Walter Rodney – A Crítica do Stalinismo

Originalmente publicado no livro “The Russian Revolution: A View from the Third World” de Walter Rodney, lançado pela Verso Books.

Tradução por Guilherme Henrique.


Outra crítica que decorre da afirmação de que a eclosão da Revolução Russa contradisse o marxismo ao ocorrer em um país atrasado é a afirmação de que, na transformação da sociedade russa, a ideologia e a liderança assumiram o papel dominante. Marx disse que a ideologia e a liderança política faziam parte da superestrutura de uma sociedade e eram dependentes de sua base – isto é, do modo de produção. Os críticos burgueses argumentam que sob Stálin os papéis foram invertidos: em vez da base afetar a superestrutura foi a superestrutura que transformou a base. A consciência precedeu a realidade material e, assim, refutou o materialismo dialético.

Mais uma vez, essa crítica pode ser enfrentada em dois níveis. Em primeiro lugar, o que Marx e Engels disseram? E em segundo lugar, como um marxista aplicaria sua análise? Marx e Engels, sem dúvida, deram ênfase a base econômica ou material como a maior força determinante na história humana, mas isso não significa que houvesse uma relação de mão única entre matéria e consciência. Marx indica isso quando diz que a consciência em um determinado momento é um reflexo do modo de produção mais as ideias herdadas do passado. A consciência em um determinado momento é mais do que um reflexo passivo do atual modo de produção. Além disso, as ideias (de onde quer que sejam derivadas) interagem com a base material. (1)

Marx e Engels advertiram explicitamente contra o uso da concepção materialista de qualquer maneira grosseira que sugerisse que a dialética era apenas unilateral – com a matéria afetando a consciência e não o contrário. Após a morte de Marx, Engels teve motivos para advertir outras pessoas que se autodenominavam marxistas contra a aplicação mecânica da dialética. Em uma carta a Joseph Bloch escrita em 1890, Engels escreveu:

De acordo com a concepção materialista da história, o elemento determinante na história, em última instância, é a produção e reprodução da vida real. Mais do que isso, nem eu nem Marx jamais afirmamos. Assim, se alguém distorce isso dizendo que o desenvolvimento econômico é o único determinante, ele transforma essa proposição em uma frase sem sentido, abstrata e vazia. A situação econômica é a base, mas os vários elementos da superestrutura: as formas políticas da luta de classes e seus resultados… também exercem sua influência no curso das lutas históricas e, em muitos casos, preponderam na determinação de sua forma. Nós mesmos fazemos história, mas, em primeiro lugar, sob pressupostos e condições muito definidas. Entre estes os econômicos são, em última análise, decisivos. Mas os políticos, etc., e mesmo as tradições que assombram as mentes humanas também desempenham um papel, embora não o decisivo. (2)

Alguns anos depois, Engels escreveu uma carta a Heinz Starkenburg (1894) na qual levanta esse mesmo ponto. (3)  Portanto, os indivíduos que não levam em consideração esses esclarecimentos específicos ou são incapazes de entender, ou deliberadamente tentam retratar o marxismo como uma forma bruta de determinismo econômico. No entanto, um grande número de críticos simplesmente afirma que o uso da iniciativa política para transformar a sociedade não é marxista. (4)

Passemos à segunda questão: como um marxista aplicaria a teoria à prática? A China apresentou uma situação muito semelhante à da Rússia. De fato, a China era ainda mais atrasada, de modo que também aí a revolução dependia de um partido consciente que liderasse a transformação da base econômica. Mao Zedong explicou o curso de ação apontando mais uma vez para a dualidade da dialética. Há dois opostos envolvidos e cada um influencia o outro; às vezes um predomina e às vezes o outro. Aquele que predomina, Mao Zedong chama de “aspecto principal da contradição”. Ele explica em termos semelhantes a Engels que:

enquanto reconhecemos que, no desenvolvimento geral da história, o material determina o espiritual e o ser social determina a consciência social, nós também – e de fato devemos – reconhecer a reação do espiritual sobre as coisas materiais, da consciência social sobre o ser social e da superestrutura na base econômica. Isso não vai contra o materialismo; pelo contrário, evita o materialismo mecânico e defende firmemente o materialismo dialético. (5)

Ao exposto, podem-se acrescentar duas outras observações. Em primeiro lugar, os escritores burgueses não conseguem levantar a questão “de onde deriva a consciência do partido?”. A resposta é que derivou do modo de produção dentro e fora da Rússia. O fato de que o imperialismo fez do mundo um sistema único, definitivamente facilitou isso. Não é possível que a consciência se eleve no vácuo. O próprio Marx deixou claro que sua própria ideologia era um produto histórico – surgiu em um determinado ponto da história quando o modo de produção permitiu. Em outras palavras, Marx não poderia escrever sobre uma sociedade capitalista até que tal sociedade aparecesse. Nem poderia Lênin dizer que “o comunismo é o poder soviético mais… eletrificação” (6) até depois que a técnica de aproveitamento da eletricidade para o poder foi dominada. Os soviéticos não estavam criando uma base econômica a partir da ideologia. Eles estavam usando a consciência derivada da realidade para transferir do capitalismo, técnicas que já existiam. A revolução soviética pode ter ocorrido antes da industrialização dentro do mundo imperialista. Tal entendimento expõe a falácia dos argumentos apresentados por escritores como John Plamenatz. (7)

Em segundo lugar, entre todos os escritores burgueses, há uma tendência a negligenciar o papel das massas como se fossem vítimas passivas ou beneficiários passivos da transformação. Na verdade, as conquistas da revolução só foram possíveis por causa do tremendo esforço do povo. Os historiadores soviéticos enfatizam isso com razão, embora às vezes eles também caiam em lapsos em que parecem atribuir desenvolvimentos cruciais ao trabalho de Lênin ou ao trabalho do partido ou de Stálin e não ao povo. A própria participação popular na revolução foi impelida pela consciência surgida da noção de estar atrasado e explorado. Essas noções foram consideradas possíveis porque o capitalismo externo havia invadido as formas menos avançadas de organização social na Rússia czarista, o que é novamente uma reflexão sobre a relevância de colocar a discussão em um contexto imperialista.

