Amílcar Cabral – Ter consciência em todo momento da situação da luta

Texto originalmente publicado no livro “Amílcar Cabral – Unity and Struggle”, lançado em 1979.

Traduzido do inglês por Pedro Magalhães.

Espere pelo melhor, mas se prepare para o pior.

Tanto em Guiné quanto em Cabo Verde, a nossa luta avançou consideravelmente (podemos dizer que foram passos longos) desde o Primeiro Congresso do Partido, que aconteceu em uma das áreas libertadas no sul de Guiné, em fevereiro de 1964.

Em Guiné, com a eliminação de vários erros cometidos a nível político, com o fortalecimento dos nossos recursos humanos e materiais e com a criação do nosso Exército do Povo e fortalecimento das nossas forças de guerrilhas, a luta armada tem se espraiados para novas áreas (Boé, Gabu e S. Domingos) e temos infligido novas derrotas no inimigo que começou sua defensiva. Implantamos lutas guerrilheiras no “Território de Manjaco” e tomamos o controle de novas áreas do país. Uma grande parte das decisões de nosso Congresso (sobre a reorganização do Partido, desenvolvimento da produção, suprimento da população, fundação de escolas, assistência a saúde, criação de uma Milícia Popular etc.) tem sido posta em prática e temos observado alguns sucessos bastante encorajadores.

Passos importantes têm sido dados nos últimos dois anos em Cabo Verde – onde as dificuldades especialmente geográficas (a saber, comunicações e coordenação) não permitiram um avanço mais célere na luta. A organização do Partido foi fortalecida, a mobilização da população alcançou um alto nível, especialmente nos principais centros urbanos e em alguns setores rurais. Por outro lado, novos esforços feitos pela liderança do Partido, competentemente apoiada por militantes conscientes que tinham começado a devotar toda sua atividade ao Partido e à luta, tem suscitado resultados os quais são, hoje, traduzidos em um completo amadurecimento da situação política nas principais ilhas[1]

Essa situação, portanto, demanda a transformação da luta em uma nova fase, na qual devemos nos apropriar de todos os meios disponíveis para eliminar a dominação colonial das ilhas. Nosso Partido e a massa do povo de Cabo Verde vem se preparando energeticamente em todos os domínios necessários para desencadear a luta armada no arquipélago.

Precisamos fazer isso, mas é preciso fazê-lo sob as mais favoráveis circunstâncias e tendo em mente as características particulares da luta armada pela libertação neste tão especial ambiente geográfico. Precisamos nos mover rapidamente, mas não correr, sem oportunismo, sem aquele entusiasmo que nos faz perder de vista a realidade em específico. É melhor começar a luta armada com um atraso aparente, mas com garantias da possibilidade de seguir lutando, do que iniciar em um momento prematuro, antes de termos estabelecido todas as condições para assegurar a sua continuidade e a vitória para o nosso povo.

Temos completa consciência de que ainda há muitas falhas e erros em nossa ação, tanto a nível político quanto a nível militar.  Uma parte importante do que deveríamos ter feito não foi realizado a tempo ou não foi feito de forma alguma.

Em diversas regiões e, em geral, em todas as regiões, o trabalho político no meio da população e das nossas forças armadas não foi feito apropriadamente. Os trabalhadores responsáveis ou não sabiam como ou não puderam estabelecer um trabalho permanente de mobilização, treinamento e organização política, decidido pela liderança do Partido. Em várias áreas do país e até mesmo entre os trabalhadores responsáveis, há uma tendência ruim à preguiça, à não observância das responsabilidades do Partido e da luta, e até à certas desmobilizações as quais ainda não foram combatidas e eliminadas. Alguns dos trabalhadores responsáveis, até de altas posições, tem se esquecido que nossa luta (até em sua forma armada, de guerra) é uma luta política e que esse trabalho – no meio do povo, entre militantes e combatente, e no coração do inimigo – é o aspecto fundamental (vital) de nossa ação diária.

