Os que Forjaram o Partido Comunista para a Etapa da Legalidade

Reportagem de Rui Facó e Rui Santos para a Tribuna Popular.

Rio de Janeiro, Nº 96, Ano 1, de 9 de setembro de 1945.

Transcrição Ian Cartaxo.


No princípio era apenas o verbo, e assim mesmo um verbo diferente, suave e geralmente inexpressivo: “sonhadores”, “utópicos”, e às vezes de “idealistas”. Esse comunistas são uns idealistas… Idealista era sinônimo de indivíduo inexperiente, que andava no ar, metido com filosofias e com poesias, que passava fome por prazer, que não gostam de trabalhar. No fundo queria dizer: homem nada prático, nada realista, sem capacidade para administrar sequer um mercado, quanto mais dirigir um Estado.

Depois, a onda foi crescendo, e o verbo se transformou quando os comunistas começaram a interferir em coisas que dantes não lhes competiam: economia política, ciências sociais, e tiveram a audácia de fundamentar suas afirmações num método científico de acordo com o qual todas as coisas são consideradas em relações recíprocas, estão em constante movimento, em mutação constante.

Então os protestos aumentaram e o verbo novamente se modificou. Não era possível. O regime escravocrata tinha passado, era verdade, como era verdade também que passara o regime feudal, mas o regime capitalista permaneceria, sim senhor! A humanidade atingira sua última etapa de evolução, não era possível conseguir nada superior, estava tudo no melhor dos mundos. Para que mudanças. Mas os adeptos desse velho alemão barbudo que se chamara Karl Marx continuavam a afirmar impertinentemente e mesmo a comprovar suas afirmativas, numa intransigência que inquietava. E o pior era que esses “sonhadores” que tinham “inventado” o marxismo haviam conseguido “seduzir” milhares e milhares de adeptos em todo o mundo, principalmente entre a classe operária.

Então a coisa mudou de figura. Os sonhadores e utópicos passaram a ser crismados de infiéis, materialistas grosseiros que só viam as coisas mais vulgares: alimentação, habitação, roupas, quando deviam olhar a natureza, contemplá-la, certificando-se de que tudo era desigual mesmo, como Deus criara, e o jeito era conformar-se com a vontade celeste. Lembro-me de um professor de Economia Política da Faculdade de Direito do Ceará que todos os anos citava a seus alunos o mesmo exemplo: “Vejam os dedos da mão: todos desiguais!” Os calouros olhavam para as mãos. Realmente, todos os dedos eram desiguais…

Mas muito antes do professor tinham existido os inimigos dos grevistas de Lyon, dos cartistas da Inglaterra, dos comunardos de Paris. E esses inimigos sempre haviam utilizado exemplos muito mais concretos: bala, torturas, prisões, degredo, demissões em massa, listas negras. Foi a esse tempo que o verbo começou a modificar-se novamente: sanguinários, assassinos, desumanos, ferozes, eram os novos epítetos, não dos que massacravam, mas dos que eram massacrados.

Depois de 1917 aquelas palavras foram ampliadas em sinônimos, grafadas em letras gordas, gritadas aos quatro ventos. Não apenas na Europa ou nos Estados Unidos, mas também nas cubatas africanas, entre os indígenas sul-americanos e os eternamente bárbaros orientais. Esses povos “inferiores” não deveriam “contaminar-se” de ideologias “estranhas”…

Os Hearst se multiplicaram e estenderam seus tentáculos pelo mundo.

Mas não havia fábricas de rádio nem máquinas impressoras que reproduzissem máquinas e rádios na mesma proporção em que aumentava o número de comunistas no mundo inteiro. Grande foi o pavor dos donos de jornais e rádios quando fracassou a intervenção de 1918 – 1922 contra a União Soviética. Não menor é seu alarme hoje, depois da derrota do nazismo, uma das últimas armas secretas em que haviam depositado sua confiança durante dois decênios todos os reacionários do globo.

O Brasil também tem grandes “sonhadores”, ou melhor, “românticos”, como os chamou recentemente, num gesto de grande amabilidade, um escritor patrício. Vejamos alguns desses homens nas linhas gerais de sua vida.