Nos escritos históricos sobre o período de transformação na URSS, vários outros pontos são levantados para desafiar o direito dos soviéticos de chamar suas realizações de “marxistas.” Às vezes, essas acusações vêm de não marxistas, e outras vezes de marxistas. É claro que os não marxistas ou a burguesia muitas vezes recorrem aos argumentos de outros marxistas para obscurecer a questão e descartar tanto o marxismo quanto a Revolução Russa. Invariavelmente, eles se voltam para os trotskistas para confirmação. Como discuti no capítulo 4, Trotsky foi forçado ao exílio por Stálin em 1928, e de sua posição fora do país ele escreveu uma série de obras históricas e polêmicas sobre a União Soviética. Ele também atraiu um considerável número de seguidores intelectuais, muitos dos quais escreveram panfletos e livros. O mais notável de todos do ponto de vista histórico são as obras do próprio Trotsky – notadamente, A Revolução Traída – e as obras de Isaac Deutscher, que incluem biografias de Stálin e Trotsky. (8)

Dos escritos de Trotsky e Deutscher, quatro pontos diferentes, mas intimamente relacionados emergem: (1) Stálin encorajou o “socialismo em um país” em vez de socialismo internacional; (2) o Estado não murchou, mas tornou-se mais opressivo e burocrático; (3) as desigualdades sociais e econômicas foram fomentadas; e (4) houve um inadmissível elemento de força na construção do socialismo. Vou abordar cada uma dessas afirmações em ordem.

Socialismo em um só país

Marx e Engels imaginaram que, em última análise, o Estado-nação desapareceria, uma vez que funcionava como um veículo para expressar o interesse de uma determinada classe. Essa foi a ideia deles por trás da declaração mundialmente famosa no Manifesto Comunista: “Proletariado do mundo, uni-vos.” (9) Foi esse senso de internacionalismo que motivou Lênin a se opor à participação dos trabalhadores na Primeira Guerra Mundial; e todos os líderes bolcheviques em 1917 sentiram que a revolução era iminente nos países mais desenvolvidos do Ocidente. Isso permitiria fazer do socialismo um fenômeno mundial, ou pelo menos europeu.

Trotsky acusou Stálin de ter tido uma mentalidade nacional chauvinista que o induziu a pensar em construir o “socialismo em um país” – ou seja, na União Soviética, abandonando trabalhadores em outros lugares. Em A Revolução Traída há um apêndice intitulado “Socialismo em um país”. Lá e em outros lugares, Trotsky atacou Stálin por promover essa noção errônea em oposição ao genuíno internacionalismo marxista. Trotsky alega que foi uma distorção do marxismo apresentar a teoria de que a Rússia atrasada por si só era capaz de construir o socialismo. Foi mais do que apenas um debate teórico, no entanto. Trotsky analisa a política da Comintern (que era o ramo de política externa da União Soviética) e sugere que, através da Comintern, Stálin traiu os comunistas chineses ao dar apoio a Chiang Kai-shek. (10)

Trotsky e Deutscher veem a maioria das distorções do período de Stálin como decorrentes de sua tentativa de construir o socialismo apenas na Rússia atrasada, em vez de a construção do socialismo na Rússia prosseguir simultaneamente com a construção do socialismo nos países mais avançados, para que estes pudessem ajudar Rússia. De fato, dificilmente se pode negar que a tentativa de construir o socialismo somente na Rússia teve certas consequências infelizes, que Trotsky e Deutscher apontam. Mas como crítica a Stálin e ao partido sob Stálin, o ataque ao “socialismo em um só país” é muito vazio. Para ser efetivo, o argumento deve mostrar que Stálin traiu certas revoluções, mas essa é uma linha de abordagem muito ineficaz porque as revoluções sociais genuínas têm suas raízes na localidade em que ocorrem. O fracasso das revoluções na Europa Ocidental foi uma função do imperialismo, que fortaleceu sua burguesia e desarmou os trabalhadores. Stálin e o Partido Comunista Russo e a Comintern não tinham controle sobre isso. (11)

Se alguém concorda que Stálin não foi o culpado pela ausência de revoluções em outros lugares, então é inteiramente lógico que ele deveria ter prosseguido por conta própria. Isto é, a menos que a inferência seja que a Rússia deveria ter abandonado sua transformação social até que os trabalhadores se revoltassem na Grã-Bretanha! Mesmo o próprio Trotsky não tinha intenção de fazê-lo, e seus comentários como historiador entram em conflito com essa política quando no poder, pois em 1925 ele era um dos líderes da “facção da superindustrialização” na União Soviética. Naquela época, Trotsky estava insistindo para que a Rússia se industrializasse rapidamente. (12) Como ele critica Stálin pelo que ele mesmo aconselhou, só se pode concluir que a posição de Trotsky é condicionada pela amargura por ter sido derrotado na luta pelo poder. Para ser franco, considerações pessoais obscureceram o julgamento de Trotsky e torna-se difícil fazer qualquer distinção entre Trotsky, o antagonista político e Trotsky, o historiador.

Burocracia

Marx faz uma previsão muito significativa de que sob o comunismo o Estado, como o conhecemos, começará a definhar e finalmente desaparecer. O Estado como definido por Marx é um instrumento de coerção nas mãos de uma determinada classe, portanto, se e quando uma sociedade sem classes for produzida, o Estado desaparecerá. Marx nunca discutiu o momento desse desaparecimento em detalhes e, portanto, tem sido uma questão de debate exatamente em que ponto isso é previsto.

Trotsky argumenta que “a morte do Estado começa […] no dia seguinte à expropriação dos expropriadores” – isto é, depois que a propriedade burguesa foi apreendida. (13) Na Rússia soviética, a burguesia foi expropriada e eliminada como classe, mas um novo estado burocrático começou a aparecer e ganhou grande força sob Stálin. Aqui, novamente, o problema é determinar se o crescimento da burocracia foi responsabilidade de Stálin. Se assim for, pode-se concordar com Trotsky que, ao fomentar a burocracia, Stálin traiu a revolução. No entanto, em um exame minucioso, descobre-se que Trotsky e Deutscher explicam por que o Estado burocrático foi uma consequência inevitável da situação histórica da Rússia. O crescimento da burocracia, eles admitem, começou sob Lênin. Ele estava ciente de que o controle burocrático ameaçava a democracia operária genuína e lutou para manter a burocracia sob controle, mas mesmo assim ela cresceu – tanto em número quanto em influência. Trotsky explica que a desmobilização do Exército Vermelho de 5 milhões teve um papel importante na formação da burocracia. Os comandantes vitoriosos assumiram cargos de direção nos sovietes locais, na economia e na administração, excluindo as massas da participação efetiva na liderança. Isso foi em 1922, quando Trotsky e Lênin eram figuras-chave na liderança política. (14) As origens da burocracia soviética dificilmente podem ser atribuídas a Stálin.

