Vladímir Ilich Lênin – O Resultado e o Significado das Eleições Presidenciais nos EUA

Publicado no Pravda No.164, em 9 de Novembro de 1912.

Originalmente disponível no site Marxists.

Tradução por Andrey Santiago, a partir da versão em inglês e de português de Portugal.


Wilson, um “Democrata”, foi eleito presidente dos Estados Unidos da América. Ele obteve mais de seis milhões de votos; Roosevelt (novo Partido Nacional Progressista) – mais de quatro milhões; Taft (Partido Republicano) – mais de três milhões; o socialista Eugene Debbs – 800 mil votos.

O significado mundial das eleições americanas não reside tanto no fato de que aumentou fortemente o número dos votos socialistas; – o significado das eleições americanas consiste em ter revelado a enorme crise dos partidos burgueses, a surpreendente força que adquiriu a sua decomposição. Finalmente, o significado destas eleições é ter mostrado de uma forma excepcionalmente clara e viva o reformismo burguês como meio de luta contra o socialismo

Em todos os países burgueses, os partidos que defendem o ponto de vista do capitalismo, i.e., os partidos burgueses, formaram-se há muito tempo e são tanto mais sólidos quanto maior é a liberdade política

Nos EUA essa liberdade é a mais completa. E dois partidos burgueses distinguiram-se aqui por uma notável solidez e força, ao longo de todo um meio século – depois da guerra civil por conta da escravidão, em 1860-1865. O partido dos antigos proprietários de escravos é o chamado “Partido Democrata”. O partido dos capitalistas, que defendia a libertação dos negros, veio a ser o “Partido Republicano”.

Depois da libertação dos negros, as diferenças entre os dois partidos tornaram-se cada vez menores. A luta entre estes partidos era travada predominantemente em torno do nível mais ou menos elevado dos direitos aduaneiros. Esta luta não tinha qualquer significado relevante para as massas populares. Os dois partidos enganavam o povo, desviavam-no dos seus interesses vitais, através dos seus duelos espetaculares e vazios de conteúdo.

Este chamado “sistema de dois partidos”, que prevalece nos EUA e na Inglaterra, é um dos meios mais poderosos para impedir a formação de um partido operário independente, i.e., realmente socialista.

E eis que nos EUA, o país do capitalismo mais avançado, o sistema de dois partidos faliu! A que se deveu esta falência?

À força do movimento operário, ao desenvolvimento do socialismo.

Os velhos partidos burgueses (“democrata” e “republicano”) estavam voltados para o passado, para a época da libertação dos negros. O novo partido burguês, o Partido Nacional Progressista está voltado para o futuro. Todo o seu programa gira em torno da questão de saber se deve ou não o capitalismo existir e mais concretamente em torno de questões como a proteção dos operários e os “trusts”, como são chamados nos EUA os consórcios capitalistas.

Os velhos partidos são produto de uma época cuja tarefa consistia em acelerar ao máximo o desenvolvimento do capitalismo. A luta entre estes partidos limitava-se à questão de qual a melhor forma de acelerar e facilitar este desenvolvimento.

O novo partido é um produto da época atual, que coloca em questão a própria existência do capitalismo. No país mais livre e avançado, os EUA, esta questão é colocada cada vez com mais clareza e frequência.

Todo o programa, toda a propaganda de Roosevelt e dos “progressistas” giram em torno da questão de como salvar o capitalismo através de… reformas burguesas.

Esse reformismo burguês, que na velha Europa não passa de palavreado de professores liberais – este reformismo burguês emergiu de uma só vez na república americana livre como um partido de quatro milhões. Isto é à americana.

– Salvaremos o capitalismo com reformas – diz este partido. – Criaremos a legislação laboral mais avançada. Submeteremos ao controle do Estado todos os trusts (nos EUA isto significa toda a indústria!). Submeteremos ao controle do Estado para que não haja miséria, para que todos recebam um salário “decente”. Estabeleceremos a “justiça social e industrial”. Juramos fazer todas as reformas… só não queremos uma “reforma”: a expropriação dos capitalistas!

Nos EUA, a riqueza nacional total eleva-se hoje a 120 bilhões de dólares, i.e., a cerca de 240 bilhões de rublos. Cerca de um terço deste montante, perto de 80 bilhões de rublos, pertence aos dois trusts Rockfeller e Morgan ou é controlado por eles! Cerca de 40 mil famílias, que detêm estes dois trusts, reinam sobre 80 milhões de escravos assalariados.

É evidente que enquanto existirem estes escravistas modernos, todas as “reformas” são uma mera fraude. Roosevelt está deliberadamente a mando de milionários astutos para propagandear esta fraude. “O controle do Estado” que ele promete irá se transformar – enquanto o capital estiver nas mãos dos capitalistas – num meio de luta contra as greves e da sua asfixia.

Mas o proletariado americano já despertou e está vigilante no seu posto. Acolhe com uma ironia alegre os êxitos de Roosevelt: Seduzistes quatro milhões de pessoas com as suas promessas de reformas, senhor charlatão Roosevelt? Muito bem! Amanhã esses quatro milhões verão que as suas promessas são uma fraude, na realidade esses milhões nos seguem apenas porque sentem que é impossível viver como antes.

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