A. M. Babu – Patrice Lumumba

African Concord, 29 de janeiro de 1987

Tradução por Guilherme Henrique


A ascensão de Patrice Lumumba à liderança política no Congo (Zaire) coincidiu com, ou foi provavelmente o resultado do fervor anticolonial que havia envolvido a África na época. Menos de dois anos antes de sua chegada à eminência internacional, quase ninguém conhecia o cenário político do Congo, e muito menos Lumumba.

No próprio Congo, ele era conhecido apenas por um punhado de seus camaradas que haviam formado um movimento político pouco convicto, com objetivos políticos muito limitados. O colonialismo belga era provavelmente uma das piores formas de colonialismo paternalista, que considerava seus “súditos coloniais” como pouco mais do que crianças. Todo o domínio destes no Congo estava envolto em segredo, com quase nenhuma notícia entrando ou saindo do país. O movimento Lumumbaista era, portanto, totalmente desconhecido fora de seu círculo imediato de camaradas que, por sua vez, quase nada sabiam sobre os movimentos políticos no resto da África. 

Assim, quando as delegações do Movimento Pan-Africano para a África Oriental e Central (PAFMECA) pararam por 3 dias em Leopoldville (hoje Kinshasa) em dezembro de 1958 a caminho de Acra, Gana e da primeira Conferência de Todos os Povos Africanos, as autoridades belgas lhes deram o que foi uma recepção real. Os delegados vieram a saber mais tarde que o objetivo dessa hospitalidade era realmente mantê-los o mais distantes possível do movimento político nascente no país. Eles foram apresentados a todos os “africanos importantes”, os chamados assessores que haviam atingido os “níveis de civilidade” aprovados pelo colonizador. Estes não fizeram outra coisa senão elogiar os belgas que estavam “ajudando os africanos a atingirem a maturidade”. 

Os belgas repetiam aos delegados do Oriente e da África Central que “não há política no Congo; não há desordeiros. Somos todos uma só família”. Esta situação feliz, porém, parecia estranha e até irreal para os políticos africanos emergentes que estavam prestes a declarar guerra ao colonialismo. 

No segundo dia de sua estadia, eles fizeram perguntas discretas entre os trabalhadores do hotel, se existia algum movimento político no país. Isto resultou, muito tarde naquela noite, em serem apresentados a Lumumba e seus camaradas em uma boate na região africana da cidade. Os congoleses estavam naturalmente desconfiados no início e queriam saber o que trouxe estes políticos da África Oriental para o Congo. Logo se revelou que os camaradas congoleses não tinham ouvido nada sobre a iminente Conferência em Acra naquele mês, embora ela tivesse sido amplamente divulgada em toda a África durante os seis meses anteriores ou mais. 

Após delinear os objetivos políticos de seu movimento, os lumumbaistas expressaram o desejo de participar também da Conferência de Acra, mas estavam com restrições financeiras, pois seu movimento era ainda muito jovem. A delegação do Quênia se ofereceu para pagar a passagem aérea de todos os cinco e, a partir de então, a política do Congo tomou um tom mais radical na história da África. Os eventos se aglomeraram em rápida e emocionante sucessão desde aquele dia em dezembro de 1958 até a trágica e prematura morte de Patrice Lumumba pelas mãos da CIA e de seus agentes locais. 

Com efeito, assim que Kwame Nkrumah foi informado da presença iminente da delegação congolesa na Conferência, ele deu instruções para que eles se encontrassem com ele assim que chegassem, e quando ele finalmente os encontrou, pediu-lhes que ficassem mais tempo em Acra após o término da Conferência. O compromisso de Gana com a independência do Congo, a partir de então, era a obsessão de Nkrumah.

