Terra e Existência em Gaza

Texto de Asad Haider

Originalmente publicado no site Viewpoint Magazine

Tradução por Gustavo F. Costa e Silva


Durante o brutal ataque de onze dias de Israel à Gaza – por si só uma escalada da devastação cotidiana na vida palestina – recorri aos escritos do romancista e militante palestino Ghassan Kanafani. Em seu conto “Carta de Gaza”, o narrador escreve a um amigo na Califórnia, onde foi aceito para cursar Engenharia. Ele se recorda de quando Gaza foi atacada em 1948 pelas forças que se tornariam o Estado de Israel, e do quanto queria deixar Gaza para trás, para se libertar da derrota. No entanto, algo embotou seu “entusiasmo pela fuga”. Antes de partir em definitivo, ele vai ao hospital visitar sua sobrinha de 13 anos, Nadia, que pertence à “geração que foi tão criada na derrota e no deslocamento que passou a pensar que uma vida feliz era uma espécie de desvio social”. Teve sua perna foi amputada, depois de se jogar por cima de seus irmãos e irmãs para protegê-los das bombas. Ela poderia ter se salvado, fugido, mas não o fez. E agora ele também nunca irá embora. Ele diz ao amigo:

Esse sentimento obscuro que você teve quando saiu de Gaza, esse pequeno sentimento deve crescer e se tornar um gigante bem no âmago do seu ser. Deve se expandir, você deve procurá-lo para se encontrar aqui, entre os horrendos escombros da derrota. Eu não irei até você. Mas você, volte para nós! Volte, para aprender com a perna de Nádia, amputada na parte superior da coxa, o que é a vida e o quanto vale a existência.

Depois de ler essas linhas, lembrei-me das palavras de Karl Marx um século antes, num discurso em Londres em dezembro de 1867, e numa carta a camaradas de Nova Iorque em 1870, ambas sobre “a questão irlandesa”. Um relatório sobre o discurso de Marx registra sua fala de que a questão irlandesa “não era simplesmente uma questão de nacionalidade, mas uma questão de terra e de existência”. Nessa carta, escreveu que “na Irlanda a questão da terra tem sido até agora a forma exclusiva da questão social porque é uma questão de existência, de vida e de morte, para a imensa maioria do povo irlandês, e porque é ao mesmo tempo inseparável da questão nacional.”

Em outras palavras, existe uma relação fundamental entre terra e nação, vida e existência. O que Marx chamou de questão nacional era uma forma de pensar essa relação. Na sua introdução sobre a questão nacional no vindouro Handbook of Marxism, Gavin Walker salienta que Marx escreveu numa época em que as nações se encontravam num fluxo radical – suas fronteiras territoriais eram constantemente redesenhadas, as línguas constituíam maiorias e minorias nacionais, e o imperialismo produzia uma ordem hierárquica global. Ficou claro para Marx, doravante, que havia uma espécie de volatilidade na categoria de nação: era o espaço de contestação que poderia se mover tanto em direções reacionárias quanto emancipatórias.

Num estudo histórico do período 1936-39, Kanafani apresentou uma análise marxista da questão nacional na Palestina. O recorte foram as relações entre a liderança local reacionária, os regimes árabes circundantes e a aliança entre o imperialismo britânico e o sionismo. Para os palestinos sitiados por essa aliança, a questão nacional tinha prioridade sobre as questões sociais, enquanto, ao mesmo tempo, o antagonismo entre o imperialismo e a liderança feudal-religiosa levou a classe dominante a apoiar um certo nível de luta revolucionária. O desenvolvimento capitalista ocorreu de forma desigual e às custas dos palestinos. A aliança sionista-imperialista nesse período, escreveu Kanafani, não só levou à institucionalização da violência colonial e à derrota da classe trabalhadora palestina, como também “minou com sucesso o desenvolvimento de um movimento operário judaico progressista e da irmandade proletária judaico-árabe”.

A investigação de Kanafani foi interrompida por um carro-bomba plantado pela Mossad em 1972, por isso temos que olhar para sua obra de ficção para completar mais dessa história. Em “A Terra das Laranjas Tristes”, o narrador se lembra de sua família que fugiu da Palestina em 1948, refugiada como outras tantas centenas de milhares. Ele era muito jovem para entender a princípio o que estava acontecendo, mas ficou mais claro quando viu os adultos de sua família começarem a chorar ao verem laranjas. Ele lembra quando foram parados pela polícia, que recolhe as armas dos refugiados:

Quando chegou nossa vez e vi os rifles e metralhadoras sobre a mesa e olhei para a longa fila de caminhões que entravam no Líbano, contornando as curvas das estradas e se distanciando cada vez mais da terra das laranjas, eu também explodi em uma tempestade de choro.

