Entrevista – HG + Marcelo D’Salete

Entrevista realizada por Isabela Araújo para o História Guardada.


1. Gostaria que você apresentasse brevemente elementos na sua trajetória que lhe fizeram formar-se como artista. 

O meu nome é Marcelo D’Salete, eu sou aqui de São Paulo. Passei a minha infância em São Mateus, também em Artur Alvim e depois, quando adulto, aqui na zona Oeste da cidade de São Paulo. E, de certo modo, essa vivência nas periferias da cidade acabaram fortalecendo uma perspectiva, o modo de ver as coisas, e isso reflete na minha produção artística.

Fotografia por Renato Prada.

Eu estudei em escolas públicas em grande parte da minha formação. No Ensino Médio, fiz um curso de design gráfico no Colégio Carlos de Campos, no Brás, um colégio técnico. [Essa experiência] foi fundamental para minha formação, foi o meu primeiro passo conhecendo também o trabalho de outros artistas, onde tive muita influência também do grafite, da ilustração, de várias outras áreas. 

E depois, na universidade, me formei em Artes Plásticas, licenciatura em artes plásticas na Universidade de São Paulo. De certo modo, a minha vida sempre permeou na apreciação artística, na convivência…Ouvindo muita música, desde rap, samba, passando pelo jazz, MPB, Rock e vários outros ritmos… E chegando então aos quadrinhos, ilustração e as artes plásticas. 

Aprecio muito cinema também, [e] teatro acabaram sendo produções que, de certo modo, influenciam o meu modo também de criar artisticamente. 

2. Qual foi o seu primeiro trabalho remunerado como artista? Você lembra como você se sentiu? 

Eu comecei a trabalhar como artista, como ilustrador, na verdade, quando estava no colégio Carlos de Campos. Isso é final da década de 90, devia ter por volta de 17 ou 18 anos e era uma editora de livros didáticos. Foi incrível poder trabalhar nesse local, apesar de ser um trabalho muito repetitivo, mas, com certeza, quando comecei lá, é que percebi que eu poderia também atuar dentro dessa área. E [esse trabalho] me fez também perceber que um artista cria quando está inspirado, sim, mas que ele precisa também ter uma rotina de criação, mesmo quando não está exatamente inspirado por algo externo, que apareça ali no momento. Às vezes, a inspiração, a criação, surgem justamente a partir do trabalho artístico e de descobrir novas formas, novas possibilidades, a partir da sua relação com determinado tipo de material. 

Ilustração de Cumbe.

3. Como se interseccionam a sua atividade como docente e sua carreira como artista? Seus alunos conhecem seu trabalho? 

A minha formação é em licenciatura em Artes Plásticas e considero que isso foi essencial para ter uma visão mais abrangente da sociedade brasileira, e para pensar em como trazer outros temas para minha produção artística… Com certeza essa articulação entre docência e arte é algo que me impulsiona até hoje. Os meus alunos, uma parte deles, conhecem o meu trabalho, principalmente em determinados momentos quando falamos sobre quadrinhos, ilustração, artes gráficas. Mas eu costumo trazer as histórias em quadrinhos como uma possibilidade a mais de falar sobre arte, né? E trazendo isso [as histórias em quadrinhos] também a partir da produção de diversos artistas, não apenas o meu trabalho. E geralmente é um diálogo muito interessante, muito propositivo com os alunos sobre arte. E sobre as possibilidades de criação utilizando o recurso das histórias em quadrinhos. 

4. Dentre as obras que você já produziu, qual delas é sua favorita? 

É difícil falar de uma obra favorita… Acho que as minhas obras, cada uma delas tem um momento de criação, tem um momento em que elas foram feitas e pensadas e dialogavam com os meus interesses naquele momento específico. Então, todas elas têm a sua importância. Mas, diria que, com certeza o livro Angola Janga acabou sendo um dos meus maiores desafios de criação artística, pensando também muito em história e questões sociais e sobre população negra no Brasil, no presente, no passado. Depois desse livro, o meu último livro, Mukanda Tiodora, tratando especialmente de São Paulo, era um desejo, interesse, um objetivo que eu tinha muito antigo em termos de pensar na população negra em São Paulo nos séculos anteriores – como que isso se articula com determinados espaços que eu estava muito acostumado a passar e visitar quando era Office Boy no centro da cidade de São Paulo, isso no final da década de 90. O livro Mukanda Tiodora foi essa oportunidade de conhecer mais sobre São Paulo, conhecer mais sobre a população negra em São Paulo e como que isso se articula com o escravismo, com desigualdade, mas como que isso molda também uma parte da cidade de São Paulo hoje.

Ilustração de Mukanda Tiodora.

5. A questão racial é uma temática incontornável em seus projetos. O que lhe motivou a tratar de tal temática? 

Bem, eu venho de uma família de pessoas negras na periferia da cidade de São Paulo. Vamos dizer assim, que a questão social e racial sempre esteve presente, às vezes em falas dentro da minha família, mas muitas vezes também a partir da minha percepção, sobre a minha vivência como Office Boy, como um jovem negro em São Paulo. [A questão social e racial esteve muito presente] também a partir da arte, a partir do samba, de músicas do Jorge Bem, também Tim Maia, e muito também a partir do rap, Thaíde, RZO, Racionais MC’s… E vários outros grupos que na década de 80 e 90, acabaram dando uma voz extremamente politizada para a juventude daquele período. Então, quando eu entrei na universidade e comecei a ter mais contato com a produção histórica, tratando de importantes personalidades negras, indígenas e de mulheres, eu comecei a perceber como que isso estava distante de grande parte das pessoas da minha família, colegas e outros. O quadrinho acabou sendo essa forma de trazer essas narrativas para um veículo que é acessível a grande parte do público, dinâmico e que traz uma forma muito específica, mas muito eficaz para atingir diferentes públicos. 

6. Indique para nós três referências atuais que te inspiram. 

Bem, me interesso bastante pelas diferentes artes. Acho que em relação a livros, há uma artista que sempre me encantou muito: uma escritora é a Toni Morrison. Ela é uma referência enorme. Tenho me interessado também bastante pelo trabalho da Conceição Evaristo. No cinema, o trabalho do Jordan Peele e do Donald Glover também. São dois cineastas que eu aprecio demais. E, dentro das artes visuais, o No Martins eu acho que também é um artista que consegue trafegar dentro de diferentes suportes artísticos e trazer processos de criação e questionamentos sociais muito relevantes.

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