Lumumba voltou ao Congo algumas semanas após a Conferência de Acra, e sua chegada se transformou em um evento político de magnitude nacional e de longo alcance. Ele emergiu imediatamente como líder nacional – um fenômeno desconhecido em um Congo que foi deliberadamente mantido dividido pelos colonialistas. Ele se tornou o “causador de problemas” que iria perturbar a felicidade que os belgas haviam alimentado durante muitas décadas passadas. Ele acendeu a centelha da liberdade que levou à independência do Congo muito antes de toda a África Oriental e Central, cujos delegados ajudaram a colocar ele e o Congo na arena política do mundo.

Não foi culpa de Lumumba que a independência do Congo fosse marcada pela caótica ameaça de mercenários estrangeiros, pela CIA, pelo Tchombeismo, e pela morte do Secretário Geral da ONU, Dag Hammerschold. O Congo sempre foi e continuará sendo um fator chave na geopolítica da África, para o bem e para o mal. Muitos interesses estavam em jogo, muitos especialistas, africanos e não-africanos, estavam envolvidos e havia muita ignorância sobre o país como resultado do domínio belga – tudo conspirou para fazer da história pós-colonial do Congo o que ela é.

É útil lembrar que na época da chegada de Lumumba ao poder, o mundo estava testemunhando um período extremamente perigoso do confronto global Leste/Oeste. Os EUA estavam apenas emergindo da histeria anticomunista do McCarthyismo. A “Guerra Fria” estava em curso e o poder dos EUA estava sendo desafiado internacionalmente. A União Soviética tinha acabado de fazer ganhos diplomáticos e psicológicos sem precedentes graças a seu dramático avanço na tecnologia espacial com seus Sputniks e suas façanhas de “caminhadas no espaço”. Na Ásia, o colonialismo e o imperialismo estavam sendo desafiados pela China e pelo Vietnã, ambos então identificados com a União Soviética. E na Argélia, a guerra revolucionária estava ensinando à África que o colonialismo francês era apenas “um tigre de papel”. 

Os sucessos tecnológicos da União Soviética significavam desmoralização nos EUA, pois isso era entendido como uma “derrota para os russos”. Ao mesmo tempo, os EUA estavam sendo desafiados por seus próprios aliados na Europa, pois de Gaulle na França estava alertando toda a Europa contra a emergente “ameaça da colonização norte-americana da Europa”. 

Assim, qualquer mudança no equilíbrio de forças na África era interpretada em termos de um “jogo de números” entre Leste e Oeste – um “mais” para os soviéticos significava um “menos” para os EUA e vice-versa. A “perda do Congo para os comunistas” teria significado um sério revés para a “credibilidade” global dos EUA, bem como para a estratégia militar, tal como então concebida. Os EUA, portanto, assumiram a responsabilidade de lutar em todas as frentes – contra a “intromissão soviética”, contra a intromissão europeia e especialmente “a intromissão de Gaulle”, e contra o emergente nacionalismo africano que tomou a forma de anti-imperialismo. Embora Lumumba tenha simbolizado e representado este último, ele foi deliberadamente considerado com um avanço da intromissão soviética a fim de encontrar um pretexto para sua liquidação imediata. 

Os europeus apoiaram Moise Tchombe para fazer avançar seus interesses no Congo; os EUA tiveram que fazer um “arranjo” com Kasavubu enquanto preparavam um substituto mais impiedoso para assumir o país em seu nome. Foi nesta atmosfera que Lumumba foi sacrificado por compatriotas africanos para fazer avançar os interesses das potências estrangeiras. 

Lumumba será lembrado como uma liderança no calibre dos grandes líderes pan-africanos. Embora sua proeminência como líder nacional tenha sido muito curta, sua imagem como combatente intransigente do imperialismo e como verdadeiro líder das massas africanas continuará sem dúvida a inspirar a geração emergente de combatentes africanos, cuja tarefa principal será a de atingir o objetivo mais desejado do pan-africanismo da África. Lumumba na independência foi um líder do povo do Congo; Lumumba após a independência e após sua morte foi transformado merecidamente em um líder eminente não apenas da África e do povo africano em todo o mundo, mas também em um líder dos povos oprimidos em todos os lugares. Este será o legado deste grande filho da África.

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