Além de pronomes e banheiros: o ativismo trans é sobre luta de classes

Texto de Misha Falk, mulher trans, professora e escritora de Winnipeg Canadá.

Originalmente publicado no site Open Democracy.

Imagem da capa de Hildegard Titus, AFP.


Debates em torno dos direitos trans têm sido manchetes nos últimos tempos. A grande mídia tende a reduzir as demandas feitas pelos ativistas trans a quais pronomes as pessoas devem usar ou se as mulheres trans devem ser autorizadas a usar banheiros de mulheres ou participar de esportes femininos.

Embora essas questões sejam importantes, focar nelas pode vir às custas de uma luta mais fundamental – não apenas pelos direitos trans, mas pela libertação trans. Na academia e nos movimento de base, o novo ramo do marxismo trans entende a opressão das pessoas trans não apenas como resultado do preconceito das pessoas individuais, mas como parte da exploração capitalista.

A polícia de gênero

As pessoas trans têm muito mais probabilidade de fazer parte da classe trabalhadora do que seus equivalentes não trans. Um estudo de 2015 descobriu que, nos EUA, 30% das pessoas trans vivem na pobreza, o dobro da taxa de pessoas não trans. Entre pessoas trans latinxs, o número sobe para 43% e entre pessoas trans com deficiência é mais próximo de 50%. Muitas pessoas trans têm dificuldade de acessar ou manter empregos, uma vez que mais de três quartos sofrem discriminação no local de trabalho, nas formas de recusa de contratação, violência sexual ou violações de privacidade (como a identidade trans de uma pessoa sendo ‘revelada’ a colegas de trabalho, o que pode resultar em assédio ou discriminação).

Existem razões complexas para essa desigualdade sistêmica. Em grande medida, tem a ver com a construção do próprio gênero. Podemos pensar nas categorias binárias de gênero masculino e feminino como determinadas pela biologia, mas elas têm muito mais a ver com expectativas sociais. O feminismo marxista – com o qual o marxismo trans tem estreitas afinidades – nos ensina que o capitalismo impôs um binário de gênero estrito que ajudou a criar as condições para a acumulação de capital. De acordo com a teoria marxista, dentro do capitalismo, são os trabalhadores que criam o valor que os capitalistas obtêm como lucro. Esta é a fonte de exploração. Mas o feminismo marxista questiona: quem cria, alimenta e cuida desses trabalhadores desde a infância até a idade adulta para que eles possam produzir esse valor em primeiro lugar? Em grande parte, é o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado feito por mulheres que sustenta a obtenção de lucro capitalista.

O marxismo trans entende a opressão das pessoas trans não apenas como resultado do preconceito das pessoas individuais, mas como parte da exploração capitalista

Os papéis de gênero e a desigualdade de gênero, portanto, servem um propósito indispensável para o capitalismo. O mesmo ocorre com o policiamento de gênero por meio da perseguição de pessoas que não se encaixam perfeitamente nas categorias de gênero masculino ou feminino, incluindo pessoas queer e trans. Romper o binário de gênero pode ameaçar a continuação da desigualdade de gênero, que ameaça todo o modelo capitalista. Os gêneros masculino e feminino são impostos desde o dia em que nascemos – basta pensar nos diferentes cortes de cabelo, roupas, brinquedos e até mesmo cores que são arbitrariamente atribuídos a meninos ou meninas. Como as pessoas têm expectativas tão fortes sobre elas com base em seu gênero, o medo e o ódio daqueles que não se encaixam estão profundamente enraizados e podem levar à violência e opressão em grande escala.

Algumas feministas radicais veem as pessoas trans como fonte de sua opressão e transformaram seus esforços de organização em ataques aos direitos das pessoas trans. Esse preconceito está contribuindo para uma grande onda de legislação anti-trans nos Estados Unidos. O marxismo trans entende que essa transfobia feminista serve um propósito para os capitalistas, dividindo feministas não trans e pessoas trans para que ambos os grupos sejam mais fáceis de explorar – a clássica estratégia de “dividir para conquistar”.