Alguns laranjais foram destruídos e outros foram confiscados pelo Estado israelense. Esse símbolo da pátria palestina tornou-se um símbolo de desapropriação, antes de se tornar um símbolo do Estado de Israel. O arrancamento de árvores não é apenas um dos símbolos mais poderosos da desapropriação palestina, mas também um dos seus efeitos mais prejudiciais. Estima-se que 2,5 milhões de árvores frutíferas tenham sido arrancadas desde 1967 para a construção de assentamentos israelenses.

Podemos ver porque Marx descreveu a questão nacional como uma questão de terra e de existência, algo que se torna verdade na Palestina. A agricultura palestina é prejudicada pelas contínuas apreensões de terras e expansão dos assentamentos israelenses, pelo despejo de resíduos domésticos e industriais desses assentamentos em terras palestinas, pelas restrições à importação de insumos agrícolas, juntamente com a dependência de produtos israelenses importados para consumo doméstico, pelo controle do Estado israelense sobre a água e a eletricidade, e a destruição da infraestrutura de transportes pelas bombas de Israel.

De acordo com o Haaretz, 97% da água potável de Gaza já é imprópria para consumo humano devido à contaminação por esgotos ou aos elevados níveis de salinidade. O recente bombardeio destruiu sistemas de esgotos e encerrou uma importante central de dessalinização. A ONU informou em 2020 que Gaza tem “a taxa de desemprego mais elevada do mundo e mais de metade da sua população vive abaixo da linha da pobreza”. O recente bombardeio deslocou mais de 100 mil residentes de Gaza das suas casas.

Deveria ficar bem claro que o caráter económico da opressão palestina é indissociável do seu carácter nacional. Poderíamos nos empenhar numa análise social objetiva do colonialismo israelense e do seu apoio ao imperialismo americano, o que mostraria o papel estruturante da acumulação capitalista global. Porém, isso não deve obscurecer o caráter relativamente autónomo da opressão nacional. As atrocidades cometidas por Israel são uma forma de terrorismo que pretende torturar, intimidar e humilhar os palestinos, precisamente porque são palestinos; e a ocupação em curso tem uma lógica niilista, que destrói e polui a terra e ameaça a própria existência dos trabalhadores palestinos, que Israel procura não só explorar, mas também aniquilar, porque são palestinos. É a tentativa de destruição total de qualquer aparência de controle que os palestinos possam exercer sobre a terra e a existência.

Tais temas estiveram fortemente presentes na análise de Marx sobre a questão nacional. Temos de notar que, para Marx, a questão nacional não estava de modo algum separada ou era secundária em relação a questões que são supostamente puramente econômicas. Na verdade, Marx tinha acabado de apresentar sua crítica sistemática da economia política no primeiro volume de O Capital, alguns meses antes, e ficou notadamente preocupado com a questão irlandesa, não apenas em sua investigação, mas também nas suas intervenções políticas. Argumentou incessantemente contra as influências do colonialismo na Internacional e trabalhou em campanhas em defesa dos presos políticos irlandeses após o Levante Feniano, a tentativa frustrada de uma insurreição armada contra o domínio inglês que tinha acontecido na Irlanda três anos antes. Em suas correspondências privadas, Marx e Engels criticaram os fenianos pela incoerência da sua ideologia política e pelo caráter imprudente e destrutivo dos seus ataques a bomba. Todavia, nunca fizeram tais críticas em público, por razões que Marx deixou claras nos seus escritos sobre a questão irlandesa.

As condições impostas à Irlanda, que Marx descreveu longamente n’O Capital, em discursos e cartas subsequentes, são bastante familiares: despejo, desapropriação, deslocação, expulsão da terra, baixos salários, desemprego, fome. Tal era o caráter econômico da questão nacional. Mas ele também continuou insistindo no seu caráter fundamentalmente político. Escreveu a Engels em 1869 que, embora anteriormente acreditasse que a ascensão da classe trabalhadora inglesa tornaria possível derrubar o domínio colonial na Irlanda, uma investigação mais aprofundada o levou para a direção oposta. Concluiu então que a independência irlandesa era “do interesse direto e absoluto da classe trabalhadora inglesa” e que sem ela “nunca conseguiriam nada”: “A alavanca deve ser aplicada na Irlanda”. Empregando outra metáfora mecânica em 1870, descreveu a Irlanda como o “elo mais fraco” da Inglaterra – uma linguagem que antecipa teorias posteriores da Revolução Russa como o “elo fraco da cadeia imperialista”.