Havia três áreas em que a burocracia era necessária: a administração, a economia (que, claro, era toda pública) e dentro do próprio Partido Comunista. Trotsky dá maior ênfase a este último: os burocratas substituíram e passaram por cima de ativistas e revolucionários genuínos, causando a degeneração do partido. Uma das principais obras de Deutscher, Stálin: A Political Biography, é o seu relato de como Stálin acumulou poder através do desenvolvimento e controle da máquina burocrática do partido. Stálin ocupou certos cargos-chave na administração política, como comissário para as nacionalidades e comissário da Inspetoria Operária e Camponesa (uma espécie de máquina de ouvidoria). Quando se tornou secretário-geral, Stálin havia ocupado vários cargos com seus próprios capangas e “homens que só dizem sim”. Deutscher explica que, na ausência de uma forte classe trabalhadora e de alto nível geral de cultura, a burocracia foi capaz de assumir como uma camada que exerce o poder em nome dos trabalhadores e camponeses. Mas como não havia controle operário sobre eles, estabeleceram uma ditadura burocrática. (15)

Aqui podemos lembrar a importante distinção de Marx entre trabalho mental e manual. Aqueles com educação pertencem à primeira categoria, e eles inevitavelmente dominariam o último. Somente a educação geral poderia abolir essa divisão. A Rússia Soviética começou com uma minoria da população na categoria de trabalhadores mentais. Essa minoria constituía a burocracia (em sua maior parte), e eles dominaram a maioria. Com efeito, portanto, a ascensão do Estado burocrático foi em si uma consequência do atraso russo, e não culpa de Stálin ou do partido sob Stálin. No máximo, a burocracia poderia ter sido limitada por uma falta de liderança consciente como a que Lênin era capaz de dar, mas mesmo isso não era certo. Trotsky cita a esposa de Lênin, Krupskaya, dizendo da Oposição de Esquerda em 1926: “Se Ilyich [Lênin] estivesse vivo, ele provavelmente já estaria na prisão”. (16) Os burocratas eram tão poderosos e tão interessados ​​em dirigir o espetáculo que, como sugere Trotsky, eles escolheram Stálin e não o contrário. Embora isso entre em conflito com os pontos de vista de Deutscher, é mais logicamente consistente. De qualquer forma, o próprio Deutscher acreditava que o fenômeno do governo burocrático Stálinista era um produto direto do atraso da Rússia.

As críticas trotskistas soam extremamente vazias porque criticavam coisas que eles admitem que não poderiam ter sido evitadas. Trata-se, portanto, de crítica pela crítica. A mesma característica é encontrada em suas declarações sobre o aumento das desigualdades

O elemento da ditadura na transformação soviética

Como indicado acima, outra característica importante do retrato negativo da história soviética é a acusação de ditadura. Porque o partido bolchevique baniu todos os outros partidos, foi considerado ditatorial; e porque Stálin eliminou seus próprios rivais no Partido Comunista, ele foi capaz de estabelecer uma ditadura pessoal. Muitos dos ataques contra Stálin são bem fundamentados em fatos e, assim, fornecem uma base incontestável para usar linguagem emotiva para ridicularizar o socialismo como um todo. Os críticos, acima de tudo, referem-se aos grandes expurgos políticos de 1936-8, durante os quais Stálin prendeu, exilou ou executou um grande número de membros do Comitê Central e estendeu suas campanhas de eliminação para administradores, gerentes e técnicos da indústria. A classe de oficiais do exército soviético foi particularmente atingida.

Leonard Schapiro fala dos expurgos como “o banho de sangue nacional no qual a Rússia seria mergulhada”. (17) Ele diz que os críticos eram chamados de contrarrevolucionários, pessoas que falharam em alcançar o impossível eram chamados de sabotadores. Os campos de concentração estavam cheios de pessoas inocentes. E a polícia secreta (Cheka) passou a dominar todo o Estado sob supervisão de Stálin. Todas as acusações que Stálin fez para deportar pessoas para a Sibéria ou para executá-los eram falsos, mesmo quando as pessoas “confessavam”. (18) Uma comparação com Hitler está sempre à espreita em algum lugar no pano de fundo dos escritos burgueses sobre Stálin. Durante a Segunda Guerra Mundial, o povo soviético travou uma grande parte da luta contra Hitler, e os capitalistas na Grã-Bretanha, França e Estados Unidos estavam muito dispostos a ter os soviéticos como aliados contra Hitler. Mas, terminada a guerra, foi possível voltar à interpretação de que a ascensão do fascismo na década de 1930 foi um fenômeno comparável ao comunismo. A maneira particular com que Schapiro evoca a comparação com Hitler em seu livro sobre o governo soviético é bastante sutil. Ele diz que, para o povo russo, “Hitler parecia superar até mesmo Stálin em sua desumanidade.” (20) Assim, ele dá a Stálin o benefício da dúvida, mas, ao mesmo tempo, ele projeta essencialmente a mesma imagem de dois seres desumanos – um representante do fascismo alemão, o outro do comunismo russo.

A interpretação histórica burguesa de Stálin foi muito eficaz em grande parte do mundo que até recentemente estava politicamente subjugado à Europa Ocidental, e que até agora é culturalmente colonizada pela burguesia da América do Norte e da Europa. Não era preciso ler um livro de história para saber que Stálin era um monstro terrível. Esse “fato” foi assumido em cada publicação de uma enciclopédia a uma história em quadrinhos. Nos territórios coloniais, fazia parte da advertência usada contra os movimentos de independência, que eram invariavelmente descritos como “comunista” ou “de inspiração comunista”, e muitos sermões foram pregados em nossa parte do mundo contra os perigos e males do comunismo ateu – como exemplificado sob o governo de Stálin na década de 1930 em particular.

Os historiadores soviéticos fizeram, em certa época, uma negação vazia das acusações levantadas pelo Ocidente contra Stálin, ou defenderam a reputação de Stálin sem admitir que algo estava fundamentalmente errado. Conforme discutido no capítulo 7, foi somente após a morte de Stálin que as autoridades soviéticas começaram a oferecer novas explicações para suas políticas, ou para o regime em geral. Para ser mais preciso, foi depois do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética em 1956 que se tornou a política oficial criticar Stálin. Alguns escritores referem-se aos anos após 1956, quando muitas das políticas de Stálin foram rejeitadas ou modificadas, como período de “deseStálinização”. O Volume 2 de A Short History of the USSR inclui uma seção dedicado ao “impacto histórico do XX Congresso do Partido” no qual relata ter “examinado a questão do culto de Stálin e suas consequências” e expôs seus erros:

O culto de um indivíduo é estranho ao espírito do marxismo-leninismo. São as pessoas os verdadeiros criadores da história. O marxismo-leninismo não nega o importante papel desempenhado pelos líderes da classe trabalhadora, mas condena qualquer engrandecimento de personalidades, porque tal engrandecimento inevitavelmente relega o povo e o Partido para segundo plano e menospreza seu papel na história. (21)

Estes são os termos em que os historiadores soviéticos costumam avaliar os eventos desacreditáveis ​​dos expurgos e outras coisas realizadas por Stálin.