Nossos corpos, nossa saúde

Feministas e ativistas trans compartilham muitas causas comuns. Devido à discriminação que enfrentam, muitas pessoas trans encontram sua renda por meio do trabalho sexual, um ramo de trabalho no qual as mulheres não trans também estão amplamente representadas. O trabalho sexual é criminalizado na maioria dos países, o que significa que é mais difícil de organizar. Como resultado, as profissionais do sexo correm um risco maior de violência e exploração, o que muitas vezes é esquecido pelas pessoas que culpam as profissionais do sexo pelo estigma que sofrem.

De forma mais ampla, tanto feministas quanto ativistas trans devem lutar pelo direito à autonomia corporal. Isto é visto mais claramente nas lutas ao acesso a cuidados de saúde seguros e acessíveis, seja o acesso ao aborto ou à terapia de reposição hormonal (TRH). Embora nem todas as pessoas trans busquem TRH e cirurgia, elas são partes importantes das transições de gênero de muitas pessoas e, nos sistemas de saúde parcial ou totalmente privatizados muitas vezes têm um custo inacessível.

Pessoas trans enfrentam disparidades de saúde significativas devido a barreiras financeiras e socioeconômicas, discriminação e falta de conhecimento sobre saúde trans por parte dos prestadores de saúde. As instituições médicas têm uma longa história de patologização da identidade trans, descrevendo a experiência trans como uma doença mental e recusando o tratamento a pessoas trans cujas experiências não se enquadram em uma definição estreita do que significa ser trans. As consequências dessas barreiras sistêmicas e da discriminação avassaladora têm efeitos reais e materiais: um estudo com pessoas trans nos Estados Unidos descobriu que mais da metade havia considerado seriamente o suicídio.

A libertação de todos

Dentro do capitalismo, os trabalhadores sempre estarão sujeitos àqueles que controlam os recursos que os humanos precisam para sobreviver, e que assim determinam o que será produzido e o que será feito com a riqueza produzida pelos trabalhadores. A política muitas vezes se limita a promover as reivindicações de grupos específicos em vez da abolição das forças de exploração que criam as condições para que esses grupos sejam marginalizados em primeiro lugar.

As pessoas trans tornaram-se símbolos de progresso, mas esse tokenismo ofusca as formas em que as pessoas trans se organizam para mudar o mundo. Os papéis importantes desempenhados por pessoas trans nas lutas históricas foram ocultados e só agora estão vindo à tona. Nos Estados Unidos, foi a liderança de duas mulheres trans, Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, nos motins de Stonewall, em 1969, que deram início às paradas anuais do orgulho LGBT+. Mas o ativismo trans radical não parou aí. Depois de Stonewall, Marsha e Sylvia fundaram a organização STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries) e o legado de seu ativismo vive em organizações como Sylvia Rivera Law Project, grupos de abolição de prisões liderados por pessoas queer e trans, Black Trans Lives Matter (Vidas Negras Trans Importam) e inspirou protestos contra ataques aos direitos das trabalhadoras do sexo e de pessoas trans no Brasil, em 2019.

O marxismo trans se recusa a separar ordenadamente as lutas das pessoas trans em uma categoria isolada. Em vez disso, abraça uma política de solidariedade com outros que estão lutando contra as mesmas forças de exploração. Pessoas trans estão se organizando como parte de movimentos feministas da classe trabalhadora, justiça racial, meio ambiente e de libertação das pessoas com deficiência. O marxismo trans sabe que a libertação das pessoas trans tem que andar de mãos dadas com a libertação de todos.

19 comentários em “Além de pronomes e banheiros: o ativismo trans é sobre luta de classes

  1. gente, que texto delirante! puro senso comum liberal e a-histórico, não tem como associar isso a uma análise marxista

    nenhuma feminista marxista séria disse algo como “o capitalismo impôs um binário de gênero estrito que ajudou a criar as condições para a acumulação de capital”. a opressão do sexo feminino tem mais de 5 mil anos de idade (ver “Gênero, patriarcado, violência” da Heleieth Saffioti), precedeu as sociedades de classes (Friedrich Engels, “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”) e ultrapassou todas até chegar à capitalista, tendo sido fundamental pro seu desenvolvimento (Silvia Federici, “Calibã e a bruxa”).

