Uma abordagem Marxista sobre a Tecnologia

Nas últimas décadas, os desenvolvimentos tecnológicos -particularmente relativos a automação- transformaram a economia de tal forma que muitos estão comparando nossa era a da Revolução Industrial. Alguns economistas capitalistas subestimam a resultante perda de empregos, enquanto outros prevêem que a crescente perda de empregos é temporária e se resolverá pelo mercado com o tempo de maneira similar às outras revoluções tecnológicas. Em ambos os casos, eles parecem esquecer o desemprego permanente produzido pela Revolução Industrial, subestimam o potencial impacto da tecnologia moderna de automação, e desconsideram a natureza irracional e anárquica do desenvolvimento capitalista. Em muitas maneiras, a atual “revolução da automação” é similar à introdução das máquinas na Revolução Industrial, que mudou radicalmente a sociedade capitalista amplificando a desigualdade, criando uma classe permanente de desempregados que os marxistas chamam de “exército industrial de reserva”, e intensificou o colonialismo. A automação na época atual vai, de maneira similar, transformar o cenário do trabalho, já que a robótica, a inteligência artificial e o machine learning tornarão possível a automação de diversas áreas complexas de trabalho.

            O que nós queremos fazer é fornecer aos camaradas algumas informações da análise de Marx sobre as mudanças tecnológicas no capitalismo, e usar isso para contextualizar as transformações atuais.

O ENTENDIMENTO DE MARX DA PRODUÇÃO TECNOLÓGICA E A LUTA DE CLASSES

            Em O Capital, a análise mais desenvolvida de Marx sobre o capitalismo, ele dedica um capítulo inteiro -o mais longo- às máquinas e seu impacto sob a classe trabalhadora. É de grande ajuda para os camaradas que tenham um entendimento de sua análise, já que ela tem muitas lições para a nossa compreensão das transformações que atualmente ocorrem na produção.

            O valor da mercadoria é determinado pelo valor da matéria prima e dos materiais auxiliares, meios de produção e força de trabalho consumida em sua produção. Só uma dessas coisas, a força de trabalho, realmente produz valor durante o processo de produção. Os outros elementos meramente transferem o seu valor existente para a mercadoria.

            Individualmente, os capitalistas querem produzir o máximo de mercadorias que puderem, e da maneira mais rápida possível. Isso lhes permite minar seus concorrentes e ganhar uma parcela maior da demanda. Investimentos nos meios de produção são a via primária em que os capitalistas fazem isso (além do corte de salários, busca de matéria-prima mais barata e assim por diante). Na era industrial, as máquinas substituíram as mentes e mãos humanas, diminuindo assim a quantidade de tempo de trabalho que cada mercadoria levava para ser produzida.

            As máquinas não só retiraram os trabalhadores dos seus trabalhos; também aumentou o conjunto de trabalhadores disponíveis a partir da facilitação da exploração infantil:”Na medida em que a maquinaria dispensa força braçal, ela se torna um meio de explorar trabalhadores de pouca força muscular, e também aqueles cujo desenvolvimento do corpo ainda é incompleto, mas cujos membros são mais flexíveis (p. 372).” Além de baratear os salários como consequência do aumento na oferta da força de trabalho, a maquinaria também reduziu os salários devido a eles não mais precisarem prover toda a família do trabalhador.

            No capitalismo, cada desenvolvimento tecnológico está fadado a ser ultrapassado. Isso significa que quando os capitalistas desenvolvem novas tecnologias, eles tem um incentivo a utilizá-las da maneira mais rápida possível. Assim, ao invés de reduzir a jornada de trabalho, o maquinário a prolongou. As máquinas também aumentaram o ritmo do trabalho a partir dos “speed-ups”.

            Outra maneira em que a maquinaria impactou os trabalhadores foi desqualificação. O conhecimento dos trabalhadores não é mais necessário para produção. Agora esse conhecimento está contido na máquina. Isso também aumentou a oferta da força de trabalho disponível para os capitalistas.

            Marx identificou ainda a maquinaria como “a arma mais poderosa para reprimir greves” (p. 410). De fato, ele sugeriu que “Seria possível escrever uma bela  história das invenções, feitas desde 1830, cujo único objetivo é suprir o capital com armas contra as revoltas da classe trabalhadora” (p. 411).