A primeira razão para isso foi que o mando das classes dominantes inglesas sobre a Irlanda manteve não só sua riqueza, mas também o seu domínio na própria Inglaterra. Se o exército e a polícia ingleses fossem retirados da Irlanda, haveria imediatamente uma revolução agrária, que levaria à queda da aristocracia fundiária na Inglaterra. Os capitalistas ingleses se beneficiaram do influxo de carne e lã baratas para o mercado inglês, e tinham interesse em reduzir a população irlandesa através do despejo e da emigração forçada para que pudessem investir em terras com “segurança”. Além disso, o excedente enviado da Irlanda para a Inglaterra forçou a redução dos salários dos trabalhadores ingleses.

Mas “o mais importante de tudo!”, escreveu Marx, era que a classe trabalhadora na Inglaterra tinha sido dividida em “dois campos hostis”. Os trabalhadores ingleses viam os irlandeses como concorrentes que baixaram o seu padrão de vida; consideravam-se membros da nação dominante, tornando-se instrumentos dos aristocratas e capitalistas contra a Irlanda e fortalecendo o seu domínio sobre si próprios. Marx comparou os preconceitos religiosos, sociais e nacionais dos trabalhadores ingleses ao racismo dos “brancos pobres” nos Estados Unidos. Os trabalhadores irlandeses, por outro lado, viam os trabalhadores ingleses como cúmplices do domínio inglês na Irlanda, e esse antagonismo foi “mantido artificialmente vivo e intensificado pela imprensa, pelo púlpito, pelas tirinhas de jornais” – em outras palavras, por aquilo que desde então foram descritos como os aparelhos ideológicos do Estado. Ele escreveu: “Esse antagonismo é o segredo da impotência da classe trabalhadora inglesa, apesar da sua organização. É o segredo pelo qual a classe capitalista mantém o seu poder.” A tarefa mais importante da Internacional era provocar uma revolução social na Inglaterra, porque era “o único país em que as condições materiais para essa revolução atingiram certo grau de maturidade”. Mas a única maneira de conseguir isso era alcançar a independência irlandesa. Portanto, era “a tarefa da Internacional em todos os lugares colocar o conflito entre a Inglaterra e a Irlanda em primeiro plano, e em todos os lugares ficar abertamente ao lado da Irlanda”, a fim de “fazer com que os trabalhadores ingleses percebessem que para eles a emancipação nacional da Irlanda não era uma questão de justiça abstrata ou de sentimento humanitário, mas condição primeira de sua própria emancipação social”.

Gostaria de observar que Marx apresenta dois argumentos a favor do caráter universal da emancipação irlandesa, tanto objetivo quanto subjetivo. Primeiro, apresenta uma análise social objetiva que se baseia na premissa de que o nível mais maduro de desenvolvimento capitalista proporciona as condições materiais para a revolução. No entanto, a evolução do processo material objetivo não é linear, porque não é a contradição entre capital e trabalho que inicia a revolução social, mas a contradição entre colonialismo e independência nacional. A análise objetiva do colonialismo mostra não só que existe um processo não linear, mas também que o que parece ser a contradição geral não existe num estado puro. As condições para a revolução são na verdade uma acumulação de contradições, que se fundem de tal forma que tornam possível uma ruptura revolucionária.

Isso significa que tais formas e circunstâncias específicas e historicamente concretas são o local da intervenção subjetiva, que é como leio a análise de Marx do antagonismo interno à classe trabalhadora. Poderíamos ler como uma versão de uma teoria da relação objetiva entre raça e classe, ou racismo e capitalismo. Essa é certamente uma questão interessante. Mas o que é igualmente significativo é que Marx procura aqui descrever porque é que a classe trabalhadora é impotente, apesar da sua organização. Em outras palavras, é possível que a classe trabalhadora seja organizada por organizações de luta de classes dentro das condições materiais mais maduras para a revolução, e ainda assim não constitua um sujeito revolucionário. O sujeito revolucionário ainda não existia; não era simplesmente a classe trabalhadora, como categoria sociológica objetiva. Tinha de ser construída politicamente, e isso significava que a questão nacional era a condição política do sujeito revolucionário. Essa condição política, no entanto, oferece uma sugestão do caráter universal da luta, mesmo para além da sua importância direta para a luta de classes na Inglaterra.