Há, de fato, outra seção importante, intitulada “Stálin Personality Cult”. De acordo com historiadores soviéticos, as coisas estavam indo bem sob Stálin até o início da década de 1930. Em 1934, no entanto, Stálin começou a assumir o crédito por tudo o que foi feito na transformação da Rússia soviética até essa data. Ele usurpou as funções do congresso do partido e aboliu a Inspetoria de Trabalhadores e Camponeses, que foi estabelecida como um controle sobre a Liderança. Stálin então passou a violar os princípios de liderança coletiva estabelecidos pelo partido, e os piores elementos de seu próprio caráter vieram à tona. “Stálin então passou a acreditar que ele era infalível e começou a se afastar cada vez mais dos padrões e princípios leninistas da vida partidária, violando o princípio da liderança coletiva e abusando de sua posição. As características negativas de sua personalidade – incivilidade, deslealdade aos dirigentes do partido, intolerância à crítica, administração por injunção – vieram à tona”. (22) Historiadores soviéticos admitem que Stálin flagrantemente infringiu a legalidade socialista e engajou-se em vitimização pessoal contra pessoas honestas no partido e fora dele, com a ajuda de capangas como Lavrentiy Beria, Vyacheslav M. Molotov e Georgi Malenkov. Isso foi possível porque as pessoas comuns passaram a confiar e acreditar em Stálin, inconsciente de seus numerosos abusos até depois de sua morte. Escritores soviéticos concluem, no entanto, que o culto da personalidade não poderia mudar a natureza da sociedade soviética nem parar seu desenvolvimento posterior.

Ao enfrentar algumas das atrocidades da era de Stálin, a historiografia soviética percorreu um caminho considerável para se tornar mais credível. É mais fácil combater as implicações distorcidas dos escritos burgueses se reconhecermos onde foram cometidos grandes erros no processo de transformação soviética. Mas a denúncia soviética de Stálin não é inteiramente convincente. É impossível culpar Stálin e alguns outros indivíduos, concluindo que o Partido Comunista estava o tempo todo liderando corretamente o povo soviético. Esta contradição é descaradamente trazida nas páginas A Short History of the USSR. Na página 178, os autores explicam que o socialismo havia triunfado na Rússia em 1938, “garantido pela direção correta dada pelo Partido Comunista, que organizou e inspirou as vitórias do socialismo”. Eles avançam a visão de que a Constituição de 1936 registrou “o triunfo do socialismo e forneceu as bases para uma ampla democracia socialista”. Duas páginas depois, eles denunciam Stálin por ter “flagrantemente infringido a legalidade socialista” ao remover a autoridade do partido sobre o Comissariado do Povo para Assuntos Internos e “colocando sob seu próprio controle.” (O Comissariado do Povo para Assuntos Internos, ou NKVD, tornou-se a força policial secreta de Stálin.) Ele continuou a fazê-lo apesar da Constituição de 1936. (23) Se Stálin pôde tão fácil e antidemocraticamente minar a autoridade do partido, como o partido poderia ter oferecido uma liderança correta de 1934 a 1938?

Para reiterar, tanto as conquistas quanto os fracassos da época de Stálin devem ser atribuídos ao povo soviético como um todo e ao Partido Comunista, em particular. Quaisquer que sejam as consequências trágicas que recaiam sobre o partido sob a liderança de Stálin, devem ser consideradas uma séria distorção em toda a sociedade. Como a erudição burguesa estava simplesmente interessada ​​em fabricar propaganda hostil e os escritores soviéticos fecharam os olhos ou pediram desculpas, os fenômenos de violência social e política sob Stálin não foi objeto de uma profunda análise sócio-histórica. (24) Os historiadores burgueses acham conveniente dizer que as fraquezas sob Stálin eram uma parte inerente da filosofia marxista ou pelo menos do marxismo sob Lênin e os bolcheviques. Portanto, não há necessidade de dar qualquer explicação histórica séria sobre por que profundas distorções apareceram na sociedade soviética na década de 1930. Para eles, Stálin estava apenas manifestando de forma mais completa as tendências ditatoriais e tirânicas do próprio Lênin, e todo o processo pode ser rastreado até quando os bolcheviques tomaram o poder em outubro de 1917. Esse foi o início da ditadura.

Mesmo na ausência de um estudo socioeconômico sério, pode-se discernir algumas evidências de um verdadeiro declínio após a morte de Lênin. Os padrões ideológicos caíram, acelerados pela eliminação da velha guarda bolchevique da era pré-1917. Em 1936, Stálin era o único que restava na Rússia desse grupo original. Marxistas comprometidos e maduros foram substituídos por uma geração de oportunistas e bajuladores que muitas vezes compensavam sua falta de insights socialistas por seu zelo em perseguir pessoas que eles definiram como inimigos. Lênin havia advertido contra tais tipos e os mantinha sob controle. (25) Mas sob Stálin, eles foram nomeados para os cargos mais altos. Um desses analfabetos ideológicos foi Beria, que se tornou o poderoso chefe de polícia. (26)

Não é correto dizer que o culto a Stálin não mudou a natureza da sociedade soviética. Em grande medida, o problema político na União Soviética depois de 1956 foi como remodelar a sociedade soviética e romper com a estrutura na qual foi moldada sob o governo de Stálin. Muito claramente, houve uma distorção considerável do socialismo na época anterior. Os historiadores soviéticos tentaram mitigar as tendências infelizes do período de Stálin, principalmente levando em conta a intensidade da atividade contrarrevolucionária interna e externa. Embora seja verdade que certos críticos foram suprimidos sem levar em conta seus direitos, é igualmente verdade que muitos críticos eram hostis ao regime e estavam empenhados em minar o Estado. A experiência soviética demonstrou as várias maneiras pelas quais a contrarrevolução poderia se manifestar na sociedade socialista moderna. Não era apenas a pessoa que visava matar um funcionário do partido que era perigosa, mas também o sabotador econômico, que tentou prejudicar a administração econômica por meio de práticas de mercado negro ou deliberadamente desacelerando a produção. Para erradicar tais indivíduos exigia-se uma extensão da máquina da polícia secreta. Certamente foi um abuso, mas era uma necessidade em um período em que o inimigo ainda não havia sido esmagado e estava recebendo ajuda das potências capitalistas e organizações externas. Numerosos “russos brancos”, mencheviques e SRs, tinham organizações em países capitalistas que os governos ocidentais encorajavam em suas tentativas de minar o estado soviético. (27)

Toda vez que um estado socialista passa a existir, é provável que descubra que sua sobrevivência entra em conflito com alguns dos princípios de justiça que idealmente gostaria de abraçar. Quem pode garantir que os direitos de todos os cidadãos serão totalmente protegidos quando as forças de segurança tomarem medidas justificáveis no interesse do Estado e dos cidadãos como um todo? É bom reconhecer que o Estado soviético estava operando em um mundo real e tinha primeiro que garantir sua existência. Em última análise, no entanto, enquanto a transformação soviética tenha se afastado das normas socialistas de muitas maneiras, continua sendo uma alternativa superior ao capitalismo e à democracia burguesa na perspectiva dos trabalhadores e camponeses. Além disso, em nenhum momento foi equivalente ao fascismo.