LINDOLFO HILL

O mais jovem membro da Comissão Executiva do Partido Comunista do Brasil, conta apenas 28 anos de idade e dez anos de trabalho partidário. Era operário em construção civil, tendo se revelado, desde tenra idade, uma notável capacidade de mobilizador de massas. Em organizações sindicais, como a União Operária de Minas Gerais, sua terra natal, desenvolveu suas primeiras atividades políticas, reivindicando os direitos de sua classe, em 1938 foi eleito presidente do Sindicato de Construção Civil. A serviço do Partido, em Juiz de Fora, conseguiu êxitos notáveis no trabalho ilegal.

Participou, como dirigente do Partido em Minas, da Conferência do Comitê Nacional do PCB, em agosto de 1943, sendo então eleito para o Comitê Nacional e para a Comissão Executiva. Ultimamente, foi apontado para candidato a deputado para a Câmara Federal, onde representará o proletariado e o povo mineiros. Lindolfo Hill acaba de seguir para a capital da França, onde representará os trabalhadores do Brasil no Congresso Operário de Paris.

FRANCISCO GOMES

De origem proletária, proletário cem por cento, Francisco Gomes, embora ainda bem jovem, é um líder comunista de envergadura. Operário em construção civil, entrou para o Partido no Estado do Rio, onde foi dirigente, em 1934. As enormes dificuldades financeiras com que sempre lutou, sobrecarregado de família numerosa, não o impediram de trabalhar ininterruptamente pelo seu Partido, com ardor raramente ultrapassado. Preso pela polícia-política, em 35 durante a mais dura reação que viveu o Brasil, foi Francisco Gomes barbaramente torturado. “Sabe o que é passar 4 meses na Central?” pergunta Francisco Gomes. Seu idealismo, sua força moral, tudo venceram. Diante dos interrogatórios policiais, realizados em moldes verdadeiramente selvagens, gestapianos, Francisco Gomes manteve-se sempre em ofensiva, jamais capitulando ou cedendo um milímetro sequer em suas convicções. Libertado finalmente, veio para o Rio e continuou trabalhando com maior ardor ainda pelo seu Partido. Preso novamente em 40, foi solto em 42. Foi eleito membro dirigente na Conferência Nacional de 1943.

Sua capacidade de leitura de autores marxistas é reconhecida como excepcional, apesar do enorme trabalho que realiza como Secretário do Comitê Metropolitano (Dist. Federal) do PCB. No “Pleno da Vitória”, que se realizou recentemente, Francisco Gomes foi eleito para a Comissão Executiva.

MAURÍCIO GRABOIS

Brasileiro nato, Maurício Grabois teve numerosos nomes de guerra para sua atividade ilegal. Toda sua vida está dedicada ao Partido Comunista do Brasil no qual ingressou em 1932. Para isto, abandonou os estudos, primeiro na Bahia, de onde é natural, e mais tarde no Rio, onde ingressara na Escola Militar. Durante alguns anos dirigiu a Juventude Comunista, pertencendo à Federação Vermelha de Estudantes. Como enviado do Partido, percorreu vários estados, atuando em São Paulo, ao lado de Geny Gheyser e demorando-se enfermo em Belo Horizonte, onde sua atividade partidária foi das mais notáveis. Em 1937 e 38 ajudou a levantar a região do Rio, sendo preso em 39. Em 1943, por ocasião da Conferência Nacional do PCB, foi eleito para a direção nacional depois de haver cumprido ano e meio de prisão. Marinho, Joaquim, Amadeu, Celso, foram alguns de seus nomes na ilegalidade. Foi um dos baluartes contra o liquidacionismo. Agora, seu verdadeiro nome foi lançado como candidato a deputado pelo Distrito Federal.