É claro que as análises historicamente específicas de Marx sobre o colonialismo inglês na Irlanda e a composição da classe trabalhadora não podem simplesmente ser transpostas para todos os tipos de ocupação e todas as formas de divisão identitária. Ele observou que na sua conjuntura era necessário superar as hostilidades e as desconfianças mútuas entre setores das massas trabalhadoras e provocar uma desidentificação com a nação dominante, o que exigia um compromisso fortemente arraigado e amplo comprometimento com a emancipação anticolonial. Mas isso se baseou numa análise concreta da situação concreta, que é precisamente o que tem de ser feito no presente. Não precisamos determinar antecipadamente que a Palestina é o elo mais fraco do capitalismo global, que a sua libertação seria a alavanca de uma revolução global, ou que o antagonismo entre palestinos e israelenses é o segredo da impotência da classe trabalhadora e do poder capitalista para compreender a universalidade da causa palestina. A relevância contínua do envolvimento de Marx está na afirmação de políticas emancipatórias no âmbito da questão nacional. A importância dessa afirmação é clara quando consideramos que, mesmo antes da recente onda de bombardeios, o responsável pelos direitos humanos da ONU disse que os residentes de Gaza estavam “enjaulados num bairro de lata tóxico desde o nascimento até à morte, privados de dignidade; desumanizado pelas autoridades israelenses a tal ponto que parece que estas nem sequer consideram que esses homens e mulheres têm o direito, bem como todos os motivos, para protestar”.

Em verdade, isso aponta para uma tensão na concepção de Marx do processo revolucionário, ilustrada na relação entre a maturidade das condições materiais e o elo mais fraco. Na análise de Marx, o mais alto nível de desenvolvimento capitalista gerou uma situação em que a luta de libertação nacional teve prioridade sobre a luta de classes. A própria independência nacional tornou-se uma condição política da revolução. A lógica do elo mais fraco de Marx mostra que o processo revolucionário não está predeterminado, e sua análise da questão nacional revela uma dimensão política irredutível. Isso significa que não haverá apenas uma luta, mas que há um caráter universal nessas lutas. Marx aponta para isso quando argumenta que a emancipação nacional é uma condição da emancipação social. Mas se mantivermos que o processo revolucionário não segue um curso predeterminado e que há condições políticas, então a universalidade de uma luta não é determinada pelo fato de ser a alavanca da revolução, porque em diferentes situações haverá diferentes alavancas. Essas lutas são universais devido ao seu próprio caráter emancipatório: porque promovem princípios de justiça que vão além das suas situações locais e se aplicam a todos. Tais princípios, embora surjam de uma situação local, são antagónicos a todo o sistema que gera e regenera a dominação e a exploração, e qualquer luta emancipatória deve proceder à destruição desse sistema e à invenção de formas novas, racionais e igualitárias de vida.

Não se trata de uma justiça abstrata ou de um humanitarismo que olharia para uma situação colonial e apelaria ao fim do ódio e da luta, uma espécie de variação humanista das formulações comuns dos principais meios de comunicação que atribuem as mortes palestinas ao “conflito” e não ao exército israelense. Nessa situação colonial, a luta pela emancipação universal é necessariamente a luta pela autodeterminação palestina.

Na sua última entrevista, Kanafani afirmou que era precisamente a dimensão universal da situação palestina que procurava representar: “Não há um acontecimento no mundo que não esteja representado na tragédia palestina. Quando retrato o sofrimento dos palestinos, estou na verdade representando o palestino como um símbolo de miséria no mundo inteiro”. Mas, como mostra a “Carta de Gaza”, não foi apenas o sofrimento dos palestinos que ele representou. Foi também aquele compromisso desafiador com a vida e a existência, a recusa em partir. Enquanto o narrador deixa a sobrinha no hospital, a coragem e o sacrifício dela o transformam. A Gaza da derrota e do deslocamento se tornou “algo novo. Pareceu-me apenas um começo.”

Permitamos também que o desafio e a persistência do povo palestino nos transformem. É assim que a política começa.

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