pudessem se sentir seguras da marginalização e isolamento que vivenciavam, ao mesmo tempo facilitando a interação entre pessoas negras e membros de várias outras comunidades.[iv] Ela havia criado ‘um espaço crucial para interação interracial, intraracial e internacional'[v] que inspiraria os intelectuais que posteriormente formalizaram e popularizaram a noção de Négritude por meio de seu trabalho.
Embora os salões literários realizados por Nardal tenham sido instrumentais na formação do movimento da Négritude, eles foram em grande parte ignorados pelos estudiosos em seu tratamento do assunto. O fato de aqueles que receberam mais reconhecimento por seu envolvimento terem sido homens mostra que as dinâmicas patriarcais persistiam mesmo entre aqueles que buscavam desafiar outro sistema opressor na forma de colonialismo.
Pode ser com essa narrativa dominada por homens em mente que Coppet fez a escolha de apresentar predominantemente sujeitos femininos em sua ilustração, destacando as mulheres que por muito tempo foram obscurecidas. Ao ler sobre a peça, a maior parte das informações fornecidas é biográfica, focando em Paulette e seu trabalho de vida, portanto não podemos ter certeza de quem as figuras pretendem representar. No entanto, como há três mulheres retratadas, pode ser o caso de que elas representem três de suas seis irmãs com quem Paulette compartilhava o apartamento em Clamart – Jane, Alice e Andrée.
Quem poderia ser a figura masculina é menos claro, embora presumivelmente possa ser uma representação de um dos três homens mencionados anteriormente que frequentemente são creditados como os pais fundadores da Négritude. Dos três, é mais provável que seja Senghor, já que Césaire afirmou no final de sua vida, ao falar sobre o salão, que Senghor frequentemente os frequentava, e que ele próprio não comparecia mais do que algumas vezes.[vi]
LA REVUE DU MONDE NOIR
Um outro detalhe importante incluído na ilustração é a cópia da La Revue du monde noir que Nardal está segurando. Em um dos esboços (Fig. 2), vemos que isso originalmente seria excluído, mas a decisão de adicioná-lo à composição é uma decisão judiciosa.
Em 1930, Nardal co-fundou La Revue du monde noir em colaboração com o Dr. Léo Sajous. O periódico foi publicado em francês e inglês, explorando ideias que lançaram as bases para o movimento da Négritude. A publicação, apesar de crítica ao colonialismo, foi parcialmente financiada pelo Ministère des Colonies – portanto, não é surpresa que logo tenham retirado seu financiamento, menos de dois anos após o início da La Revue. Argumentaram que, apesar de afirmarem ser filantrópicos, a publicação mantinha opiniões ‘claramente hostis à [sua] influência na África’. [vii]
Em sua breve existência de apenas seis edições, La Revue du monde noir foi, no entanto, influente, servindo como precursora das obras mais conhecidas da Négritude; como L’Étudiant noir em 1934, no qual Nardal mesma contribuiu, como discutido anteriormente, e a obra seminal de Césaire Cahier d’un retour au pays natal em 1939. [viii] Tem sido referida como ‘uma fonte de pensamento e opinião intelectual negro muito antes da descolonização oficial dos negros, fisicamente, mentalmente e espiritualmente, de fato ocorrer.’ [ix] Ainda assim, foram os homens que receberam todo o crédito.
Paulette Nardal tinha plena consciência do fato de que foi com base em sua condição de mulher que seus esforços, assim como os de outras mulheres, foram deixados de lado. Mesmo na La Revue du monde noir, a publicação que ela parcialmente concebeu, ela tinha o título de Secretária Geral – um papel secundário classicamente feminilizado. [x]
Em seu último ensaio para a La Revue du monde noir, intitulado ‘Éveil de la Conscience de Race’, Nardal argumenta sobre a experiência única de opressão enfrentada pelas mulheres negras; uma ‘resposta de gênero ao racismo’. [xi] Ela aponta o quão crítica era a voz feminina na esfera dominada por homens da Négritude, fazendo a ‘afirmação significativa de que as estudantes negras em Paris foram as primeiras a desenvolver a consciência racial e a criar uma comunidade negra global’. [xii] Depois de discutir o trabalho de estudiosos masculinos antes da Négritude, e criticar sua incapacidade de separar sua escrita do que ela se refere como cultura latina – ou seja, a do colonizador branco -, ela argumenta que as mulheres negras não só possuíam consciência racial antes dos homens negros, mas também que eram ‘menos favorecidas’ do que esses homens negros que ‘estavam satisfeitos com um certo sucesso fácil’, citando La Revue du monde noir como ‘o ponto de partida de sua evolução’. [xiii]
UM CASO PARA A INTERSECCIONALIDADE
Mais tarde em sua vida, em 1963, Nardal foi ainda mais crítica em relação a seus contemporâneos homens por sua falta de reconhecimento dela e de sua irmã Jane como pioneiras do movimento. Ela defendeu uma grande transformação na forma como a Négritude é tratada pelos estudiosos, sugerindo que as mulheres deveriam ser vistas como as verdadeiras criadoras da consciência racial que se desenvolveu na Paris do período entre guerras. [xiv] Isso poderia então posicioná-la como uma das primeiras intelectuais interseccionais, já que ela argumentou sobre a experiência única de opressão enfrentada pelas mulheres negras, na interseção de raça e gênero, muitas décadas antes de Kimberlé Crenshaw cunhar o termo interseccionalidade em 1989. [xv]
Referências
[i] Umoren, I. D., Race Women Internationalists: Activist-Intellectuals and Global Freedom Struggles (California: University of California Press, 2018), p. 17.
[ii] Boscher, M., ‘Paulette Nardal, l’architecte oubliée de la négritude’, Outre-mer la 1ère , (2020), https://la1ere.francetvinfo.fr/longs-formats-paulette-nardal-architecte-oubliee-negritude-690928.html [accessed 7 November 2021].
[iii] Sharpley-Whiting, T. D., Beyond Negritude: Essays from Woman in the City (Albany: State University of New York Press, 2009), p. 4.
[iv] Umoren, p. 17.
[v] Ibid.
[vi] Césaire, A., Nègre je suis, Nègre je resterai, Entretiens avec Françoise Vergès, (Paris: Albin Michel, 2005), p. 25.
[vii] Umoren, p. 21.
[viii] Smith Jr., R. P., ‘Black Like That: Paulette Nardal and the Negritude Salon’, CLA Journal, 45.1 (2001), 53-68, (pp. 63-64).
[ix] Smith Jr., p. 67.
[x] Sharpley-Whiting (2001), p. 100.
[xi] Smith Jr., p. 60.
[xii] Umoren, p. 19.
[xiii] Nardal, P., Éveil de la Conscience de Race, in La Revue du monde noir, 6, 25-30, https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k32946v/f361.item# [accessed 10 November 2021] (p. 29).
[xiv] Lewis, S. K., Race, Culture, and Identity: Francophone West African and Caribbean Literature From Négritude to Créolité, (Oxford: Lexington Books, 2006), pp. 55-56.
[xv] Crenshaw, K., ‘Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist Politics’, University of Chicago Legal Forum, (1989), 139-168.
