De aliados a camaradas

Texto de Jodi Dean.

Originalmente publicado no site to Partido pelo Socialismo e a Libertação.

Foto da capa por Nathanial Schmidt.

Tradução por Andrey Santaigo.


Apesar da associação a nações soberanas em aliança da durante períodos de guerra, o termo “aliado” se tornou influenciável nos círculos ativistas da esquerda estadunidense. Atenção aos debates sobre o que significa ser um aliado revelam os limites da política de aliados. Eles também promovem uma oportunidade para refletir sobre a diferença entre aliados e camaradas. Aliados são ancorados na política liberal. Pessoas compromissadas com a política revolucionária precisam ser camaradas.

Os limites dos aliados

Na última década, houveram intensas discussões nas mídias sociais e entre a comunidade de organizadores sobre quem pode ser um aliado. Geralmente, entende-se aliados enquanto pessoas privilegiadas que querem fazer algo acerca da opressão. Elas podem não se considerar sobreviventes ou vítimas, mas elas querem ajudar. Então aliados podem ser pessoas hétero que lutam pelas pessoas LGBTQ, pessoas brancas que apoiam pessoas negras e marrons, homens que defendem mulheres, e assim por diante. Ainda assim não visualizei o termo sendo utilizado para pessoas ricas envolvidas nas lutas da classe trabalhadora. Aliados não querem se imaginar enquanto homofóbicos, racistas ou machistas. Eles veem a si mesmos enquanto boas pessoas, parte da solução.

Como é frequentemente enfatizado nos debates sobre aliados, se auto proclamar um aliado não torna uma pessoa um aliado. Para ser aliado se leva tempo e esforço. Pessoas tem que lutar por isso. Muito dos trabalhos escritos e em vídeos sobre aliados é então instrutiva, muitas vezes parecendo um guia de como fazer ou uma lista de tópicos – como ser um aliado, o que fazer e não fazer nessa aliança e assim por diante. As instruções para ser um bom aliado são pequenos manuais de estilos de vida, técnicas para navegar (mas não para demolir) os espaços de privilegio e opressão. Indivíduos podem aprender o que não dizer e o que não fazer. Eles podem se sentir engajados mesmo sem nenhuma e qualquer luta organizada. A “política” contida nesses como fazer dos aliados consiste em interações interpessoais, sentimentos individuais e mediações dos afetos.

As produções sobre como ser um bom aliado que circulam online (como em postos de blogs, vídeos, editoriais e cursos) veem o observador ou leitor enquanto um indivíduo com uma identidade privilegiada que quer operar em solidariedade com os marginalizados e oprimidos. Esse potencial aliado é posicionado enquanto alguém que quer saber sobre o que eles podem fazer agora, por conta própria, e nas suas vidas cotidianas para combater o racismo, machismo, homofobia, e outras formas de opressão. Esse campo de atuação dos aliados é muitas vezes imaginado no ambiente das mídias sociais (em saber o modo correto de responder a comentários racistas ou homofóbicos no Twitter, por exemplo); como uma contribuição de caridade (em doar e auxiliar campanhas de financiamento); como uma interação profissional (em contratar marginalizados e promover os oprimidos); como conversas em suas escolas ou universidades (em saber o que não falar); e, algumas vezes, em protestos de rua (em não dominar o evento de outra pessoa). Muitas vezes, a atitude individual do aliado e seu comportamento é que se tem como objetivo. Esses guias de como fazer instruem os aliados a como se sentirem, pensarem e agirem se eles querem se considerar enquanto pessoas que estão do lado dos oprimidos. Sua consciência é o que precisa mudar.

Pegue, por exemplo, essa publicação do Buzzfeed intitulada “Como Se Tornar um Melhor Aliado: Uma Carta Aberta a Gente Branca.” O texto é uma carta enviada pelo produtor da série de vídeos do Buzzfeed “Another Round”, em resposta a uma questão de uma pessoa branca acerca de ser uma aliada. “Você já teve alguma conversa com algum homem feminista que parou de fluir porque ele começou a reclamar sobre como feminista usam sua linguagem para excluir os homens, mesmos os homens feministas? (Nem todo homem…) Eu já! Ser um bom aliado muitas vezes inclui não fazer parte da conversa, porque essa conversa não é sobre você. É bom ouvir. Se você se sentir desconfortável ou excluído porque você é branco, você deve aceitar esses sentimentos.” Novamente, ser aliado é uma disposição, um confrontamento não com o Estado ou o poder capitalista, mas com o próprio desconforto. Ser um aliado é ser um bom ouvinte, se colocar ao lado e se tornar consciência da vida e experiência dos outros.