            Quando um capitalista introduz um novo maquinário no local de trabalho, ele tende a deslocar a força de trabalho nesse ambiente de modos que são facilmente observáveis. Existem duas tendências compensatórias, contudo, não tão facilmente observáveis. Primeiro, se o maquinário aumenta a taxa de lucro o suficiente, outros capitalistas entrarão nessa indústria e, portanto, a necessidade de trabalho como um todo nessa indústria poderá aumentar. Segundo, ele pode aumentar a empregabilidade em outras indústrias que a alimentam. A invenção da maquinaria, por exemplo, aumentou a demanda por trabalhadores de metal e carvão. Esse foi o caso, pelo menos, até novas tecnologias serem inseridas nas minas de carvão e metal, retirando os trabalhadores de seu trabalho. Mas o ponto aqui é que as maiores mudanças tecnológicas nos meios de produção levam a um rápido aumento geral no tamanho da classe trabalhadora; estes sendo acoplados à tecnologia que empurrou trabalhadores agrícolas e camponeses para fora das terras e para as fábricas urbanas, a partir da substituição da mão de obra.

Em O Capital, Marx foca na Inglaterra porque lá era, naquele momento, onde o modo de produção capitalista estava mais desenvolvido. No entanto, como internacionalista, Marx considerou como o capitalismo na Inglaterra impactou o cenário internacional. Por exemplo, Marx escreveu que “os rápidos avanços da fiação do algodão, não apenas impulsionaram, com a exuberância tropical, o crescimento de algodão nos Estados Unidos, e com isso o comércio de escravos no continente africano, mas também tornaram a criação de escravos o principal negócio na fronteira dos estados escravagistas” (p. 418).

Como as máquinas e o sistema fabril aumentaram a capacidade produtiva do capitalismo, também se intensificou o impacto do ciclo de expansão e contração econômico. Quando as máquinas causam a rápida expansão em uma indústria, isso se repete em todos outros ramos de produção que alimentam essa indústria com matéria prima e meios de produção. E, como notado acima, isso pode resultar em uma demanda aumentada por trabalho nessa indústria. Assim como a expansão é maior e mais ampla, também é a contração.

            A maquinaria de automação possibilita maiores lucros para o indivíduo capitalista, e isso é apenas temporário. Em algum momento, outros capitalistas adquirem a mesma tecnologia, então essa vantagem ganha inicialmente é perdida. É assim que Marx, majoritariamente, explica a tendência da queda da taxa de lucro. Devido ao fato de que a força de trabalho é a origem da mais-valia, que por sua vez é a base do lucro, e porque o maquinário reduz a quantidade da força de trabalho necessária, no final menos valor excedente é produzido no fim. Essa uma contradição entre os interesses de cada capitalista contra os da classe capitalista como um todo.

            Embora os efeitos do maquinário e do sistema fabril fossem prejudiciais para as classes operárias e oprimidas, eles dialeticamente continham o potencial para o oposto:

            “Ao amadurecer as condições materiais, e a combinação em uma escala social do processo de produção, são amadurecidas as contradições e os antagonismos do modo de produção capitalista e, assim, fornecidas, juntamente com os elementos para a formação da nova sociedade, as forças para explodir a antiga” (p. 472)

            Além de avançar as condições materiais para o socialismo, elas também ajudaram a criar as condições subjetivas do movimento. A labuta e a brutalidade que a era das máquinas produziu causaram protestos organizados não apenas entre a classe trabalhadora e os camponeses (que estavam em processo de proletarização), mas também entre a pequeno-burguesia e certos setores da burguesia. Na verdade, essas péssimas condições de vida forçaram a Inglaterra a aprovar seu primeiro ato compulsório de educação. A análise marxista do maquinário é cheia de depoimentos dos inspetores do Estado, os quais foram obrigados pelos políticos burgueses a estudar as condições fabris.

            COMO A ATUAL REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA NO CAPITALISMO SE RELACIONA?

            A revolução tecnológica dos dias de hoje tem a mesma capacidade de transformação da Revolução Industrial, o que não significa que é exatamente a mesma, é claro.

            Capitalistas geralmente só investem em tecnologias de automação se elas são mais baratas do que a força de trabalho que eles terão de empregar. No entanto, os benefícios estatais para as corporações-desde as injeções de liquidez em 2008 até a reforma tributária de trump em 2017- mudaram, de alguma maneira, essa equação. Hoje, as corporações dos EUA estão sentadas em US$ 1,9 trilhão em dinheiro. Eles poderiam contratar mais trabalhadores e aumentar os salários, mas obviamente não estão fazendo isso. Ao invés disso, estão investindo em automação. Como observa um relatório, “o mercado de automação logística deve crescer de US$ 46,22 bilhões em 2018 para US$ 80,64 bilhões até 2023.”

