Artigo de Jules Joanne Gleeson publicado em 12 de março de 2020.
Originalmente disponível no site New Socialist.
Tradução por Gabriel Cól.
Em Parasita (2019), de Bong Joon-ho, uma cena marca a transição do primeiro ato do filme, que se apresenta como uma comédia, para o segundo ato, onde se torna um intenso thriller. (Mais tarde, uma segunda cena transformará o longa em um terror slasher).
Na primeira cena, a família Kim se reúne para comemorar o sucesso de sua infiltração na casa da abastada família Park, fazendo com que eles contratassem todos os membros da família (que fingiam não se conhecer). Com os Park indo a um acampamento à vontade de seu filho mimado, os Kim ficam sozinhos em uma grande casa da classe dominante (com bebidas e tudo mais) a seu dispor. Para uma família vivendo em um porão, esse é um momento de alegria, uma vitória após o triunfo do golpe.
Então, de repente, a festa parece azedar. O chefe de família Kim Ki-taek se ofende com um comentário feito por sua esposa, Park Chung-sook e parte para a briga. Ele avança sobre ela, a puxa pela gola, e Park Chung-sook se espanta.
Em sua maior parte, o drama do filme pode ser considerado pós-edipiano. Park já havia perdido seu posto como patriarca da família. O longo período em que ficou desempregado o fez cair na passividade, com seu filho Choi Woo-shik tomando o posto de coordenador do golpe. Seu pai faz o papel de um homem atrapalhado, quase revelando o esquema da família em diversas ocasiões, sendo salvo pela total insensibilidade e indiferença de sua contraparte paternal burguesa, Lee Sun-kyun, quando tem que lidar com a classe inferior.
Em frente ao abrupto ressurgimento de Kim como patriarca, seus dois filhos parecem chocados, sem conseguir reagir. Eventualmente, após um longo silêncio, os pais começam a rir.
Esse momento é distintivamente não performativo: atuando nos papeis de marido machão e esposa indefesa prestes a apanhar, a distância que os Kim estabeleceram entre eles e as normas de uma relação patriarcal se tornam bastante simples.
Eles se distanciam da violência doméstica da mesma forma que se aproximam.
Os Kim não vivem inteiramente além da brutalidade cotidiana das famílias capitalistas, mas seu reaparecimento de forma cômica, buscando brincar com a nova geração, se apresentando como piada, esvazia a memória impiedosamente. Park Chung-sook explica que um incidente real a faria espancar o marido. Ela ainda reforça seu ponto caçoando de Kim com uma animada desumanização: no momento de tensão, ela repete que seu marido “fugiria como uma barata”.
Em última análise, esse xingamento não se sustenta. Ainda que, de fato, Kim vá para o subsolo de forma literal no final do filme, ao invés de fugir de seus problemas, ele responde a eles matando Lee Sun-kyun, por seu visível desgosto por pessoas da classe social de Kim. Ao contrário de fugir como uma barata, ele serve como uma fonte de violência divina, realizando um tardio ato de solidariedade proletária: um patriarca derrubando outro.
Esse ato é claramente impulsivo, e não serve para recolocar Kim como um patriarca. Ele foge enquanto sua filha está ensanguentada, e em um looping narrativo, seu filho termina bem como começou: sonhando com uma forma de se infiltrar na casa para resgatar o pai.
Mesmo mostrando momentos de ternura e gentileza, Parasita apresenta os limites de uma “família de bem” nas circunstâncias capitalistas. Ainda que o golpe seja fascinante e ingênuo, ele abre espaço para uma relativa disputa por posição. Lapsos de ingenuidade junto a emoção do golpe, temperando a incessante realidade da vida proletária.
Os Kim estão intimamente cientes da violência que permeia as relações patriarcais e consideram a ideia de encenar-lá algo hilário. O porto seguro da violência disruptiva é somente parcial, até no caso de uma “família de bem”. Enquanto os Kim cooperam juntos, eles não podem providenciar a salvação uns aos outros. No final de Parasita, eles não conseguem escapar da lógica dessas relações, nem de se reproduzirem como uma força de trabalho capitalista. Esse destino fecha o filme por inteiro.
Nos anos recentes, muitos pensadores comunistas tentaram reviver o clamor pela abolição da família burguesa no Manifesto Comunista.
Seguindo o mais recente exemplo de abolicionismo prisional nos EUA, argumentamos substituir o atual modelo de criação por um separado da família (com o uso extensivo de empresas dedicadas ao cuidado infantil e acordos de pagamento com trabalhadores do ramo).
A abolição da família, nesse sentido, é uma estratégia provocante, porém, positiva. Defendemos a substituição da família por processos estruturados de provisão direta, oferecendo elementos chave para a educação — desde o atendimento à necessidades nutricionais até a alfabetização — de uma forma sistemática e contextualmente abrangente.
Essa é uma visão das relações comunistas como um ponto de partida para a reversão de danos causados pela existência e dominância de relações patriarcais e instituições racializadas sobre nossos modelos de educação.