O ensaio de Karolina Szczur, “Os Fundamentos de Efetivos Aliados”, originalmente proclamado enquanto uma palestra no Tech Inclusion Melbourne, consideram os aliados em termos da intensidade em que os sentimentos dos aliados e se o aliado está se dispõe e pode realizar o seu próprio trabalho: “É nossa responsabilidade reconhecer, identificar e agir sobre os privilégios que temos. Um dos meios para fazer isso é se comprometer a um ato contínuo de introspecção, reflexão e aprendizado. Você vai se encontrar desafiado, desconfortável, até mesmo defensivo, mas quanto mais intensos são esses sentimentos, mais certo você estará no caminho correto.” Agir sobre o privilegio aqui aparece enquanto algo que se age individualmente. A política de alguém pode estar inteiramente na cabeça desta pessoa. Acerca disso, as políticas de aliados diminuem o espaço da política para um sentimento individual. O campo de ação diminui e ainda assim o aliado sente que precisa agir, desesperadamente, intensamente e a gora. Eles agem no que está disponível – nas redes sociais e neles mesmos.

A revista online “Everyday Feminism” promove uma lista de 10 coisas que os aliados precisam saber. A número cinco na lista é: “Aliados precisam se educar constantemente.” O texto explica: “Uma das mais importantes formas de educação é a escuta… (ver #1), mas existem várias fontes (livros, blogs, revistas, palestrantes, vídeos no YouTube, etc.) para você aprender. O que você não deve fazer, então, é esperar daqueles que você quer se aliar que ensinem a você. Isso não é a responsabilidade deles. Claro, escute eles quando eles decidirem te dar algum conhecimento ou perspectiva, mas não vá até eles e espere que eles expliquem o que é opressão para você.” Claro, estudo é crucial para os revolucionários. Mas a visão de auto-educação promovida pela política de aliados é isoladora. O aprendizado é modelado enquanto consumo de informação, não enquanto discussão, chegar a um entendimento comum, ou estudar os textos e documentos da tradição política. Se educar é desconectado da prática coletiva crítica. É desligada das posições políticas ou objetivos. Os critérios para que alguém avalie livros, blogs, palestrantes e vídeos são ausentes. Fica sob conta do aliado enquanto indivíduo descobrir sobre por conta própria. Em efeito, há punição sem disciplina. O quase-aliado pode ser repreendido e exposto, mesmo enquanto aquele que o repreende se livra de qualquer responsabilidade para providenciar uma direção concreta ou treinamento (vamos ser honestos, apenas dizer para alguém “procurar no Google” é um gesto vazio). Uma vez que lembramos que “aliado” não é um termo de tratamento – ele não substitui “Sr.”, “Sra.”, “Dr.” ou “Professor”; o termo aliado parece designar um limite, sugerindo que você nunca será um de nós, uma designação que inibe a solidariedade. Essa relação entre aliados e pelo que os aliados lutam, é entre aqueles que tem interesses, experiências e práticas separadas.