O fascismo é um produto do capitalismo em crise. Foi uma tentativa de resgatar a essência do sistema explorador capitalista enquanto afirma ser representativo de todos os interesses, como os da classe trabalhadora, da burguesia e da igreja. Os maiores capitalistas na Alemanha inicialmente concordaram com o partido de Hitler porque ele prometeu melhorar suas posições em relação aos capitalistas dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Ao mesmo tempo, os alemães da classe média baixa e a classe trabalhadora foram encorajados a acreditar que sua sorte seria melhor subjugando povos de todas as outras raças e religiões – povos latinos, eslavos, judeus e africanos. Depois de serem alimentados com as doutrinas racistas supremacistas, um grande número de alemães entregou voluntariamente seu próprio poder nas mãos da pequena camarilha que deveria realizar a escravização de pessoas não alemãs. No processo, surgiu uma ditadura – isto é, um governo que não governou por nenhuma outra sanção além do princípio da força – como nunca foi remotamente verdade para o regime soviético. (28)

Um excelente exemplo contemporâneo de um sistema fascista é a África do Sul. Brancos de todos classes estão convencidas de que a única maneira de proteger seu próprio bem-estar é através da permanente repressão e exploração dos africanos. Eles aceitaram a doutrina da superioridade racial branca, assim como os alemães aceitaram a doutrina da superioridade da raça ariana. A maioria dos brancos renunciou voluntariamente aos seus próprios direitos a um estado policial com o propósito de dominar os africanos dentro e fora da África do Sul. Ao mesmo tempo, a África do Sul continua a ser um estado capitalista. Suas políticas fascistas são resultado do medo da mudança, então eles estão preparados para preservar o capitalismo o desde que preserve a supremacia branca. (29)

O fascismo é compatível com o capitalismo em Portugal, Grécia e África do Sul, porque o fascismo é apenas uma versão mais reacionária do capitalismo. Sem dúvida, a classe média liberal não gosta do fascismo porque ameaça privilégios e direitos pelos quais lutaram desde século XVIII, mas a verdadeira classe proprietária de capital o prefere ao socialismo porque não ameaça a propriedade capitalista. E eles comparam o comunismo ao fascismo porque eles gostariam que parte da amargura contra o fascismo fosse transferida para o estado soviético, China e quaisquer outros que busquem construir o socialismo.

O socialismo é baseado na igualdade, não na dominação. Os socialistas podem obviamente não atender as expectativas, como na União Soviética sob Stálin, mas isso não aproxima dos fascistas belicistas. A comparação entre Hitler e Stálin é um grosseiro dispositivo de propaganda. A comparação também mostra o extremo do subjetivismo, que se concentra no governante individual e não na estrutura da sociedade como um todo. Nesse sentido, já chamamos a atenção para o trabalho de Francis Randall. Tendo decidido que tudo o que foi feito na União Soviética de 1925 a 1953 foi uma expressão de vontade de Stálin, Randall fica preocupado com Stálin como pessoa e passa a psicanalisá-lo para entender por que ele foi um dos piores homens da história. Ele se concentra em fatos como Stálin ter sido envolto em panos, sua baixa estatura, seu pai camponês bêbado e a probabilidade de Stálin ter testemunhado as relações sexuais de seus pais. (30)

Um governante em última análise é tão bom ou tão ruim quanto a sociedade que ele representa. Dois exemplos contemporâneos ilustrarão isso. Quando o primeiro-ministro sul-africano Hendrik F. Verwoerd foi assassinado, John Voerster tomou seu lugar. (31) É uma completa perda de tempo tentar determinar como a vida pessoal de Verwoerd variou daquela de Voerster. Os dois seguem essencialmente a mesma política porque a estrutura da sociedade e do Estado não mudou com o assassinato de Verwoerd. Ambos devem ser avaliados, não pela teoria freudiana, mas por uma análise da sociedade viciosa em que viviam e governavam. Nos Estados Unidos, John F. Kennedy é considerado um dos melhores presidentes dos tempos modernos. Ainda assim foi ele quem escalou a guerra no Vietnã e lançou a invasão de Cuba enquanto mentia descaradamente para o povo americano. Ele não era menos um porta-voz do imperialismo dos EUA do que Lyndon B. Johnson ou Richard Nixon. Eles são todos os principais representantes de um sistema social que é o mais explorador que o mundo já conheceu. É bastante irrelevante discutir se eles já foram embrulhados em panos, se eles têm complexo de inferioridade, ou se seus pais abusaram de suas mães.

De uma perspectiva socialista, muito pode ser dito por meio de críticas adversas ao processo político de construção do socialismo na União Soviética. Mas no final, o equilíbrio está em favor dos elementos positivos. Houve um alargamento da liberdade na União Soviética depois de 1917 porque a verdadeira liberdade é uma função da igualdade cultural e econômica. Por causa de desigualdade econômica e cultural, a sociedade capitalista está repleta de liberdades fictícias. Um homem pobre é tão livre para comprar um helicóptero quanto um playboy capitalista. Um trabalhador pode ter liberdade de expressão, mas os meios de expressão são propriedade do capitalista. Um camponês analfabeto é livre para desfrutar da literatura escrita, e assim por diante. A sociedade soviética percorreu um longo caminho em direção à igualdade econômica garantida pela educação. Desta forma, mostrou-se superior ao capitalismo e fascismo, que têm como premissa a desigualdade.

E, no entanto, devemos ser céticos em relação às alegações soviéticas de ter alcançado plenamente o socialismo em 1937-1938 e que agora estão construindo o comunismo. Que eles possam definir uma data precisa é imediatamente suspeito porque na história uma época gradualmente se funde em outra. Afinal, o comunismo é o estágio mais alto do socialismo; aquele em que bens e serviços são produzidos em tal superabundância que podem ser dados a todos os cidadãos de acordo com a necessidade. É também a época em que o Estado definha no sentido de que uma máquina de Estado de opressão de classe deixa de existir. Nenhuma dessas condições prevalece na União Soviética nem é provável que ocorra no futuro imediato.