            Diferentes indústrias serão afetadas de diferentes maneiras pela tecnologia e a automação, mas no geral é previsto que a demanda pela força de trabalho em indústrias de tecnologia continuará crescendo nos próximos tempos, enquanto essa demanda por força de trabalho diminuirá nos setores de manufatura, serviços e varejo. A força de trabalho empregada em indústrias de tecnologia facilitará a automação do trabalho em outros setores.

            Montadoras como a General Motors estão fazendo investimento pesado em tecnologias de automação, chegando às manchetes no fim de 2018 quando anunciou a demissão de 14.800 trabalhadores. Em maio, a Amazon disse que já poderia ter armazéns completamente automatizados em menos de 10 anos. No último período de férias, apesar de ter crescido como empresa, a Amazon, pela primeira vez, contratou menos trabalhadores sazonais. A FedEx e a UPS estão ainda brigando para competir com a centralização extrema da Amazon, apesar de estarem vivenciando um crescimento paralelo ao crescimento das compras pela internet.

            Em particular, o trabalho de carregar e descarregar reboques é um desafio para as transportadoras terceirizadas, mas ainda a automação continua valendo o investimento. A Amazon também mantém uma vantagem tecnológica sobre seus concorrentes nos mercados de varejo e transporte, porque não é uma empresa de varejo ou transporte; é uma companhia de tecnologia. A Amazon desenvolve tecnologia e então vende para seus concorrentes. Dessa maneira, a Amazon é líder na corrida pela automação.

            Novamente, o leque de trabalhos suscetíveis a essas tecnologias automação do trabalho é amplo. Tablets e software de aprendizado adaptável estão substituindo professores. A inteligência artificial está substituindo os radiologistas. O Fórum Econômico Mundial previu que 30% dos trabalhos estarão sob risco de automação em 2030 (o que não significa uma substituição definitiva).

            Juntamente com a perda de emprego, ocorre um aumento no ritmo de trabalho para aqueles que ainda têm “sorte” o suficiente para serem empregados. O trabalho humano será cada vez mais utilizado para trabalhos “híbridos” ou “superjobs”: trabalhos que combinam vários papéis anteriormente desempenhados por vários trabalhadores.

            Embora a taxa em que essa transformação ocorra esteja sujeita a variáveis complexas, a direção em que segue é óbvia e apresenta uma séria contradição sob o capitalismo. O Fórum Econômico Mundial suaviza sua terrível previsão de 30%, alegando que a quantidade de dinheiro poupada pelas empresas permitirá baixar os preços, aumentando o poder de compra do consumidor e reciclando esse dinheiro de volta à economia. No entanto, as empresas capitalistas precisarão aumentar seus resultados trimestrais antes de repassar qualquer economia ao consumidor e continuarão a criar crises de superprodução.

            Muitas empresas também atenuam os temores sobre a perda de emprego por não demitir trabalhadores quando automatizam suas funções. Um de nós foi informado recentemente que nossa principal tarefa na FedEx será eliminada com um novo software, mas que estaremos cumprindo outras tarefas ao invés dessa. No entanto, existem apenas muitos possíveis trabalhos na empresa. Além disso, esses enormes monopólios que lideram o custo da automação estão afastando seus concorrentes, eliminando esses empregos e aumentando a concentração de capital em cada vez menos mãos.

            As tecnologias digitais estão também intensificando a exploração no Sul Global, já que aumentam a necessidade por matéria-prima como coltan e outros minerais raros.

            Ao mesmo tempo, estão aumentando as crises ambientais. Cerca de um quinto da energia disponível da Terra será destinada a manter os data centers em operação até 2025.

O SOCIALISMO É A ÚNICA RESPOSTA

            Na ausência da luta da classe trabalhadora, não devemos esperar que o governo dos EUA, projetado para preservar o domínio dos capitalistas por todos os meios necessários, mitigue quaisquer dessas consequências negativas decorrentes da automação. A classe trabalhadora nos EUA não se recuperou das consequências da desindustrialização que se iniciou no início dos anos 70. No fim de tudo, a desindustrialização foi também o resultado de transformações massivas em coisas como softwares que podem gerenciar cadeias de suprimentos complexas distribuídas em todo o globo, além de outras coisas.