JOÃO AMAZONAS

João Amazonas, que ainda parece nome ilegal, é o nome real desse jovem que já se chamou Severino, Pedroso, Sertão, João Amarante, Tocantins. Natural do Pará, ainda residia em Belém quando, em 1935, ingressou no Partido Comunista. Encarregado do Trabalho Sindical, forjou-se como revolucionário comunista entre os trabalhadores paraenses. Foi preso várias vezes, conseguindo finalmente escapar espetacularmente, subindo e descendo rios, através de todo o Brasil central e finalmente chegando ao Rio, onde se ligou novamente ao Partido Comunista. Daqui foi destacado para trabalhar em Minas, salientando-se em sua atividade junto aos organismos de massa, levantando a campanha de ajuda à FEB e ao esforço de guerra. Foi eleito para o Comitê Nacional e a Comissão Executiva em Agosto de 1943. É hoje o encarregado do trabalho sindical. João Amazonas tem percorrido vários estados a serviço do PCB, demorando-se no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Amazonas figura na lista dos deputados do Partido Comunista pelo Pará à Câmara Federal.

AGOSTINHO DE OLIVEIRA

Agostinho Dias de Oliveira é líder dos trabalhadores ferroviários, conhecido em todo o país, mas principalmente em Pernambuco, onde desenvolveu sua atividade de militante comunista durante sua juventude. Filho de operário mecânico, contava apenas 14 anos de idade quando foi trabalhar nas oficinas da Usina Santa Rita. Em 1923 trabalhou nas obras do porto de Cabedelo Nesse mesmo ano exerceu suas atividades numa fábrica de Rio Tinto. Depois, nas obras do porto de Recife, na fábrica “Pessoa de Queiroz” e no Moinho do Recife, como mecânico. Transferiu-se mais tarde para a Great Western, em Pernambuco, como caldeireiro. Entrou para o Partido em Novembro de 1929. Em Pernambuco, organizou a União Geral dos Ferroviários e da Great Western, em 1941. Foi membro da direção da União Geral dos Trabalhadores de Pernambuco. Organizou o Socorro Vermelho naquele estado e participou da Comissão Promotora da Conferência antiguerreira de Recife. Foi espancado pela polícia durante um Congresso de trabalhadores, cujas atividades foram suspensas. Em Setembro de 1934 foi lançado como candidato a deputado pelo Bloco Operário e Camponês. Participou do movimento da ANL em 1935, sendo preso em 1936, em Agosto e posto em liberdade em junho de 1937. Preso novamente em 10 de Novembro de 1937, foi solto um ano depois e deportado para o Pará. Nesse estado, entrou novamente em ligação com o organismo do Partido e ajudou a reerguê-lo e a fortalecê-lo. Mais uma vez preso em 1940, depois de 14 meses, conseguiu fugir, indo trabalhar na Companhia Ford, como ajustador mecânico. Aí esteve desde 1º de Setembro de 1941 até 15 de Setembro de 1943. Veio então para o Rio, participando da conferência nacional do Partido, em novembro desse mesmo ano, sendo eleito para o Comitê Nacional. Na conferência deste ano foi escolhido para a Comissão Executiva.

PEDRO POMAR

Pedro Pomar é outro jovem valoroso militante do Partido Comunista do Brasil, no qual ingressou depois do movimento aliancista de Novembro de 1935. Cedo destacou-se nas lutas juvenis no seu estado natal, Pará, ingressando na ANL e passando-se depois para o Partido Comunista. Foi preso várias vezes, mantendo sempre bem alto seu espírito revolucionário. Abandonou os estudos para dedicar-se unicamente ao trabalho partidário, já que as dificuldades que a ilegalidade e as perseguições policiais impunham ao Partido reduziam os seus quadros. Os mais ativos, os mais destemerosos eram aproveitados ao máximo e davam o que lhes era exigido. Preso em 1940, fugiu juntamente com Amazonas e Agostinho, varando o Araguaia e o Tocantins, por todo o interior do Brasil, chegando finalmente ao Rio em 1941. Aqui ajudou a levar o Partido, trabalhando nas mais difíceis situações. Pedro Pomar foi um dos organizadores da Conferência Nacional de 1943, que deu sangue novo ao Partido Comunista do Brasil e o preparou para as grandes lutas democráticas que se seguiram. Eleito para o Comitê Nacional e para a Comissão Executiva, trabalhou no Comitê de Organização até meado de 1944, quando foi destacado para São Paulo, onde ainda se encontra. Seu nome está ligado ao formidável êxito do Comício do Pacaembu e a recepção a Pablo Neruda que por ele foi saudado em nome do proletariado paulista. Pedro Pomar é hoje candidato a deputado à Câmara Federal pelo Pará.