Nosso clamor pela abolição da família não é no sentido de desconsiderar os incansáveis esforços feitos pelo proletariado de preservar o bem-estar de seus parentes, mas com ciência de que essas lutas pessoais, sozinhas, jamais servirão para nos emancipar como classe.
Uma minoria na política socialista contemporânea respondeu aos slogans anti-família com um misto de alarme, feroz rejeição e uma aparente incompreensão.
De acordo com a esquerda defensora das normas familiares já existentes, a família é o baluarte entre a expansão global da “neoliberalização” das relações econômicas, um plano além dos preços e indignidades do trabalho remunerado. O abolicionismo familiar, deste ponto de vista, é uma estratégia cruel, que busca roubar do já explorado trabalhador o último consolo do qual se pode aproveitar em união.
Para aqueles familiarizados com o debate sobre comunismo e o Estado, há uma grande semelhança aqui. Os social-democratas clamam por um Estado descomplicado, que ofereça uma educação compreensiva, serviços de entrega descolados do aparato da acumulação infinita, supressão das agitações urbanas, ou violentas ações de espionagem.
Para eles, existe um Estado que nutre e que apresenta estruturas confiáveis a ser resgatado.
Da mesma forma, eles também sonham com uma família que seja um porto seguro do trabalho. Um enclave além do lucro, cansaço e planilhas. Uma restrita porém ainda nobre unidade, singular em fornecer consolo e migalhas de refúgio.
Em outras palavras, um modelo de família que poucos de nós reconhecemos e que nenhum de nós jamais verá exatamente igual.
Comunistas rejeitam a ideia de qualquer divisão dentro do Estado, insistindo, incessantemente, na vinculação do serviço público com os caóticos e previsíveis fluxos de exploração em um contexto imperialista global. Se certos territórios gozam de um Estado fornecedor de grande opulência para todos os seus cidadãos, não podemos ignorar aqueles que estão além da alçada dessas políticas.
Da mesma forma, rejeitamos a família como instituição. Nós não ignoramos os danos, que por seu impulso patológico de se replicar através das gerações, causam aos métodos de criação e cuidado que simultaneamente se performam. Não buscamos “aliviar a tensão da família” ou reestruturá-lá. Não pensamos na sua purificação em uma imaculada provedora de amor. Nós trabalhamos para que a família seja algo a ser superado.
Isso não é dizer que nós ignoramos os momentos de conforto, solidariedade, suporte e intimidade que se criam dentro do ambiente familiar, ou que a proposta de nosso movimento revolucionário seja definida por total isolamento e negação da ternura que recebemos ou damos sob as atuais circunstâncias.
Nós apenas pensamos que uma quebra na forma como criamos nossas famílias é uma necessidade para que as relações comunistas existam ou simplesmente sobrevivam. Nós vemos o papel da família como um cortejo de fartura e privilégios, algo que é parte integrante de seu modelo atual.
E ainda, mesmo que poucos comunistas endossem esse ponto, injúrias e exclusões se juntaram aos montes. Em um caso, fomos acusados por um ativista branco de desconsiderar tradições e visões de pessoas não brancas.
Essa é uma curiosa linha de ataque: todos os comunistas que conheço, e que são abolicionistas familiares, citam como ponto chave de seu argumento dois artigos escritos por feministas negras na década de 1980: A Obsolescência Das Tarefas Domésticas Se Aproxima, de Angela Davis, (que argumenta que o trabalho doméstico não deve ser dividido “de forma justa” entre os gêneros, mas sim, feito em conjunto através da divisão entre equipes industrializadas) e Papa’s Baby, Mama’s Maybe, de Hortense Spillers (que explora com precisão como as relações entre mães e filhas, que para os afro-americanos, equivale a uma herança de desapropriação, causam uma confluência na experiência da mulher nos EUA).
Na realidade, o abolicionismo familiar é uma posição excêntrica e marginal para utopias revolucionárias de qualquer etnia. Aparentemente, a indissociável relação da abolição familiar e a branquitude é um típico movimento em direção à invalidação, uma reação que indica que o movimento para desestabilizar a teoria já foi cumprido. E por que deveríamos estar surpresos? Como Marx e Engels disseram:
Abolição da família! Até os mais radicais se enraivecem com essa infame proposta comunista.
Essa é uma discussão que sempre provocou polêmicas e desentendimentos. Então, vamos clarear as coisas. Como essa polêmica opinião pode ser justificada? Por que há um certo número de comunistas apoiando um ponto de vista que parecia ter se desvanecido do senso comum? Estamos em melhor posição para abordar a questão de a quem o slogan “abolir a família!” mais atrai ao considerar a divisão entre heterossexuais e o resto de nós.
O papel da família em forças de trabalho capitalistas asseguradas é reproduzido de geração em geração, sem se separar da luta disciplinar para apagar o desenvolvimento queer. Para a população LGBT+, a família se apresenta comumente como uma antagonista. Casais devem ser escondidos, a linguagem deve ser censurada e encontros desconfortáveis devem ser evitados ou nem cogitados.
