Por que a Midgar de Final Fantasy VII é um dos lugares mais politizados dos videogames?

Tiptoe down to the lonely places”, canta Bilinda Butcher, da banda My Bloody Valentine, em “Loomer”, com sua melodia sutilmente letárgica saindo de uma névoa estática de vibrato, elétrico como a paisagem de Midgar.

Loomer é a segunda faixa de Loveless, o mesmo álbum anunciado por um outdoor acima dos paralelepípedos de onde a florista Aeris, após ter caído, se levanta, espana seu vestido e encontra Cloud Strife pela primeira vez.

O título do álbum será, anos depois, integrado ao cânone na forma de uma peça teatral no jogo Crisis Core, mas sua presença aqui ainda é inconclusiva. Mesmo assim, quando Bilinda Butcher canta sobre lugares sagrados, lugares solitários e “rostos iluminados cabisbaixos”, não é difícil pensar em Midgar. Uma cidade com favelas e megaconstruções, polícia secreta e vigilância, estratificação social e um profundo isolamento individual que surge onde a tecnologia cresce mais rapidamente que a noção de comunidade.

O futuro que Midgar mostra é o da progressão sem progresso. O do domínio industrial e da monocultura colonial do steampunk sem o romance e da paranoia-film-noir do cyberpunk sem o distópico prêmio de consolação da fibra óptica. Talvez mais significativamente, olhando em retrospecto através de uma lente suja de saliva de um RP de 2019, Midgar é uma cidade onde política está espalhada como néon abrasador.

A cidade, antes diversas pequenas colônias, foi conurbada em uma única metrópole pela empresa de energia Shinra. Isso foi alcançado através da construção de um disco acima de municípios e vilarejos separados, unindo suas geografias, comunidades e identidades em um único lugar. Onde antes havia nomes, agora há setores numerados. Aqueles moradores ricos o suficiente para comprar casas na parte de cima o fizeram, enquanto os pobres foram deixados abaixo em um processo de gentrificação tão comicamente desprezível que de uma hora para outra não conseguiam pagar pela merda da luz do Sol.

Do centro do disco ergue-se o panóptico prédio da Shinra. Uma proveitosa lembrança de que, como disse Tony Soprano, “shit runs downhill, money goes up”. A subordinação financeira de Midgar à Shinra, uma empresa de energia que alcançou o status de governo-mundial devido ao seu poderio bélico, faz lembrar, através de uma ampla reimaginação sci-fi, das cidades operárias que surgiam em volta de hotspots industriais e que agora ressurgem por causa das gigantes-monolíticas da tecnologia. O Facebook possui 56 acres de terra na Califórnia. O campus da Amazon em Seattle deve crescer 1 milhão de metros quadrados nos próximos cinco anos, abrigando 50.000 funcionários. Quando seu chefe é também seu senhorio, você corre o risco de perder muito mais que seu emprego se decidir sindicalizar-se.

Midgar surge no horizonte como uma representação dessa analogia profético-distópica de empresas monolíticas engaiolando seus empregados em economias privatizadas. Já vimos alguns depósitos da Amazon gamificar o trabalho ao oferecerem “Swagbucks” para “colaboradores” que atingem metas. Isso é assustadoramente comparável ao “company scrip”, crédito oferecido por uma empresa ao invés de dinheiro real, resgatável apenas para produtos feitos por ela, historicamente a preços inflacionados. Imagine isso por um instante: dinheiro de Monopoly com a lustrosa cabeça do Bezos inscrita, ainda presa ao seu pescoço e tal. É necessário apenas olhar para a crescente crise dos trabalhadores mais pobres — funcionários que recebem apenas o suficiente para permitir-lhes sustento e abrigo (geralmente seus próprios carros) para que possam voltar ao trabalho no dia seguinte — para perceber a linha tênue entre emprego e servidão por contrato.

Para os cidadãos de Midgar, a presença da Shinra em todos os aspectos de suas vidas é assustadora. Você termina seu turno em seu Shinra-emprego, retorna à sua Shinra-casa alugada e bebe Shinra-cerveja assistindo ao Shinra-noticiário em televisões movidas a energia Mako.

Perambulando pela cidade você encontrará pessoas morando em trens do metrô e vestindo suas melhores roupas para procurar por objetos de valor, sonhando com a luzidia e cintilante cidade de cima. Mas são as construções nas favelas que contam as histórias mais reveladoras sobre como é viver naquele lugar. A sucata industrial reutilizada que compõe essa arquitetura é ao mesmo tempo um soco-no-estômago enquanto forte representação da pobreza e um retrato da engenhosidade da classe trabalhadora. As pessoas montam lojas em ônibus e moram em enormes canos enferrujados. Os móveis são gambiarras com caixas de aço e fiação. Barracos rangem sob telhados de retalhos de zinco. Se seu pai conhecia um cara que tinha um primo que desbloqueava PS1 para que você pudesse pagar menos nos jogos, ou que consertava bicicletas, ou que vendia cigarros no ponto de ônibus, você viu uma versão mais cotidiana da luta pelo sustento diário — economias informais e meios de subsistência crescendo como grama no meio do concreto

Pouco depois da introdução de Final Fantasy VII, o simbolismo arquitetônico de Midgar, dos pobres sendo esmagados por aqueles de cima, toma uma forma tragicamente literal. Alegando retaliação contra o grupo de resistência Avalanche como desculpa, a Shinra envia sua polícia secreta, os Turks, para destruir o apoio que sustenta o gigantesco disco acima das favelas do Setor Sete. O disco é derrubado, destruindo tudo abaixo em um único ato de indiferença. Em sua confortável sala no topo da torre Shinra, o presidente ouve música clássica e analisa os danos de baixo.