Assim, enquanto a União Soviética resolveu o problema da pobreza e está se movendo para aumentar o nível geral de consumo, está longe de ser superabundância. Se fosse assim, por que os soviéticos estão fazendo comércio com países subdesenvolvidos e exigindo sua libra de carne? Por que eles convidariam a Ford e a Fiat para construir carros e caminhões na URSS se seus próprios níveis de produção estavam se aproximando do estágio de abundância comunista? É perfeitamente compreensível que o Estado soviético não esteja definhando, porque o socialismo ainda não se tornou um fenômeno internacional. Apanhado em contradições com as potências capitalistas, a União Soviética tem que fortalecer seu aparato estatal. E ao fazê-lo, está comportando-se tanto como um estado capitalista que está exigindo da China áreas de terra antes detidas pelo ex-Estado czarista e está invadindo outros países, como na Tchecoslováquia.

Grande parte da farsa da historiografia soviética não é realmente necessária. Basta dizer que construíram o socialismo. Críticos trotskistas como Deutscher e até mesmo os capitalistas estão dispostos a admitir este ponto. Tendo aceitado esta grande conquista, no entanto, os socialistas têm que se preocupar com os fatores que limitam o desenvolvimento e com a eliminação de pontos fracos no sistema. Fazer reivindicações injustificáveis ​​de grandeza não resolverá esses problemas e não fará avançar a luta em direção ao comunismo.

Examinamos as interpretações burguesas da Revolução Russa e não encontramos divergências fundamentais entre elas. Nosso estudo de várias interpretações marxistas revelou nenhuma unidade real. De fato, suas posições variam amplamente, desde Kautsky e os Mencheviques que ecoam a erudição burguesa, os soviéticos, os trotskistas, para aqueles marxistas que se esqueceram de ser radicais (sociais-democratas) e aqueles que se esqueceram de ser humanistas (Stálinistas).

Mas onde estamos? Não podemos dizer que estamos no meio, neutros ou mais objetivos. Temos nossa própria posição histórica e devemos definir nossa posição em relação à nossa própria história. Por “nós” quero dizer os colonizados e anteriormente colonizados, negros africanos, trabalhadores e camponeses ou intelectuais com raízes nessas classes. Por sermos coloniais dentro do capitalismo, nos ensinaram que as variedades do pensamento burguês englobavam a verdade (assim como as pessoas nos países capitalistas desenvolvidos). A cosmovisão materialista é excluída ou mencionada como uma entre muitas visões alternativas. O resultado é uma visão marxista através de uma lente burguesa distorcida. A nossa claramente não poderia ser a da burguesia. E a dos soviéticos? Eles têm seus interesses nacionais e internacionais, e sua historiografia reflete isso. Embora compartilhemos muito com os soviéticos por causa da semelhança do nosso presente e passado com seu passado no período em estudo, os atuais desenvolvimentos políticos e econômicos mencionados acima complicam nossa posição em relação aos soviéticos.

Essencialmente, o que precisamos fazer é definir nossa própria posição primeiro e ver onde ela coincide. Assumindo uma visão que brota de alguma variante socialista não necessariamente marxista, mas anticapitalista, assumindo uma visão que seja pelo menos humanista radical – então a Revolução Soviética de 1917 e a posterior construção do Socialismo surge como um marco histórico muito positivo, experiência da qual nós mesmos podemos derivar muito à medida que nos movemos para enfrentar problemas semelhantes.

Notas:

(1) Ver Karl Marx, “Preface,” A Contribution to the Critique of Political Economy (New York: International Publishers, 1970), 21.

(2) “Engels to J. Bloch, September 21, 22, 1890,” in Karl Marx and Friedrich Engels: Selected Works, vol. 2 (Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1962), 488. 

(3) “Engels to H. Starkenburg, January 25, 1894,” Ibid., 503.

(4) Seguindo esta passagem, Rodney acrescentou entre parênteses “Abramovitch, Mehnert, Trevor-Roper, Plamenatz, Schapiro.” As citações específicas às quais ele está se referindo são provavelmente essas: Raphael Abramovitch, The Soviet Revolution, 1917–1939 (New York: International Universities Press, 1962); Klaus Mehnert, Stálin versus Marx (London: George Allen & Unwin, 1952); H. R. Trevor-Roper, “Karl Marx and the Study of History,” in Trevor-Roper, Men and Events: Historical Essays (New York: Harper & Brothers, 1957), 285–98; John Plamenatz, From Marx to Stálin (London: Batchworth Press, 1953); Plamenatz, German Marxism and Russian Communism (London: Longmans, 1954); Leonard Schapiro, The Origins of Communist Autocracy: Opposition in the Soviet State, 1922–1938 (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1955).

(5). Mao Tse Tung, “On Contradiction,” (August 1937), The Selected Works of Mao Tse Tung, vol. I (Peking: Foreign Languages Press, 1967), 336.

(6). V. I. Lenin, “Our Foreign and Domestic Position and Party Tasks Speech Delivered To the Moscow Gubernia Conference Of The R.C.P.(B.), November 21, 1920,” Lenin Collected Works, vol. 31 (Moscow: Progress Publishers, 1965), 419. Rodney provavelmente encontrou a citação em Adam Ulam, The Bolsheviks: The Intellectual and Political History of the Triumph of Communism in Russia (New York: Macmillan, 1965), 481.

(7). Ver John Plamenatz, German Marxism and Russian Communism, especialmente o capítulo 10. Rodney, ao que parece, estava discordando do argumento de Plamenatz de que o marxismo era o produto das tradições revolucionárias da Europa Ocidental do século XVIII e, apesar de todas as suas limitações, emergia em um ambiente de liberdade, liberdades civis e democracia. Marx era essencialmente um democrata. Mas uma vez que Lênin e os bolcheviques se apoderaram do marxismo, eles o distorceram para seus próprios meios pragmáticos, lançando as bases para uma ditadura baseada na repressão violenta do Estado já em 1902. A Rússia simplesmente não estava preparada para a revolução, material ou ideologicamente. Como Plamenatz colocou, “o bolchevismo é o marxismo distorcido de uma sociedade atrasada exposta ao impacto do Ocidente”. (318)

(8). Leon Trotsky, The Revolution Betrayed: What is the Soviet Union and Where is it Going, trans. Max Eastman (London: Faber & Faber, Ltd., 1937); Isaac Deutscher, The Prophet: The Life of Leon Trotsky (London and New York: Verso, 2015); Isaac Deutscher, Stálin: A Political Biography (New York: Vintage, 1960, orig. 1949).

(9). Muitas vezes traduzido como “Proletários do mundo, uni-vos” ou, mais frequentemente, “Trabalhadores do mundo, uni-vos”. Existem literalmente centenas de edições do Manifesto Comunista (1848).

(10). Trotsky, The Revolution Betrayed, 91–2, 275–84.