    se existe algum “policiamento de gênero” ele é feito pelos ativistas trans (vejam os comentários na internet sobre o BBB22), nenhuma feminista radical nunca disse oq foi atribuído a elas e qualquer pessoa minimamente crítica sabe que qualquer “romper (individualmente) o binário de gênero” não ameaça absolutamente nada, isso é ideologia liberal pura.

    uma abordagem dessa difama gratuitamente feministas e passa longe de ser honesta. não faz diferença colocar “marxismo” na frente, vcs tão compartilhando misoginia com glitter

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    1. Oi, pode explicar melhor e, se possível, indicar fines de pesquisa?
      Pq esse debate tá bufando a mente e tá sendo um show de horrores em cada discussão que vejo.
      Obrigado.

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      1. Claro! Se quiser conhecer mais sobre a história do feminismo materialista, também chamado de radical, tem um texto ótimo no blog Feminismo com Classe: https://link.medium.com/yismE0tYfnb.

        Sobre a história da opressão das mulheres, recomendo “A criação do patriarcado”, da historiadora Gerda Lerner. A pesquisa dela é fantástica, e trabalha bem as lacunas de “A origem da família, da propriedade privada e do Estado” do Engels, que nem por isso se torna dispensável. É um livro muito bom e revolucionário pra sua época.

        Sobre uma perspectiva marxista do feminismo, recomendo “Gênero, patriarcado, violência”, “O poder do macho” e “A mulher na sociedade de classes” da Heleieth Saffioti, além do “Ser ou não ser feminista” da Ana Montenegro. [+]

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    2. sai daqui sua rata radfem

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      1. A misoginia escorre pela boca, não tentam nem esconder. Não tem nada que odeiem mais que mulheres, e fica cada vez mais explícito. Mas, talvez pra sua surpresa, sou homem. A questão é que não compactuo com discursos pequeno-burgueses reacionários e antifeministas. Mulheres negras são a maioria da classe trabalhadora brasileira, e a revolução não vai ser se não for antipatriarcal e antirracista. Você e a sua seita estão em qual lado?

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      2. De uma próxima vez se dê o trabalho de responder os argumentos históricos, são tão reacionários e sectários que até na retórica se assemelham a bolsonaristas.

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      3. xingar é o melhor q eles conseguem. e ainda tem gente q bate palma

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  2. “As pessoas trans têm muito mais probabilidade de fazer parte da classe trabalhadora do que seus equivalentes não trans.”

    cara?? em q mundo vcs vivem?

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    1. Nesse dia as mulheres negras de repente se tornaram burguesas

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  3. (Continuação)

    Recomendo também o artigo “Não se nasce mulher” da Monique Wittig pra uma perspectiva materialista da necessidade de superação das categorias políticas de “homem” e “mulher”, ou seja, da abolição do gênero, que é defendida pelas feministas radicais: https://link.medium.com/1wDyS47Zfnb. Wittig diz que a primeira tarefa das mulheres é matar o “mito da mulher”, que nada mais é que a noção patriarcal de “mulher”, a feminilidade.

    No “Ser ou não ser feminista”, a Montenegro faz uma crítica importante à essencialização da inferioridade/superioridade dos sexos que hoje tem sido distorcida numa crítica ao próprio reconhecimento de que mulheres são oprimidas pelo seu sexo. [+]

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    1. [+] Apesar de estar virando moda esse ataque misógino às feministas radicais pela esquerda, na época das autoras citadas reconhecer isso era uma obviedade, era simplesmente ser feminista. Nunca foi uma questão até a pós-modernidade resolver apagar os 5 milênios de controle reprodutivo, escravização sexual e doméstica, mutilação genital e
      exploração dos corpos femininos pelos homens, tornando o gênero algo “fluido” e a-histórico. O mito da mulher passou a ser cultuado, homens passaram a dominar as pautas do movimento feminista e tornar as feministas suas opressoras, e isso não tem nada de revolucionário.