Ser amigo de pessoas queer é compartilhar desse fardo. Ter conexões uns com os outros promove infinitas alegrias, mas também, leva a trocas de vivências que apresentam traumas similares (com seus gatilhos muitas vezes se manifestando em nossos laços não heterossexuais também). Histórias de rejeição, ameaças e abandono são tão comuns que elas perder a capacidade de nos comover de verdade. Má-fé e apatia podem predominar nesses encontros, ao passo que nossos amigos voltem, vez após outra, a se encontrarem feridos de formas que se negam a acreditar. Nos vemos, por vezes, enraivecidos por aqueles que mais fizeram para nos libertar da heterossexualidade.
Uma história de um colega queer em conflito com sua família se desenrola com problemas conhecidos: comentários ofensivos que soam como os que já recebemos, padrões que amontoam indignidades, um pior que o outro, sem nenhum fim à vista.
Nos encontramos acalentando nossos amigos (muitas vezes, apenas meros conhecidos) durante colapsos, que são experienciados como uma perda única, sendo vistos como uma pequena gota em um oceano. Às vezes, essa tarefa é revigorante. Outras vezes, cansativa.
Os mais severos tratamentos costumam se disfarçar de bênçãos: aqueles que revelam seu preconceito mais forte e abertamente, permitem uma separação mais imediata, pelo menos. Em casos mais sutis, excluir os que passaram por uma vida de injúrias pode ser um processo doloroso.
Dessa forma, os relacionamentos que acabam sendo “privatizados” pela família perdem suas particularidades: enquanto parentes manipuladores rotulam seus alvos como aberrações em circunstâncias únicas, através do trabalho de apoio LGBT+, sinceridades e semelhanças se tornam aparentes.
Desse ponto de vista, a família se torna Saturno devorando seu filho.
Para pessoas LGBT+, a probabilidade de colocar um fim no domínio da família se torna menos extrema e mais esperançosa. Abolir a família é por um ponto final na sucessão de penitências que a vida queer é, algo que deve ser extirpado o máximo possível. Intuitivamente, ansiamos por um fim da tormenta familiar e inefetivas exibições de força disciplinar que fazem com que os sofrimentos de uma criança sejam prolongados para a próxima geração.
Em resumo, abolir a família significa colocar um fim na farsa que é a vida da maioria das pessoas LGBT+ criadas por heterossexuais.
Também significa permitir que as relações que já se afloram entre nós não sejam reprimidas. No momento, já oferecemos uns aos outros prolongadas crises de alegria, cura e suporte, que só nós podemos compartilhar. Não fazemos isso para fortalecer as pessoas para as próximas gerações, mas para aproveitar momentos de comunhão com nossos colegas exilados.
É também por essa razão que muitos LGBTs reagiram em um nível visceral aos Buttigiegs (Chasten e Pete) roubando a cena a nível internacional.
Um conspirador um tanto emocionado foi longe ao ponto de invalidá-los, declarando que suas fotos seriam “heterossexuais”. Mas, podemos aceitar eles como uma rearticulação homossexual total da mesma lógica voltada para a propriedade, que define o que poderíamos chamar de classe dominante, ou até mesmo, branquitude.
O que é revoltante a respeito dos Buttigiegs é que eles não apenas se colocam como aceitáveis guardiões das relações privadas através das gerações (ainda que sejam). Mas que eles também estimam que isso requer uma rejeição, uma resistência às relações anormais e as estranhas ideias que sempre permearam a vida queer.
Dá pra imaginar o desconforto que Pete teria interagindo com uma drag queen, mesmo se ela fosse bem comportada. Ele iria apertar os lábios enquanto seus auxiliares vasculhariam por câmeras no lugar.
É comum para pessoas LGBT+ suspeitarem que a ascendente onda de tolerância apague a vida queer e que essa crescente aceitação gere milhões de Buttigiegs.
Mas talvez seja melhor aceitar esse homem gay de Langley, com seu dócil e sofrido marido como exemplos do que o ópio das relações familiares nos oferece. Consolo, com certeza, mas a custo de sermos continua e irracionalmente dopados.
A afinidade na qual as relações comunistas se basearão nos colocam em outra direção: tirar das lições que aprendemos com lutas e a solidariedade comunitária, levando-as para um novo contexto, onde as feridas causadas por nossas famílias não é apenas mitigada, como também, superada.
“Transgender Marxism”, uma antologia de novos ensaios sobre experiências transgênero e política de classe, editada por Jules Joanne Gleeson e Elle O’Rourke
- Este termo pertence a Sara Ahmed, que o usou de forma um pouco diferente, mas em um conceito semelhante.
- Em Crítica da violência, Walter Benjamin diferencia a violência mítica e divina: “A violência mítica é o poder sanguinário contra a própria vida, pelo seu próprio bem. A divina, é o puro poder sobre toda a vida pelo bem dos vivos. A primeira demanda sacrifício, e a outra, o aceita.” (Walter Benjamin, 1996. Textos Selecionados Vol. 1 1913-1926. Editado por Marcus Bullock e Michael W Jennings. Cambridge, Mass: Belknap Press, pp.236-52)