(11). Surpreendentemente, Rodney ignora as consequências internacionais da teoria de Stálin de “socialismo em um país”. Embora, em teoria, a direção de “revoluções sociais genuínas” possa ser governada por condições locais, a Internacional Comunista impôs uma disciplina aos partidos comunistas em todo o mundo voltada para a defesa dos interesses soviéticos – muitas vezes às custas de seus próprios movimentos revolucionários. O exemplo que Trotsky dá é de Stálin e Bukharin orientando o Partido Comunista Chinês a manter uma aliança com Chiang Kai-shek e os nacionalistas, que acabaram usando os comunistas para organizar os trabalhadores para travar batalhas em nome dos nacionalistas, tanto para tomar essas cidades como Xangai e para combater os senhores da guerra no Norte. Então, em 1927, Chiang voltou-se contra os comunistas, prendendo-os em massa e massacrando até 200.000. Apesar do massacre, a Comintern ainda forçou o Partido Comunista Chinês a manter uma frente unida com os nacionalistas. A frente única entrou em colapso apenas quando Chiang começou a rejeitar a assistência soviética e se voltar para os interesses comerciais chineses. A essa altura, a Comintern finalmente mudou de rumo, mas era tarde demais. Há outros exemplos que podemos apontar: o “terceiro período” em que os comunistas foram orientados a atacar a esquerda dentro dos partidos social-democratas e dos sindicatos; a frente popular, quando se pediu aos comunistas que construíssem alianças com os liberais para combater o fascismo e defender a URSS às custas da revolução proletária; o período do Pacto Nazi-Soviético (1939-1941), quando os comunistas foram instruídos a apoiar um pacto de não agressão que abriu caminho para a invasão nazista da Polônia e simultaneamente permitiu que a Rússia invadisse a Finlândia. Pode-se argumentar que os partidos locais poderiam simplesmente optar por operar independentemente dos soviéticos, mas há muitos exemplos de líderes partidários “locais” tendo que enfrentar ação disciplinar, expulsão ou pior, por “desviar-se” da linha do partido. Ver Elliot Liu, Maoism and the Chinese Revolution: A Critical Introduction (Oakland, CA: PM Press, 2016); C. L. R. James, World Revolution, 1917–1936: The Rise and Fall of the Communist International (Durham, NC: Duke University Press, 2017, orig. 1937); E. H. Carr, The Comintern and the Spanish Civil War (New York: Pantheon, 1984).

(12). Mais uma vez, o tratamento de Rodney a Trotsky e o apoio da Oposição de Esquerda ao que foi chamado de “superindustrialização” é um pouco falso. Primeiro, a Oposição de Esquerda argumentou que o estado socialista não poderia avançar enquanto fosse forçado a trocar produtos agrícolas por produtos manufaturados importados. Tal política teria apenas enriquecido o kulak em vez de conectar as indústrias socialistas com a economia camponesa. Eles propuseram acelerar a industrialização em parte tributando os kulaks. Stálin e Bukharin rejeitaram veementemente a “superindustrialização”, bem como sua proposta de um Plano Quinquenal. Além disso, a Oposição de Esquerda foi rotulada de trotskista e finalmente condenada à repressão estatal ou ao exílio. Alguns anos depois, Stálin adotou o Plano Quinquenal como modelo de desenvolvimento, bem como uma versão de superindustrialização como se fosse sua. Mas Trotsky sustenta que o que aconteceu em nome da aceleração do ritmo da industrialização ocorreu “sob impulsos de fora, com um esmagamento grosseiro de todos os cálculos e um aumento extraordinário das despesas gerais”. Trotsky, The Revolution Betrayed, 33–6; Martin Abern, “Vindicating the Trotsky Platform,” The Militant 2, no. 1 (January 1, 1929), 6; Ruth Fischer, Stálin and German Communism: A Study in the Origins of the State Party (New Brunswick and London: Transaction Publishers, 1948), 567; Richard B. Day, Leon Trotsky and the Politics of Economic Isolation (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1973), 165.

(13). Trotsky, The Revolution Betrayed, 105.

(14). Ibid., 90–1.

(15). Deutscher, Stálin: A Political Biography (New York: Vintage, 1960, orig. 1949), 256–60; ele escreve bastante sobre burocratização e suas consequências em The Prophet Armed, especialmente os capítulos 4 e 5 do volume 2.

(16). Trotsky, The Revolution Betrayed, 94.

(17). Leonard Schapiro, The Government and Politics of the Soviet Union (London: Hutchinson University Library, 1967), 50.

(18). Ibid., 44–55.

(19). Seguida dessa sentença, Rodney escreveu entre parênteses: “Koestler e outros sobre os intelectuais – Carr, Labin sobre a polícia secreta – anti-religião”. Ele provavelmente está se referindo a Arthur Koestler, Darkness at Noon (Nova York: Macmillan, 1941); Victor Kravchenko, I Chose Freedom: The Personal and Political Life of a Soviet Official (Nova York: Charles ner’s Sons, 1946); Richard Krebs [Jan Valtin], Out of the Night (New York: Alliance Book Corporation, 1941); Suzanne Labin, Stálin’s Russia (London: Victor Gollancz, 1949); E. H. Carr, “The Origin and Status of the Cheka,” Soviet Studies 10, no. 1 (July 1958), 1–11. Vale a pena notar que as comparações entre Hitler e Stálin e a Alemanha nazista e a União Soviética continuam sendo um assunto popular para historiadores e jornalistas na era pós-Guerra Fria, embora alguns dos trabalhos comparativos recentes minimizem as semelhanças. Ver Michael Geyer and Sheila Fitzpatrick, eds., Beyond Totalitarianism: Stálinism and Nazism Compared (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2008); Richard Overy, The Dictators: Hitler’s Germany, Stálin’s Russia (New York: W. W. Norton, 2004); Allen Bullock, Hitler and Stálin: Parallel Lives (New York: Vintage, 1993); Ian Kershaw and Moshe Lewin, eds., Stálinism and Nazism: Dictatorships in Comparison (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1997).

(20). Schapiro, The Government and Politics of the Soviet Union, 51.

(21). Academia de Ciências do Instituto de História da URSS, A Short History of the USSR, vol. 2 (Moscow: Progress Publishers, 1965), 289.

(22). Ibid., 180.

(23). Ibid., 178.