O oitavo item na lista da revista Everyday Feminism sobre o que os aliados precisam saber é: “Aliados Focam Naqueles que Compartilham Sua Identidade.” “Além de escutar, provavelmente a coisa mais importante que eu posso fazer em solidariedade é se engajar com aqueles que compartilham da minha identidade.” Identidades aparece de forma clara e fixada, inquestionáveis e imutáveis. Indivíduos são como pequenos países soberanos, defendendo seu território, e se juntando apenas sob cautelosos e em seus próprios interesses. Aqueles que são levados a compartilhar uma identidade são presumidos enquanto aqueles que compartilham uma política, como se a identidade fosse algo óbvios e as políticas não tivessem que ser construídas. Aqueles que se dispõem a avançar uma política que não seja aquela ancorada no que pode ser facilmente descrito em relação a sua identidade são tratados com suspeita, desconfiados por seu presumido privilegio, e criticados por avançar sobre uma ampla questão de vários erros que preservam o privilegio. O próprio termo de aliados reforça a desconfiança que os guias de como-se-tornar-melhor dizem tratar: faz sentido desconfiar de pessoas que veem a política como uma gratificação imediata, como um trabalho rápido individual para longas histórias de opressão estrutural. Porque os aliados podem participar juntos sob interesses próprios, eles podem facilmente se afastar, largar de mão, nos desapontar. Nós não podemos ter certeza de seu compromisso porque isso toca em seus sentimentos individuais e no seu conforto. O item oito da revista Everyday Feminism diz a nós o porquê a política de aliados tem tanta presença nos círculos progressistas: A desconfiança das identidades dos outros se torna funcional e gratificante em nome de uma política que mantém e policia as identidades, nossa coisa especial e vulnerável, escorando seus fracos e porosos limites. Ser um aliado move a atenção do desafio imenso de tomar um lado, de aceitar a disciplina que vem com o trabalho coletivo, e da organização de luta para acabar com o imperialismo capitalista e os sistemas de divisão, preconceito e opressão que o asseguram.

As políticas de aliados não constroem identidades políticas. É um sintoma da tentativa do capitalismo de substituir a política com técnicas de auto ajuda e moralismo nas redes sociais. Os pressupostos dessa visão são os de indivíduos auto-orientados, da política enquanto possessão, da transformação reduzida a mudança de atitudes, e uma fixada, naturalizada esfera de privilegio e opressão. Ancorada em uma visão da identidade enquanto fator primário da política, a ênfase nos aliados move a atenção das questões táticas e estratégicas organizacionalmente para testes de atitudes anteriores, desde o início impedindo a coletividade necessária para a política da esquerda revolucionária. É claro, aqueles na esquerda necessitam de aliados. As vezes é necessário forjar uma aliança temporária para poder avançar. A luta comunista necessita de uma vasta aliança entre diferentes classes, setores e tendências. O problema com os aliados não é uma rejeição da construção de alianças. Isso seria absurdo. A política de aliados, entretanto, não é a forma e o modelo para a luta revolucionária contra a exploração e opressão.

Camaradagem e a luta coletiva

Como os socialistas e comunistas sabem, a política é sempre coletiva. A ficção de que é algo individual não é nada além de ideologia capitalista. O apego a identidade individual que baseia a política de aliados é então uma forma de incapacidade política. Em vez de construir e trabalhar em organizações capazes de travar a luta revolucionária, os aliados tendem a ligar para si mesmos com defesas de suas identidades e fazendo falas a outros sobre como auxiliar nessa defesa. Em contraste, pelo fato de abraçarem a luta coletiva, socialistas e comunistas cultivam a solidariedade e camaradagem.

Ao contrário das identidades separadas e exclusivas dos aliados, qualquer um pode ser um camarada. O termo é genérico. Ele não se refere a raças ou gêneros específicos, mas sim a aqueles que compartilham uma política, aqueles do mesmo lado em que se pode contar. “Camarada” funciona de três maneiras: como um termo de tratamento, um operador de expectativas e uma forma de pertencimento político. Como um termo de tratamento, “camarada” substitui as designações de gênero e hierárquicas (Sra., Dr.) com uma designação igualitária; como camaradas, somos todos iguais.

Correspondentemente, aqueles que se tratam enquanto camaradas compartilham uma certa expectativa sobre eles. Camaradas devem estar abertos a contar um com o outro mesmo quando não gostamos um do outro e mesmo quando discordamos. Em O Romance do Comunismo Americano (Basic Books, 1977), Vivian Gornck cita a palavras de um ex-membro do Partido Comunista dos EUA que odiava a tarefa diária de vender jornais e a angariação de votos esperada de um quadro do partido, mas não obstante, ele disse, “Eu fiz. Eu fiz porque se eu não fizesse, eu não poderia olhar na cara dos meus camaradas no outro dia. E nos todos fazíamos pela mesma razão:  éramos responsáveis uns pelos outros” (p. 110).