            Enquanto a tecnologia e a automação enriquecem e também fornecem uma variedade de novas armas para a classe dominante, a transformação econômica e, portanto, social resultante abala as bases de seu governo. Em High Tech Low Pay (1986), Sam Marcy escreve:

            “A revolução científico-tecnológica está, sem remorso ou piedade, reduzindo e demolindo o estrato social mais alto da classe trabalhadora e o reduzindo ao nível menos bem pagos…

            Isso inevitavelmente desviará o equilíbrio político das camadas mais privilegiadas da classe trabalhadora em favor dos trabalhadores até então desprivilegiados, não representados e mais oprimidos e dispersos. As relações políticas internas entres diferentes estratos da classe trabalhadora ficarão mais harmonizados no nível políticas da classe trabalhadora. Essa nova tendência na classe trabalhadora vai contrária a tendência histórica do desenvolvimento capitalista no passado.”

            A medida que a crise do neoliberalismo se aprofunda, as divisões de classes estão se tornando mais severas. Isso lança as bases para o aumento da unidade da classe trabalhadora. Isso é em parte o que explica o aumento recente de ataques de intolerância contra pessoas oprimidas nos EUA. A automação intensificará o esforço do capitalista de aumentar as divisões nacionais e lançar campanhas preconceituosas destinadas a impedir a unidade. Nossa luta contra o desemprego, portanto, não é apenas econômica, mas social também.

            A classe dominante continuará a desferir a culpa em outras nações, nacionalidades oprimidas e trabalhadores que eles alegam ter “falta de responsabilidade pessoal” ou “falta de educação”. Nós temos de ser claros em definir quem são nossos reais inimigos. Precisamos paciente e persuasivamente explicar as falhas do capitalismo para com a classe trabalhadora, enquanto promovemos o otimismo revolucionário. Afinal, os EUA são o lugar perfeito para implementar uma economia socialista. Todas as fábricas da Amazon e Walmarts poderiam permanecer intactas de alguma forma, pois sua estrutura centralizada, dados, redes de distribuição e assim por diante, poderiam ser usados para suprir as necessidades humanas. A automação poderia libertar os trabalhadores do trabalho tedioso ao invés de colocá-los nas ruas. Os fundos utilizados pela máquina de guerra imperialista que é dirigida pela necessidade de assegurar energia, matéria-prima e mão de obra barata poderiam ser redistribuídos em escala global.

            Ao mesmo tempo, sem um motivo lucrativo, podemos orientar a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias além dos limites da produção. Ao invés de, “como podemos aumentar a produção de commodities”, nossa questão inicial pode ser, “como podemos melhorar o bem-estar e os meios de sobrevivência da Terra e de seus habitantes?”

            Não existe “escassez de empregos”. Há apenas uma escassez de empregos que pode ser explorada com fins lucrativos. Há muito trabalho a ser feito e, com o socialismo, poderíamos utilizar plenamente o vasto potencial da classe trabalhadora. Testemunhamos a capacidade do socialismo de prosperar em circunstâncias muito mais difíceis. Cuba e a República Popular Democrática da Coreia garantem moradia, saúde e educação para todos os cidadãos, mesmo sendo países pequenos e historicamente pouco desenvolvidos, barrados por sanções severas. Nós podemos apenas imaginar os avanços que o socialismo poderia trazer para, os EUA e para o mundo, em uma sociedade de capitalismo avançado.

            Nós devemos usar o crescimento da contradição entre automação e trabalho no capitalismo para expor as falhas do sistema em prover a humanidade. Devemos deixar claro que o socialismo é a única maneira de resolver essa contradição. O capitalismo é um sistema irremediavelmente ultrapassado, que só se preservou através da violência. O crescimento da automação vai acelerar a crescente desigualdade que vemos atualmente, onde os 3 mais ricos dos EUA – Bill Gates, Jeff Bezos e Warren Buffett – tem a mesma riqueza da metade mais pobre da população do país.

REFERÊNCIAS:

Marx, K. (1867/1967). Capital (vol 1). New York: International Publishers.

Marcy, S. (1986/2009). High tech, low pay. New York: World View Forum.


Texto originalmente escrito por Estevan Hernandez, John Prysner, and Derek Ford.

Disponível no site Liberation School, acessível por este link.

Tradução por Matheus Sousa.

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