Lohana Berkins – O direito absoluto sobre nossos corpos

Texto traduzido do original ‘El derecho absoluto sobre nuestros cuerpos’, da pensadora e ativista transexual Lohana Berkins, nascida em Buenos Aires e publicado pela Revista América Libre, em dezembro do ano 2000.

Originalmente disponível no site Nuestra América.

Tradução por Teylor Lourival.


Eu sei que muitos se perguntam o que uma travesti faz nesse lugar. Porque muitas pessoas tem uma ideia absolutamente equivocada ou cheia de mitos do que é uma travesti. Eu quero dizer que também sou feminista. O primeiro problema que temos nós, travestis, é que nem a sociedade nem o estado reconhece o travestismo como nossa identidade. Uma das opiniões adversas maiores que temos é a das hierarquias eclesiásticas. A igreja nos demonizou absolutamente. Por exemplo, pensam que se vocês escutam uma travesti, vão terminar sendo travestis. Nos colocam como contagiosos. Posso lhes dizer que podem ficar tranquilos, que ninguém vai se transformar por me ouvir.

Outra coisa, é o tema de porque nós podemos falar de muitas coisas, mas o que mais faz vocês evitarem e escaparem é o do corpo. Eu amo perfeitamente meu corpo. Como disse Lucienne Stoine em 1845: “não quero direito à propriedade ou ao voto se não posso manter meu corpo como um direito absoluto”. Então aí começa nosso problema.

A realidade latino-americana é que o travestismo se dá entre os 8 e os 10 anos de idade. O primeiro que acontece é uma expulsão familiar e se sucede por uma posterior expulsão social. Esta sociedade não está preparada ainda para lhe dar algum tipo de suporte.

Na Argentina há três organizações de travestis, e nós trabalhamos com uma população direta de 3000 companheiras travestis. A idade de mortalidade de travestis na Argentina e em toda América Latina quase não passa dos 30 anos. As causas de morte são: mortas pela polícia, sem que o estado investigue nada. Outra casa são as indiscriminadas cirurgias. O sistema capitalista criou um só modelo de mulher: linda, doce, muito bonita, que é a mulher que consome o patriarcado. Então nós, quando começamos a viver nossa realidade, a única alternativa de sobrevivência que nos resta é a prostituição. Se eu parar, o máximo que posso conseguir são esmolas, porque tenho 92 quilos. Então, é tão forte a ideia da imagem, que as companheiras terminam sendo vítimas deste tema. Porque o que a sociedade nos diz é “tudo bem, se este menino não quer ser homem, que seja mulher. Mas não qualquer mulher, mas sim uma mulher esplêndida, como a travesti mais famosa do Brasil, Roberta Close. “Como Roberta Close ou nada”. Esses são os modelos que vão impondo. Neste tema se produzem situações de muitíssima violência. O fato de que nós estamos condenadas à prostituição atenta também contra nossa própria autoestima.

Eu sofri sete anos de encarceramento pelo mero fato de ter desafiado esta sociedade e ter dito “isto é o que sou”. Na Argentina, faz mais de 9 anos que nós começamos a nos organizar. A mudança mais profunda de produz através do conhecimento do feminismo, das lésbicas feministas. Então começamos a lutar, e temos um programa que se chama “construindo a cidadania travesti”. Obviamente, a palavra ‘cidadania’ não tem nada de liberalismo, mas sim um sentido muito mais amplo e revolucionária.

Apontamos para quatro coisas: a educação, a saúde, a alimentação e o trabalho. Na Argentina seguem sustentando fortíssimas leis que castigam o travestismo. Para que vocês entendam o que digo, eu estou absolutamente orgulhosa de ser travesti, e se voltasse a nascer, escolheria exatamente o mesmo. Mas esta sociedade maneja a coisa binária de homens e mulheres. Quando nascemos, a parteira te olha entre as pernas e diz: “tem um pênis” ou “tem uma vagina”. A isso se chama genitália, lhe adere um sexo, e ao sexo um gênero. E como dizia a companheira, não é o mesmo ser homem e ser mulher, muito menos em uma sociedade tão patriarcal e tão machista como a sociedade latino-americana. Então, se você não se comporta de acordo com a sua genitália, tens que se comportar como a outra opção, que é ser mulher. O que nós estamos propondo é que não somos nem homem nem mulher. Sou uma travesti, uma pessoa que tem uma genitália e que pode viver perfeitamente construída sob outra identidade ou sob outro gênero, que é o feminino. Por agora não há tantos modelos. Depois de 2000 anos de lutas, poderão dizer: “mulheres, homens, travestis… e uma lista interminável”, quando se forem se referir aos gêneros.

