Sobre a Tradução Política

Esse não é um artigo traduzido, mas sim um artigo escrito por um brasileiro que traduz. Esse artigo não tem pretensões de ser acadêmico,  tem pretensões sim de relatar uma experiência singular. Um humano singular que compartilha com diversos outros dúvidas, inspirações e anseios. Dúvidas sobre o diverso e complexo mundo que vivemos, inspirações de grandes figuras históricas e figuras vivas, anseios de mudança, de ares novos.

Me chamo Andrey Santiago e quero falar neste texto sobre o que eu enxergo neste trabalho que estou desenvolvendo faz cerca de dois anos, sobre a importância que vejo nessa atividade, o sentido que ela tem. Quando vi o dado de que 95% da população brasileira não sabe falar inglês, fiquei bastante surpreso, apesar da pesquisa ser de 2012 [1], o número certamente continua alto.

Como eu via em vários lugares palavras em inglês, aprendia sobre essa língua estrangeira na escola e que existia um termo em português para tudo que vinha de fora e não se conseguia substituir por uma palavra daqui, “estrangeirismo”, imaginava que uma parte maior da população entenderia alguma outra língua, mas essa não é bem a realidade. Esse número de 95% engloba certamente grande parte da classe trabalhadora do país, os quais estão sempre submetidos a entenderem as ideias de quem domina como as ideias dominantes, a terem suas informações filtradas, a não conseguirem acessar a produção de conhecimento que poderia mudar a sua vida.

As informações de fora, para chegar aqui tem duas barreiras bastante importantes, a política e a linguística.

A primeira se refere a intenção de se trazer algo que a população brasileira precise saber para entender o que acontece para além de seu país. Quem tem isso bastante articulado são as empresas de jornalismo, que quase sempre trazem matérias de outros jornais mundiais, mas sempre com uma perspectiva próxima a deles, a Globo e a família Marinho que a controla, por exemplo, não irá trazer uma matéria do Liberation News (jornal do Partido pelo Socialismo e a Libertação dos EUA) para seu site.

A outra barreira se refere a própria língua da população, como visto, grande parte da população brasileira não fala inglês, fala muito menos francês, alemão e até mesmo espanhol, o qual é utilizado por grande parte de nossos vizinhos latino-americanos, isso inviabiliza concretamente qualquer possibilidade de entendimento da pessoa sobre o que ela está vendo na sua frente. O ser humano pode ter em suas mãos a edição mais rara e completa de um livro político que pode ajudar muito a resolver seus problemas e desafios, mas se essa pessoa não entende o que está escrito, o livro não tem uso algum.

É nesse momento que entra em papel o trabalho de um tradutor militante, que consegue entender quais textos são importantes para que se avance a consciência da classe trabalhadora sobre a sua situação e de seus irmãos de outros países. A tradução permite que novas visões sejam alcançadas, que figuras antes desconhecidas tenham seu descobrimento possibilitado, que figuras já conhecidas cheguem a um país e a uma cultura distinta da sua de origem, as quais também podem ter suas semelhanças. A tradução permite que o conhecimento se socialize e a solidariedade internacionalista aconteça.

Um caso a se destacar é o das traduções de Angela Davis, a militante comunista negra, que foi protagonista de uma campanha mundial pela sua liberdade nos anos 70, que demonstrou a importância do debate sobre a questão da raça e de gênero, juntamente a classe e que teve seu primeiro livro traduzido para o português apenas em 2016, pela Editora Boitempo, cerca de 30 anos após o seu surgimento inicial. Porém isso não aconteceu do nada, por um interesse repentino na autora, a tradução política já acontecia desde a década de 70 com os escritos de Angela Davis, o PCB trouxe já em 1972 o seu artigo “Por que sou comunista” e recentemente Blogs como Alma Preta [2] (que traduziu o texto “Angela Davis apresenta o livro da camarada Erika Huggin“) e Crônicas de Bela Vista (que traduziu o discurso de Angela Davis proferido na Marcha das Mulheres de 2017). Essas iniciativas ajudaram fortemente no crescimento da popularidade desta grande revolucionária e de suas ideias e ideais.