      Inclusive, não vai haver revolução no Brasil se não for radicalmente antirracista e antipatriarcal, lembrando que mulheres e racializados são maiorias da população brasileira (51% e 57%, respectivamente: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6408). [+]

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      1. [+] Se, depois desses textos, você começar a se perguntar por quê as pessoas estão apoiando esse tipo de postura misógina e antifeminista (ainda mais em nome do marxismo), tem um texto muito bom publicado na LavraPalavra sobre identitarismo e o neoliberalismo: https://lavrapalavra.com/2020/11/25/identitarismo-a-nova-cara-do-liberalismo/. Recomendo particularmente a parte sobre a cultura da lacração e do cancelamento: [+]

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  4. (Continuação)

    “Quando as estratégias são mais grosseiras, constroem-se então consensos baseados em argumentos falaciosos que justificam suas perspectivas ideológicas ou epistemológicas como as únicas moralmente aceitáveis, manipulando a subjetividade alheia por meio da culpa. Quando mais sutis, justificam o isolamento do indivíduo cancelado como ‘medida educativa necessária para seu processo reflexivo’. Criam-se com isso situações extremamente delicadas, pois mistura-se o que é já é considerado condenável no campo progressista com o que é construção de novas etiquetas de linguagem, baseadas em interpretações incipientes de teorias científicas por parte dessa mesma militância. Essa confusão dificulta o posicionamento crítico de pessoas comuns, que não conhecem as peculiaridades de uma determinada minoria a fundo, fazendo com que optem por não se posicionar. Na prática, a não-ação acaba se refletindo na progressiva admissão tácita, pelo senso comum, do que aquela militância procura tornar um consenso. [+]

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    1. [+] Trata-se de um fenômeno bastante comum na esquerda e na direita. Pessoas bem-intencionadas, mas ignorantes quanto aos processos históricos específicos de determinados grupos identitários, podem, em vez de simplesmente aceitar suas palavras de ordem resignadamente, se aliar ativamente a essa militância. A motivação parece se afigurar a mesma: blindar-se preventivamente contra a possibilidade de cancelamento futuro. Ocorre que o critério da militância identitária tautológica não é baseado na ética, mas na etiqueta, portanto, ao menor deslize ou sinal de questionamento ou discordância, esse grupo pode se voltar contra um de seus apoiadores. Nessa lógica circular, não parece haver escapatória senão a submissão absoluta à subjetividade daquela identidade coletivamente constituída.

      Constata-se, nesse contexto, que essa militância se baseia na valorização das aparências, no sentido de pressupor que o outro evitará o confronto para manter a aura progressista em um assunto que não domina diante de uma suposta autoridade moral ou intelectual. É comum o uso de retóricas, falácias, construções lógicas autorreferenciadas, censura linguística e exigência de priorização de aspectos secundários ao debate: uso de pronomes de tratamento específicos, supressão de termos considerados inadequados ou prioridade epistemológica. Esse processo termina por esvaziar a discussão, vencendo o oponente pelo cansaço, pois não consegue identificar a necessidade objetiva a ser atendida, já que se trata por definição de demanda subjetiva que precisa ser ‘respeitada’ dentro de uma lógica de dominação.”

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  5. essa renovação da esquerda radical ta sendo em quantidade e pouca qualidade, não sabem oq é analisar de forma materialista e histórica. Tão batendo palma pra seita antifeminista por medo de cancelamento e ainda atacam agressivamente o movimento de mães, meninas e mulheres que estão se organizando contra sua opressão. Lamentável

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  6. gente… é uma lógica de seita mesmo

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  7. Nada mais parecido com um misógino de direita que um misógino de esquerda, a diferença é que os segundos fazem isso citando Lênin… Não poderiam estar mais distantes do que o próprio Lênin falava sobre a condição do sexo oprimido.

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  8. Muito interessante como setores da “esquerda” batem palma pra qualquer coisa que venha do império sem qualquer visão crítica e ainda se comportam como bullies com quem questiona. É lógico que a regra geral é não se satisfazer com seu gênero, principalmente as mulheres. O papel social atribuído ao seu sexo é o que faz elas serem vítimas de agressão doméstica, estupro e todo tipo de misoginia e maus tratos. Isso é mais que claro na Origem da família, da propriedade privada e do Estado de Engels ou em qualquer texto de Marx e Lênin sobre a condição da mulher. Quem falar que é transfobia ou ta viajando muito nesse surto coletivo ou é muito desonesto. O pior é se dizer marxista e ter medo assim da história.

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