Nós começamos a atacar a hipocrisia burguesa. Porque no mundo, os homens castíssimos, se nos vem nos prostituindo nos chamam de ‘pecadoras’ e se pedimos por nossos direitos nos dizem ‘comunistas’. Então começamos a atacar a burguesia, a hipocrisia burguesa. Porque se há 10000 companheiras paradas todas as noites, é porque há 1000 homens que as consomem. De noite, tudo bem; mas de dia dizem: “matem-nas, acabem com elas, são o demônio”. Isso é uma hipocrisia. A sociedade pede castigo para quem se prostitui, mas não para quem consome.

Começamos a lutar. Em Buenos Aires, o Estado gasta 300 milhões de dólares para sustentar a polícia, que é a mesma polícia repressiva do processo, e não quer gastar nem dez mil dólares em educação, em capacitação, em ver-nos como sujeitos de direito.

Dentro de todas estas questões, também podemos ser socialistas e posso ser feminista. Não é que o único que eu sou é travesti. Quando falava do tema do “mito”, as pessoas pensam que somos libertinas, que estamos o dia todo na cama como a deusa Vênus, e que não nos importamos com o mundo. É outro estereótipo. Em nossa comunidade há de tudo, há companheiras que podem ser desse estilo, companheiras loiras, companheiras que tem 92 quilos, companheiras comunistas, temos uma diversidade. E temos essa diversidade porque somos pessoas. Eu vou dizer que as travestis são algo raro quando defecamos pela orelha ou comemos pelo nariz. Enquanto o façamos pelos mesmos lugares que vocês, não vejo motivo para o assombro.

Neste momento é que a sociedade começa a ficar meio louca. Porque não é que os incomoda que nós existamos. Eu vou pelo mundo, pareço uma senhora gordinha, e tudo bem. O problema começa quando nós começamos a pedir direitos. Quando nós dizemos: “parem de matar nossas companheiras, nos deem trabalho, educação, alimentação, saúde”. Aí é quando a sociedade fica frenética.

Para nós é bastante difícil. Algum dia eu gostaria que em um grande evento haja companheiras lésbicas, gays, travestis, participando sem discriminações dentro dos movimentos de luta. Porque não há lutas mais valiosas que outras. Se é por vítimas, nós temos vítimas. Se é por cárcere, conhecemos as carceragens. Se é por repressão, sofremos repressão. Então eu não vejo porque não se pode pensar de uma forma totalizadora e pedir por todos os direitos.

Por que, se eu vou a uma marcha contra o FMI, contra o imperialismo Yankee, por que não podem vir a nossas lutas também? Então, temos que falar destas questões como uma coisa cotidiana, porque nós somos cotidianas também. Nós vivemos em comunidades, vivemos em casas, temos famílias, amigos, amigas, pensamos. Então, a reflexão que queremos fazer é que estamos convencidas de que a sociedade precisa de uma mudança. Eu luto para mudar essa sociedade. Estou absolutamente contra o imperialismo, amo a liberdade. Mas não uma liberdade condicionada. Amo a liberdade absoluta, que cada um viva como queira. Amo absolutamente ser travesti. Por que pareceria que é de outro mundo?

Então, a reclamação que estamos fazendo é pela construção de uma sociedade sem nenhum tipo de opressão, ainda que pareça longe. Se falar “dos revolucionários”. E “as revolucionárias” onde estão? Estão aqui.

Temos que romper a coisa esquemática de gênero. Que o homem precisa ser o super-macho que grite e golpeie, e que a mulher cozinhe e que vá com sua amordaça para lá e para cá. Há mulheres revolucionárias que empunharam fuzis. E há homens que podem cozinhar, e não serão menos revolucionários.

Outro tema é o do afeto e do corpo. Por que podemos falar, e se neste momento eu digo “peguemos as armas” todo o mundo presta atenção, mas se eu dissesse “fiquemos nus, nos toquemos”, começaria o pânico absoluto. Por que preciso que ter vergonha do meu corpo, se o mais valioso que temos é o corpo? É o corpo para a vida, é o corpo para a luta. É o bem mais absoluto que temos.

Insisto na inclusão deste tema nas lutas. Creio que há que repensar absolutamente, e incluir. Também luto muito pelas pessoas sem terra, me comove absolutamente a pobreza, luto contra os ricos e contra todo tipo de opressão. O único que os deixo como reflexão é que vocês se somem à nossa luta. Nada mais.

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