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O artigo de Angela Davis em um jornal do PCB.

O que se consegue perceber aqui é que foram textos escolhidos politicamente que deram visiblidade a autores antes desconhecidos e que conseguiram contribuir para um debate muito importante em nosso país, no exemplo anterior, o da raça e gênero, mas que também é possível ser feito para tantos outros, como filosofia, economia, cinema, história e mais. As traduções podem fazer com que países totalmente deixados de lado consigam ser reconhecidos, como é o exemplo do Laos, o qual traduzi um artigo sobre sua história e que conseguiu alcançar muita pessoas até do próprio país.

As traduções de acontecimentos e relatos de outros tempos e locais vem com o propósito de dar base a um pensamento mais acertado sobre a realidade e a sociedade em que vivemos. Não é necessário inventar a roda, da mesma forma, não se pode ficar limitado ao que acontece lá fora, não se pode transpor uma teoria feita para um determinado tempo histórico de modo mecânico para a nossa atualidade. O que se pode é conseguir entender os principais apontamentos do que foi lido, o que aconteceu, como aconteceu, porquê aconteceu.

O foco dessa pequena e grande ação da tradução política – que realmente não é fácil, já que existe e deve sempre existir um cuidado com o que está sendo colocado em outra língua – em que há um processo, pelo menos no meu caso, de leitura atenta, de selecionar o que é interessante e o que pode causar um debate, mesmo que eu não concorde com o texto, posso traduzi-lo, sendo que este é um próximo projeto, o de traduzir textos investigativos de grandes jornais que nunca foram publicados no Brasil (a titulo de exemplo, existe um ótimo trabalho da Reuters Investigation sobre a superação militar da China em relação aos EUA, isso virá para o Brasil pelo meu blog) é a socialização do conhecimento. Essas duas palavras são chave e vão na direção final do que escrevo.

Meus pais nunca tiveram acesso a outra língua, grande parte da minha família também não, aposto que da sua também, com a criação da internet inúmeras possibilidades foram abertas, muitas pessoas achavam que ela iria estar fazendo o mundo ser mais progressista, mais justo, que tudo iria ficar melhor, mas como visto, não foi bem isso que aconteceu. Estamos passando por uma fase turbulenta da história do Brasil, desde as medidas de cortes na Educação, Saúde, Assistência Social e mais, até a restrição das liberdades democráticas e do avanço do genocídio da população negra, o que se desenha é um futuro instável de muitos debates difíceis a se fazer. A internet pode fazer a gente se conectar com lugares inimagináveis, saber que existem mais pessoas que pensam também sobre esse futuro incerto, que estão procurando respostas ou pelo menos algum meio de conseguir entender o que está acontecendo para fazerem algo sobre, isso dá um conforto e uma esperança de que você não está sozinho.

“A história acontece como tragédia e se repete como farsa” – Karl Marx

A frase clássica do livro 18 de Brumário de Luís Bonaparte, pode proporcionar uma boa reflexão sobre a necessidade de estarmos entendendo as tendências históricas para não deixa-las acontecerem novamente, blogs e as mídias alternativas tem um papel importante nesse novo momento de popularização e socialização do conhecimento, as pessoas que conseguem ter essa habilidade de traduzir serão muito valiosas e os seus textos mais ainda. É somente com uma forte teoria revolucionária que teremos uma forte prática revolucionária, que irá construir um novo amanhã, irá construir um outro novo dia.

É disso que vem o nome desse blog, TraduAgindo, a junção da palavra “tradução” com a conjugação do verbo “agir”, é esse o propósito desse blog, é esse o sentido que vejo no que faço aqui, é hora de lermos sim, mas também de nos movimentarmos. É hora de ousar lutar em meio a esse sistema que nos explora, é hora de ousar vencer!


Referências:

[1] https://oglobo.globo.com/economia/emprego/brasileiros-nao-sabem-falar-ingles-apenas-5-dominam-idioma-6239142

[2] https://www.almapreta.com/editorias/realidade/traducao-inedita-angela-davis-erika-huggins

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