Finalmente, camarada aponta uma relação de pertencimento político. Aqui camarada difere de um termo como “militante”. Militantes designam a intensidade política de uma pessoa. Em contraste, camarada aponta a relação entre militantes. É um termo necessariamente coletivo, compartilhado.

A relação entre camaradas refaz a posição pela qual alguém vê, o que é possível de ver e quais possibilidades podem aparecer. Ela permite a avaliação constante do trabalho e tempo, o que alguém faz e o por quem alguém faz. O trabalho da pessoa é feito pelo povo ou pelo chefe? É voluntário ou faz porque a pessoa precisa trabalhar? A pessoa trabalha pelas provisões pessoais ou pelo bem coletivo? Relembre da descrição lírica do comunismo em Marx, onde o trabalho se torna “a primeira necessidade vital”. Nós temos um vislumbre do que existe na camaradagem: a pessoa quer fazer o trabalho político. Você não quer desapontar seus camaradas; você vê valor de seu trabalho por meio de outros olhos, seus novo olhar coletivo. Trabalho, determinado não pelo mercado, mas pelo compromisso compartilhado, se tornar realizador. O filosofo e militante comunista francês Bernard Aspe discute o problema do capitalismo contemporâneo enquanto uma perda do “tempo comum”; isto é, a perda da experiência de tempo gerada pelo aproveitamento de nosso coletivo estar junto. De feriados, a almoços, a pausas, qualquer tempo comum que temos é sincronizado e enclausurado para ser um tempo de consumo que pode ser medido do mesmo modo que o taylorismo media o tempo de produção.  Quanto tempo um espectador gastou em uma página da web específica? Uma pessoa assistiu a um anúncio inteiro ou clicou nele após cinco segundos? Em contraste, a ação comum que é a realidade do movimento comunista induz uma mudança coletiva de capacidades. Rompendo com as injunções 24h-7 dias da semana do capitalismo para produzir e consumir para os patrões e proprietários, a disciplina da luta comum expande as possibilidades de ação e intensifica o senso de sua necessidade. O camarada é uma figura da relação pela qual ocorre essa transformação do trabalho e do tempo.

A revolução bolchevique trouxe à tona as dimensões utópicas e libertadoras do camarada. Alexandra Kollontai apontou que o capitalismo separa as pessoas, tornando-as competitivas, interessadas em si mesmas e com medo. O comunismo abole essas condições e cria novas, onde todos os trabalhadores são camaradas acima de tudo. Para Kollontai, camaradagem é um modo de pertencer caracterizado pela igualdade, solidariedade e respeito. A coletividade substitui o isolamento, o egoísmo e a autoafirmação. Torna as pessoas capazes de liberdade. A palavra russa para camarada, tovarish, é masculina, mas seu poder é tal que liberta as pessoas das cadeias gramaticais (a mesma palavra é usada para camaradas mulheres). Um livro soviético sobre linguagem literária publicado em 1929, quando a linguagem revolucionária ainda era nova, dá o exemplo de “camarada irmã”. Isso soava estranho em russo, mas evocava os ideais emancipatórios da revolução.

O escritor soviético Maksim Górki também associou a camaradagem com libertação. Em seu conto, “Camarada”, Górki apresenta camarada como uma palavra que “veio para unir o mundo inteiro, para elevar todos os homens às cúpulas da liberdade e ligar com novos laços, os fortes laços de respeito mútuo”. Sua história retrata uma cidade de hostilidade, violência, humilhação e raiva, onde os fracos se submetem ao domínio dos fortes. Em meio a esse sofrimento miserável, uma palavra ressoa: Camarada! O povo deixa de ser escravo. Eles se recusam a se submeter. Eles se tornam conscientes de sua força. Eles reconhecem que eles próprios são a força da vida. Um dos exemplos de Górki é uma prostituta que sente uma mão em seu ombro e depois chora de alegria ao se virar e ouvir a palavra camarada. Com esta palavra, ela é tratada não como uma mercadoria a ser usada por outro, mas como uma igual na luta comum contra as próprias condições que exigem a mercantilização. Na história de Górki, então, camarada marca a divisão entre o mundo de miséria que temos e o mundo comunista igualitário que existirá.

