Por que continuamos a defender a União Soviética?

Por Gloria La Riva

A seguinte fala foi realizada durante a Principal Plenária da Conferência Nacional sobre o Socialismo, em 13-14 de novembro de 2010, construída pelo Partido pelo Socialismo e a Libertação.

No próximo mês, fará 19 anos que a União Soviética deixou de existir. Algumas pessoas do campo progressista argumentam que devido ao fato de que quase duas décadas já se passaram, a questão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas é agora irrelevante. Nós pensamos o contrário.

Primeiramente, a classe capitalista e seus bem pagos intelectuais e divulgadores continuam a argumentar que a queda da União Soviética significa que o socialismo e o comunismo são impossíveis, que eles podem ter sido um bom sonho em algum período, mas, como eles dizem, o socialismo se tornou um pesadelo quando passou a existir.

Uma imagem negativa e cheia de estereótipos sobre a União Soviética foi alimentada sem tréguas ao povo desde a Revolução Russa, que neste mês completa 93 anos desde seu acontecimento. Essa imagem manipulada refletia o medo e o ódio do mundo burguês em face ao primeiro estado dos trabalhadores.

Infelizmente, uma parte significante da “esquerda” incluindo algumas ditas organizações socialistas, aceitaram esses estereótipos anticomunistas e pressões externas. Para a sua constante desgraça, elas comemoram a dissolução da União Soviética e dos outros estados de trabalhadores na Europa Oriental, proclamando essas contrarrevoluções grandes vitórias para a “democracia dos trabalhadores”.  

Poucos trabalhadores desses países, que viram sua qualidade de vida e até mesmo sua expectativa de vida caírem nos anos seguintes, compartilhavam desse sentimento. Na realidade, até hoje as pesquisas de opinião mostram que a maioria da população da antiga União Soviética, da Alemanha Oriental, Romênia e outros países tem saudades do sistema que eles perderam.

O triunfo da Revolução Russa quase um século atrás foi realmente um evento mundial histórico. Foi a primeira vez na história que a classe trabalhadora conseguiu conquistar e assegurar o poder, e reorganizar a economia e a sociedade sob uma base socialista. Ela provou que os oprimidos, com a sua própria liderança, com o seu próprio partido, poderiam criar uma nova realidade.

Os desafios encarados pela revolução

O novo governo soviético, liderado pelo partido Bolchevique, foi imediatamente confrontado com diversas tarefas imensas – cada uma das quais seriam assustadoras. Em primeiro lugar, eles tinham que defender seu novo estado não apenas contra os exércitos contrarrevolucionários internos – o exército Branco dos antigos latifundiários e capitalistas – mas também contra todo o mundo imperialista. Quatorze exércitos imperialistas invadiram o recém-nascido estado dos trabalhadores, incluindo os Estados Unidos. Eles prometeram nas palavras do infame imperialista e racista Winston Churchill, “estrangular o bebe bolchevique em seu berço”.

Segundo, o novo governo teve que reorganizar a economia e garantir respostas as necessidades de uma pobre – e muitas vezes faminta – população. Eles tiveram que fazer isso sob condições de total bloqueio econômico imposto pelo mundo capitalista.

E terceiro, eles tiveram que organizar o movimento dos trabalhadores internacionalmente e construir uma Internacional Comunista. Esta não era uma tarefa opcional: nenhum dos bolcheviques – Lênin, Trotksy, Stálin e demais acreditavam que eles poderiam ter sucesso se não tivessem outras revoluções em países mais industrializados e desenvolvidos, particularmente a Alemanha. E o principal obstáculo para o sucesso revolucionário era a falta de um partido do tipo Bolchevique.

O fato de que os revolucionários russos foram capazes de assegurar o poder em face a esses grandes obstáculos parece até inacreditável. É um testemunho acima de tudo do imenso potencial humano da classe trabalhadora, o qual é suprimido sob o capitalismo e só é permitido a florescer totalmente pela revolução socialista.