No nível militar, muitos projetos e objetivos estabelecidos pela alta liderança do Partido não deram seus frutos. Com os meios à nossa disposição, poderíamos ter feito mais e melhor. Muitos trabalhadores responsáveis não conseguiram propriamente entender o papel do exército e das forças guerrilheiras, não coordenaram propriamente a ação dessas duas forças e, em alguns casos, deixaram-se obcecar por uma preocupação com a defesa de nossas posições, esquecendo que, para nós, o ataque é a melhor forma defesa – a ofensiva, o constante desenvolvimento de nossa luta armada. Chegou ao ponto de descontentamentos entre trabalhadores responsáveis dentro da mesma área, o que é repreensível e não pode reincidir. Além do mais, junto ao excessivo desperdício de munição e, às vezes, o uso incorreto de algumas armas, temos observado que alguns trabalhadores responsáveis não deram nenhuma evidência de iniciativa, espírito de decisão e coragem necessária, o que foi, também, uma falha de muitos combatentes. Em alguns dos casos, não conseguimos aproveitar os ataques feitos, enquanto, em outros, permitimos que o inimigo fizesse alguns movimentos e operações (destruição de bases, por exemplo), o que não deve mais ser permitido. Ademais, com o resultado da falha de trabalho político efetivo dentro das forças armadas, tem começado a ser aparente uma certa obsessão com “militarismo”, o que levou a alguns combatentes e até trabalhadores responsáveis a esquecer que nós somos militantes armados e não os militares. Essa tendência precisa ser combatida e urgentemente extinta da FARP (Forças Armadas Revolucionárias do Povo). Em outros aspectos da nossa luta e nossa vida (educação, saúde, negócios, etc.), erros foram cometidos que podem ser explicados pela nossa falta de experiência, mas, os quais, ainda assim, devem ser eliminados por todas as vias necessárias.

Precisamos constantemente ter mais consciência de nossos erros e enganos que cometemos para que possamos corrigir nosso trabalho e, constantemente, dar o nosso melhor a serviço do Partido. Os erros que comentemos não devem nos desanimar, assim como as vitórias alcançadas não devem nos fazer esquecer os nossos erros. 

Nossa situação hoje é comparável à situação de um Estado que ainda tem parte de seu território nacional, principalmente as cidades e vilas (os centros urbanos), ocupados por forças estrangeiras. Nossas responsabilidades para com o Partido, o nosso povo, África e o mundo são, portanto, superiores. Precisamos trabalhar melhor em todos os níveis, realizar nossos deveres, para elevar o nível de nossas responsabilidades.

No contexto africano, o prestígio de nosso Partido, nosso povo e nossa luta, cresce grandemente a cada dia. Todos os Estados africanos sabem e reconhecem que nosso Partido nacional é a organização da unidade e da luta do nosso povo em Guiné e Cabo Verde. A África tem nos apoiado de maneira útil por meio do Comitê de Libertação e, apesar de esse apoio ser insuficiente, é uma marca de solidariedade.

No mundo, tanto em países e círculos anticolonialistas e entre os aliados de nosso inimigo, apreciamos maior respeito e todos admiram o trabalho e as vitórias alcançadas pelo nosso povo sob a liderança do nosso Parido. Nossos amigos, quer seja em África ou no resto do mundo, vêm desenvolvendo seu apoio e, portanto, encorajando a nossa luta.

Temos, portanto, bons motivos para estar satisfeitos e com esperanças. Nunca foi tão certo que nossa vitória depende principalmente de nossa ação. O inimigo também sabe disso e está constantemente mais desmoralizado, fazendo esforços desesperados para se manter. Porém, eles sabem que seus dias estão contados e, por este motivo, tentarão crimes maiores contra o nosso povo e contra nossos bens e fortuna.

Portanto, à luz de prospecções favoráveis para a nossa luta, precisamos estudar cada problema por completo e encontrar a melhor solução para ele. Pensar para agir e agir para poder pensar melhor. Precisamos, como sempre, enfrentar o presente e o futuro com otimismo, mas sem perder de vista as realidades e, particularmente, as dificuldades especiais de nossa luta. Precisamos sempre ter em mente e cumprir as palavras de ordem de nosso Partido: esperar pelo melhor, mas estar preparado para o pior.


[1] N.T.: Na zona equatorial do continente africano, próximo da costa do Senegal (oeste de África), se localiza o Arquipélago de Cabo Verde, formado por três principais ilhas: Cabo Verde, Mindelo e Espargos.

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