Franz Fanon, o revolucionário e filósofo da Martinica que participou da luta de libertação da Argélia, também traz à tona as dimensões igualitárias e utópicas do camarada. Em sua conclusão de Os Condenados da Terra (Grove, 2004), Fanon apela repetidamente aos seus leitores enquanto camaradas: “Venham, camaradas, o jogo europeu terminou definitivamente, é preciso encontrar outra coisa.” (p. 236) e, na última linha do livro, “Para a Europa, para nós e para a humanidade, camaradas, devemos começar de novo, desenvolver uma nova forma de pensar e procurar criar um novo homem.” (p. 239). Camarada é o modo de tratamento apropriado para esta tarefa. É igualitário, genérico e, no contexto da hierarquia, fragmentação e opressão, utópico. É um convite a um projeto comum.

Na década de 1930, o Partido Comunista dos Estados Unidos nem sempre teve sucesso em seus esforços para eliminar o preconceito e o chauvinismo branco. Ainda assim, abraçou um ideal igualitário de camaradagem. O organizador trabalhista comunista negro Ernest Rice McKinney conta uma história sobre como saiu de uma reunião em Pittsburgh:

Estávamos andando pela rua, brancos e negros juntos, e havia alguns homens negros andando com mulheres brancas. Estávamos em um bairro difícil da classe trabalhadora e, quando passamos por um grupo de jovens brancos, eles nos disseram: “Olá, camaradas”. Seu tom era sarcástico, mas não hostil. Eles presumiram que éramos comunistas, porque os comunistas causaram essa impressão praticando a igualdade social. (citado por Mark Naison, Science & Society, 42, 1978)

A história de McKinney traz para casa a forma como o termo camarada carregava – mesmo para aqueles que não eram camaradas – expectativas de ação prática, ações que demonstravam um compromisso total com a igualdade total. A camaradagem se manifesta em ações.

Mais uma vez, os comunistas americanos nem sempre tiveram sucesso na prática da igualdade social. No entanto, a expectativa dos camaradas, que era poderosa mesmo quando não se cumpria, era igualitarismo radical. Camaradas eram aqueles não apenas corajosos o suficiente para praticar um modo de pertencer profundamente em desacordo com a cultura dominante, mas também dedicados o suficiente para reconhecer como as relações pessoais ajudam a produzir poder político.

Quatro características de um camarada

Podemos ver quatro características de um camarada: disciplina, alegria, entusiasmo e coragem.

A camaradagem é uma relação disciplinadora: as expectativas e a responsabilidade de atendê-las restringem a ação individual e geram capacidade coletiva. Os camaradas aprendem a deixar de lado o interesse próprio imediato e o desejo de conforto pessoal ou promoção pelo bem do partido, do movimento e da luta. A disciplina nega e cria. Ele induz a subordinação do interesse pessoal em prol da produção de uma nova força, uma força forte o suficiente para suportar os longos anos de luta revolucionária a fim de prevalecer. Lênin falava com frequência e famosa da necessidade de disciplina no partido revolucionário – disciplina rigorosa, disciplina proletária, disciplina de ferro, disciplina socialista, disciplina de camaradagem e assim por diante. A disciplina partidária geralmente se referia às expectativas de unidade em ação, livre discussão e crítica. A disciplina proletária, ou trabalhista, diferia na medida em que apontava para a nova organização do trabalho sob o socialismo, a organização voluntária dos trabalhadores com consciência de classe. Por meio da disciplina de camaradagem, tornamos uns aos outros mais fortes. Nosso compromisso de trabalhar juntos em direção ao nosso objetivo comum funciona de volta para nós, nos permitindo superar e talvez até abolir os atributos individualistas produzidos pelo capitalismo. Podemos cometer erros, aprender e mudar. Ao reconhecer nossas próprias inadequações, passamos a compreender a necessidade de ser generosos e compreensivos com as deficiências dos outros. Desenvolvemos uma apreciação por pontos fortes e talentos que não podíamos ver. Nos tornamos um novo tipo de coletividade.