JORGE HERLEIN

Jorge Herlein entrou para o Partido Comunista em 1930, no Paraná, de onde é natural. Atuando entre os ferroviários, ferroviário que era, organizou naquele estado a greve que em 1934 rebentou por todo o país, depois do fechamento da Aliança Nacional Libertadora. Participou do 3º Congresso dos Ferroviários, que se realizou no Espírito Santo. Depois do golpe de Estado de 1937, Jorge Herlein transferiu-se para São Paulo, militando em Bauru, Lins e outras cidades da terra bandeirante, juntamente com Domingos Marques. Voltando ao Paraná, foi preso e condenado a 2 anos de reclusão pelo Tribunal de Segurança. Cumpriu a pena e mais dois dias, só conseguindo a liberdade por meio de um habeas-corpus. Veio para o Rio, ligando-se ao trabalho patriótico da Liga de Defesa Nacional. Na conferência do Partido em 1943 ingressou no Comitê Nacional, ficando como encarregado do organismo metropolitano, tendo eleito também para a Comissão Executiva. Durante um longo período, desde 1935 até 1938, quando foi preso, passara foragido no interior do Paraná, sendo procurado pela política paranaense, que espalhava retratos seus e oferecia recompensas a quem o detivesse. Jorge Herlein é hoje um dos mais ativos dirigentes nacionais do PCB.

ARRUDA CAMARA

Diógenes Arruda Camara é militante do Partido Comunista desde fins de 1934, quando contava apenas 18 anos de idade. Tornara-se simpatizante desde os 15 anos, quando ainda em Pernambuco, seu estado natal. Indo para a Bahia em 1936, aí ligou-se definitivamente ao Partido, entregando-se ao trabalho sindical, onde desenvolveu sua atividade, que concorreu grandemente para sustentar o Partido, apesar de todas as perseguições policiais. Foi ao contato dos trabalhadores sindicalizados que Arruda Camara se forjou como verdadeiro combatente comunista dos mais ativos do Brasil. Quando estudante, ligava-se ao trabalho operário e no meio estudantil. Detido pela polícia baiana em 1937, foi logo depois posto em liberdade, para ser novamente preso, durante oito meses, em 1940. A vigilância policial que o perseguiu depois de 1937 não impediu que continuasse lutando politicamente no seio do operariado e entre os estudantes. A prisão apenas conseguiu reforçar seu ânimo revolucionário. Posto em liberdade e intimado a deixar a Bahia, foi para São Paulo em 1941, onde tratou de levantar o trabalho patriótico, como Secretário da Comissão Executiva provisória do Partido, ao lado de Armenio Guedes, Milton Caires, Vanucci e outros militantes comunistas. Viajou várias vezes a serviço do Partido para alguns estados e para países sul-americanos. Suas responsabilidades como dirigente comunista começaram dede cedo: contava apenas 22 anos quando entrou para a direção do Partido, sendo encarregado do trabalho sindical do Comitê Estadual. Aos 24 anos tinha responsabilidade de trabalho do Comitê Nacional. Na Conferência de 43 foi eleito membro efetivo do Comitê Nacional e da Comissão Executiva, ficando como encarregado nacional de organização. Seus nomes ilegais, entre outros, foram: Sidrone (como tal procurado pela polícia baiana, que o considerava “chefe” do Partido Comunista no Norte do Brasil), Nicasso, João Nitão, Paraguassú, Nicolau, Piancó, Lopes, José, Vitor. Foi este o último nome de guerra que usou para despistar a polícia-política, que nunca mais conseguiu prendê-lo, desde que deixou a Bahia em 1941.

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