Os anos de guerra e de privação tiveram um enorme peso sob o partido e a classe trabalhadora como um todo, um peso que enfraqueceu o partido e levou a problemas posteriores.

Mas contrária a apresentação burguesa de um sistema econômico falido, o sistema econômico planificado soviético – a primeira vez na história em que houve uma economia planificada – mostrou o notável potencial do socialismo.

Ganhos que mostraram o potencial do socialismo

Era o estado menos desenvolvido dos grandes países Europeus durante o período da revolução, 40 anos depois a União Soviética se mostrou enquanto a segunda maior economia mundial, atrás apenas dos EUA. Foi o desenvolvimento econômico mais rápido de todos os tempos, de qualquer país. Isto, embora o fato de que logo após o rápido desenvolvimento inicial da década de 30, dois terços da indústria e grande parte da agricultura foram destruídas pelas invasões nazistas em 1941. E ao contrário do que vemos no History Channel, foi a União Soviética que derrotou a maquina de guerra nazistas e destruiu ela – mas com um custo de 27 milhões de pessoas mortas. O peso das mortes dos EUA durante a Segunda Guerra foi cerca de 400 mil – um grande número por si só, mas apenas cerca de 1,5% das perdas da União Soviética.

Antes da Revolução, parte da população passava a vida toda sem ver um médico. Em 1966, um importante jornal médico dos EUA escreveu que “a expectativa de vida dobrou nos últimos 50 anos. … No momento, a União Soviética gradua anualmente o número de médicos que existiam em todo o período do Império Russo antes da Primeira Guerra Mundial. De todos os médicos do mundo hoje em dia, mais de um em cinco são soviéticos… enquanto apenas 1 em 14 pessoas mundialmente são cidadãs soviéticas. (Mark G. Fields, Revista Americana de Saúde Pública, Novembro 1966)

Não apenas isso, mas nenhum desses médicos – em que três terços eram mulheres – pagaram um kopek pela sua educação, nem nenhum outro estudante em qualquer outra área. É claro, que eles não poderiam almejar se tornar milionários. Era um sistema fundamentalmente diferente do que vivemos hoje, mais próximo do que temos em Cuba.

Toda pessoa tinha garantia de direito ao trabalho, a moradia, a saúde e a educação, e também o direito a férias, pensões e a cultura. Existiam muitas, muitas nacionalidades, cada uma com seu direito a literatura, jornais e educação em sua língua. Antigas línguas que não tinham sido escritas antes foram alfabetizadas. Logo após a destruição da Segunda Guerra Mundial, um vasto projeto industrial, de infraestrutura e habitacional aconteceu. A ausência da competição capitalista entre as empresas permitiu um rápido desenvolvimento científico e de engenharia.

Além desse notável desenvolvimento interno, o auxilio soviético foi vital para os movimentos de libertação nacional e para os recém independentes estados ao redor do mundo. As vitórias das revoluções chinesa, coreana e vietnamita e outras poderiam ter sido mais distantes ou prevenidas sem o auxílio da União Soviética. Sem o suporte soviético, Cuba teria com toda certeza sido invadida pelos EUA, e o auxilio soviético foi vital para os palestinos e diversos movimentos revolucionários africanos.

Os problemas encarados pelo estado Soviético

Eu estou contando sobre as conquistas da União Soviética por que elas quase nunca são mencionadas hoje em dia. Essas conquistas são ainda mais notáveis dado os sérios problemas que o estado soviético enfrentava. Esses problemas incluíam:

A prevenção da revolução nos países capitalistas avançados, o que poderia ter fornecido imensa assistência à URSS. Em vez disso, todas as revoluções subsequentes ocorreram em países menos desenvolvidos do que a União Soviética e precisaram e receberam ajuda da URSS.