Acompanhando a disciplina camarada está a alegria, a segunda característica do camarada. Em um panfleto sobre os subbotniks comunistas – isto é, aos sábados de trabalho voluntário realizado durante a Guerra Civil – Lênin cita um artigo publicado no Pravda celebrando o trabalho entusiástico e voluntário realizado na ferrovia Moscou-Kazan:

Quando os trabalhadores, balconistas e funcionários da matriz, sem sequer um juramento ou argumento, pegaram o pneu da roda de quarenta pood de uma locomotiva de passageiros e, como formigas trabalhadoras, a colocaram no lugar, o coração do povo se encheu de fervorosa alegria com a visão deste esforço coletivo, e a convicção foi reforçada de que a vitória da classe trabalhadora era inabalável. (…) Terminada a obra, os presentes testemunharam uma cena sem precedentes: uma centena de comunistas, cansados, mas com a luz da alegria nos olhos, saudaram seu sucesso com os acordes solenes da Internacional.

A alegria da disciplina é interna e externa, sentida pelos companheiros e vivida por aqueles que testemunham como a disciplina muda o mundo. Por meio da intensa coletividade que a disciplina possibilita, os camaradas podem fazer o impossível. Eles estão livres de expectativas e restrições anteriores. A alegria acompanha a sensação de invencibilidade coletiva. “Juntos, fizemos isso acontecer – e fizemos isso para propósitos maiores do que nós.”

Os camaradas fazem seu trabalho com entusiasmo, a terceira característica do camarada. Eles são elogiados pela energia que empregam em suas tarefas. Em O que fazer?, Lênin elogia repetidamente a energia dos sociais-democratas alemães, critica seus camaradas economistas por sua falta de energia e apela a seu partido para aumentar sua energia. Em sua conversa com Clara Zetkin, Lênin elogiou a energia e o entusiasmo das companheiras do partido, acrescentando “Por enquanto, esqueço quem disse: ‘É preciso ter entusiasmo para realizar grandes coisas’”. Espera-se entusiasmo, energia de camaradas porque é aquele extra, aquele benefício excedente da coletividade, que lhes permite fazer mais, até mesmo vencer. O que distingue camaradas de indivíduos com mentalidade política parecida é a energia que se acumula no trabalho coletivo. Por combinar forças, eles geram mais do que cada um poderia trabalhando sozinho. O entusiasmo é o excedente que a disciplina coletiva gera.

O quarto atributo do camarada é a coragem. O líder do Partido Comunista Chinês, Liu Shaoqi, descreve a coragem revolucionária do comunista como um efeito da disciplina camarada:

Não tendo motivos egoístas, ele não tem nada a temer. Não tendo feito nada para deixar a si mesmo uma consciência culpada, ele pode expor e corrigir corajosamente seus erros e falhas… Porque ele tem a coragem da convicção justa, ele nunca teme a verdade, corajosamente a defende, divulga e luta por ela.

A coragem do camarada não é uma virtude individual. É um efeito da disciplina, a força que surge como resultado da abnegação a serviço da luta comum. A coragem camarada inclui a capacidade de autocrítica, a capacidade de admitir estar errado ou não saber e então corrigir quaisquer erros por meio de estudos e trabalhos posteriores. Os bolcheviques associavam coragem a ser firmes, inabaláveis, inflexíveis e resolutos; à capacidade de resistir e prevalecer sob enormes adversidades.

Caracterizada pela disciplina, alegria, entusiasmo e coragem, não é surpresa que camarada é uma forma de relação política necessária para a luta revolucionária. O trabalho político é trabalho coletivo. Construir e manter organizações coletivas requer que a gente refaça a nossa relação uns com os outros de modo que produzamos juntos as capacidades que precisamos para lutar e vencer.

Para resumir, camaradas são mais do que aliados expressando sentimentos de solidariedade as lutas de outras pessoas. São revolucionários empenhados em estar juntos do mesmo lado de uma luta comum pela libertação, igualdade e justiça, em outras palavras, pelo comunismo. Esse compromisso fortalece os camaradas, e essa força significa que juntos venceremos.

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