(24). Escrito em 1970–71, Rodney estava certo. Após o colapso da União Soviética e a abertura dos arquivos, testemunhamos uma montanha de novos estudos reavaliando a revolução e o período Stálinista. E, no entanto, os tipos de restrições ideológicas e políticas discutidas por Rodney não desapareceram completamente; tomaram novas formas. Dentro da própria Rússia, o estado de Vladimir Putin procurou influenciar diretamente a escrita da história, pressionando tanto por uma avaliação mais crítica do Stálinismo como parte de uma estratégia global para reengajar o Ocidente, quanto uma reivindicação das conquistas soviéticas provocadas pelo ressurgimento do nacionalismo russo. Nos Estados Unidos e no mundo neoliberal mais amplo do capital global, prevalecem as narrativas do fracasso abjeto do experimento socialista. Ver Thomas Sherlock, “Russian politics and the Soviet past: Reassessing Stálin and Stálinism under Vladimir Putin,” Communist and Post-Communist Studies 49, no. 1 (March 2016), 45–59, e seu livro, Historical Narratives in the Soviet Union and Post-Soviet Russia: Destroying the Settled Past, Creating an Uncertain Future (New York: Palgrave, 2007); Sheila Fitzpatrick, ed., Stálinism: New Directions (New York: Routledge, 1999); Ronald Grigor Suny, Red Flag Unfurled: Historians, the Russian Revolution, e the Soviet Experience (New York: Verso, 2017). Por outro lado, enquanto o apelo de Rodney por uma genuína e “profunda análise sócio-histórica” do Stálinismo ainda nos escapa, também vimos o desenvolvimento de novos estudos que olham para o Stálinismo “de baixo”, na prática da autoridade no cotidiano, as expressões da arte e da cultura, nas relações sociais e familiares, entre outras coisas. Este trabalho confirma parcialmente a tese central de Rodney de que as “distorções” do Stálinismo não recaem sobre os ombros de um homem, mas sobre o povo, o partido e a ampla estrutura da sociedade.  Ver, por exemplo, Sheila Fitzpatrick, Everyday Stálinism: Ordinary Life in Extraordinary Times – Soviet Life in the 1930s (New York: Oxford University Press, 2000, 2nd ed.); J. Arch Getty, Practicing Stálinism: Bolsheviks, Boyars, and the Persistence of Tradition (New Haven, CT: Yale University Press, 2013); Boris Groys, The Total Art of Stálinism: Avant-Garde, Aesthetic Dictatorship, and Beyond, trans. Charles Rougle (New York: Verso, 2011); Sergei Prozorov, The Biopolitics of Stálinism: Ideology and Life in Soviet Socialism (Edinburgh: Edinburgh University Press, 2016).

(25). Ver V. I. Lenin, “‘Last Testament’ Letters to the Congress,” (December 1922-January 1923), Lenin Collected Works, vol. 36, 593–611, disponível em marxists.org; Lenin, “Better Fewer, But Better,” (March 2, 1923), Lenin Collected Works, vol. 33, 487–502, disponível em marxists.org.

(26). Lavrentiy Beria, um georgiano como Stálin, foi nomeado chefe do Comissariado do Povo para Assuntos Internos (NKVD), que se tornou essencialmente a força policial secreta de Stálin. Ele foi responsável por realizar expurgos e dirigir as táticas. Após a morte de Stálin, ele tentou assumir o poder, mas foi assassinado em 1953 por uma facção que apoiava Khrushchev. O tratamento mais completo de Beria é Amy Knight, Beria: Stálin’s First Lieutenant (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1993).

(27). Hoje, muitos estudiosos da esquerda identificam a contrarrevolução como a supressão Stálinista do poder dos trabalhadores e do controle e democracia dos trabalhadores. Claro, isso ressoa com o movimento de Trotsky por uma Quarta Internacional, mas a maioria desses novos historiadores não são acólitos de Trotsky. Talvez a melhor descrição seja Kevin Murphy, Revolution and Counterrevolution: Class Struggle in a Moscow Metal Factory (New York and Oxford: Berghahn Books, 2005). Sobre as maneiras pelas quais a defesa de Rodney da polícia estatal como baluarte contra a contrarrevolução rompe com C. L. R. James, veja a introdução deste volume.

(28). Rodney elabora ainda mais sua análise do fascismo em Como a Europa subdesenvolveu a África, 196.

(29). Há uma vasta literatura examinando as raízes fascistas do apartheid, comparando o apartheid ao estado fascista e/ou situando o fascismo e o apartheid dentro de uma trajetória maior do capitalismo racial. Alguns desses trabalhos foram obviamente produzidos durante a vida de Rodney. Ver, por exemplo, Pierre L. van den Berghe, “Apartheid, Fascism and the Golden Age,” Cahiers d’Études Africaines 2, no. 8 (1962), 598– 608; Brian Bunting, The Rise of the South African Reich (Harmondsworth, UK: Penguin, 1964); Harold Wolpe, Race, Class, and the Apartheid State (Trenton, NJ: Africa World Press, 1990); Dan O’Meara, Volkskapitalisme: Class, Capital and Ideology in the Development of Afrikaner Nationalism, 1934–1948 (Johannesburg: Ravan Press, 1983); H. Simson, The Social Origins of Afrikaner Fascism and Its Apartheid Policy (Stockholm: Almquist and Wiksell International, 1980); Patrick J. Furlong, Between Crown and Swastika: The Impact of the Radical Right on the Afrikaner Nationalist Movement in the Fascist Era (Middletown, CT: Wesleyan University Press, 1991).

(30). Francis B. Randall, Stálin’s Russia: An Historical Reconsideration (New York: The Free Press, 1965).

(31). Hendrik F. Verwoerd foi primeiro-ministro da África do Sul de 1958 a 1966, líder do Partido Nacional Africâner e um dos principais arquitetos do estado do apartheid. Balthazar Johannes (John) Voerster também foi um defensor do Partido Nacional que apoiou os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Ele serviu como ministro da justiça durante o julgamento de Rivonia, que resultou na sentença de prisão perpétua de Nelson Mandela por sabotagem, e primeiro-ministro de 1966 a 1978. Ele acabou sendo forçado a renunciar quando foi revelado que havia roubado secretamente o orçamento militar para financiar uma campanha secreta de propaganda pró-apartheid. Voerster aceitou uma nomeação simbólica como presidente em 1978, mas foi forçado a renunciar em desgraça após oito meses. Sobre Verwoerd, ver sahistory.org.za/people/hendrik-frensch-verwoerd; Sobre Voerster, ver sahistory.org.za/people/balthazar-johannes-vorster

2 comentários em “Walter Rodney – A Crítica do Stalinismo

  1. Excelente e oportuno escrito de Walter Rodney. Uma crítica ao termo “stalinismo” e seu vazio reducionismo para explicar o processo revolucionário e seus desdobramentos, repletos de contradições internas. Rodney aponta as inconsistências de Trotsky em objetificar na figura de Stálin os problemas decorrentes dessas contradições internas, inerentes à história do povo russo e á estrutura da sociedade soviética constituída a partir da Revolução de Outubro. O balanço da experiência da URSS foi de fato positivo.

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