Os ricos irão remodelar a cidade à maneira deles ou ao menos atendendo aos seus interesses. Seja por ação deliberada (como o Camden Market ou o desalojamento causado pelas Olimpíadas de Londres, ou que continua a acontecer lá), seja por negligência (como o incêndio da torre Grenfell). Em artigo para o The Guardian, Aditya Chakrabortty analisou como insignificantes atos de altruísmo conspícuo dá à elite parisiense passe-livre na reconstrução da Catedral de Notre-Dame. À medida que a riqueza se concentra, apenas os ricos podem financiar a preservação do passado e, assim, qualquer vestígio de história restante torna-se um testamento das conquistas de uma minoria. Marcos e espaços públicos são consolidados, privatizados e transformados em outdoors. Gucci apresenta: Catedral de Notre-Dame, reconstruída com fundos desviados de cofres públicos. Shinra apresenta: energia Mako, desviada do próprio planeta. Parece estranhamente presciente, enquanto assistimos os Tories desmantelarem e privatizarem os serviços públicos, que o único parque público das favelas acabe coberto em cinzas após o colapso do disco. Em becos improvisados de terra batida, habitações abandonadas dividem espaço com braços de mecha descartados e colunas greco-romanas. Mesmo antes do disco cair, as favelas de Midgar são, literalmente, a lata de lixo da história.

“Você sabe, Midgar deveria ser a cidade brilhante, com ar de primavera, elegante.”

Por outro lado, a cidade “sparkly n’ springy n’ sleeky” de cima é uma utopia a-histórica e de capitalismo tardio. Um lugar onde tanto o passado quanto o futuro são achatados em um falso “agora” espiritual. Os andares superiores da torre Shinra possuem não apenas cantinas, mas academias, armários e camas. É uma reminiscência de uma cultura generalizada de suprassumo corporativo em que o “self-care” é defendido não como um meio para alcançar a felicidade, mas para aumentar a produtividade. A socialização torna-se “networking”. Expressão artística, discussão, opinião e até mesmo a auto-vigilância patológica de nossas vidas em redes sociais tornam-se “conteúdo”. Aprendemos a ver tudo em termos de capital, até que o equilíbrio vida-trabalho torne-se “trabalho” e “tempo de descanso”.

A geógrafa Maria Kaika, como Paul Drobaszczyk observa em Future Cities, disse que arranha-céus demonstram uma “auto-absorção patológica” que os separa do resto da cidade. Eu falei principalmente sobre arte e enredo aqui, mas penso que é interessante ver como Midgar usa as convenções tradicionais de exploração em JRPGs para dizer algo. A comum divisão cidade/dungeon é reconfigurada. A dungeon mais extensa de Midgar não é um labirinto úmido e subterrâneo, é um arranha-céu brilhante. As casas nas favelas são super-abertas, acolhedoras e exploráveis, embora alguns moradores possam se irritar depois que entramos em suas casas e esgotamos as opções de diálogo. Por outro lado, o edifício Shinra é segmentado, isolado e extremamente paranoico com pessoas de fora. Nossa jornada para o topo da torre é subindo a escada corporativa, coletando cartões-chave para obtermos acesso aos estratos mais altos. Se há uma mensagem inspiradora aqui, é esta: o poder ilegítimo e a ganância empresarial sempre terão pavor de revelar seu funcionamento interno a qualquer um que ainda não esteja doutrinado nas besteiras de necessidade e legitimidade da marca.

“Mas eu apenas não consigo dar conta de sair daqui.”

Outra dungeon de Midgar que me marcou foi o cemitérios de trens onde Cloud, Aeris e Tifa chegam após passarem pelo esgoto sob a mansão de Don Corneo. Final Fantasy 7 é um jogo repleto de elementos sobrenaturais, explicados ou não, mas não acho que seja uma coincidência que os inimigos que se encontra nesse lugar sejam espíritos. O cemitério de trens é uma analogia urbana para um mausoléu: seus fantasmas são espectros de sonhos desvanecidos e memórias queridas que assombram esse espaço liminar entre inércia e movimento. Como qualquer pessoa no meio do nada diria, as estações de trem representam mais do que apenas um meio de transporte. Representam liberdade, mobilidade e a chance de construir algo melhor, algum lugar melhor, mesmo que você ainda não tenha como ou vontade de partir.

Tem um guarda do trem com um casaco-vermelho que fica na plataforma. Quando você fala com ele, ele começa a lembrar das esperanças e sonhos que desapareceram. Se você falar com ele novamente, ele voltará à forma profissional e repetirá para sempre as mesmas frias e funcionais informações sobre horários de partida. Penso que nesses breves momentos que ele se deixa levar que a verdadeira face de Midgar se revela. Uma cidade de olhos reluzentes, sufocada pelo pesadelo do capitalismo tardio a ponto de, parafraseando Fredric Jameson, ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que um trem para um lugar melhor.

Não é a música nem o combate nem os gráficos atualizados que me deixam mais ansioso pela chegada do remake de Final Fantasy 7. É poder ver uma Midgar expandida e seus habitantes em grande parte silenciosos em posição de destaque. É poder ver as histórias secundárias, os lamentos perdidos. É fazer outra viagem para os lugares solitários.


— Texto originalmente escrito por nic reuben para o VG247

— Traduzido por gustavo soares

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