O cerco militar imperialista à URSS. Segundo a política dos EUA, a palavra “contenção” na prática significava derrubada, mudança de regime. Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA nunca desmobilizaram suas forças armadas e, em vez disso, construíram um enorme acúmulo de armas nucleares e convencionais. As bases americanas foram estabelecidas em todo o mundo para cercar o campo socialista da União Soviética, Europa Oriental e China. Para a classe dominante capitalista dos EUA, os gastos militares – que agora chegam a mais de US $ 40 trilhões desde a Segunda Guerra Mundial em dólares de 2010 – é o setor mais lucrativo da economia. Para a classe dominante na ex-União Soviética – a classe trabalhadora – os gastos militares significaram uma enorme drenagem de projetos econômicos para atender às necessidades das pessoas. O vasto aumento dos gastos militares sob Reagan na década de 1980 tinha como objetivo destruir a URSS. Depois de alguns anos de enormes gastos militares, alguém disse a Reagan: “Isso vai nos levar à falência”. Sua resposta foi: “Sim, mas os soviéticos irão à falência primeiro”.

O mundo capitalista e particularmente os EUA modificaram, mas nunca acabaram com suas sanções e bloqueio ou sabotagem do comércio, particularmente em bens de tecnologia avançada. Isso foi especialmente problemático no final dos anos 1970 e 80 com a revolução das comunicações e outras tecnologias, o que fez com que a União Soviética começasse a recuar em relação aos EUA, Alemanha e Japão, as principais economias capitalistas. No início da década de 1980, a taxa de crescimento diminuiu para 2%.

Problemas internos, particularmente o burocratismo, uma despolitização de longo prazo de grande parte da classe trabalhadora e separação entre o Partido Comunista da União Soviética e as massas de trabalhadores e agricultores coletivos.

Sob a combinação de pressões econômicas e militares, incluindo o Afeganistão, onde após a revolução de 1978, a União Soviética interveio em apoio ao governo progressista e a CIA realizou sua maior operação de apoio à contrarrevolução, uma divisão de longo prazo na liderança do PCUS explodiu em uma divisão em grande escala. A facção pró-capitalista e pró-imperialista liderada por Boris Yeltsin e Mikhail Gorbachev venceu.

No final da década de 1980, a União Soviética estava cortando ou eliminando o apoio aos movimentos de libertação nacional e aos estados socialistas aliados. Em 1989, a liderança de Gorbachev rompeu a aliança com os governos comunistas e militares na Europa Oriental, levando a contrarrevoluções capitalistas na Hungria, Tchecoslováquia, Polônia, Bulgária, Romênia e Alemanha Oriental, e a desintegração da Iugoslávia. E, em 1991, esse grupo traidor desmantelou a própria União Soviética, levando à restauração do capitalismo nas 15 repúblicas agora independentes. Concordamos com a avaliação do líder cubano Fidel Castro: representou o maior retrocesso da história da classe trabalhadora.

Mas isso não significou – como proclamaram alguns comentaristas capitalistas – nem “o fim da história” nem o fim da luta pelo socialismo. A necessidade cada vez mais urgente do socialismo não se baseia na existência de nenhum estado particular, mas, em vez disso, surge das contradições do próprio sistema capitalista, problemas que esse sistema não pode superar, problemas que só o socialismo pode resolver.

O que é mais notável do ponto de vista objetivo, não é que a União Soviética caiu em 1991, mas que sobreviveu aos desafios inimagináveis ​​que enfrentou. Devemos também lembrar que levou a burguesia, a classe capitalista, cinco séculos desde sua ascensão como classe até que o capitalismo se tornasse o sistema mundial dominante.

A União Soviética deve ser estudada por suas realizações incríveis, bem como por seus problemas e contradições. Foi uma primeira tentativa. Por sua existência por mais de sete décadas, provou de uma vez por todas que a classe trabalhadora pode tomar o poder e reorganizar a sociedade em bases socialistas.


Texto originalmente publicado no site Liberation School, disponível neste link.

Tradução por Andrey Santiago

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